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6.2.1 Open data et open source comme nouvelles valeurs journalistiques

ESSENCIAL

FIGURA 2: Budapest (The Model), Andres Serrano (ECO, 2007, p. 165).

“Ah! Se os velhos pudessem e os jovens soubessem [...]” (sentença popular francesa de autor desconhecido)

 

‐ 52 ‐ Para Beauvoir (1990), seguindo a posição existencialista de Sartre, a noção de projeto de vida é fundamental para pensar a questão da subjetividade e do tempo. A autora afirma que as pessoas idosas continuam a se identificar com a imagem do que foram em sua juventude. Mesmo dizendo-se agora aposentadas, continuam evocando lembranças, o que lhes garante a convicção de permanecerem imutáveis ao tempo, e que no entendimento da autora é sinônimo de segurança e afirmação pessoal.

Sabe-se que envelhecer difere de pessoa para pessoa, ou seja, existem vários fatores que influenciam no passar dos anos, tais como o tempo, a hereditariedade e o meio ambiente. A mídia também interfere na concepção da sociedade e influencia a pessoa idosa que passa a se comportar assim como é apresentado pelos canais de comunicação (MASCARO, 1997).

No transcurso dos séculos, essa visão passou por várias modificações, não obstante, vale entender como se dá a atuação dos profissionais que transitam pelo universo da pessoa idosa: segundo Paquet & Carlson (1999) e Camargos, Mendonça & Viana (2006), a formação Médica propõe o especialista, o Geriatra, o profissional que se ocupa das doenças correspondentes ao envelhecer na sua dimensão “biofisiológica”. Quando o espectro de atuação é ampliado e outras categorias - inter e trans - disciplinares assumem a atenção à pessoa idosa, estabelece-se o Gerontólogo, que é o profissional que trata dos aspectos acerca da macrodinâmica do envelhecimento (ibidem).

 

‐ 53 ‐ A Geriatria edifica a Gerontologia e vice-versa: são ciências indissociáveis e contribuem ao rastreamento preambular e diagnóstico da situação da pessoa idosa, bem como à hierarquização da qualidade dos cuidados que deve receber, com campos de atuação distintos, no entanto, complementares (PAQUET & CARLSON, 1999). E, para Sant’Anna (1997), a criação da Gerontologia não foi apenas a criação de uma nova nomenclatura, mas sim a possibilidade de se entender a velhice como um processo inerente à vida, onde não mais haveria a preocupação em se encontrar uma “cura” para o envelhecimento “biofisiológico”.

Debert (1994) salienta que o novo enfoque dado à questão do envelhecimento tende a transformar essa experiência em algo radicalmente diferente para homens e mulheres. Contemporaneamente circulam várias visões de velhice entre as pessoas, e um dos conceitos mais comuns e errôneos é o da pessoa idosa vista como um ser triste e portador de doenças: na sociedade capitalista, com a associação entre a aposentadoria e a velhice, esta passa a ser associada à inutilidade, à dependência e à pobreza (CAMARANO, 2001).

Mas, como será que a pessoa idosa se sente, como ela percebe o seu envelhecimento? Pois bem, atualmente a OMS (WHO, 2002) determina que indivíduo idoso é aquele que, cronologicamente, nos países em desenvolvimento atingiu 60 anos de idade. Entende-se ser esta uma conceituação estabelecida para fins de classificação oficial ou normativa que facilita a criação de programas de saúde entre outras situações: essa idade é percebida como marco do início da velhice; porém acrescentam que a idade funcional e “biofisiológico” difere entre os indivíduos e, portanto, não pode ser padronizada (SILVA & PETROSKI, 1999).

 

‐ 54 ‐ Essa questão passa pelo fato da unicidade humana, possibilitando que os seres humanos vivenciem ou enfrentem de forma igualitária uma etapa de suas vidas. Nessa perspectiva, se adotam essas convenções cronológicas como referenciais e não como estereótipos, pois existem diversidades culturais, sociais, econômicas e individuais que interferem nessa padronização (SILVA & PETROSKI, 1999).

