A escola marginalista e suas heranças na economia neoclássica tem como principal característica a formalização de pressupostos econômicos e monetários. A transformação dos vieses em modelos matemáticos e estatísticos, à medida que reforça a analogia da ciência econômica como ciência natural, contribui para construir um mito de neutralidade.
Na prática, porém, além de “terceirizar” os vieses para a formalidade matemática, tais modelos apresentam sérias limitações ao se distanciar da complexa realidade. Para poder considerar a validade da teoria do equilíbrio geral de Walras, com os pressupostos de equilíbrio entre oferta e demanda, é necessário considerar um pressuposto formal da
153
concorrencial perfeita, a qual não corresponde à realidade empírica. Nesse pressuposto, se considera que vendedores e compradores estão em grande número e que nenhum deles poderiam influenciar o nível de oferta no mercado.
Uma vez que a própria teoria já se parte do pressuposto explícito daquilo que se faz impossível representar, o enfoque maior recairá sobre a conformação da realidade aos pressupostos ou, ao menos, na construção da crença coletiva nessa conformação.
A Escola Marginalista é um divisor de águas importante para o presente trabalho, pois é justamente esse um momento crucial da transubstanciação dos panos de fundos morais dos usos do dinheiro (como meio) e da taxa de juros (como elemento de punição) daqueles que tem sua maior concentração de capital para o mito de uma neutralidade axiológica dos modelos matemáticos. Não se reflete, de maneira geral, à interpretação dos modelos matemáticos em seus sentidos morais, mas no desvio do olhar para seus pressupostos teoricamente neutros A especialização dessas escolas e o desvinculação dos explícitos vieses de origem se configuram como um instrumento de desprendimento entre os modelos e a realidade social, na medida em que se afasta das teorias do valor trabalho que recaem sobre conflitos distributivos. É nesse contexto, que surge a teoria quantitativa da moeda, como base da política monetária:
A primeira versão da Teoria Quantitativa da Moeda apareceu na literatura econômica como Equação quantitativa na forma de transações, sendo formulada por Simon Newcomb, em 1885, mas quem popularizou essa versão foi Irving Fisher, em 1911, em The Purchasing Power Of Money. Porém a noção de que a oferta monetária afeta o nível de preços se fazia presente há alguns séculos na história do pensamento econômico. Já no século XVI Jean Bodin argumentava a M. de Malestroit que o aumento no nível geral de preços que então se observava na França não se explicava somente pela aversão ao padrão metálico da unidade monetária, mas principalmente pela maior disponibilidade de ouro no país. David Hume em seu
Essa yof Money, de 1752, foi o primeiro pensador a analisar de modo mais rigoroso a relação entre variáveis monetárias e variáveis reais (KREMMER E CORAZZA, 2017, p. 3)
Confirmando o que já foi apresentado sobre Locke, as teorias monetaristas já se faziam presentes entre os filósofos e economistas pré-clássicos a partir da observação de fenômenos das práticas econômicas que eram observadas. A moeda estava destinada a ter sua importância aumentada durante os anos com o aumento da circulação monetária, flutuações econômicas, crescimento dos bancos e do crédito, no advento das cidades.
154
As dificuldades encontradas ao tentar classificar as perspectivas como heterodoxas e ortodoxas foram que ambas perspectivas tiveram origem na Escola Neoclássica e encontram “afinidades eletivas” em alguns pressupostos.
