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A correlação entre intimidade e privacidade é abordada por Giddens (1993) com base na concepção de que a intimidade é o polo oposto da privacidade por estar relacionada à exposição de sentimentos e de pensamentos próprios de cada pessoa, enquanto a privacidade se refere à privação dessa mesma exposição. Sob esta ótica, a privacidade implica numa relação interpessoal na qual a esfera íntima ou a chamada vida pessoal não é revelada.

Com esse entendimento, inferimos que o paradoxo entre privacidade e intimidade é inerente à utilização do Facebook devido: ao apreço que os utilizadores têm por expor dados verídicos (ZHAO; GRASMUCK; MARTIN, 2008); à possibilidade de expressar-se empregando os recursos e as ferramentas que o site oferece, os quais podem simultaneamente

gerar uma exposição comprometedora em que pese os usuários poderem utilizar opções de privacidade; às possíveis interferências alheias que podem revelar dados ocultos.

Nesse contexto, West, Lewis e Currie (2009) argumentam que os sites de redes sociais como o Facebook criaram uma noção ambígua da antiga dicotomia entre público e privado. Para os referidos autores, o advento desses sites gerou uma reestruturação nos domínios da vida privada, que passaram a ser expostos parcialmente e para distintas audiências de acordo com as opções de privacidade escolhidas pelos usuários. Em decorrência da correlação entre intimidade e privacidade no Facebook, assinalamos que há o medo de comprometer-se pelo o que é visto na rede. Isso pode ter-se ampliado pelo fato de que a internete expande a possibilidade de exposição da intimidade das pessoas por meio da publicação dela na rede, o que ocorre devido à liberação do polo de emissão de informação e de conhecimento (LEMOS, 2002). Consequentemente, a livre expressão em ambientes como os sites de redes sociais pode expor a vida íntima dos usuários, tendo como consequência o medo que causa receio e insegurança entre os adeptos em relação à utilização dessas redes. Para elucidar o medo relativo à utilização do Facebook, recorremos à Sociedade Americana de Psicologia (APA), que define medo da seguinte maneira:

Emoção intensa causada pela detecção de uma ameaça iminente, envolvendo uma reação imediata de alarme que mobiliza o organismo pondo em marcha uma série de alterações fisiológicas, o que inclui acelerar os batimentos cardíacos, redirecionar o fluxo sanguíneo da periferia para as entranhas, tensionar os músculos e mobilizar o organismo em geral para agir (VANDENBOS, 2010, p. 585).

Essa definição, a nosso ver, evoca a universalidade dessa emoção para a natureza humana. Santos L. (2003), por sua vez, afirma que é possível analisar o medo em suas diferentes dimensões com base nos sentidos que experiências emocionais adquirem para os indivíduos circunscritos em um determinado contexto social, os quais transmitem suas experiências por meio da fala. Portanto, na opinião da autora citada, o medo não é apenas a expressão isolada de algo externo que se manifesta no indivíduo, mas, sim, uma emoção que passou por um processo de internalização, transfigurando-se de acordo com o desenvolvimento da civilização.

Com base nesses referenciais sobre o medo, buscamos compreender quais são os sentidos que o medo pode haver adquirido para os usuários do Facebook. Assim, no que diz respeito ao tipo de insegurança e de receio que os usuários têm em relação ao site e à sua utilização, selecionamos os relatos de Roberto e de Mônica, respectivamente:

Mas, ao mesmo tempo, acontecem algumas limitações na vida sentimental, certa privação de liberdade. Ali é uma exposição muito grande e, às vezes, você quer trocar uma ideia com a pessoa e pode denotar alguma coisa que não seja, por exemplo, você conhece uma pessoa, faz uma amizade, mas já está em um relacionamento e, ao conversar com alguém, pode denotar que você está ‘xavecando’. [...] É a exposição intensa da vida. Às vezes, as pessoas perdem o sentido original do negócio, que é aproximar mais os amigos, e partem para a exposição da vida, fofocar e essas coisas (informação verbal).

[A desvantagem da exposição é] todos saberem da sua vida e o fato de você poder se colocar em uma situação desagradável, por exemplo, você visita a página de uma pessoa e vê algo que você não gosta e isso te traz uma tristeza. Então... a exposição e as situações nas quais você pode ficar à mercê (informação verbal) .

