0 LA REPRÉSENTATION DE LA CONSERVATION, DE L’ÉDIFICATION À LA
0.1 Mise en contexte 20
Na pesquisa qualitativa, o social é visto como um mundo de significados passível de investigação, e a linguagem dos atores sociais e suas práticas as matérias-primas dessa abordagem. Assim, o objeto do estudo qualitativo está nos significados, motivos, aspirações, atitudes, crenças e valores que se expressam, não só pela linguagem comum, mas também na vida cotidiana (MINAYO, 2004). Dessa forma, as pesquisas qualitativas examinam aspectos mais profundos e subjetivos de um determinado tema em estudo, e seus métodos não só lidam com informações mais amplas e com maior riqueza de detalhes (DIAS, 2000), como também são designados a estudar as complexidades do comportamento humano, forçando o pesquisador a aprofundar-se no problema, ao invés de abstraí-lo (SEAMAN, 1999).
De acordo com Minayo (2004), a realização de pesquisa qualitativa, tendo como enfoque a teoria das representações sociais, valoriza a linguagem oral, sem descartar as demais modalidades lingüísticas, priorizando a entrevista (individual ou em grupo) para a coleta de dados. Para Jodelet (1989 apud CABECINHAS, 2004), o estudo das representações sociais apresenta um caráter aplicado, o qual pode ser pesquisado por meio de diversas metodologias como, por exemplo, experimentação no laboratório e no campo, entrevistas, questionários, técnicas de associação livre de palavras, observação participante, análise de documentos e de discursos, etc.
Dentre as técnicas de coleta de dados em pesquisas qualitativas, as entrevistas de grupo focal, ou simplesmente “grupo focal”, permitem que se aprenda como participantes de um determinado grupo interpretam a realidade, por meio de seus conhecimentos e experiências
(DIAS, 2000). Em outras palavras, grupo focal é um método de pesquisa qualitativo, o qual proporciona a descoberta de informações detalhadas sobre um dado tema de interesse.
Por esse motivo, e para os fins desta pesquisa, adotou-se a entrevista de grupo focal como técnica para a coleta dos dados qualitativos, uma vez que se pretendeu capturar o máximo de informações, em profundidade e em detalhes, a partir de participantes de diferentes grupos de pessoas envolvidas com a manutenção de software.
4.1.1 Considerações sobre a técnica de grupo focal
Grupo focal consiste em perguntar a um conjunto de pessoas suas opiniões sobre um tópico específico. A técnica é um tipo de entrevista não estruturada, normalmente com o número de seis a dez pessoas, durante um determinado período de tempo. A discussão é moderada por um facilitador, cuja função é estimular o debate entre os participantes, sem, contudo, interferir com suas próprias opiniões sobre os assuntos abordados.
Segundo Dias (2000), “o objetivo central do grupo focal é identificar percepções, sentimentos, atitudes e idéias dos participantes do grupo a respeito de um determinado assunto, produto ou atividade”. Para Gomes e Barbosa (1999), o objetivo principal de um grupo focal é revelar as impressões de seus participantes sobre tópicos abordados em discussão.
A técnica de grupo focal ocupa uma posição intermediária entre a observação participante e as entrevistas (VEIGA; GONDIM, 2001) e permite obter informações em profundidade, de caráter qualitativo, por meio de um grupo de discussão informal e de tamanho reduzido (GOMES; BARBOSA, 1999). Para isso, deve-se elaborar uma lista de questões – diferentemente das listas de perguntas, típicas de entrevistas individuais –, a qual servirá de guia para o moderador da discussão (DIAS, 2000). Sua metodologia permite que o pesquisador investigue uma área de estudo, sem a existência prévia de uma teoria, deixando que a teoria venha surgir a partir dos dados coletados (STRAUSS; CORBIN, 1998).
