Grande parte da bibliografia pesquisada peca ao projetar um olhar uniformizante, de cunho utilitarista, ao sentido das trocas. Como exemplo de tal fato, as leituras de Senna (2010) sobre as origens da moeda fiduciária apontam as limitações da história econômica quando ela é reconstruída a partir do olhar de um agente que tem uma inclinação neoclássica, o que influi em projetar uma leitura das origens em teremos da teoria da utilidade para momentos em que esse tipo de racionalidade não era hegemônico.
Nas contextualizações que são feitas sobre o escambo, aparece muitas vezes a leitura da teoria da utilidade marginal como significação dessa prática, que não necessariamente correspondem às dimensões de sentido da ação econômica dadas por comunidades tão díspares. No livro “Razões Práticas”, Bourdieu posiciona seu conceito de economia das trocas simbólicas como uma terceira via em relação às teorias predominantes:
O que pareceu à alguns adeptos do fast-reading (entre os quais infelizmente há muitos professores), uma manifestação de economicismo, sublinhava, ao contrário, a vontade de arrancar do economicismo (marxista ou neo-marginalista) as economias pré capitalistas e setores inteiros das economias ditas capitalistas, que não funcionam inteiramente com a lei do interesse como a busca da maximização do lucro (monetário). O universo econômico é feito de vários mundos econômicos, dotados de “racionalidades específicas que supõe e exigem, ao mesmo tempo, disposições “razoáveis” (mais do que racionais), ajustadas as regularidades, inscritas em cada um deles, as “razões práticas” que os caracterizam (BOURDIEU, 1996, p. 158)
O objeto de pesquisa, ao buscar os sentidos sociais da ação em política monetária, transita em razões práticas distintas ou convergentes entre os agentes, o que demanda um esforço adicional e multifacetado de maneira a não enquadrar as dimensões de sentido às conveniências de uma metodologia analítica monocromática. Mesmo entre as instituições financeiras, as caracterizações como “os bancos buscam lucro” é generalizante ao não se
aprofundar às razões práticas circunscritas aos campos específicos, a interdependência com outras instituições e em seus posicionamentos em momentos críticos.
A construção de pontos fortes e fracos de estratégias de portfólios também se deu ao longo de um processo de acontecimentos, contenciosos e capitais distintos que serão subsídios para interpretar as arenas político-econômico-financeiras antagônicas em momentos
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específicos. Tal conceito adquire dimensão calcada na fronteira da agência situacional e a agência na estrutura.
Será demonstrado que os sentidos sociais dos usos do dinheiro, a depender da conjuntura, podem colocar instituições financeiras, agentes públicos, empresas e estratos sociais em pólos relativamente opostos. Nas grandes instituições, será discutido o processo controverso entre auto interesse e conflito moral na fé cristã que atormentavam os mercadores/banqueiros nas cidades Estados na baixa Idade Média até as modernas Fundações sociais das instituições financeiras que criam uma espécie de divisão do trabalho, dividindo as funções de responsabilidade social e ambiental (utilizadas também como estratégias de mercado) das práticas monetárias.
As trocas podem ter outros significados que não apenas o que nos é apresentado como hegemônico. Bourdieu demonstra isso ao comentar sobre os provérbios da sociedade Cabília na Argélia, em que o ato de receber era um infortúnio na medida em que era preciso retribuir; o ato inicial feria a liberdade de quem recebe. Quem dá e quem recebe realizam um trabalho sem saber da dissimulação que visa negar a verdade das trocas, como uma anulação da troca de dádivas (BOURDIEU 1996, p. 160).
O autor define a economia das trocas simbólicas como trocas que tem verdades duplas, difíceis de manter unidas. Dessa forma, a self deception individual estaria circunscrita a uma
self deception coletiva, cujo fundamento se inscreve nas estruturas objetivas, como na honra; a relação de troca é tácita e não dita, sob o risco de ser destituído.
O preço, como característica própria das trocas econômicas, por oposição a economia dos bens simbólicos, funciona como uma expressão simbólica sobre a taxa de troca envolvida em toda troca econômica. Há o mesmo consenso nas trocas simbólicas, mas os termos são implícitos; a explicitação da troca econômica, no entanto, é o que a torna calculável quanto à previsibilidade.
