2 ème partie : Morphologie
Section 1 : La mobilisation de forces militantes
B. La mouvance gaulliste
Como vimos no Capítulo 4, o sistema de saúde boliviano, declarado universal na última constituição, ainda está em fase de implementação. A realidade descrita por nossos entrevistados é de escassez de hospitais e clínicas de saúde, especialmente para aqueles que não possuem recursos para pagar hospitais particulares. Por isso, existe uma grande utilização da medicina tradicional, única forma de acesso à saúde para cerca de 30% da população (OMS/OPS, 2004). Essas práticas e técnicas tradicionais são inclusive reconhecidas pelo governo em seu Plan Nacional de Desarrollo que pretende investir em seu desenvolvimento, “garantizando la preservación de la propiedad
intelectual del conocimiento tradicional de los pueblos indígenas y originários”, para
construir uma alternativa à medicina ocidental (Ministerio de Salud y Desporto, 2006: 38). A população também reconhece sua importância, como mostra a fala do entrevistado 50, que utilizava a medicina tradicional para se tratar quando morava na Bolívia:
“Não são médicos, mas possuem uma ampla experiência. (...) Agora tudo isso está deixando de existir, porque a ciência está avançando, mas quando não existiam, eram as "parteiras" como chamamos, elas faziam o parto e desde aí vinha esse conhecimento que ainda continua na Bolívia" (homem, 30 anos, de La Paz, há 8 anos em São Paulo).
Muitos de nossos entrevistados, mesmo após a migração para o Brasil, continuavam utilizando esse tipo de medicina, e até a preferiam, por acharem mais natural. Foi comum ouvirmos usuários que utilizam chás e outros tipos de “remédios tradicionais” como primeira alternativa de tratamento, mostrando um traço de continuidade cultural. Só para casos mais graves é que vão ao hospital. É o caso da entrevistada 49:
“Quase nunca vou (ao posto), às vezes não vou nem quando fico doente. Prefiro tomar bastante água, e ervas medicinais… prefiro essas coisas que tomar remédio. Prefiro me tratar em casa, porque lá no posto eles só te dão remédio, e eu não quero acostumar meu corpo com remédio” (mulher, 25 anos, de Cochabamba, há 5 anos no Brasil).
Dentre os chás e ervas medicinais que eram consumidos na Bolívia, citados por nossos entrevistados, destacam-se: mate, eucalipto, orégano, erva doce, menta chinesa,
unha de gato, alho, casca de laranja, camomila e erva doce e, evidentemente, a coca. No entanto, alguns entrevistados tinham dificuldade de adquirir esses produtos no Brasil, já que, em geral, o comércio étnico vende esses produtos a preços muito superiores dos praticados na Bolívia. Talvez este seja o principal motivo pelo qual muitos de nossos entrevistados perderam esse hábito, e passaram a utilizar remédios alopáticos, como por exemplo, a Dipirona, que são distribuídos gratuitamente na rede de saúde pública brasileira. Quando questionados se sentiam falta das medicinas tradicionais, muitos respondiam que não, tornando-se até descrentes de seus efeitos, como é o caso da entrevistada 45: “Não, somente a irmã do marido da minha filha utiliza ervas naturais. Ela utiliza para algo nos pulmões, mas não consegue curar” (mulher, 51 anos, de El Alto, há 3 anos no Brasil).
A gratuidade dos remédios alopáticos é, inclusive, uma das questões mais destacadas por nossos entrevistados como positiva. A entrevistada número 48, por exemplo, revela que os medicamentos não só são grátis, como chegam diretamente em sua casa: "Vamos ao posto por causa dos medicamentos, que às vezes custam. Mas eles nos dão os medicamentos, que até chegam na sua casa.”. A entrevistada 57 tinha até que enviar medicamentos brasileiros aos seus familiares bolivianos:
“Remédios (na Bolívia) são difíceis. Meu pai mesmo me diz: ‘Me manda dipirona, me manda analgésicos porque eu estou com muita dor’, então às vezes eu mando. Porque lá tem que comprar tudo” (mulher, 36 anos, de Oruro, há 12 anos no Brasil).
Parto sem dor
Na Bolívia, a maior parte dos partos é natural, realizado em casa com a ajuda das familiares ou de parteiras. Muitas de nossas entrevistadas, que tiveram seus filhos na Bolívia, realizaram seus partos assim, como conta a entrevistada 42: “Ninguém na Bolívia faz parto de cesariana porque é mais caro. Temos que pagar e também pagamos pelo parto normal. Assim, a maioria prefere ter filhos em casa” (Mulher, 47 anos, oriunda de La Paz, a 5 anos vivendo em São Paulo). Resultado disso é o alto índice de mortalidade maternal: em 2003, a cada 100 mil partos realizados, 229 mulheres morrem, um índice muito superior ao Brasileiro, que é de 74,5 mulheres (Situación de Salud en las Americas: Indicadores Básicos, 2008 apud KLIKSBERG, 2007). Nossas entrevistadas que tiveram filhos na Bolívia, como é o caso da entrevistada 57, relatam partos longos e dolorosos, em que mãe e criança sofreram muito: “Não queriam fazer cesariana porque eu não tinha dinheiro. Aí foi com fórceps. Tiraram minha filha com
uma ferida na cabeça. O segundo (parto) a mesma coisa, quebraram o bracinho de tanto puxar...” (Mulher de 36 anos, natural de Oruro, vive no Brasil há 13 anos).