Crê-se que a sabedoria da pessoa idosa transcende a sua experiência de vida. A sabedoria se apóia no vivido, no interpretado, no confabulado, mediante o cotidiano trilhado. Nas culturas de países não capitalistas, onde o resultado não é a tônica fundamental, a pessoa idosa assume uma posição de chefe, como no caso de alguns países orientais, diferentemente daquele atribuído aos países capitalistas, em que a ênfase está no novo, daí incluindo a pessoa no início da fase adulta, pois o importante é o que produz lucro no menor tempo possível (ibidem) – o que geraria eficiência (COLLECTIFE, 2004) – .

Portanto, freqüentemente ocorre conflito em julgar o ser pessoa idosa, conforme a classificação da OMS (WHO, 2002), que se baseia na idade cronológica: entende-se que a velhice consiste na deterioração característica de certas funções orgânicas, mentais ou espirituais, não patológica, que ocorrem independentemente da cronológica e que são influenciadas por diversos fatores externos e internos do indivíduo (ARGOUD, 1998; FREITAS, PY, CANÇADO & GORZONI, 2002).

Para este estudo considerou-se, também, o envelhecimento condicionado às modificações físicas inevitáveis, de caráter “biofisiológico”, que iniciam de maneira gradual, geralmente a partir da terceira década de vida. A quantidade de pessoas com envelhecimento orgânico varia consideravelmente em intensidade entre os indivíduos idosos sadios (ibidem; CALDAS, 2003).

 

‐ 55 ‐ Dessa forma, os fatores que interferem na velocidade do envelhecimento seriam principalmente os dietéticos, a atividade física, ingesta de álcool, consumo de fumo, ocorrência de doenças, estresse e o estilo de vida (WHO, 2002). As doenças ocorrem em todas as faixas etárias: o envelhecimento não é uma fase específica em que elas se manifestam, embora ocorram limitações dos aspectos “biofisiológicos” (ARGOUD, 1998; SILVA, 1999; FREITAS et al., 2002).

Essa constatação é reforçada, quando se identificam pessoas idosas com aspecto e saúde regulares, que, ao longo de suas vidas, desenvolveram hábitos de saúde, higiene física e mental com qualidade de vida. Diferentemente dos jovens portadores de aspectos de vida envelhecidos, que não se preocuparam em gerar uma forma saudável de ser e envelhecer (SILVA, 1999).

Tem-se valorizado a avaliação que cada um faz da sua saúde muito embora se admita o seu caráter subjetivo. Contudo, as investigações têm mostrado que essa avaliação se associa com a avaliação objetiva da pessoa idosa e seu estado de envelhecimento, com a frequência das consultas médicas solicitadas e com outras variáveis de caráter psicológico como a depressão, ansiedade e o bem-estar (LEE, CHOI, & LEE, 2001; GALL & SZWABO, 2006).

Na mesma concepção, os sujeitos percebem seu envelhecimento quando tomam consciência de alguns sinais. Alguns os notam por volta dos 40 anos, levando os sujeitos a se depararem repentinamente com fatos que indicam que eles tenham se tornado pessoas idosas.

Outros fenômenos acontecem gradualmente, levando as pessoas a sentirem que estão envelhecendo, progressivamente. De qualquer forma, essas marcas – especialmente físicas – tendem a ser percebidas com certo pesar: a velhice parece ser temida (ARGOUD, 1998; ibidem).

 

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Dos Ciclos da Vida, Do Corpo e Da Beleza

E, por sua vez, a pessoa idosa - por geralmente significar ao senso comum a representação física do final da vida (SANTOS, 2003) - é identificada à fase das perdas, das dependências, da solidão, do afastamento, da depressão, do ressentimento, em que surgem os problemas de identidade, de inferioridade, de confusão mental, de dificuldade geral de adaptação, dos problemas de relacionamento e, de forma popular, da impotência sexual.

