RETENTION : OPTIONS POUR L’ECOLE PRIMAIRE
60. REFORME DE L’ENSEIGNEMENT SECONDAIRE DU PREMIER CYCLE (ESPC)
67.1 MISE EN OEUVRE DE LA REFORME
Epicuro escreveu uma obra chamada Cânon148, única a tratar “do critério”
(κριτηρίου)149
(DL, X, 30). Nela Epicuro estabelece os critérios das αισθήσεις (sensação), πρόληψεις (prenoções), πάθε (afecções) e as projeções imagéticas do pensamento150
, os quais regem seus métodos de investigação da φύσις. Apesar dessa obra não ter sido preservada, é possível encontrar informações sobre os métodos de saber epicurista nas
145 Cf. Hdt., § 42-43. 146 Cf. Hdt., § 41.
147 Cf. MOREL, 1996, p. 249.
148 Literalmente bastão de medição, cf. ASMIS, 2009, p. 84
149 Os epicuristas também chamam a Canônica de doutrina do princípio e doutrina elementar, cf. DL, X, 29-30
Cartas a Heródoto e a Pithocles, nas Máximas principais151, na obra Contra os
Matemáticos152
de Sexto Empírico e também na doxografia de Diógenes Laércio153
. O que existe de comum nos critérios elencados por Epicuro é a vinculação de todos ao critério da αἴσθησις, desde que cada um deve ser remetido, em última instância, à sensação154
. A sensação é sempre verdadeira e designa o que é. Se existe sensação é porque há interação entre corpos.
As afecções (πάθε) são um tipo específico de sensações (ἀισθήσεις), podendo ser de prazer ou dor (DL, X, 32; Hdt., 73; Men., § 129), critério prático para a escolha e a recusa. Em duas ocorrências o termo πάθε também se vincula às afecções auditivas (ἀκουστικὸν πάθος) (Hdt. 52) e eróticas (ἐροτικόν πάθος) (S.V., 18), sendo tipos de afecções dolorosas ou prazerosas. As πάθε mostram que existem agentes que provocam (ποιήτικον) as dores e os prazeres.
As sensações produzem impressões na alma, as chamadas πρόληψεις, termo cunhado por Epicuro para designar o que foi apreendido anteriormente, por isso sendo bem traduzido por prenoções. Estas prenoções são o resultado de sensações precedentes e devem ser compreendidas no contexto dinâmico de uma investigação155
. De acordo com Laércio, as πρόληψεις são evidentes (ἐναργεῖς) (DL, X, 33) e devem ser apreendidas, segundo Epicuro, para a consecução de uma investigação eficaz (Hdt. § 38). São evidentes porque são produtos de “verificações multissensoriais” (CONCHE, 1977, p. 32) armazenadas na memória e que servem de base para as opiniões proferidas a partir dos dados brutos da sensação. Se as sensações particulares indicam que há algo, as πρόληψεις indicam o que tal coisa é: se homem, cavalo, torre, Platão ou qualquer outra noção.
151 MP, XXII, XXIII, XXIV. 152 Cf. VII, 211-216 153 DL, X, 31-34
154 “Há, dizemos, quatro critérios da verdade; mas, em definitivo, todos eles se remetem ao critério privilegiado da sensação (αἴσθησις)” (CONCHE, 1977, p. 26)
155 Epicuro responde ao impasse de que é preciso haver conhecimentos prévios para dar conta de uma investigação e concorda que conhecer depende de certo tipo de rememoração, mas estabelece os limites dessa rememoração no contexto da experiência sensível. Cf. Platão, Mênon, 80 d
As projeções imagéticas do pensamento (φανταστικὰς ἐπιβολὰς τῆς διανοίας), por sua vez, designam a operação intelectual que maneja dados sensíveis sutis, por vezes oníricos, atestando a existência de compostos atômicos sob a forma de eflúvios, constantemente desprendidos de seus corpos originais e que afetam o homem o tempo todo156. São caracterizadas como φανταστικὰς (imagéticas), termo que remete a φαντασία
(imagem ou representação), porque operam com base em imagens sensíveis. Em todo caso, “é nos sentidos que a razão deve se basear quando tenta inferir o desconhecido a partir do conhecido” (Hdt. § 39).
Não há registro de outro filósofo antigo que tenha dito que a αἴσθησις é critério de verdade. Epicuro foi inovador e por isso sofreu pesados ataques de seus contemporâneos157
. Desta posição decorre a constante atenção à “evidência” (ενάργεια)158
, pois configura-se a base para os critérios159
. O termo ἐναργής qualifica o ato perceptivo criteriosamente confirmado. A evidência ocorre quando há condições adequadas para apreensão dos fenômenos. Epicuro diz que seu método de pesquisa na investigação dos corpos e vazio está em “harmonia com os fenômenos”160
(Pith., § 86). Diz ainda que as indagações sobre a natureza devem ser feitas de acordo com as “exigências dos fenômenos” (ibd., § 87). A base para a confirmação ou contradição de uma opinião sobre a natureza, no contexto da filosofia epicurista, é o conjunto dos fenômenos (ibd., § 88) experienciados segundo as evidências sensíveis.
