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A - Les circonstances et les conditions de nomination dans les Groupes spéciaux

a) O efeito mediático e a imaginação cultural

O que discutimos aqui a respeito da palavra "património", e é fundamentalmente de mudanças semânticas sociais que se trata, não constitui somente problema político. Isto é, não se trata apenas de um problema da elite em recrutar o campesinato para os elevados valores do proteccionismo, valores e inquietudes que vingam nos estratos superiores da sociedade. Trata-se, sobretudo, de um problema histórico ou, melhor dito, de um problema que decorre do contexto cultural e sócio-económico que envolve o campesinato asturiano. Em termos propriamente lexicais, trata-se de um problema que não só respeita à introdução de um conceito específico, e das práticas que nele estão implicadas, que se revela pertinente para a vida e experiência do próprio campesinato – e não somente dos estratos mais altos –, mas trata-se também de contextos que sofrem processos de mudança sociais e culturais relevantes.

As mudanças referidas acompanharam o processo de globalização cultural, provocando em simultâneo um sentido de alienação da própria cultura mas também um desejo, reactivo, de recuperar o "que é nosso" ou, melhor dito, "o que nos é próprio". Basta reflectir um pouco sobre o chamado "efeito mediático", isto é no facto de que tantas coisas vistas na televisão e noutros meios populares de comunicação serem provenientes de países poderosos no que respeita à comercialização de produtos de comunicação de massa, os quais, ainda que sejam ocidentais, não têm origem cultural hispânica e, muito menos, asturiana.

O consequente movimento compensatório e celebratório dos vários patrimónios supõe transformações na semântica das classes sociais, que tomam diferentes direcções. Recorrendo a alguns exemplos, identificámos uma evolução na ideia do que é comum e do que é específico na consideração de patrimónios regionais, históricos e arquitectónicos, e na consideração de patrimónios do Estado. Mas reportámos também, em simultâneo, um movimento suplementar de ajuste da ideia de património ao nível da arquitectura paroquial ou até mesmo das práticas pastoris, dissolvendo gradualmente as resistências ancestrais em aceitar ou reconhecer que possa existir, a um nível político distanciado da vida campestre, algo designado património que seja merecedor de respeito, para além do círculo estreito dos interesses da família ou da paróquia. Dissolve-se também a resistência à ideia de existência de que uma realidade nacional ou provincial pode ser "da família". Isto ocorre devido à admissão gradual de que as coisas rústicas da vida local, como uma pita pinta, um queijo ou um espigueiro, uma tradição de canto, são também merecedoras da designação de "património".

O que reconhecemos nos avatares recentes da expressão "património" é uma associação entre interesses nacionais e vicinais, uma união de bens que antes, e desde tempos imemoriais, haviam sido de exclusivo proveito familiar ou local (da aldeia, da paróquia ou, eventualmente, da comarca). As resistências a que uma comunidade simbólica se verta sobre a região ou sobre o Estado-nação tende a desaparecer quando o camponês começa a falar da sua galinha, do seu espigueiro, do seu queijo ou da sua tonada, como um "património" valioso e que deve ser protegido.

Como foi repetidamente sugerido nas décadas recentes, estamos perante um movimento de reconhecimento imaginário de uma "comunidade" estabelecida a níveis mais elevados, como aqueles são sugeridos na expressão "património nacional". Procurámos ilustrar aqui, pois, um tipo de evolução que tem vindo a acontecer nos contextos rurais da Europa Ocidental, em termos que podemos reconhecer como típicos, tendo também em consideração a evolução ocorrida no que é entendido como o sentido de propriedade da família, da aldeia ou da paróquia. O que está aqui em causa são mudanças semânticas nos níveis ou âmbitos de uma comunidade imaginada, evolução que institui uma comunidade mais ampla e, sem dúvida mais abstracta. Trata-se, portanto, de uma evolução social por via da qual ocorre uma "desfamiliarização" da vida local e uma "refamiliarização" imaginária da vida nacional. Entendemo-la como um esforço vindo do topo, de imposição de uma "familiarização" destinado a superar resistências locais às transformações das possibilidades de imaginar colectivamente. Trata-se enfim, de algum modo, de procurar convencer o povo mais humilde da utilidade de dirigir a sua imaginação para níveis abstractos e de reconhecer o interesse em participar naquilo que Benedict Anderson designou como "comunidade imaginada" (Anderson, 1983); em participar, no fundo, no processo de reconhecimento de patrimónios comuns, "de todos nós". Não podemos adequadamente falar de patrimónios sem tomar em consideração esta evolução semântica e perceptiva dos vários pontos de vista, com as correspondentes tensões entre o que é local e o que é nacional – e, já agora, mesmo o que e internacional ou global –, sem dar conta das dinâmicas imaginativas que aqui expusemos ao nível rural e na perspectiva do camponês.