Marshall avançou em conceitos como flutuações cíclicas e ciclos econômicos, com base no papel da especulação e do crédito; taxas de juros e contribuições para uma nova Teoria Quantitativa da Moeda. Segundo Filho e Arthmar (2016):
Nas primeiras décadas do século vinte, os economistas da Escola de Cambridge, dentre os quais Arthur Cecil Pigou, Dennis Holme Robertson e John Maynard Keynes, propuseram distintas explicações acerca dos possíveis mecanismos deflagradores e de propagação dos ciclos econômicos.1 Diferenças à parte, tais análises, em notável extensão, adotavam como ponto de partida a estrutura teórica edificada por Alfred Marshall desde fins do século dezenove. Muito embora as contribuições deste último ao desenvolvimento da ciência econômica moderna tendam a ser predominantemente associadas à evolução da teoria marginalista dos preços no plano microeconômico, traços essenciais da análise macroeconômica clássica (na acepção sugerida por Keynes 1996 [1936], cap. 3), podem ser embrionariamente identificados em distintos momentos de sua obra [...]Marshall, em verdade, desempenhou papel fundamental na continuidade do pensamento monetário clássico, ao mesmo tempo em que descortinava novos horizontes analíticos para seus seguidores em Cambridge ao qualificar em diversos aspectos a interação entre os setores real e monetário da economia, dicotomia analítica herdada de seus predecessores.
Uma dos problemas de classificar em termos generalizantes as perspectivas como antagônicas, por parte da sociologia, é não compreender que as convenções de equivalência estão subjacentes à pressupostos que tem pontos de convergência. Especificamente sobre os juros, define Marshall:
A taxa de juros é determinada, a longo prazo, pelas duas séries de forças da oferta e da procura, respectivamente. […] Assim, o juro, sendo o preço pago pelo uso de capital em qualquer mercado, tende a um nível de equilíbrio tal que a procura total de capital nesse mercado, a essa taxa de juros, seja igual à oferta total que haja ali a essa taxa. (Marshall, 1977 [1890], p. 443)
Há, como pressuposto renovado em termos dos juros, a idéia da mão invisível que permitiria o seu ajustamento garantido pela concorrência, com um capital já investido e outro em estoque. Segundo Filho e Athmar (2016), os juros seriam definidos no capital livre, a partir da intersecção entre a função demanda por novos investimentos e a oferta de poupanças disponíveis. O lado da oferta, segundo os autores, estaria identificado à disponibilidade de poupanças, os quais dependeriam de costumes, auto-controle, planejamento do futuro e ao
155
altruísmo familiar, a segurança das condições sociais e políticas, altruísmo associado à força do sentimento familiar, nível de renda e taxa de juros.
Haveria então, uma relação direta entre o nível de renda e a propensão a poupar, fazendo entre uma correlação entre juros e poupança:
Mas, embora a poupança em geral seja afetada por muitas causas além da taxa de juros, e esta pouco influencie a poupança de muita gente; e enquanto alguns poucos, que tenham resolvido assegurar um rendimento de um montante fixo para si próprios ou para suas famílias, cheguem mesmo a economizar menos com uma elevada taxa do que com uma reduzida taxa de juros; não obstante isso, a balança pende favoravelmente à opinião de que um acréscimo na taxa de juros, ou preço da procura da poupança, tende a aumentar o volume da mesma (Marshall, 1977 [1890], p. 443)
Tal idéia traz subjacente um benefício em função dos sacrifícios assumidos, ao abrir mão do capital e poupá-lo. Ao mesmo tempo em que tais idéias calcam uma interpretação mais Hawkish, a idéia de demanda agregada e das expectativas dos agentes econômicos dão base à perspectiva Dovish:
A demanda por capital cresce com cada aumento nos números da população, nos recursos naturais do país, na eficiência das artes de produção e no escopo que essas artes proporcionam ao emprego de capital auxiliar e à durabilidade do capital fixo. A taxa de juros à qual o capital pode encontrar emprego num país com uma dada população industrial em cada estado das artes de produção depende da quantidade de capital oferecida para empréstimo. (Marshall e Marshall, 1994 [1879], p. 124)
Nesta idéia, Marshall pressupõe uma racionalidade dos empresários que calculam se é mais vantagem investir ou não em função dos custos do capital. Se os lucros foram inferiores os custos do capital, não compensaria investir. Percebe-se, portanto, uma ambivalência das teorias de Marshall, que torna mais formalizada as disputas entre os financistas e industriais, em que os juros seriam o elemento central de tal disputa.
