O habitus de interagir por meio do Facebook conquistou milhões de pessoas, procedentes de distintos rincões do globo terrestre. Popularmente, esse site chegou a ser considerado uma sociedade paralela ou um mundo paralelo constituído no âmbito virtual da web, no qual, mediante o acesso à internete, qualquer pessoa pode ter um perfil virtual; pode ser seu usuário; pode participar de grupos específicos e pode realizar distintas atividades por meio desse site da rede social.
No transcorrer do presente trabalho, evidenciamos que as peculiaridades da sociedade contemporânea manifestam-se também nesse campo. A organização social, a influência da economia de mercado na vida das pessoas, a constituição de distintos grupos e as idiossincrasias dos indivíduos expressam-se nesse site por meio de estratégias disponibilizadas por ele mesmo e de táticas agenciadas pelos utilizadores desse serviço de rede social. Constatamos, também, a existência de expressões genuínas por parte de usuários que utilizam essa rede não apenas para manter contato, para participar de atividades sociais, para interagir e oferecer serviços e produtos, mas também para manifestar o que pensam, o que sentem e o que desejam, servindo-se desse meio que permite a livre expressão para manifestar sentimentos, ideias, inquietudes e desejos. Com efeito, afirmamos que o Facebook pode ser considerado, simultaneamente, a reprodução de uma sociedade global conectada e uma via ou espaço aberto para essa livre expressão de qualquer indivíduo conectado, independentemente das fronteiras de tempo e de espaço. A conformação do grupo intercultural de adeptos desse site promove o intercâmbio e a difusão de referenciais socioculturais que transcendem as fronteiras geográficas e tornam-se acessíveis a pessoas oriundas de distintas localidades. Consequentemente, nesse contexto, divulgam-se gostos, preferências culturais, ideologias, doutrinas, ideais e filosofias de vida, as quais são transmitidas via interações entre usuários e tendem a influenciar, conjuntamente com a lógica de mercado, a forma com que os indivíduos elaboram seus perfis e interagem. No entanto, comprovamos que cada usuário pode realizar distintos tipos de uso, de acordo com seus interesses, demonstrando que não somente as funcionalidades do Facebook, somados à lógica de mercado, influenciam na sua utilização, mas que os usuários também possuem motivações específicas para utilizá-lo, e que o fazem com finalidades distintas, promovendo variações na maneira com que as pessoas se apresentam nesse âmbito.
Ao longo da investigação realizada, percebemos que os usuários atribuem sentidos de representação às narrativas, às postagens e às interações que se desenrolam no site. Em
diversos relatos, observamos que os participantes consideram que é possível saber quem é, o que faz, do que gosta, do que não gosta, por onde anda e com quem anda cada usuário. Com efeito, perfis, comentários, postagens e interações tendem a ser considerados representações das identidades dos usuários, tal como uma carta de apresentação, a qual pode ser bem ou mal interpretada em função da ausência da presença física, da prosódia, da possível interferência de outros contatos.
Nesse âmbito, existe receio e insegurança de que a exposição no site possa gerar situações não desejadas, explicitar a intimidade do usuário e até mesmo provocar conflitos entre os participantes. Por conseguinte, evidencia-se que o medo derivado da vida em sociedade tende a ser exacerbado no Facebook devido à elevada exposição e à participação de milhões de pessoas conectadas. Outro aspecto que comprovamos, e que também gera medo entre os usuários, é o fato de que o Facebook proporciona o que poderíamos chamar de representações identitárias no chamado mundo virtual, as quais podem gerar a invalidação das referidas representações efetuadas fora do site. Consequentemente, constatamos que o medo incide conjuntamente com as motivações e as finalidades nas distintas modalidades de utilização do Facebook e torna-se um aspecto relevante na hora de utilizar os dispositivos e as ferramentas oferecidas por esse serviço.
Em todo esse contexto, o Processo de Negociação de Identidades se realiza por intermédio de representações, de identificações e de categorizações por parte dos usuários. Nesse sentido, as identidades representadas no site seguem o critério de como se deseja ser visto e incluem as identidades socialmente desejadas que são instituídas nas relações sociais e difundidas pelos diferentes meio de comunicação existentes. Todavia, os participantes da presente investigação relataram que selecionam, ocultam e até dissimulam os aspectos identitários que possam representá-los nesse ambiente de textos e de imagens. Segundo os entrevistados, o que os leva a proceder dessa maneira são seus interesses pessoais, o medo em relação à utilização do site e as finalidades pelas quais cada um usa o Facebook. Assim sendo, a elaboração do perfil, a escolha das opções de privacidade e as táticas agenciadas pelos utilizadores têm por objetivo contemplar interesses contrapostos nas negociações com os demais participantes e representar identidades que não comprometam, mas, sim, favoreçam aos usuários.