b) O efeito mercado-mercado

Outra perspectiva possível sobre a evolução referida é aquela que se revela paricularmente atenta aos contextos económicos e à influência alienante e desintegradora dos avatares do mercado na vida aldeã. Esta perspectiva tem

sido especialmente considerada por antropólogos espanhóis especializados em estudos do campesinato e da classe operária do norte de Espanha, sobretudo nas investigações que foram feitas em torno da cultura asturiana.15

Nestas propostas analiticas, distingue-se entre "cultura como património" e "património cultural", focando principalmente a evolução da vida de aldeia mas procurando também equacionar o aumento progressivo das várias influências exteriores. Observa-se nestes estudos que o mercado tem o poder de transformar uma situação cultural cuja estabilidade era dada como assente (a "cultura como património") – que seria experimentada de forma mais ou menos inconsciente – numa situação na qual a cultura, ou alguns dos seus aspectos, são conscientemente manipulados como "património cultural". O objectivo destas manipulações tende a ser prático-económico, com óbvios intuitos de criação de mais-valias financeiras – por exemplo, produzir e vender aprestos e peças de artesanato, não para o uso local mas com a intenção de atingir o mercado turístico. Constróem-se também, ou reparam-se casas e outros edíficios, e embelezam-se os povoados a pensar nos forasteiros, quer estes sejam membros de um júri provincial que outorga prémios a este tipo de melhorias ou turistas e veraneantes, nacionais ou estrangeiros. Do mesmo modo, celebram-se festas de aldeia não apenas para os habitantes locais mas também para atrair os turistas e o respectivo dinheiro. Genericamente, os povoados transfiguram-se com o propósito de atrair verbas e apoios do governo autónomo do Principado, do Estado ou dos fundos europeus, estes ditos de coesão, ou seja, que têm como propósito a equalização da qualidade da vida colectiva dos países-membros da União Europeia.

c) O efeito de sobreposição temporal

Deste terceiro efeito poderíamos dizer que é latente ou residual na condição humana, decorrendo de uma consciência complexa, que é em parte uma má consciência, muito comum no ser humano. Falamos da consciência da perda das memórias do passado, por negligência ou, porventura mais grave, por falta de respeito para com os tempos idos – falta de respeito para com "nossos" pais,

15 Esta perspectiva foi formulada pela primeira vez por José Luis García, no seu artigo ""De la cultura

como patrimonio al patrimonio cultural" (García, 1998). Foi aplicada noutros estudos posteriores, nomeadamente numa monografia de Elisabeth Lorenzi Fernández (Lorenzi Fernandez, 2004). Esta monografia apresenta e comenta uma investigação datada dos anos sessenta do século XX que havia sido realizada no mesmo terreno de estudo por Ramón Valdés de Toro). O objectivo deste estudos é considerar a evolução dos povoados rurais – até então relativamente fechados e auto-suficientes, "onde a cultura é património"- , à medida que se tornam em espaços sociais muito mais abertos ao mundo exterior, povoados cujos habitantes elegem elementos específicos do seu património cultural como meios de enfatizar e celebrar a sua particularidade perante "os de fora".

avós e antepassados, e para com os bens que lhes pertenceram, e que têm uma realidade própria, sendo de alguma maneira fundamentos do que somos, temos e conhecemos no presente. Neste efeito, encontramos sentimentos e ressentimentos obscuros, cujo estudos pertencerá sobretudo aos domínios da psicologia, ou talvez mesmo da psiquiatria. Deles podemos, não obstante, dizer que animam e justificam os intentos de celebrar, reanimar e recriar o património. Em todo o caso, não podemos ignorar estes sentimentos quando nos propomos entender as emoções que afloram quando as memórias tangíveis e intangíveis do passado são celebrado por via da sua patrimonialização.