No que tange à teoria quantitativa da moeda, se construíram aproximações e afastamentos entre as perspectivas de Irvign Fisher (1867-1947), Wicksell (1851-1926), e Marshall (1842-1924).
Segundo Filho e Athmar (2016), a versão de Marshall desenvolve-se em torno dos determinantes para demanda agregada (especulativa) por moeda, como um pressuposto da economia clássica, em vez de focar sobre teoria de preços ou comportamento da taxa de
156
inflação, em que as interpretações de Wicksell e Fisher se baseiam, não tratando do componente especulativo pela liquidez. Por fim, definem os autores:
Fisher entendia o sentido de causalidade como estritamente definido da moeda para os preços, enquanto Marshall e Wicksell aceitavam a possibilidade de causação reversa, ou seja, de preços em elevação por causas reais ou imaginárias gerando maior demanda por crédito (FILHO E ATHMAR, 2016)
Na se pretende se estender sobre os nuances teóricos que tem múltiplas interpretações com base na teoria econômica. Em linhas gerais se busca demonstrar como por trás desses pressupostos se constroem os dois principais princípios de equivalência que são base para ação dos comitês de política monetária..
O Banco Central Europeu (BCE) e o Banco Central do Brasil (BCB) tem como objetivo principal o controle da inflação, o que é tem uma filiação mais próxima às perspectivas de Fisher, ao passo que o Federal Reserv (FED) tem um objetivo duplo, no controle da inflação e também voltado ao crescimento econômico e ao emprego, colocando ambas em um mesmo nível, incorporando os pressupostos de Marshall sobre a demanda por investimento. Todavia, no caso do FED e BCE esses objetivos são constituídos em um cenário de baixos juros, ao passo que no caso brasileiro, como veremos, esse ponto de equilíbrio é diferenciado, com uma inércia em juros altos.
A teoria quantitativa da moeda de Marshall é utilizada como exemplo de maneira a demonstrar como modelos matemáticos podem ter incorporados pressupostos que ignorem determinadas questões morais e distributivas:
M = kPT
(M) M é o estoque de moeda,
(K) fração de renda que as pessoas coletivamente desejam ter na forma de saldos de moeda, (P) é o nível de preço geral e
(T) é o volume de comércio ou renda real
Ao observar a fórmula acima, chama a atenção a variável K, como uma fração de moeda que as pessoas desejariam ter. Esse pressuposto tem uma questão importante subjacente: a questão de ter ou não ter moeda é um desejo e considerado como uma massa monetária única, ficando de fora da análise as dificuldades de ascensão social e questões sobre desigualdade.
157
Segundo Brue (2008, p.299), há uma divisão na Escola Neoclássica entre monetaristas e não monetaristas: os primeiros lidavam com análises de demanda e oferta total de moeda, poupança total e investimento total, ao passo que os segundos olhavam para renda, consumo, poupança e investimento de pessoas físicas e empresas.
Irving Fisher viu cinco determinantes do poder de compra da moeda ou seu inverso, nível de preço: Volume de moeda em circulação; sua velocidade de circulação; volume de
depósitos bancários sujeitos a verificação; velocidade dos depósitos; volume de comércio.
Fisher dizia que a economia monetária, que trata desses cinco reguladores do poder de compra é uma ciência exata, o que é uma herança essencialmente marginalista. De acordo com Fisher temos a seguinte fórmula da teoria quantitativa da moeda:
• P = MV + M´V´/T
Na fórmula, M é a quantidade de moeda e M’ a quantidade de demanda por depósitos; V e V’ são a velocidade de circulação, P é o nível médio de preços e T é a quantidade de bens e serviços transacionados ou vendidos, com cada unidade sendo contada toda vez que é vendida ou revendida .