Postagem de fotos, de vídeos, de comentários, de poemas, de autodescrições e de citações podem acarretar sentidos para que os usuários identifiquem e categorizem quem é o indivíduo por detrás do usuário. Frequentemente, o que é exposto nesse site é visto pelos demais com conotações derivadas de como está, de como é e, por conseguinte, de quem é o
indivíduo que realizou uma determinada postagem. Diante disso, cada usuário pode selecionar o que vai expor no Facebook, sabendo que as repercussões de suas atividades no site podem ser positivas ou negativas em suas relações profissionais, interpessoais e afetivas. Com efeito, a negociação de identidades visa à contemplação dos interesses e das finalidades que compõem a escolha e a utilização do site e, concomitantemente, tende a gerar sentidos para os diferentes públicos para os quais se representa uma determinada identidade.
Os dispositivos “curtir” e “compartilhar” permitem que cada usuário consinta, aprove, repasse e publique postagens. Considerando que as postagens constituem uma maneira de expressar sentimentos, pensamentos, ideias, emoções e desejos, inferimos que há uma espécie de comercialização destes na rede, a qual promove identificações recíprocas entre os adeptos do site. O compartilhamento ou o fato de curtir uma determinada postagem traz consigo a conotação de que o usuário está de acordo ou simplesmente gostou do que foi publicado. Nesse sentido, os usuários entrevistados corroboraram suas suposições de que existem não apenas uma ligação íntima com a outra pessoa que realizou a postagem e uma identificação com o que foi exposto, mas também de que, por “curtir” ou por “compartilhar” uma determinada postagem, o usuário passe a fazer parte de um determinado grupo (de pessoas ou de formas de pensar) e, por conseguinte, seja de uma determinada maneira. Assim, ratificamos que esse fenômeno gera a categorização de grupos e de pessoas, oferecendo, para o público ou plateia, sentidos de identidade e, em muitos casos, um sentimento de identidade para o indivíduo que utiliza o Facebook.
As interações nesse site envolvem a exposição ainda que parcial da vida íntima dos usuários. Embora existam opções de privacidade e de táticas para que determinados aspectos da chamada vida pessoal do usuário não transpareçam em suas transações, o fato de existirem pessoas conectadas por detrás dos ordenadores e dos perfis sugere a possibilidade de que, nas redes de contato de um usuário, haja pessoas com as quais ele possui relações distintas. Sendo assim, não apenas o que os contatos cadastrados postam em relação a um usuário pode revelar aspectos de suas identidades omitidos, mas o fato de que um determinado contato esteja na lista de um indivíduo pode gerar sentidos e categorizações para os demais que têm acesso e podem visualizar essa suposta vinculação. Além disso, o que é postado pode ser interpretado de distintas formas pelos usuários que têm acesso às postagens. Assim, em nossa análise, comprovamos que as representações por meio de imagens e de textos podem gerar mal- entendidos, categorizações, emoções e sentimentos subsequentes.
Portanto, concluímos que o Processo de Negociação de Identidades no Facebook desenvolve-se em um meio de elevada exposição, na qual existem subjetividades conectadas e
identidades representadas por textos e por imagens. Em que pesem os interesses e as finalidades para a utilização desse serviço, constatamos que, devido ao medo oriundo da vida em sociedade e à possibilidade de causar sentimentos não desejados por parte dos demais usuários cadastrados, os entrevistados relataram que trabalham suas emoções para que não ocorram situações indesejadas. Ou seja, o usuário pode omitir, representar e dissimular sentimentos e emoções com o intuito de que prevaleça uma determinada representação em detrimento do verdadeiro sentimento ocultado ou dissimulado. Neste caso, ratificamos que os modelos de identidade almejados, e socialmente instituídos, tendem a prevalecer nas negociações, mas que as peculiaridades de cada indivíduo podem revelar-se (ainda que de forma dissimulada) em suas transações.
As relações interpessoais são permeadas pelo afeto. Nas negociações cotidianas, sentimos e nos emocionamos com acontecimentos, fatos e pessoas. A diferença no caso das interações mediadas pelo Facebook é que podemos ocultar ou dissimular o que sentimos por não estarmos em presença física imediata. Não obstante essa suposta proteção virtual, os participantes da presente pesquisa relatam que é possível identificar quando há dissimulação ou ocultação. Por exemplo, quando há demora em responder a um comentário, falta de resposta e até mesmo pelos textos e pelas imagens postados. Sendo assim, o Processo de Negociação de Identidades torna-se ainda mais intrigante e mais enigmático se pensarmos na correlação entre o que ocorre no Facebook e o que ocorre no chamado mundo real.
De fato, entendemos que a possibilidade de confirmação, de invalidação ou de retificação de uma determinada representação pode ser irrelevante para alguns, porém, acreditamos que, no desenrolar do processo de negociação, é possível engendrar significados e sentidos por meio de identificações e de categorizações recíprocas entre os participantes, o que pode acarretar não apenas sentimentos e emoções ulteriores, mas também um possível sentimento de identidade. Considerando que as repercussões desse processo na subjetividade dos indivíduos podem ocasionar transformações nas identidades, reiteramos que a noção de construção de identidade parece-nos demasiada determinista e que o “quem sou” de um indivíduo não se reduz a uma atribuição social, a um determinado ciclo de vida, nem tampouco a uma identidade única e coesa que tende a perpetuar-se ao longo da existência.