O sistema feudal ainda era carregado dos sentidos da economia das trocas simbólicas, com relações e cuidados implícitos que o senhor tinha para com os servos e destes para com o senhor feudal.
Conforme Polanyi (1980), a ordem estava estabelecida na reciprocidade, redistribuição e domesticidade, mas no século XIX essa ordem tradicional teria sido definitivamente rompida, em que o mercado local limitava-se as mercadorias em uma região limitada, ao
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passo que o mercado externo se baseava na ausência de alguns tipos de bens. Logo, não eram em princípio concorrentes, mas complementares.
As cidades medievais tinham regulamentações de proteção aos mercados de bens locais, o que só se liberou a partir da imposição do Estado, na baixa Idade Média, ao eliminar a separação entre os dois comércios (POLANYI, 1980). A decadência desse sistema esteve relacionada, dentre outros motivos, ao comércio proporcionado pelas Cruzadas, que estimulou o crescimento comercial dos burgos. Essas cidades foram crescendo a partir do processo de trocas de produtos entre um feudo e outro, enfraquecendo as relações de economia simbólica do sistema feudal.
Fundamental nesse processo foi a troca de produtos que eram utilizados como unidade de conta (visto que tinham uma procura maior) por moedas metálicas, mais compatíveis às velocidades das trocas nas cidades. A moeda surgiu na Lídia entre 620-600 a.c, cidade grega, substituindo a necessidade de se pesar metais. Com um solo pouco fértil e limites à expansão agrícola, o caminho natural era o comércio internacional pelo mar (SENNA, 2010).
Especificamente sobre as cidades, Simmel (2004) traz uma abordagem interessante sobre o vínculo cada vez maior entre o dinheiro e a cidade, que catalisaram a dissolução da ordem feudal; o incremento da individualização, a maior possibilidade de escolha pessoal, as relações sociais livres da dependência de personalidades específicas e o aumento da impessoalidade foi favorecida pela facilidade do dinheiro como unidade de conta.
As análises de Weber (1998) tratam das afinidades eletivas entre a Revolução Protestante e o capitalismo, calcadas no iluminismo que permitiu o abandono das tradições e a construção de um “desencantamento do mundo” que favoreceu a superação da condenação da usura. Nesse contexto, o dinheiro ganha terreno fértil pelo fato de sua detenção se transformar como unidade de conta até para a liberdade das amarras tradicionais.O dinheiro é entendido como meio para outras coisas (influência, posse, prestígio, domínio, comunicação, expectativa do futuro) e de natureza relacional.
As posses da terra implicavam obrigações em relação às classes sociais inferiores, mas a partir do momento em que este tipo de racionalidade monetária emerge, a posse pode ser convertida em valor e ninguém pode ser impedido de uma compra ilimitada (SIMMEL, 2004).
Para o autor, o valor econômico é entendido como a objetivação dos valores subjetivos como o desejo, colocando a economia como distanciamento entre sujeito e objeto (mediante
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renúncia, esforço, sacrifício) para posteriormente superar essa distância entre sujeito e objeto. Como veremos, a essência do dinheiro se dá pela manutenção de seu valor ao longo do tempo, de seu desenvolvimento e de sua objetividade.
Com a centralidade da moeda emitida utilizando-se de ouro, prata e cobre, problemas como roubos, adulterações no conteúdo das moedas através de raspagem e dificuldades de transporte proporcionaram a criação de instituições intermediárias que depositavam o ouro e emitiam notas que equivaleriam ao resgate desse ouro com a cobrança de intermediação. Além disso, grupos sociais que tinham maior acúmulo desses metais forneciam empréstimos para as atividades mercantilistas.
Conforme Simmel (1973), o crescimento das cidades e a velocidade das trocas colocam o dinheiro como fundamental na medida em que tal velocidade representa um decréscimo dos vínculos a pessoas individualmente determinadas. O dinheiro, nesse contexto suporta as relações impessoais, agindo a favor da liberdade individual e é ponto fundamental para a construção da idéia de indivíduo.
