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Les sous-officiers : l'exarchus, le bis exarchus et le

L’organisation des vexillationes

III. La structure interne

3. Les sous-officiers : l'exarchus, le bis exarchus et le

No dia que seguia cada noite de festa, um dos assuntos preferidos nas rodas de conversa dos adultos era o tempo que cada um “aguentou” dançar. Era com orgulho e expressão alegre que comentavam comigo terem dançado até às seis, oito ou até às dez horas da manhã. Quando eu disse que havia “aguentado” até por volta das três horas, percebi a decepção dos meus interlocutores: “só isso?”, indagaram.

Foram nestas conversas informais que meus amigos contaram sobre suas motivações para virem até a festa, enfrentando chuva e atoleiros. “Ah, a gente veio brincar um pouco, né” explicou um jovem de outra aldeia da T.I. Igarapé Lourdes, que fez duas viagens com seu carro para deslocar toda sua família. “A gente veio encontrar os parentes”, explicou sorrindo um homem de uma aldeia distante. Já um morador local resumiu assim: “a gente participa da festa pra dançar e pra se alegrar com Deus”.

Brincadeira, encontro e alegria são as palavras-chave que abrangem as intencionalidades de muitos dos presentes, não apenas ikólóéhj, mas também de outras etnias. Outras expressões comuns que ouvi foram “conhecer outras pessoas, outros irmãos”, “dar uma olhada no movimento” e “encontrar o pessoal”. Enquanto as pessoas comuns

justificavam assim sua presença, os indígenas mais envolvidos com a igreja, a diretoria e os pregadores davam respostas um tanto distintas. Um líder da igreja zoró, citando a bíblia, explicou assim:

O salmo 150 fala que podemos louvar ao Senhor com danças, a gente dança para Deus, os cocares e os enfeites que a gente usa, antigamente eram dos Gojánéhj, hoje são de Deus. Essa festa dos Gojánéhj a gente não tem mais porque Deus não gosta, tem macaloba azeda que deixa bêbado, Deus não quer. Ano passado teve uma festa dos Gojánéhj lá nos Zoró. Era um vídeo para o pessoal da associação, o pessoal tocou flauta. Eu sei tocar flauta dos Gojánéhj, mas não toco mais porque não é pra Deus, hoje nossa festa é outra.

Como este homem deixou bem claro, o objetivo desta festa é outro; não é festa para

Gojánéhj (ou outra festa tradicional qualquer que demanda, necessariamente, o consumo de

macaloba azeda): é festa para Deus porque prescinde do ì sòhn. Apesar disso, girar a noite toda, de um lado para outro, ao som dos hinos cristãos compostos pelos próprios indígenas, lembra as danças realizadas ao som das flautas totorahv nas festas Gov Akàe33. Trata-se de um conjunto de três flautas longas, cada uma emitindo uma nota musical, tocadas respectivamente por três homens que giram de um lado para outro. Os dançarinos acompanham os músicos, primeiro para a esquerda, em seguida para direita. A experimentação fica por conta do ritmo – mais agitado, similar a um forró eletrônico (embora eu não tenha conseguido precisar).

Um dos missionários explicou assim34:

Eles estão exercendo a cultura deles dentro da igreja, mas de outra forma e com outros valores, a dança antes levava ao adultério, agora não leva mais, a chicha antes era azeda e levava à embriaguez, à confusão, agora é doce e não causa mais confusão [...] a liderança da igreja pediu que os cânticos e danças fossem até a meia-noite, mas se estenderam até o amanhecer, de forma espontânea, como era nas festas tradicionais.

Por um lado, sua fala é coerente com o discurso das missões protestantes, que reduz a cultura indígena a seus aspectos visíveis e materiais, e desqualifica as festas tradicionais (tratando-as como “adultério”, “embriaguez”, “confusão”). Por outro lado, a fala possui alguns equívocos, a começar pela questão do adultério. Tal conceito de relação sexual fora do casamento classificada como pecado não existia para os Ikólóéhj antes da cristianização; portanto não dá para dizer, mesmo do ponto de vista do branco, que havia adultério. Por outro lado, deste mesmo ponto de vista, estes “adultérios” – que não o são para os Ikólóéhj – continuam acontecendo, como bem demonstram as medidas repressivas indicadas acima.

33 Festa da matança sacrificial de um animal de criação (Gov), geralmente queixada, analisada em detalhes por Dal Poz (1991) entre os Cinta Larga e referida por Felzke (2007) e Bento (2013) entre os Ikólóéhj. 34 Entrevista concedida em Ji-Paraná em março de 2013, nove meses antes de eu experienciar a festa da igreja, por um casal de missionários da MNTB.

Outro equívoco é a questão da “confusão”. Embora não presenciasse brigas físicas entre os festejantes, inúmeros conflitos, tensões e fofocas em razão da festa – mesmo sem o ì sòhn – foram apontados por meus interlocutores, reforçando a tese de que inúmeros não- entendimentos interétnicos e equívocos estão presentes na relação entre missões protestantes e indígenas.

Especialmente equivocada é sua percepção de que há “outros valores” envolvidos. Sua fala remete ao entendimento de que outra festa, totalmente diferente das ancestrais, está em andamento quando os Ikólóéhj estão dançando: como se houvesse uma substituição de uma pela outra. Coisas muito distintas mostraram e disseram meus interlocutores. Em parte, no nível dos discursos (sobre a ausência de ì sòhn, do tipo de aparato musical, dos elementos dos brancos presentes) pode ser verdade; mas a questão é mais profunda. No que diz respeito à socialidade (incluindo aí as relações sociais com humanos e não humanos), à antecipação da dança e alegria eternas do mundo póstumo, aos namoros, à busca de alegria, e outros elementos descritos adiante, parece ser a mesma festa – transformada e atualizada, evidentemente – que está em andamento.