Recentemente, várias comunidades locais asturianas têm procurado reunir espólios fotográficos para com eles realizar exposições, que tanto documentam práticas quotidianas como dias festivos e permitem imaginar práticas que no passado foram reais para as famílias, para os lugares e para as paróquias rurais. Reconhecemos aqui uma clara intenção de produzir sobreposições entre tempos díspares e de emprestar uma actualidade a tempos cuja memória se estava a perder; quer dizer, mostram-se imagens de pessoas, de actividades e de coisas que haviam sido temporariamente perdidas por força de algum desleixo ou devido aos revezes da fortuna, mas que por essa via se crê poderem ser restaurados como património.

Conclusão:

Níveis do que "é nosso"

É uma obrigação moral preservar e estudar todo esse património legado pela natureza e pelo esforço dos nossos antepassados16

O que é de todos não é de ninguém

(ditado popular espanhol)17

Neste ensaio, procurámos inspeccionar uma distinção promovida nas Astúrias entre propriedades materiais herdadas em comunidades reais e os patrimónios, nem sempre materiais, que alguns grupos de elite se propõem conservar a favor de "comunidades imaginadas", que entendemos como abstractas e muito menos palpáveis que as comunidades reais que enquadram a vida dos habitantes do campo.

Deparámo-nos, não obstante, com uma evolução das maneiras de entender, a tal ponto que a palavra "património", cuja enunciação bastava antes para levantar desconfianças dos camponeses asturianos sobre quem a pronunciava, goza hoje em dia entre eles de um uso relativamente favorável, ainda que os seus significados se revelem distintos

16 In "Al grano: el patrimonio asturiano" (Neira, 2003).

consoante os contextos de uso. Segundo um padrão de entendimento que é clássico nas ciências sociais, entendemos esta mudança como uma evolução quase irreversível de imaginários que estavam radicados na família presente, para imaginários construídos por referência à "família simbólica ausente". A primeira situação é típica de sociedades camponesas tradicionais, envolvidas por laços de parentesco, de consanguinidade e afinidade, atadas pelo "sangue" através de casamentos e de nascimentos reais, e que enfrentavam o repto de distribuir heranças. A segunda situação é típica de sociedades associativas onde vingam enlaces de tipo mais moderno, ligadas por contratos e interesses mais alargados e muitas vezes baseadas, não em proximidades de corpo e alma, mas em relações sociais transitórias, anónimas e distantes.

A exposição evolutiva que procurámos fazer do destino da palavra "património" e dos seus variados usos não pretende querer dizer que não perdurem, ainda, instâncias de resistência às novas acepções que o termo ganhou, ou que estas já tenham ganho um assento definitivo na região onde temos realizado o nosso trabalho de terreno. Mas, apesar da resistência que todavia se sente nos contextos rurais, temos constatado que na última década aumentaram as tentativas de reconhecer, proteger e até mesmo de celebrar os "patrimónios". Há, hoje, cada vez mais empenho em reconhecer que um determinado edíficio ou paisagem, monumento ou construção rural, animal, prática ou produto campestre tem algo de singular e de meritório. É um reconhecimento (e uma celebração) de algo "nosso" e, portanto, digno de ser identificado e reconhecido como património da região, do Estado-nação ou até do conjunto da humanidade.

Estas tentativas de identificar e proteger "o nosso património" ocorrem em níveis distanciados dos momentos, tão domésticos, que envolvem discussões acerca de bens cobiçados, postos em jogo sempre que se trata de transmitir a herança a uma nova geração. O património, "que é de todos", é em geral um bem muito menos debatido que a herança familiar. Ainda assim, as invejas e cobiças tradicionais acerca do "que é nosso" e de " que é de outrem", não estão completamente ausentes quando se considera a declaração oficial de um dado património, até porque podem estar em jogo consequências económicas. Foi isto mesmo que observámos no caso do património constituído pelo Parque Nacional dos Picos de Europa, um exemplo no qual se joga o controle da exploração de terras ancestrais.