Talvez por isso o parto seja o momento em que nossas entrevistadas mais valorizem os serviços brasileiros de saúde. Das 16 mulheres que entrevistamos, 11 mulheres tiveram filhos em hospitais brasileiros. Não ter que pagar, não sentir dor, maior segurança e menor sofrimento da mãe e da criança são os argumentos mencionados para expressarem a preferência pelo parto no Brasil.
Segundo a entrevistada 65, do serviço social do Hospital Maternidade Leonor Mendes de Barros (nível gerencial), a população boliviana prefere o parto normal. O hospital tem hoje um centro de parto natural, e são as bolivianas que mais o utilizam: “Elas são indígenas, elas querem ter filho de maneira natural. Hoje a gente tem o centro de parto normal, e teve até parto de cócoras aí. (...) A população boliviana é a que mais usa. Uma porque a constituição física delas facilita o parto natural, e tem a questão cultural, então elas insistem no parto normal”. Como já afirmamos anteriormente, a entrevistada 65 entende que, além da cultura, a necessidade de recuperação rápida para voltar ao trabalho possa ser uma justificativa para essa preferência pelo parto normal, já que a recuperação do parto cirúrgico é mais lenta.
Entre nossas entrevistadas não identificamos uma preferência em parto normal, mas todos as entrevistadas afirmaram que preferiam o parto no Brasil porque, mesmo quando é normal, havia menos dor, já que existe a possibilidade de se aplicar anestesia. Essa relação é bastante enfatizada pelas imigrantes que tiveram filhos na Bolívia e no Brasil. A entrevistada 44 conta por que prefere ter seus filhos no Brasil:
“Porque aqui, quando uma pessoa vai "ganhar neném" eles te ajudam, né? Mas na Bolívia, não…é diferente, é parto normal, não leva nenhum corte, não colocam nenhum tipo de injeção, nada…a mulher tem que sofrer mesmo. Agora aqui eu tive minha filha, ela nasceu muito gordinha, quase com 5 kilos. Mas eles me aplicaram uma injeção e eu fiquei dormindo. Nem vi que eu tinha ganhado nenê" (mulher, 30 anos, de La Paz, há 8 anos em São Paulo).
Doenças Sexualmente Transmissíveis
Se tentar aproximar os imigrantes dos serviços de saúde já é um desafio para as equipes dos postos de atendimento, isso se torna ainda mais difícil quando se trata de doenças sexualmente transmissíveis. O Brasil já tem uma política de prevenção bem estabelecida, mas a Bolívia ainda deu poucos passos nesse sentido, e falar sobre o assunto ainda é um tabu. É o que confirma a entrevistada 63, agente de prevenção do
Programa DST/AIDS e boliviana, contratada especialmente para lidar com o público imigrante de seu país: “É muito difícil falar diretamente sobre isso (doenças sexualmente transmissíveis) com eles, porque eles são mais tímidos”. Talvez este seja um dos motivos pelo qual os imigrantes bolivianos apresentem elevados índices de contaminação por doenças sexualmente transmissíveis, como é o caso da sífilis. Conforma mostra a entrevistada 62, da Associação Paulista de Medicina e Escola Paulista de Medicina - Gestora dos hospitais e postos de saúde da microregião Vila Maria e Vila Guilherme - Nível gerencial:
“Então, por exemplo, tratar doenças sexualmente transmissíveis é uma coisa muito difícil, especialmente porque os homens se recusam, apesar de que isso não é uma coisa só de bolivianos, os nossos também são resistentes, né. Então essa gerente que está começando agora, ela é ótima porque ela chega e fala assim, “Olha, se você não tratar vai cair, vai apodrecer’’, ela vai assustar, eu falei: ‘Sônia, você não pode falar assim’, ‘Mas se não falar assim eles não tratam’. Então tem coisas da cultura...”.
No entanto, passado esse constrangimento inicial, a população consegue completar o tratamento. É o que explica o entrevistado 61, da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, Programa DST/AIDS (responsável pela articulação, nível não gerencial):
“Uma coisa muito bacana da população hispânica é que, se eles não têm que mudar de casa por causa do trabalho, eles seguem direitinho o tratamento. Então isso é muito positivo, porque vale a pena para a secretaria de saúde o investimento, porque você consegue quebrar o ciclo. Eles também trazem mais facilmente o parceiro, consegue convencer a fazer um tratamento”.
Ele ressalta o fato de que é preciso que aconteça a formação de vínculo entre o usuário e o serviço de saúde que frequenta. Nesse sentido, a forma como esses imigrantes vivem, sempre mudando de casa em busca das melhores oficinas para se trabalhar, pode representar uma dificuldade em dar prosseguimento a tratamentos mais longos, como é o caso da Sífilis e da Tuberculose, já que a regionalização do SUS faz com que o paciente passe a pertencer a outro posto de saúde. Seria importante, nesse sentido, que mesmo após a mudança de bairro, ele pudesse continuar frequentando o mesmo posto de saúde que já está acostumado.