De fato, na opinião de alguns, a festa como é realizada hoje é melhor do que as festas tradicionais pela ausência do ì sòhn. Outros, no entanto, que dançam efusivamente nesta festa, se sentem saudosos daquelas que contavam com a presença dos xamãs. Por inúmeras vezes ouvi, de crentes e não crentes, o lamento de que eu teria “chegado tarde” para “registrar a cultura”, que eu deveria ter visto quão “bonitas eram as festas na época de Xípo Ségóhv” – o mais reputado xamã ikólóéhj. Diante deste saudosismo, os Ikólóéhj se empenham em tornar bonitas as festas da igreja, as quais compõem sua “cultura”, pois são “dança de verdade” como disse meu amigo Sebirop.

Em um dos dias da festa, à tarde, um caçador zoró foi convidado para matar a flechadas alguns animais de criação (gov) de famílias locais, quatro queixadas e um macaco. Estes animais, criados por estas famílias durante anos, possuem um significativo valor subjetivo35, mas também econômico, para seus donos. Andando pela aldeia identificamos

inúmeros chiqueiros (cercados) com caititus (bebekur) ou queixadas (bebe) sendo criados para o sacrifício futuro. Tradicionalmente tais animais de criação eram mortos no auge da festa Gov

Akàe, em que o gov (animal de criação) era atingido por uma saraivada de flechas – que

passavam a pertencer ao dono do animal morto, como pagamento por essa morte.

35 Para uma melhor compreensão da relação dos indígenas com os animais de criação ver Vander Velden (2012).

Atualmente, sem este ritual público, a carne dos animais é preparada em forma de espetinhos, assada na palha e vendida a altos preços durante as “festas da igreja”.

É emblemático que embora a festa Gov Akàe não seja mais praticada, o seu momento- auge seja reproduzido nas casas das pessoas durante a festa da igreja. Como podemos compreender isso? Há evidentemente o aspecto econômico: as famílias aproveitam a aldeia cheia para auferir algum dinheiro. Além da carne de caça, manjar muito valorizado, uma intensa circulação de mercadorias teve lugar nos dias festivos – bolos, sorvetes, sanduiches, refrigerantes e roupas foram comercializados por indígenas e brancos. Da parte dos Ikólóéhj, os recursos são provenientes da coleta e comercialização da castanha-do-brasil (Bertholletia

excelsa) nas semanas anteriores36. A pressa em vender os sacos de castanha na véspera de

Natal está relacionada ao desejo de comprar roupas, calçados e ter algum dinheiro pra gastar com guloseimas nos dias de festa.

Mas suspeito que algo mais esteja envolvido no sacrifício do gov durante o Natal. Veremos que o Gov Akae, diferente de outras festas tradicionais, era realizado unicamente pelo prazer em juntar as pessoas para beber e comer. Nesta festa, aparentemente nenhuma relação era estabelecida com os espíritos tal como era efetivado nas festas dos Gojánéhj (festa do milho verde) ou dos Garpiéhj Náe, dedicada aos povos celestes, criadores de queixadas e doadores de sua criação para os Ikólóéhj.

Dal Poz (1991) entende a matança do animal de criação entre os Cinta Larga como um ato vicário em que o gov criado pelas mulheres da aldeia – e portanto familiarizado – está associado ao grupo metonimicamente; e “[n]esta situação destina-se a substituí-lo no ato sacrificial” (DAL POZ,1991, p.260). Tal ato, por sua vez, constitui-se em uma operação simbólica que “busca reintegrar anfitrião e convidado, Nós e os Outros”, já que necessariamente é o convidado que mata o animal (idem, p.258). Não por outro motivo, o caçador zoró foi chamado para o ato como apontado acima.

Enquanto os govéhj estavam sendo flechados nos terreiros das casas, nos tapiris do entorno da igreja, os visitantes se entretinham sentados em suas redes, conversando, comendo, bebendo refrigerante, macaloba doce (ì parar) – não fermentada, a única permitida no âmbito desta festa – e acompanhando os veículos que chegavam e saíam. A tranquilidade da tarde levemente chuvosa era quebrada eventualmente, quando alguém aparecia jogando punhados de balas ao alto e para os lados. A algazarra era total, as crianças corriam para

36 Para uma descrição detalhada da coleta da castanha entre os Ikólóéhj ver Felzke (2007) e Ott e Felzke (2012).

“catar” os doces e garantiam a diversão dos adultos que assistiam e riam muito. Desta forma, todos esperavam o culto noturno.

Além dos lanches disponíveis para compra, os membros da igreja ikólóéhj serviram refeições gratuitas aos convidados. Obviamente isto faz parte da obrigação dos anfitriões e seria uma quebra grosseira de etiqueta não observá-la. Estas refeições foram elaboradas a partir de doações de gêneros alimentícios ou dinheiro por parte dos membros da igreja. Segundo um dos organizadores da festa, o bapi, “nós compramos dois bois da fazenda C... para o almoço de Natal”, referindo-se a uma fazenda das redondezas da T.I. Igarapé Lourdes. De fato, o preparo para receber os convidados na aldeia Ikólóéhj começou muito antes, como veremos a seguir.