O ser humano é uno, um ser integral (VYGOTSKY & LURIA, 1996): a sua saúde depende do equilíbrio entre o biológico, o psicológico e o social (MINAYO, 2002). Quando alguma dessas áreas está muito comprometida, sobrecarrega as demais, facilitando o surgimento do desequilíbrio. Dessa forma, compreende-se que envelhecer é um processo muitas vezes negado e ignorado pelo ser humano, em virtude de culturalmente esse processo representar a última fase dos ciclos da vida em que somente resta aguardar a morte.

Cabe aqui interpor a conceituação de ciclos da vida, e ocorrem certos aspectos que minimamente justificariam o estudo do funcionamento dos seres vivos a partir da dimensão do tempo em ciclos:

Primeiramente, o caráter dinâmico dos fenômenos vitais limitaria o alcance de observações nas quais a vida é destacada, como, por exemplo, em um tecido examinado em microscópio. Esse olhar teria o valor de um instantâneo: uma fotografia que congela o objeto.

Em segundo, a demonstração da existência de mecanismos internos produtores de tempo, os assim chamados “relógios biológicos” (BRANDSTAETTER, 2004), obrigaria a reler muito do que se sabe sobre as relações temporais dos organismos com seus ambientes.

 

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Atualmente, já não é possível entender as oscilações comportamentais como meras respostas aos estímulos ambientais, na medida em que a responsividade dos organismos é sabidamente modulada pelos seus sistemas de temporização, ou sistemas de organização dos tempos e suas fases (BRANDSTAETTER, 2004), aqui compreendidos como ciclos da vida.

Portanto, essa idéia remeteria aos estágios de desenvolvimento humano como um modo de organização dos diversos ciclos vitais (ibidem). E estes seriam mediados por transformações: processos “biofisiológicos” que ocorreriam ao longo de toda a trajetória do sujeito e estariam relacionados a um conjunto complexo de fatores.

Na abordagem históricocultural encontra-se a postulação do desenvolvimento humano como sendo resultado da interação entre quatro planos genéticos: a filogênese, a ontogênese, a sociogênese e a microgênese (VYGOTSKY & LURIA, 1996).

Os ciclos da vida focalizariam o indivíduo isolado e as transformações que ocorreriam para todos os seres humanos de forma similar (BRANDSTAETTER, 2004), em ilustração: o aparecimento dos dentes, a capacidade de caminhar, a aquisição da linguagem, o amadurecimento sexual e o envelhecimento do organismo.

A imensa multiplicidade de conquistas no transcurso dos ciclos da vida - que ocorreriam ao longo da história individual - geraria uma complexa configuração de processos de desenvolvimento que seria absolutamente singular para cada sujeito.

Em cada situação de interação com o mundo externo, o indivíduo encontrar-se-ia em um determinado momento de sua trajetória particular, trazendo consigo certas possibilidades de interpretação e (re)significação do material que obteria dessa fonte externa.

 

‐ 58 ‐ Com efeito, a vida humana tem sido dividida em: infância, adolescência, idade adulta e velhice (PALACIOS apud COLL, PALACIOS & MARCHESI, 1995; BRANDSTAETTER, 2004). Estas etapas têm sido apresentadas como universais e associadas as características comuns a todas as pessoas e a todos os grupos humanos.

Assim sendo:

A infância, onde aconteceriam experiências com repercussão determinante e configuradora de todo o desenvolvimento posterior; a adolescência como época de mudanças drásticas e turbulentas; a idade adulta como o momento de estabilidade e ausência de mudanças importantes, e; a velhice como sinônimo de “deterioração” dos processos “biofisiológicos” (PALACIOS, 1995).

