3 LA STRUCTURE ORGANISATIONNELLE DES GUIDES TECHNIQUES 91
3.3 Discussion et synthèse sur la structure organisationnelle 108
O fato dos profissionais separarem correção de erros e evolução em objetos de representações distintas não deve ser tomado como uma verdade, isto é, um fato da realidade sobre o objeto manutenção de software. É um equivoco nos estudos das representações tomar a representação como espelho da realidade (ver subseção 3.3.3), uma vez que a representação social é um processo de apropriação da realidade, onde a mesma é reconstruída em um sistema simbólico (ALVES-MAZZOTTI, 2005). Logo, apesar dos profissionais entenderem correções de erros e evoluções como representações diferentes, ambas são, de acordo com a realidade, elementos da mesma representação social: a representação do objeto manutenção de software.
Aliado a isso, fazer inferências diretas sobre a prática com base nas representações é considerado como outro erro ao se analisar representações sociais (ver subseção 3.3.4). As práticas devem ser vistas como um agente de transformação das representações, e não como a representação em si (ALVES-MAZZOTTI, 2005). Portanto, mesmo que as práticas dos profissionais entrevistados os façam representar correções de erros e evoluções como objetos diferentes, os mesmos não os são. Correções de erros e evoluções são elementos da representação do objeto manutenção de software.
Esses problemas de interpretação acontecem porque, mesmo quando as práticas sociais são investigadas, elas são estudadas por meio dos discursos dos sujeitos, trabalhando-se, portanto, sobre práticas representadas e não sobre práticas efetivas (ALVES-MAZZOTTI, 2005). Como solução, pode-se adotar técnicas de observação, onde as representações devem ser consideradas como um guia para a formulação de hipóteses, sendo essas hipóteses testadas por meio da observação das práticas (ALVES-MAZZOTTI, 2003).
7.7.1 Considerações
Veementemente sugerida por todos os profissionais, a idéia de separar de fato, as correções e as evoluções em duas atividades distintas, parece indicar uma oportunidade para se evitar as atividades de correções de problemas. Conseqüentemente, evitar-se-iam as atividades de manutenção, cuja representação é formada, mais fortemente, pelos sentidos atribuídos às correções de erros nos sistemas de software.
Dessa maneira, os profissionais de software teriam a chance de trabalhar somente com as evoluções nos sistemas, cujas atividades já são vistas como atividades de desenvolvimento de software em novos projetos, e, por esse motivo, não despertam tanta rejeição quanto às atividades de correções o fazem. Provavelmente, maiores estudos sobre separações em atividades distintas por tipos de manutenções, os quais investiguem as motivações e as conseqüências disso, trarão maiores esclarecimentos sobre o universo da manutenção de software nas idéias dos profissionais e nas práticas das organizações.
8 CONCLUSÃO
A continuidade operacional dos sistemas de software é uma necessidade absoluta para as organizações e conseqüentemente para toda a sociedade. Nesse contexto, a manutenção de software apresenta-se como uma solução para que os sistemas possam acompanhar a evolução da própria humanidade. A quantidade de software já existente, somada ao crescente número de sistemas em fase de desenvolvimento, tornam a manutenção de software uma atividade inevitável, além de bastante praticada nas empresas que lidam com sistemas. Dessa maneira, a manutenção envolve os serviços que absorvem a maioria dos profissionais de software, consumindo a maior parte dos custos totais dos sistemas.
Embora seja uma atividade necessária e extremamente importante, a manutenção de software ainda é vista como um problema para muitos profissionais e, por conseguinte, para as organizações. A literatura e a prática evidenciam uma imagem aparentemente negativa associada à manutenção, apontando-a como atividade de pouca responsabilidade, de pouco prestígio e de baixo status nas organizações, o que desperta certa curiosidade quanto às origens e permanência desses sentidos.
Buscando compreender como e por que são atribuídos os sentidos à manutenção de software, esta pesquisa investigou os processos pelos quais esses sentidos são produzidos e se tornam permanentes na realidade comum das pessoas. Para isso, recorreu-se às ciências sociais, das quais a “engenharia” de software parece se aproximar cada vez mais, uma vez que muitos dos seus principais problemas parecem abordar aspectos humanos e sociais.
Por meio de três grupos focais, foram entrevistados dezoito profissionais da área de Tecnologia da Informação de uma organização da Justiça Federal do Brasil. Um quarto grupo focal também foi realizado, neste caso com profissionais de diversas áreas da organização, usuários dos sistemas mantidos pelos participantes dos três outros grupos. As falas dos profissionais de tecnologia da informação foram submetidas a uma análise qualitativa, fundamentada pela Teoria das Representações Sociais (MOSCOVICI, 1961 apud CABECINHAS, 2004), cujas interpretações se fizeram pela técnica de análise de conteúdo (BARDIN, 1977). Os pontos de vista dos usuários serviram de parâmetros para comparações com as idéias dos profissionais de software, onde se buscou discutir as suposições da pesquisa sob diferentes perspectivas.
