Outro fator relevante de que os entrevistados manifestaram ter medo é a possibilidade de que seus dados e informações pessoais possam ser utilizados por terceiros em transações ilícitas ou para cometer atos de violência (sequestros, roubos), como opinam Carla e Andressa, respectivamente:
Eu te falo isso porque o que nós vemos no noticiário, tanto da televisão quanto dos jornais, nos meios de comunicação em geral, é que o trabalho dos detetives hoje é muito fácil pelas redes sociais (informação verbal).
Acho que esse negócio de colocar o endereço, o local de trabalho e aonde você vai pode ser muito perigoso. Primeiro porque, quando alguém quer saber da sua vida, é só entrar lá. Segundo porque tem muita gente má no mundo, pra acontecer alguma coisa é rapidinho [...] usarem os seus dados em compras e também pra sequestro relâmpago, roubos, etc. (informação verbal).
A informação contida nesses relatos explicita o medo dos participantes em relação a possíveis atos de violência e de invasão de privacidade. Carla menciona a influência da mídia na formação da opinião dela acerca do medo da utilização das redes. Sobre a influência da mídia, Nicolaci-da-Costa (1998, 2002a, 2002b, 2003) pondera que os meios de comunicação social têm a função de guiar-nos na exploração das novidades e mostrar-nos o uso que podemos fazer delas. Entretanto, como salienta a autora, o papel da mídia, nacional e internacional, em relação às novas tecnologias tem provocado um medo exacerbado a respeito do que poderíamos chamar aqui de problemas inerentes à vida em sociedade (invasões de privacidade, sequestros, roubos, pornografia, comportamentos patológicos, perseguições, prostituição de menores). Nesta perspectiva, deve-se ressaltar que esses problemas já existiam antes mesmo do advento da internete. Todavia, a rede mundial de computadores tende a expandi-los, não apenas por conter milhões de pessoas conectadas por detrás das telinhas, mas também por expandir a possibilidade de exposição e de transações entre indivíduos. Portanto, de acordo com a análise de Nicolaci-da-Costa (2003), por estarmos diante de uma novidade que suscita desconfianças e suposições, tendemos a pensar que estamos indefesos perante os novos perigos fomentados pela chamada realidade virtual.
Em nossa opinião, os perigos mencionados pelos entrevistados procedem e realmente podem ocorrer, apesar de existirem opções de privacidade e de segurança disponibilizadas pelo Facebook. Todavia, parece-nos que há exagero devido à magnitude dessa rede social e às características próprias das interações que nela se desenvolvem, as quais, como analisamos anteriormente, expõem a intimidade e geram medo. Não obstante essas características, percebemos que o Facebook, como ambiente virtual, não difere da realidade off-line do mundo real. Ou seja, os sites de redes sociais também contêm as mesmas vicissitudes e inseguranças da vida em sociedade. O que difere, no caso do Facebook, é a acentuada exposição (de dados pessoais e da vida íntima) que o site ocasiona para seus usuários e a repercussão que as interações e as postagens podem gerar devido a tal exposição.
Assim sendo, o medo abordado aqui como receio e insegurança dos usuários do Facebook devido à exposição de dados pessoais, da vida íntima, não pode ser desconsiderado. No entanto, parece-nos que esse medo pode ser minimizado (ainda que parcialmente) não apenas pelas opções de privacidade e de segurança que o site oferece, mas também pelas táticas que os próprios usuários utilizam para evitar possíveis problemas, como revela Talita:
Não tenho este medo, mesmo porque minha página não é aberta. E eu só adiciono amigos, pessoas que conheço. Então, não tenho porque ter estes medos. Bom, até
agora, estar em redes nunca me causou nenhum tipo de constrangimento ou algo ameaçador. É só um meio interativo (informação verbal).
Talita revela duas maneiras de se proteger de possíveis problemas causados pela utilização do Facebook: não deixar a página aberta (opção de privacidade) e apenas adicionar amigos conhecidos (tática praticada por ela). Nesse sentido, percebe-se que possíveis problemas podem ser evitados e a exposição no Facebook pode ser protegida de formas diversas, como também afirma Nicolaci-da-Costa (2003) em relação à comunicação em ambientes virtuais. Para a referida autora, a preocupação dos usuários dos ambientes virtuais é relativa à exposição da intimidade. Entre os participantes, tende-se a intuir que ficarão expostos por perderem-se, na rede, os anteparos existentes na vida real. Em contrapartida, ainda de acordo com a mesma autora, já existem diversas maneiras de autoproteção ou de preservação da intimidade no chamado mundo virtual, as quais, de certa forma, podem diminuir a ocorrência de possíveis problemas.
No caso do Facebook, além das maneiras de autoproteção ou de preservação da intimidade mencionadas anteriormente, podemos destacar as seguintes: a divisão em grupos que terão acesso a determinadas informações; a customização de um perfil sigiloso ou com o mínimo de informação possível; a interação realizada somente pelo uso de mensagens privadas e do chat disponível no site; a opção de retirar ou de apagar marcações, comentários e postagens; a elaboração de diferentes perfis para diferentes públicos (LIVINGSTONE, 2009). Essas formas de autoproteção e de preservação da intimidade podem gerar mais segurança em relação à utilização do Facebook, no entanto, não garantem que os usuários não possam passar por episódios de invasão de privacidade e de exposição da intimidade. Em síntese, está evidente que os receios e as inseguranças apresentam-se de forma exacerbada e precisam ser melhor compreendidos e explorados no âmbito da subjetividade dos adeptos do Facebook.
Ao longo do presente capítulo evidenciamos que o medo relativo à utilização do Facebook assemelha-se ao medo oriundo da vida em sociedade, principalmente na cultura contemporânea. Por conseguinte, esse tema nos remete à correlação entre as interações que se dão no site e na sociedade atual. Nesse sentido, a ubiquidade do Facebook é congruente com o cenário hodierno, no qual a cibercultura se alastra por todos os continentes do globo terrestre. De tal modo, a profecia da aldeia global (MCLUHAN; POWERS, 1990) parece haver-se cumprido e esse fenômeno trouxe, consigo, novos questionamentos para a sociedade e, especialmente, para o meio acadêmico no que diz respeito à relação privacidade-intimidade e ao medo na chamada sociedade em rede (CASTELLS, 1999a). Seguindo essa linha de
raciocínio e considerando as redes sociais virtuais como um produto da sociedade globalizada e interligada pela internete, prosseguiremos a análise do Processo de Negociação de Identidades mediado pelo Facebook com base na exploração do medo inserido no cenário contemporâneo.