Entretanto, por não levar em conta aspectos da história cultural e individual dos sujeitos, essa perspectiva não contemplaria a multiplicidade de possibilidades de desenvolvimento dos ciclos da vida humana, que para ser mais completa deveria absorver:

“1) a etapa da vida em que a pessoa se encontra; 2) as circunstâncias culturais, históricas e sociais nas quais sua existência transcorre e 3) experiências particulares privadas de cada um e não generalizáveis a outras pessoas” (ibidem, p. 9).

Essa dimensão tampouco assumiria a própria essência dos ciclos da vida, isto é, a possibilidade de auto-desafiar-se e de superar-se inerente à condição humana (VYGOTSKY & LURIA, 1996): como explicar os inúmeros casos de pessoas que superam condições adversas ocorridas em sua infância? Ou dos jovens que percebem sua adolescência mais como continuidade do que como ruptura com seu percurso anterior? Onde ficaria o potencial transformador das intervenções educativas na idade adulta? E as pessoas idosas que iniciam uma nova atividade em idade avançada e tornam-se ainda mais criativas, produtivas e independentes?

 

‐ 59 ‐ Diante dessas reflexões, a questão não é eliminar a divisão do percurso vital por meio de um categorização em ciclos, mas historicizar sua compreensão, o que admitiria uma aplicação mais expandida e com maior potência do seu próprio conteúdo. Portanto, toda sociedade seria:

[...] organizada por idades e toda sociedade tem um sistema de expectativas sociais com relação ao comportamento apropriado às idades. O indivíduo passa por um ciclo socialmente regulado do nascimento à morte tão inexoravelmente como passa pelo ciclo biológico: uma sucessão de status de idade delineados socialmente, cada um com seus direitos, deveres e obrigações reconhecidos. (MERRIAN & CAFFARELLA, 1999, p. 120)

É nesse sentido que a idéia dos ciclos da vida poderia ser mais benfazeja para uma compreensão minuciosa do fenômeno do desenvolvimento humano, do que a idéia tradicionalmente repercutida dos estágios em seções não interdependentes: não remeteria a uma passagem por um percurso abstrato - natural - da vida humana, mas por um percurso contextualizado historicamente - cultural -.

Pode ser que se permaneça, mais uma vez, falando em crianças, jovens, adultos e pessoas idosas. Mas será importante dar substância a esses ciclos da vida, conectando-os aos modos concretos de inserção dos sujeitos ao seu mundo social, às situações históricas e culturais específicas, e não exclusivas aos saberes “biofisiológicos”.

Acredita-se, dessa forma, que as pessoas estejam em constante dinamicidade, independentemente do período em que estejam vivendo. O envelhecimento marca a fase de reorganizar a vida: apresentar comprometimentos do ponto de vista dermatológico - com a presença das rugas senis - e do aparelho locomotor - limitações à deambulação - poderia significar que, apesar das restrições, é a vida que continua vencendo (RAMOS, 1997; 2005).

 

‐ 60 ‐ Nesse pensar, percebe-se o quão importante é a forma da leitura do mundo: é como se autopercebe em termos de imagem - especialmente a corporal -, como os indivíduos se colocam perante si mesmos e em relação ao mundo. Neste estudo fundamentou-se o conceito de corpo por meio das concepções de Goellner (2003) e de Goldenberg (2002) que dão uma dimensão cultural para o seu entendimento: “o corpo [...] é uma construção cultural e algo não ‘natural’. Nesse sentido, também é roupa, máscara, veículo de comunicação carregado de signos que posicionam os indivíduos na sociedade” (GOLDENBERG, 2002, p. 10). E, Goellner (2003):