As opiniões dos profissionais de tecnologia da informação no presente estudo indicam que a base do processo de produção dos sentidos atribuídos à manutenção de software se situa, principalmente, nas práticas cotidianas que ocorrem dentro das organizações, mais especificamente nas áreas que lidam com sistemas de software. No entanto, de acordo com os dados da pesquisa e com as publicações da literatura, estas parecem ser práticas com pouco ou nenhum recurso herdado da formação dos profissionais (COLLOFELLO, 1989; TAN; PHILLIPS, 2003; PARIKH, 1984; 1986b), carentes de processos, métodos e instrumental para a sua execução (DART; CHRISTIE; BROWN, 1993; LAYZELL; MACAULAY, 1994; SINGER, 1998), além de serem freqüentemente erráticas (BHATT; SHROFF; MISRA, 2004; GLASS, 2004). Isso sugere a impressão de que manutenção de software não significa uma atividade importante e aparenta ser um problema para as organizações, cuja solução depende, quase que exclusivamente, do talento e da habilidade dos mantenedores.
A sensação de não possuírem as condições necessárias – formação acadêmica e processos organizacionais – para enfrentar os desafios impostos pela realidade das atividades de manutenção, tende a produzir nos profissionais uma forte desmotivação, a qual é reforçada pelo desprestígio social do cargo, ou do papel de mantenedor – não existem oportunidades de carreira, portanto não existem incentivos, motivação ou satisfação. Tal situação, aliada à criticidade e à urgência com que as manutenções corretivas são tratadas, fazendo-as se destacar em relação às evolutivas por sua maior visibilidade, parece induzir muitos profissionais à adoção de um mecanismo reativo que os leva a enfatizar a manutenção como um problema – muito mais próxima das correções de erros do que das evoluções –, descrevendo a tarefa de mantenedor como algo quase heróico, o que se concretiza nos sentidos atribuídos à manutenção de software.
Conseqüentemente, ao acentuar a correção de erros, os profissionais distorcem a idéia do que é manutenção de software e, em muitos casos, suprimem o que seria o seu papel na organização e na própria engenharia de software, ou seja, o de agente favorecedor da evolução dos sistemas – atividade vital para a existência do software. Em contrapartida, os sujeitos suplementam o objeto manutenção de software ao assumirem o desenvolvimento de novos sistemas como solução para evoluções de sistemas em manutenção, uma vez que as evoluções são tratadas pelos profissionais como novos ciclos do desenvolvimento. Assim, atributos do desenvolvimento são adicionados na manutenção de software, apesar da manutenção não ser, nem poder ser vista como desenvolvimento, ainda que seja manutenção evolutiva.
Aliado a isso, atribuir as causas da manutenção às falhas cometidas durante o desenvolvimento dos sistemas, bem como sugerir testes e processos de desenvolvimento de novos sistemas como soluções que minimizam as manutenções são atitudes que corroboram a concretização da imagem da manutenção de software como correção de erros. Com isso, conclui- se o processo de objetivação, uma vez que trabalhar com a objetivação é tentar explicar como e porque se faz a construção seletiva sintetizada no núcleo da representação (ALVES-MAZZOTTI et al., 2007). Para esse estudo, isso significou tentar compreender o que, dentre as características do objeto manutenção de software, os sujeitos parecem distorcer, subtrair e/ou suplementar (JODELET, 2001) ao destacarem correção de erros e problema.
Quanto ao processo de ancoragem, dois aspectos se destacam no que se refere à maneira pela qual a manutenção de software é representada como um problema. O primeiro está no fato do profissional de software acreditar que sua valorização profissional, principalmente do ponto de vista do mercado de trabalho, encontra-se diretamente dependente e ligada à idade das tecnologias com as quais o mesmo trabalha. A partir disso, cria-se um código comum nas redes de sentidos atribuídos à manutenção, por meio do qual, profissionais que lidam com sistemas em manutenção – os quais, pela própria natureza, raramente permanecem com suas tecnologias e paradigmas atualizados –, são classificados como desvalorizados profissionalmente. Esse modelo acaba por influenciar os mantenedores a buscar outras atividades, diferentemente das de manutenções em sistemas legados.
O segundo fator que parece ser significativo para a construção e enraizamento do sentido de “problema” na representação remete a manutenção de software a uma atividade que envolve pouca responsabilidade e, conseqüentemente, que aborda tarefas de mínima importância. A idéia da manutenção como a fase de aprendizagem na carreira do profissional de software parece se sustentar nas atitudes e práticas das organizações, ao direcionarem profissionais com pouca ou nenhuma experiência para as atividades de manutenção. Ao mesmo tempo, isso serve para justificar a crença de que os profissionais que lidam com software só contam com a manutenção para iniciar sua carreira e seu desenvolvimento profissional. Tal justificativa ajuda a proteger o desejo dos mantenedores de deixar a manutenção de software, alegando a falta de estímulos profissionais para continuarem nas atividades de manutenção.
Finalmente, a manutenção de software representada como um problema parece se ancorar no mercado de trabalho, mais especificamente na valorização e no crescimento do profissional de
software. Na rede de significações em torno do objeto manutenção de software destacam-se os sentidos associados à tecnologia dos sistemas em manutenção, como também o tempo de experiência dos profissionais. São diversos depoimentos feitos pelos profissionais, os quais revelam que a manutenção de software, não só os priva de trabalhar com novas tecnologias, encontradas na criação de novos sistemas, bem como apenas os beneficia com a aprendizagem, necessária ao início de suas carreiras. Além disso, as significações que simbolizam o núcleo figurativo da representação da manutenção – estabelecida no processo de objetivação –, geralmente atribuídas aos erros nos programas, parecem enraizar a atividade na significação de resolver problemas. Conclui-se, assim, o processo de ancoragem, de forma que foram tratados os valores, modelos, normas e símbolos que orientam o processo de objetivação, bem como da significação e utilidade conferidas à representação (ALVES-MAZZOTTI et al., 2007).