Dentre suas vantagens, destacam-se a rapidez e o baixo custo na aplicação, bem como a riqueza dos detalhes e a qualidade das informações obtidas. Segundo Dias (2000), “a vantagem do grupo focal é que uma nova idéia gerada por algum dos participantes é imediatamente testada, a partir da reação dos outros participantes, em apoio ou repúdio”. Dessa forma, pode-se
compreender o processo de construção das percepções, atitudes e representações sociais dos participantes do grupo (VEIGA; GONDIM, 2001).
4.1.2 Elaboração do roteiro para os grupos focais
Como visto no Capítulo 3, a abordagem processual da teoria das representações sociais enfatiza a importância de tratar as representações não apenas como produtos do pensamento social, ou seja, “opiniões sobre”, mas também como processos, tentando compreender como as representações são produzidas e mantidas, isto é, qual a origem e o que as fazem continuar existindo. Essa abordagem descreve dois processos sócio-cognitivos, dialeticamente relacionados, os quais atuam na construção das representações sociais: a objetivação e a ancoragem.
Recapitulando o conteúdo da subseção 3.2.2, a objetivação é definida como a transformação de conceitos ou idéias em esquemas ou imagens concretas. Ou seja, como os sujeitos realizam e materializam os conceitos, muitas vezes até cognitivos, para que tenham uma imagem do objeto e assim entendam o mesmo. Na teoria das representações sociais, o resultado da objetivação é um elemento central chamado de “núcleo ou esquema figurativo”. Já a ancoragem é definida como a constituição de uma rede de significações em torno do objeto, inserindo-o e relacionando-o a valores e práticas sociais pré-existentes. Em outras palavras, a ancoragem diz respeito ao enraizamento social da representação no sistema de pensamento já existente, estabelecendo como os valores já atribuídos ao objeto influenciam e afetam os sujeitos em suas formas de entendê-lo.
Nesse contexto, a idéia do sistema cognitivo interferir no sistema social, assim como o social influenciar a elaboração cognitiva é que faz o processo ser “sócio-cognitivo e dialeticamente relacionado”. O sujeito não só atribui sentido ao objeto, como também é influenciado pelos valores e práticas sociais que já se encontram associados, atribuídos e arraigados no objeto. Sendo assim, o roteiro dos grupos focais foi elaborado com dois blocos principais: um bloco inspirado nos princípios da objetivação – do sujeito para o objeto –, estimulando os participantes a falarem como eles vêem, definem e entendem a manutenção de software; e o outro bloco baseado nos conceitos de ancoragem – do objeto para o sujeito –, focando como as significações, os valores e as práticas já existentes nos sentidos da manutenção
afetam e influenciam os participantes. Dessa forma, tentou-se encontrar o que é central nas opiniões dos participantes, buscando compreender como se organizam os sentidos da representação, como se objetivam e como se ancoram esses sentidos.
No bloco objetivação, composto pelas questões 1, 2, 3 e 4, buscou-se, basicamente, a definição e os conceitos que envolvem a manutenção de software. Seus objetivos eram: (i) conhecer como os participantes do grupo definem a manutenção de software; (ii) identificar quais as causas da manutenção atribuídas pelo grupo; (iii) saber como os profissionais exercem o trabalho de manutenção; e (iv) entender qual a natureza do trabalho do mantenedor.
As suposições, baseadas em estudos da literatura, que motivaram a elaboração das questões foram: (i) manutenção é vista, primeiramente, como correção de erros; (ii) a causa principal da manutenção é o mau desenvolvimento; (iii) o mantenedor nunca possui aquilo que ele precisa para exercer seu trabalho (ex.: boa documentação, ferramentas, etc.); (iv) o trabalho do mantenedor é sem desafios, desmotivador e pouco criativo; e (v) uma atividade só é vista como criativa se o resultado da mesma for algo novo (ex.: desenvolvimento de um novo sistema).