Diógenes Laércio, na parte das Vidas161
dedicada aos céticos, ao mesmo tempo em que considera duvidosa a informação de Enesidemo, traz uma preciosa informação sobre uma diferença fundamental entre Epicuro e Demócrito:
O fenômeno é o critério dos céticos (como diz Enesidemo). E Epicuro também se manifesta assim. Demócrito, entretanto, tira
156 Cf. Hdt., § 51
157 Cf. ASMIS, 2009, p. 84. 158 Cf. Hdt., § 82
159 Em grego: τὰ κριτήρια ἀναιρῆται τὰ κατὰ τὰς ἐναργείας (critérios baseados na evidência Hdt., § 52). 160 Em grego: φαινομένοις συμφωνίαν
toda a validade dos fenômenos, que para ele não existem (DL, IX, 106)162.
Por vezes Demócrito foi apresentado como um “pré-cético”163
. Os fragmentos que dele restaram revelam, isto sim, uma inquietude relativa aos critérios de verdade. Aristóteles em três passagens dos seus textos atesta a confiança de Demócrito na apreensão sensível dos fenômenos: “A verdade está no fenômeno” (Da geração e corrupção, 315 a); “o que é verdadeiro é o fenômeno” (Sobre a Alma, 404 a) e, finalmente, “o que aparece de acordo com a percepção é verdadeiro” (Metafísica, 1009 b). Em oposição, Sexto Empírico cita a obra Sobre as Ideias em que Demócrito diz: “é preciso que o homem aprenda segundo a regra seguinte: ele está afastado da realidade” (Sexto Empírico, Adv. Math., VII, 137). Sobretudo, é frequentemente citado o fragmento:
Por convenção existe o doce e por convenção o amargo, por convenção o quente, por convenção o frio, por convenção a cor; na realidade, porém, átomos e vazio… Nós, porém, realmente nada de preciso apreendemos, mas em mudança, segundo a disposição do corpo e das coisas que nele penetram e chocam. E diz novamente: que na realidade não compreendemos como cada coisa é ou não é ficou muitas vezes demonstrado (Id., Ibid.,VII, 135-136)
Asmis (1976) sugere uma resolução para o impasse das contraditórias caracterizações de Demócrito separando dois momentos de seu percurso investigativo. Demócrito inicia sua investigação da φύσις baseando-se nos fenômenos, depois deduz deles mesmos a sua destruição164
. Demócrito sugere, segundo Galeno, que se imagine “os sentidos respondendo à inteligência: pobre inteligência, que em nós encontra as provas e depois nos derruba! Para ti derrubar-nos é cair165
” (GALENO, Sobre a Medicina, 1259 b). A inteligência ou o pensamento (διάνοια), respaldando-se no que se manifesta aos
162 Em grego: ἔστιν οὖν κριτήριον κατὰ τοὺς σκεπτικοὺς τὸ φαινόμενον, ὡς καὶ Αἰνεσίδημός φησιν: οὕτω δὲ καὶ Ἐπίκουρος. Δημόκριτος δὲ μηδὲν εἶναι τῶν φαινομένων, τὰ δὲ μὴ εἶναι. 163 Cf. MOREL, 1996, p. 255 164 ASMIS, 1976, p. 10 165 Em grego: ἐποίησε τὰς αἰσθήσεις λεγούσας πρὸς τὴν διάνοιαν οὕτως· <‘τάλαινα φρήν, παρ' ἡμέων λαβοῦσα τὰς πίστεις ἡμέας καταβάλλεις; πτῶμά τοι τὸ κατάβλημα’>
sentidos, conclui a irrealidade do manifestado ao deduzir que o que há são átomos e vazio. Epicuro segue Demócrito na aprovação inicial dos fenômenos, mas difere deste quando mantêm a defesa da realidade fenomênica, ainda que se esforçando na elaboração de uma teoria atomista que sustente a realidade microfísica do átomo em coerência com a defesa da existência dos corpos agregados (ἀθροίσμα) no nível dos fenômenos. Por isso, insiste Epicuro, “a existência dos corpos é atestada em toda parte pelos sentidos, e é nos sentidos que a razão deve basear-se quando tenta inferir o desconhecido a partir do conhecido166
” (Hdt., § 39).
A reforma ao atomismo de Demócrito se justifica pela defesa da coerência entre as conclusões do pensamento e a manifestação sensível da φύσις. O que está em jogo é a consideração do potencial humano de articular, a partir dos dados sensoriais, uma teoria capaz de compreender de um só golpe o manifesto e o invisível (ἄδηλος). Trata-se da defesa de uma visão de conjunto (ἀθροάς ἐπιβολάς). Respaldado no fenômeno, Epicuro retifica a compreensão do átomo no que se refere à variedade de suas formas, o que neles é princípio de movimento e a respeito de sua indivisibilidade. Revisar os pontos principais da crítica epicurista ao atomismo democrítico é importante para confirmar que a filosofia de Epicuro se fundamenta nas evidências dos fenômenos e também para mostrar que os métodos utilizados por Epicuro nessa fundamentação consideram com cuidado os limites do potencial cognitivo humano.
2.1.2 Contra Demócrito: limite da variedade das formas atômicas