As identidades, a nosso ver, são conjuntos negociáveis que adquirem ou não sentidos para um indivíduo na medida em que o contato com a alteridade, com os referenciais socioculturais e consigo mesmo gera transformações na forma de ver e de sentir a si mesmo, o mundo e os demais. Acreditamos que esse processo se desenvolve ao longo da vida de maneira peculiar em cada indivíduo e que o Facebook possibilita a exposição e o contato com
alteridades que se conectam e trocam vivências subjetivas. Com efeito, afirmamos que, quanto mais exposição e contatos houver, mais revisão de pensamentos e de sentimentos próprios e alheios ocorrerá. Portanto, a negociação tende a expandir-se e a alcançar dimensões ainda pouco investigadas pelas ciências.
No contexto atual, com o desenvolvimento tecnológico no mundo contemporâneo, a vida pessoal está cada vez mais exposta. Temos um enorme acervo de conhecimento e de informação disponível na internete e, além da possibilidade de acesso a diferentes referencias socioculturais, podemos gerenciar contatos, transações e vínculos a distância. Desta forma, a subjetividade do homem contemporâneo alcançou um status quo que nos conduz a questionar se isso é positivo ou negativo. Parece-nos importante esse questionamento, entretanto, o que realmente nos motiva é saber como esses lados são vivenciados por nós, seres humanos, e em que medida repercutem em nossas vidas.
Concluímos que, diante da diversidade, da insegurança e da desigualdade existentes na contemporaneidade, o Facebook cumpre uma função relevante em nossas vidas: desenvolver o Processo de Negociação de Identidades. Isto é, além de propiciar atividades sociais e difusão de informação e de conhecimento, esse site cria uma ancoragem relativamente estável para que os indivíduos experimentem e troquem vivências, constituindo redes que armazenam contatos, histórias de vida e, em muitos casos, intrigas. Assim, a negociação que se estabelece nesse recinto pode gerar, ou não, significados e sentidos subjetivos para os usuários; de fato, pode ampliar o horizonte subjetivo dos que realizam as mais variadas atividades por meio deste global locus.
O Zeitgeist34 sugere que as identidades têm passado por transformações, e alguns estudiosos optam por considerar que esse fenômeno pode acarretar a superficialidade nas relações interpessoais e até a perda do sentido da vida. Não concordamos com essas hipóteses e preferimos analisar as transformações como processos que requerem a revisão de nossos pressupostos e o desenvolvimento de investigações que visem a explorar, de maneira inter e transdisciplinar, o devir da sociedade na contemporaneidade. As identidades podem ser múltiplas, fragmentadas, fluídas ou instáveis, mas a negociação diária, dentro e fora do Facebook, pode gerar sentidos para as identidades de um indivíduo, tornando-as suscetíveis de transformações em mais um plano de experimentação, de revisão e de transformação.
34 Termo alemão cuja tradução significa espírito da época, espírito do tempo ou sinal dos tempos. O Zeitgeist significa, em suma, o conjunto do clima intelectual e cultural do mundo, numa certa época, ou as características genéricas de um determinado período de tempo. Disponível em: <
Portanto, o Processo de Negociação de Identidades no Facebook não é um modo de subjetivação simplista ou inócuo, nem tampouco devastador, que aniquilará as relações humanas, como poderiam acreditar os mais pessimistas. Antes, é um processo, ampliado exponencialmente pelo aparato tecnológico, de vivências subjetivas, com todas as suas tentativas, fracassos e êxitos de encontro com o real; de tentativas, de fracassos e de êxitos que vivemos também no chamado mundo real.
Diante dos resultados obtidos na presente investigação, apontamos como desafio para futuras pesquisas investigar se o Processo de Negociação de Identidades em sites como o Facebook pode criar novas facetas das identidades como, por exemplo, a identidade global ou a identidade virtual. Pode ser que surja uma nova faceta identitária, hegemônica ou com características heterogêneas e interculturais, e que se constitua como mais um referencial para que as pessoas busquem saber quem são elas e quem são os demais. Outro possível aspecto para investigações futuras são as prováveis repercussões do Processo de Negociação de Identidades nos sites de redes sociais, como o Facebook, e fora deles, para o sujeito contemporâneo. Quando nos referimos a sujeito, fazemos alusão ao sujeito do inconsciente, ao qual a Psicanálise tem se dedicado e tem revelado suas principais características. No entanto, acreditamos que ainda não foi possível desvendar como as identidades imersas na trama social podem repercutir na configuração de modos de ser, de sentir e de conceber-se a si mesmo. Em síntese, nossa investigação evidenciou que o atual fenômeno das redes sociais e suas implicações nos fenômenos identitários ainda requerem mais investigações, em um contexto em que a condição de possibilidade de expansão do conhecimento ainda não se esgotou, ao menos, para nós.
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