Pensar o corpo como algo produzido na e pela cultura é, simultaneamente, um desafio e uma necessidade. Um desafio porque rompe, de certa forma, com o olhar naturalista sobre o qual muitas vezes o corpo é observado, explicado, classificado e tratado. Uma necessidade porque ao desnaturalizá-lo revela, sobretudo que o corpo é histórico. Isto é, mais do que um dado natural cuja materialidade nos presentifica no mundo, o corpo é uma construção sobre a qual são conferidas diferentes marcas em diferentes tempos, espaços, conjunturas econômicas, grupos sociais, étnicos etc. Não é, portanto algo dado a priori nem mesmo é universal: o corpo é provisório, mutável e mutante, suscetível a inúmeras intervenções consoante ao desenvolvimento científico e tecnológico de cada cultura bem como suas leis, seus códigos morais, as representações que cria sobre os corpos, os discursos que produz e reproduz. (p. 28)

No início da humanidade o corpo físico foi fundamental à sua sobrevivência (PELEGRINI, 2006-07). Na Antigüidade, o corpo era visto como elemento de glorificação e de interesse do Estado: nas cidades gregas não se descurava do modo de instrução corporal, além da exigência de um corpo saudável e fértil (ibidem). O imaginário de “beleza ideal” surgiu por meio da cultura grega, na qual seus artistas se baseavam em mitos e deuses (BIM, 2002):

O ideal grego da perfeição era representado pela Kallokagathia, termo que nasce da união de Kállos (genericamente traduzido como “belo”) e Agathós (termo usualmente traduzido como “bom”, mas que cobre toda uma série de valores positivos). Observou-se que a virtude de ser Kalos e Agathos definia genericamente aquilo que corresponderia, no mundo anglo-saxônico, à noção aristrocrática de gentleman, pessoa de aspecto digno, de coragem, estilo, habilidade e conclamadas virtudes esportivas, militares e morais. À luz desse ideal, o helenismo elaborou uma vasta literatura sobre a atrelação entre feiúra física e feiúra moral. (ECO, 2007, p. 23)

Nesta tensão, o homem Kállos e Agathós não apenas considera ‘mais preciosa a beleza que está na alma do que aquela que está nos corpos’ e, portanto, poderá cuidar de um jovem que possua muita virtude mesmo que possua ‘poucas flores no corpo’, como se não detém a beleza de um só corpo e, através da experiência de diversas belezas, tenta alcançar a compreensão do Belo e Si, da Beleza hiperurânia, da Beleza como Idéia. (ibidem, p. 28)

 

‐ 61 ‐ Por sua vez, não muito diferente da Antigüidade, a sociedade contemporânea supervaloriza o ser humano portador de um corpo belo e ativo, discriminando o feio e inativo, considerando assim o envelhecimento como um momento improdutivo, de “feiúra” e sem perspectivas, tanto pessoal como social; dessa forma, marginaliza-se a pessoa idosa (SANTOS, 2003).

Isso gera sentimentos de frustração, incapacidade e afastamento do convívio social nas pessoas idosas, com freqüente distanciamento educacional em relação à juventude, o que limita a compreensão e a participação em um mundo cada vez mais tecnológico e informatizado (PAPALIA & OLDS, 2000; RAMOS, 1997; 2005).

A imagem que o tempo presente “elegeu” como a ideal, aproxima-se bastante daquela evidenciada pelos jovens, de onde resulta o imperativo ético de “manter-se jovem o maior tempo possível”: esse imperativo não perspectiva a totalidade dos valores associados à juventude, mas apenas aqueles referentes ao aspecto exterior, à imagem que se projeta à sociedade (MERSKIN, 2004). Mais importante que as virtudes/defeitos da juventude são as impressões corporais transmitidas para o exterior, onde o “ser” é nitidamente subjugado ao “parecer”. Não se “é” jovem, mas tenta-se “parecer” jovem.

O corpo e sua conservação mobilizam cada vez mais as paixões e a energia estética da beleza. Para além da mudança no valor que se agrega ao corpo - do corpo bem vestido ao corpo “em forma” -, interessa especialmente a passagem do culto ao corpo para um valor em si - o que deixa implícita as relações históricas de poder e a ideologia que estão por trás da visão de mundo que alicerçam a busca incessante pela beleza e juventude, associadas diretamente, sem intermediários, ao sucesso - (RENZ, 2007).