Esse pressuposto tem um forte viés contracionista, baseado nas idéias de David Hume, de que o aumento dos recursos em circulação ou a sua velocidade implicariam em aumento dos preços. Com base neste pressuposto, há uma regra monetária proposta por Fisher, em que o controle rígido da moeda em circulação contribuiria para estabilizar os preços.
Esse conceito tem encapsulado a redução da intervenção do Estado em termos de ativismo monetário e fiscal, representando a antítese à intervenções estatais discricionárias.
Os modelos matemáticos ganham força de performatividade efetiva justamente pela “dissimulação” de uma falsa neutralidade, tornando difícil a contestação em termos morais do que esses pressupostos podem acarretar ao ignorar outras perspectivas econômicas localizadas histórica e socialmente.
Das disputas anteriores entre o Estado e a burguesia mercantil, tal disputa com origem em justificações e defesas, na conformação das arenas são materializadas em dispositivos matemáticos deslocando a disputa das narrativas e da política, para uma confrontação de modelos. O uso continuado desses pressupostos e a inovação incremental em relação à teoria quantitativa da moeda colocam tanto a perspectiva Hawkish quanto a Dovish em seu espectro
158
de atração, o que se explica no fato de serem dispositivos morais que são aceitos para compor as convenções de equivalência a partir de pressupostos matemáticos e estatísticos
Segundo Boltanski e Chiapello (2009, p.45), “a concepção de que a busca do interesse individual serve ao interesse geral à possibilidade de afirmar que o crescimento global de riquezas, sejam qual for seu beneficiário, é um critério de bem comum”.
As duas perspectivas estabelecem essa idéia de bem comum, mas assentadas em diferentes caminhos e com diferentes prioridades para alcançá-las. Ao mesmo tempo em que há uma certa atração dos modelos na direção dos maiores detentores de dinheiro e, por extensão, a prescrição de seus sentidos dos usos deste, a criação de índices, metas e métricas de mensuração também criam vínculos diretos com resultados para as organizações e para os indivíduos, ficando resguardadas as assimetrias das taxas de retorno. Há um desvio de foco à medida que se parece claro o que deve ser feito e há uma aceitação das regras do jogo.
A aceitação dessa violência simbólica tem como elemento central uma cultura geral de
mensurabilidade que se espraia para a vida cotidiana, em que o mito da neutralidade axiológica dos modelos, dos rankings e das métricas de mensuração passam a ser instrumentos performativos na medida em que não mais se reflete sobre suas contradições morais em termos distributivos.
A incorporação dessa lógica como quadros performativos desprendidos das origens passa a substituir o papel da hierarquia, criando-se no caso das empresas orientadas por projetos e por trabalhos em grupo a incorporação da lógica da solidariedade e da hierarquia de maneira sutilmente combinadas, para se fazer ainda mais rigorosas que hierarquias explícitas e mais facilmente combatidas.
Nesse contexto, os modelos de correlação entre os resultados financeiros das instituições financeiras e dos economistas chefe fortalecem a pendência destes ao retorno dos acionistas justamente pela correlação diretamente proporcional entre os dois índices de mensurabilidade. Conforme defendido por Mackenzie (2005), há uma incorporação profunda dos procedimentos em que os próprios agentes muitas vezes podem ser ignorantes em relação à sua própria existência. Logo, a econometria pode funcionar como um elemento de “eufemização” de seus sentidos morais e o aumento do seu poder como profecia auto realizante reside justamente no fato da banalização e replicação dos modelos econômicos como fins em si mesmos.
159
Mesmo mudanças políticas, morais, sociais, econômicas e históricas e os contenciosos relacionados à eles podem fomentar a incorporação ou deslocamento das convenções de equivalência em política monetária. O próximo tópico tratará deste processo que jogou holofotes sobre os constructos teóricos de Keynes e contribuiu para jogar por um largo período o ostracismo sobre o monetarismo de Fisher
2.7 Hawtrey e Keynes: o ativismo fiscal e monetário como construção de novas clivagens