O argumento que aqui avançamos é de natureza histórica e aceitamos que ele é, de certo modo, simplista. Nele, avançamos que a ideia de património deriva do imaginário "do que é nosso" e depende do nível ao qual este imaginário opera e persuade, até se instituir como uma convicção assente, "de todos". Esta institucionalização tem sofrido, como vimos, algumas transformações no curso da história recente. Até há bem pouco, não persuadia muito os pastores asturianos dos Picos de Europa e, tão pouco, os camponeses da região central asturiana. Nem

uns nem outros, por razões tradicionais e históricas, aceitavam com facilidade a ideia de que um património que não o que se reporta à família e seus processos de herança e sucessão pudesse ter direito de existência no seu imaginário. Dificilmente poderiam imaginar os seus campos, aprestos de lavoura, edifícios e animais como bens susceptíveis de trazer benefícios não só para a família, parentela e vizinhança, mas também para "todos os outros". Dificilmente poderiam imaginar um bem que, ao ser apropriado por alguém ou por a sua parentela, não minguasse o que era de outrem; um bem que, ao repartir-se, pudesse ser multiplicado num horizonte imaginário mais alargado e distante. Mas hoje em dia já logram imaginar uma espécie de posse com a qual "todos" se podem identificar e cujo cuidado pode trazer benefícios para "todos".

Por via deste processo, infiltra-se nos imaginários locais uma classe de bens que é vista como pertencente a unidades comunitárias maiores, sejam elas municipais, autonómicas, estatais, europeias, inclusivamente universais, com a qual a identificação começa a ser considerada possível, e que são vistos como merecedores de protecção e de disponilibilização para usufrutos inclusivo, de natureza cívica.

Como vimos, a declaração oficial de um património ou de um bem – seja natural ou cultural – depende muito do nível de imaginação em causa: a que nível um indivíduo ou uma comunidade pretendem e podem estabelecer uma identificação. Estes níveis superiores de identificação são, afinal, aquilo a que nos queremos referir ao falarmos de sentido cívico. É um nível de identificação conseguido por um jogo de imaginação abstracta. Para um pastor da montanha asturiana era antes difícil imaginar que pertencia e se incluía numa entidade comunitária mais ampla do que a local, numa entidade que lhe talvez lhe porporcione alguns privilégios mas também obrigações, e que proibe os usos de um tipo de bem que a sua família, aldeia e paróquia geriram e disfrutaram durante séculos. Quando no seu círculo de relações se falava de património, sempre era do património dos seus pais e antepassados que se tratava, e dificilmente se sentiria suscitado por um património e por uma família abstracta que o pudesse sustentar.

O que julgamos mais interessante neste nosso tema é que ele toca uma das problemáticas culturalmente mais marcantes dos últimos séculos vividas no continente europeu: a conversão da vida camponesa e aldeã da escala local para a escala nacional ou europeia, ou seja, do paisano em cidadão espanhol (ou de um paysan num francês; Weber, 1976), e agora em cidadão europeu ou, eventualmente, em componente da humanidade em geral. Isto não significa que o paisano abandonou a sua identidade local e provincial, mas sim, que tem hoje a possibilidade de somar à sua identidade mais palpável novas identidades mais abstractas, cujo atractivo acaba por apoucar o seu provincialismo.

À medida que a distância entre a pequena e a grande pátria esmorece, os patrimónios, na união que propõe entre os vários registos do "que é nosso", resgata identidades a níveis progressivamente mais amplos. Este processo, imaginário e hipotético, é já centenário, no que respeita aos estratos mais elevados da sociedade. Ainda que, inicialmente, pudesse ser incompreensível a ideia de que o património pudesse ter tantos níveis e escalas, e mesmo que hoje continue suscitar desconfianças, aumenta a aceitação de que o jogo é acessível a todos, como um vai e vem constante de resistências e de práticas políticas localistas. Ainda assim, damo-nos conta de como as pessoas se vão acomodando à presença, genericamente vista como positiva, do conceito de património em múltiplos contextos, o que as leva a dedicar-se às práticas patrimoniais, entendidas como práticas cívicas bem aceites ao mais alto nível da comunidade humana.

Bibliografia

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