 

‐ 62 ‐ Com o envelhecimento ocorreriam as perdas das referências identificatórias, e também a perda da juventude, da beleza física e da saúde plena (MERSKIN, 2004). Dessa maneira, as possibilidades para o sujeito poderiam constituir-se em experiências adaptativas e criativas de lidar com as avarias cronológicas da beleza corporal, utilizando-se de mecanismos de defesa adaptativos e até de formas sintomáticas e patológicas de lidar com elas.

Em especial à negação do corpo depauperado e feio que se associaria diretamente à imagem pejorativa do envelhecimento, em antagonismo com o sucesso da juventude e sua beleza permanentemente embutida (ibidem).

 

FIGURA 3: As três idades do homem e a morte, Hans Baldung, 1539, Museo del Prado, Madri (PHAIDON, 1999, p. 24). Acervo pessoal do autor.

Essas quatro figuras, em face, são uma alegoria das três idades do homem, dos ciclos da vida: a morte é representada como um esqueleto segurando uma ampulheta. Em torno dela há um bebê adormecido - infância -, uma jovem - juventude - e uma mulher idosa - velhice -: é uma metáfora visual do curso do tempo sobre o corpo (JOLY, 2005; GOODMAN, 1976).

É como registram Camargos, Mendonça e Viana (2006):

O compêndio das ligações antropológicas da sociedade com suas pessoas idosas sucumbe ao medo pungente de amadurecer, do temer a velhice, do terror da ancianidade, do inexorável destino e do quanto ele é despropositado: tal qual Hebe, filha de Juno e deusa da juventude, receia-se a vetustez por chegar até ela em débito consigo mesmo ou com a sensação de deslocamento em sua inserção social, da possibilidade de se abrigar num monturo de olvidamento sem um somatório moderado de conhecimentos necessários para o amparo nesse estádio da vida. (p. 226)

 

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No presente, as práticas de beleza – apesar de ainda se apoiarem na construção de um espetáculo ilusório – privilegiam a conservação de um corpo jovem e esbelto: o objetivo é o de se importar um pouco menos com a sofisticação da aparência e dar mais importância ao rejuvenescimento, à tonificação, ao fortalecimento da pele, até porque se entende que ao conseguir represar a juventude, de alguma maneira, como um bônus, recebe-se um mínimo de beleza (LIPOVETSKY, 2000).

Instala-se, portanto, o momento da “antiidade” e “antifeiúra”, “pró-beleza”: a obsessão pela juventude e sua suposta beleza correspondente seguirá em expansão (ibidem).

E o que seria beleza? Qualquer discussão a seu respeito chega sempre, antes ou depois – mas geralmente chega pronta – o momento em que alguém exclama indignado: “Mas a beleza é algo relativo!” Seguramente, trata-se de uma sentença que terá muito eco. “É verdade”, dirá outro, “Cada coisa tem uma beleza particular”. Ou bem: “A beleza está em quem a contempla”, “Tem relação às preferências de cada um...”, “Uns preferem as louras, outros as morenas, alguns gostam das mais magras e outros das mais ‘cheinhas’”.

Então, seria o conceito de beleza unicamente uma questão de opiniões disjuntas?

A resposta possivelmente será negativa. E não poderia ser o contrário, a beleza pode ser considerada um acúmulo atávico de significados antropológicos, interdependentes, que vão (re)criando possibilidades de construções culturais da corporeidade a partir das relações humanas (LE BRETON, 2003; VIGARELLO, 2006).

 

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Observa-se o caso do Egito antigo; e não precisamente porque os egípcios tenham descoberto a beleza, mas sim porque seu sentido de beleza deixou vestígios importantes: na cidade de Berlim, Alemanha, se encontra o busto de Nefertite, cujo nome significa algo como “A bela chegou” (DAUXOIS, 2007), e hoje é para a humanidade como foi a 3 mil anos junto ao