O bloco ancoragem, formado pelas questões 5, 6 e 7, procurou a influência dos sentidos, valores e práticas já atribuídos à manutenção sobre o grupo social. Seus objetivos foram: (i) entender os relacionamentos entre os participantes e a manutenção de software; (ii) identificar como e em que a manutenção afeta o dia-a-dia e a vida dos sujeitos; (iii) conhecer como a imagem da manutenção é inserida no sistema de crenças e valores existentes e quais as bases que suportam a sua permanência; e (iv) descobrir como os valores e práticas associados à manutenção são integrados à sua imagem e como isto contribui para a formação dessa imagem.
Para o bloco ancoragem foram aventadas as seguintes suposições: (i) existe um desprezo, possivelmente cultural, por atividades ditas como não-intelectuais, sendo a manutenção considerada como uma dessas atividades; (ii) a manutenção não é percebida como uma atividade importante, necessária e inevitável, porque é pouco conhecida e, geralmente, mal entendida; e (iii) o termo “manutenção” remete primeiramente a um serviço de limpeza, ou a algo que está precisando de reparos.
Assim, a orientação para as entrevistas dos grupos focais seguiu o seguinte roteiro, apresentado por suas questões e sub-questões, direcionadas aos seus respectivos objetivos temáticos:
Roteiro de orientação para o bloco objetivação:
1 – O que o termo “manutenção de software” remete a vocês? 1.1 – O que vocês entendem por “manutenção de software”? (Definição de manutenção de software)
2 – Na opinião de vocês, por que existe manutenção de software? (Causas da manutenção de software)
3 – Como é o processo de manutenção de software nesta empresa? 3.1 – Poderia ser diferente?
3.2 – De que maneira?
(Métodos e práticas no trabalho do mantenedor)
4 – Como vocês caracterizam o trabalho do mantenedor? 4.1 – É uma atividade importante e de responsabilidade?
4.2 – É difícil e complexo? Apresenta desafios e exige criatividade? 4.3 – Existe motivação? Existe satisfação?
(Natureza do trabalho de manutenção)
Roteiro de orientação para o bloco ancoragem:
5 – Para vocês, como é vista a profissão (cargo ou papel) de mantenedor de software? 5.1 – É reconhecida?
5.2 – Proporciona crescimento profissional? Oportunidades de carreira? (Valores profissionais designados ao mantenedor de software)
6 – Na opinião de vocês, o que a manutenção de software representa para esta organização?
7 – Alguns autores propõem renomear a “manutenção” de software para “suporte”, “evolução”, “continuação” ou “melhoria” de software. Na opinião de vocês, isso é uma boa idéia?
7.1 – Isso mudaria alguma coisa? 7.2 – Qual termo seria mais adequado?
(Ideologia da linguagem associada à manutenção)
4.1.3 Validação semântica do instrumento de coleta
O roteiro para os grupos focais foi aplicado em quatro profissionais da área de tecnologia da informação de uma instituição financeira federal, com a finalidade de validar as questões que sugeriam os temas. Todos os participantes, cujas idades eram de 23, 26, 27 e 30 anos, possuíam formação acadêmica em Ciências da Computação, e tempo de experiência na profissão que variava entre quatro e dez anos. O procedimento durou cerca de quarenta minutos, onde toda a conversa foi gravada, devidamente autorizada para isso.
Por meio dessa aplicação piloto, pôde-se validar semanticamente o instrumento de coleta de dados da pesquisa. Dessa forma, o mais importante dessa execução foi verificar se as questões remetiam as discussões para que se atingissem os objetivos esperados, e não a verificação dos conteúdos das respostas às questões em si. Em outras palavras, verificou-se se os participantes entendiam as questões da forma como se esperava que as mesmas fossem entendidas. Com isso, pôde-se refinar as questões – ação que levou a introduzir as sub-questões no instrumento –, prevendo-se a possibilidade dos reais participantes, durante as reais entrevistas, não discutirem de forma detalhada sobre aquilo que, de fato, as questões pretendiam que o fosse discutido.