Partindo da oficina claustrofóbica de Mestre Boavista cheguei, depois de várias voltas, a Francisco Dimas Duarte e assim também ao seu mundo isolado, algures no prolongamento da Serra de Monchique. O universo no qual me introduziu Dimas Duarte, não se encontra apenas isolado no plano geográfico, mas também do meu mapa cognitivo.
O monte encontra-se numa pequena colina, logo abaixo de uma capela dedicada a Santa Bárbara. Dali, vêem-se os bosques de eucaliptos da serra em frente, onde Dimas Duarte cresceu com mais oito irmãos. Quando começaram a plantar ali os eucaliptos, a patroa arrendou-lhes este monte onde costumavam viver quatro famílias. Hoje vive ali sozinho com a mulher porque os seus oito filhos saíram todos de casa.
Dimas Duarte mostrou-se logo disposto a recitar as suas quadras ao primeiro encontro. No dia combinado, um sábado à tarde, levei o gravador comigo e coloquei-o em cima da mesa no meio da sala grande e alta, quase vazia, ao lado de uma jarra com rosas de plástico. A sua mulher e uma vizinha estavam sentadas em bancos, encostadas à parede, ambas muito direitas, com toalhas sobre os joelhos. Um velho tio dormitava no sofá. Estávamos sentados à mesa, bebendo medronho caseiro e comendo bolos. Depois de extensas considerações sobre a qualidade e o poder curativo do medronho, empurrou o chapéu para a nuca e perguntou-me: "Comecemos? Têm que ser só quadras ou podem ser também histórias? Posso também cantar?" Começou por cantar uma longa canção sobre a rivalidade entre o sol e a terra, sobre os valor respectivo de cada um, perguntando-se qual deles teria mais valor: "A terra é um jardim, nós somos todos filhos da Natureza, mas tudo isto não seria nada sem o sol divino." A canção é um amargo desafio e sem resolução entre o "lá de cima" e o "cá de baixo".
De seguida, Dimas Duarte cantou uma canção sobre a morte. Introduziu-a com as seguintes palavras:
"A tarde inteira estava-me lembrando de um verso, dedicado à verdade, imita a verdade, até tem uma grande percentagem de verdade. É morrer, uma coisa que temos certo:
Todos morrem naquilo que fazem – os peixes morrem nadando, as aves morrem voando, o pobre morre trabalhando e os ricos morrem gozando.
A morte torna-os todos iguais, aqueles que não têm nada e os ricos."
Tendo terminado a canção, começou a falar dos tempos passados, sobre como era a vida durante a ditadura do Salazar e sobre a PIDE, em tempos em que não se podia falar abertamente, e havia pessoas que não viviam do trabalho, mas sim de espiarem os outros. Seguiram-se histórias sobre a figura mítica do Bandarra. O tema comum a todas estas histórias era o facto de, de uma maneira oude outra, se reportarem sempre à luta, à injustiça, à entreajuda mútua e à inteligência, ao gracejo e à agilidade da palavra dos supostos enganados, dos mais desfavorecidos. O seu trunfo é o conhecimento de que a morte, que equilibrará tudo, se encarregará da vingança e da justiça final. Durante a nossa conversa, caiu sobre o monte uma forte trovoada. Dimas Duarte cantava e lá fora relampejava e trovoava. Mas as mulheres mostravam-se inquietas, receavam a trovoada e escondiam a cabeça sob os lenços e pararam de comer e de falar. Deixavam Santa Bárbara, a padroeira das tempestades, fazer o seu trabalho.
Numa outra ocasião, Dimas Duarte sugeriu que visitássemos o seu amigo, Ti Manuel, que vive num monte a alguns quilómetros do seu. Insistiu que, por ele iria a pé, mas que seria melhor fazer pelo menos metade do caminho de carro, por minha causa. Junto de um cruzamento na estrada, estacionámos o carro na berma e enveredámos por um caminho de terra e cascalho. Ao dar o primeiro passo no caminho, Dimas Duarte começou a contar que o monte que ficava na bifurcação pertencia a uns lisboetas e que dantes vivia ali um lavrador. O lavrador tinha-se enforcado "naquele carvalho ali, a mulher era muito má para ele"; o carvalho não tinha folhas e a sua casca era negra, como que prestando silencioso testemunho do trágico acontecimento. Depois, chamou-me a atenção para vários limites de propriedade invisíveis na paisagem, atravessámos um campo, subindo um monte e Dimas Duarte não parava de observar e apanhar plantas, explicando- me ao mesmo tempo como se chamavam e para que serviam. Todas as plantas são boas para alguma coisa, dizia, hoje em dia, se temos uma doença vamos ao médico, mas um dia lamentaremos ter esquecido o poder curativo das plantas. Eu seguia-o, perguntando-me se não deveria começar a registar os conhecimentos etnobotânicos de Dimas Duarte, quando fomos surpreendidos por uma serpente
rastejando pelo caminho, mesmo à nossa frente. Furioso, Dimas Duarte, começou a praguejar, lamentando não ter um pau para matar o bicho: "Estas serpentes só trazem desgraça. Metem-se pelas saias das mulheres com bebés e mamam-lhes o leite". E contou-me uma estranha história sobre um jovem que, não há muito tempo, há vinte anos talvez, morreu na Aldeia de Santa Clara por causa de uma mulher, de uma serpente e de uma bebida qualquer. No final, fitou-me e disse-me que eu, claro, não acreditava no que ele me estava a dizer, ele já sabia que isso eram disparates dos velhos, mas que um dia nós, os mais novos, também veríamos que todas estas coisas são reais.
Todos os nossos encontros se assemelhavam a uma encenação, na qual até mesmo a natureza ocupava o seu lugar, com Dimas Duarte como realizador. A trovoada, Santa Bárbara, a serpente, o carvalho e a poesia do alto e do baixo, do poder e da impotência, do domínio e da opressão, e da fusão com a morte num outro mundo – fora das coordenadas conhecidas, dentro das quais Dimas Duarte teve que viver uma vida nas mais adversas condições. Neste Além, ele é o professor e o sábio, e o antropólogo é o seu aprendiz impressionado e aplicado.
Na última das minhas visitas a Dimas Duarte, preparou-me uma singela encenação: organizou, em meu benefício, um convívio com os seus amigos e conhecidos numa tasca – porque, dizia, as quadras não se recitam quando estamos sozinhos, mas em sociedade. Como recompensa pela gravação das cassettes, pude ter o privilégio de me sentir por algumas horas um émulo do "guardador de vozes" Michel Giacometti, recolhendo quadras, décimas, cantos e contos, anedotas, canto de baldão e outros tesouros intangíveis.