Há preponderância, mediada pela economia monetária, das funções intelectuais sobre as funções sentimentais. O dinheiro tem papel fundamental nas tendências de aproximação ou aumento da distância das coisas, que por sua vez representam a expressão de estilos de vida; o dinheiro passa a se tornar símbolo da inércia e também do movimento acerca da concentração da circulação monetária (SIMMEL, 2005).
Segundo Bourdieu (1996, p. 174), com a constituição da economia e a generalização das trocas monetárias e do espírito do cálculo, a economia doméstica deixa de fornecer o modelo de todas as relações econômicas. Uma vez que o dinheiro ganha centralidade, os maiores detentores do capital, especialmente os principais bancos brasileiros, adquirem importância central na procura do sentido da ação em política monetária, especialmente nos juros e no mercado aberto.
O desafio da presente análise é considerável, ao buscar as justificações morais dos
agentes competentes em política monetária, uma vez que a bibliografia que busca analisar a política monetária como uma construção social é escassa.
Como será visto, os agentes econômicos e financeiros podem ter diferenças de atuação e de objetivos, em função de diferentes capitais e nichos de mercado ocupados, que se cristalizaram em pontos fortes e fracos de portfólio.
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Bourdieu busca posicionar uma teoria da ação, de maneira a fornecer uma interpretação distinta da perspectiva econômica:
A teoria da ação que proponho (com a noção de habitus ) implica em dizer que a maior parte das ações humanas tem por base algo diferente da intenção, isto é, disposições adquiridas que fazem com que a ação possa e deva ser interpretada como orientada em direção a tal ou qual fim, sem que se possa,entretanto, dizer que ela tenha por principio a busca consciente desse objetivo (BOURDIEU, 1996, p.164)
No caso da presente tese, como se trata propriamente da ação monetária, há uma dimensão de calculabilidade mais explícita, em que a linha neoclássica e a linha intervencionista orientam a busca por resultados econômicos e monetários, mas estes se calcam em uma ideal de bem comum
Nas classificações nativas emergentes no jornalismo econômico, os agentes favoráveis a apertos monetários são os Hawk (falcões), ao passo que os agentes favoráveis ao “afrouxamento monetário” são os Doves (pombos). Há uma oposição por imagem forte/fraco homólogo à aperto/afrouxamento que ganham dimensão moralizando como oposições respectivas entre responsável/irresponsável e/ou conservador/aventureiro que estão atreladas à concepções morais de bem e de mal, na busca pelo bem comum.
Ambas as matrizes serão tratadas em suas essências estruturais emergentes de processos históricos, os quais colocaram a centralidade do dinheiro e sua velocidade como elemento que o concedeu centralidade nas cidades.
Os filósofos/economistas pré clássicos e clássicos, em geral, construíram teorias ambivalentes e até contraditórias, mas que foram sendo incorporadas de maneira a montar quadros econômicos menos ou mais intervencionistas, em que o primeiro se constituiu como inércia cognitiva ao longo do processo histórico. Na teoria dos sentimentos morais de Adam Smith, por exemplo, o autor reconhecia as desigualdades sociais e de poder entre patrões e empregados, ao passo em que em a “Riqueza das Nações”, desenvolveu o conceito de “mão invisível” como um equilíbrio natural que seria alcançado a partir das buscas individuais pelo
próprio interesse (HUNT E LAUTZENHEIZER, 2013)
Correntes históricas cambiantes, no entanto, bem como contenciosos, momentos críticos e crises contribuem para que as teorias ganhem outros campos, como foi no caso da teoria do valor trabalho de David Ricardo e Adam Smith que foram desenvolvidas com Karl Marx.
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Neste capítulo, dentre outros objetivos se busca compreender a construção dos dispositivos morais que compõe a convenção de equivalência em política monetária, em que a perspectiva não intervencionista exercer “campo gravitacional” para a construção dos consensos monetários justamente pelo fato dessa perspectiva dar mais respaldo ao capital financeiro.
Em cada um dos tópicos, os paralelos entre as origens e os dias atuais serão apresentados, de maneira a demonstrar a permanência de dispositivos morais fundamentais que compõe as narrativas e as ações dos agentes competentes, embora as situações provoquem usos distintos dos dispositivos a depender de conjunturas que são particulares.