Na opinião de Roberto, destaca-se o que ele chama de privação de liberdade e de limitações na vida sentimental. Do mesmo modo, ele se refere a “denotar alguma coisa que não seja” e à “exposição intensa da vida”. Em seu relato, evidencia-se o paradoxo existente na utilização do site, o qual propicia a liberdade de expressão por um lado e, por outro lado, priva os usuários dessa liberdade em consequência da possibilidade de exposição intensa da vida e de mal-entendidos ocasionados pelo que os demais veem e entendem do que é exposto. Nesse sentido, a conotação do que é publicado e visto no Facebook fica à mercê do entendimento de quem o vê, como relatou Mônica. Portanto, ainda que existam opções de privacidade e os usuários utilizem os recursos e as ferramentas presentes no site para representar-se nesse ambiente, a interação com outros utilizadores pode trazer à luz aspectos que podem ser mal-entendidos por outrem. Ademais, como opina Mônica, isso pode acarretar emoções31 e sentimentos subsequentes à observação de determinadas interações e publicações, o que também gera medo entre os adeptos.

Outro aspecto relativo ao medo e que foi enfatizado pelos entrevistados é o receio de possíveis fofocas. Ao longo das entrevistas e da observação dos perfis, percebemos que os usuários comentam o que é visto no Facebook com os demais e tendem a disseminar informações disponibilizadas no site. Desta forma, nota-se como as interações e as postagens no Facebook geram fofocas e como os usuários procuram saber da vida alheia por meio do que está disponível no site, como argumenta Talita: “Às vezes, quando quero saber uma fofoquinha... a gente entra né? Tipo, por curiosidade e, às vezes, alguém comenta: ‘você viu fulano no Face?’ E, aí, você entra na página. Mas é muito raro” (informação verbal). Esta opinião demonstra que existe uma tendência entre os usuários de investigar a vida dos demais

31 Um exemplo de emoções ulteriores ocasionadas pela visualização de postagens e interações no Facebook foi detectado por Muise, Christofides e Desmarais (2009), os quais ressaltaram a incidência de ciúmes entre participantes que visualizam os perfis e as atividades de outros participantes no site.

por intermédio da rede social. Tal tendência ratifica-se por meio de outro comentário de Mônica sobre suas visitas a perfis alheios:

Não, dificilmente, só quando eu quero ‘dar uma vasculhadinha’ em alguma coisa que... por exemplo, a gente conheceu uma pessoa de outra cidade; daí, eu vou lá no Facebook saber quem é ela. Mas, ‘ficar de bobeira’ vasculhando, não. [Quando entro nos perfis vejo] informações, o que ela faz e o que ela gosta e fotos. Eu acho que são duas coisas que, quando você vê, são ótimas para traçar um perfil da pessoa. [Vejo] alguns [comentários], porque, na maioria das vezes, fica uma coisa muito vaga. Geralmente, estão falando de um dia que passou ou de alguma situação que você não presenciou, então, não tem porquê (informação verbal).

De acordo com o ponto de vista de Mônica, é possível “dar uma vasculhadinha” e, inclusive, traçar um perfil da pessoa pelo que é exposto no Facebook. Assim, destaca-se o sentido atribuído, por ela, às informações disponibilizadas na rede. Por outro lado, segundo ela, os comentários são vagos por estarem relacionados a situações que o observador pode não ter presenciado. Com efeito, concluímos que as informações (incluem-se autodescrições, interações e postagens) são associadas – por vezes, de forma errônea – a quem é o dono do perfil e estão sujeitas a interpretações e a entendimentos diversos provenientes dos demais usuários. Sendo assim, afirmamos que o fato de existirem subjetividades interconectadas por intermédio da rede pode ocasionar mal-entendidos em relação a quem é o usuário, à sua conduta e às suas formas de ser, o que acarreta um medo generalizado. Em outras palavras, cada observador percebe o que está disponível na rede à sua maneira, independentemente de ter participado ou não de uma interação ou de uma situação postada (em comentários e fotos), como corrobora, novamente, Mônica sobre o porquê de não gostar de se expor no Facebook:

Acho que pela exposição, fico muito exposta. Eu não gosto dessa exposição que traz, e todo o julgamento que essa exposição traz junto. Quando você escreve uma frase, não tem como você explicar, então, ela pode ser interpretada de milhares de formas diferentes e, geralmente, as pessoas sempre levam para o lado negativo, e até você explicar que não era isso e etc., aí todo mundo já comentou embaixo, todo mundo já falou gracinha com você. [Isso afeta] porque me incomoda, a exposição, as pessoas comentando, eu não curto isso (informação verbal).

Assim, no que concerne ao Processo de Negociação de Identidades, inferimos que os possíveis mal-entendidos podem invalidar a representação exposta no site e fora dele, o que pode gerar complicações e até conflitos entre os usuários. Essas complicações, como assinalamos anteriormente, podem estar relacionadas à atividade profissional do usuário e também às relações interpessoais.