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L’accompagnement des bénévoles : une relation culturelle médiatisée

1- Le tutorat comme modalité d’accompagnement

Thomas Luckmann tem a grande virtualidade de introduzir o termo diferenciação ou segmentação (institucional, social), numa atitude crítica e de contraponto em relação à sociologia confessional, que estabelecia uma associação directa entre industrialização e urbanização com secularização. Para ele, essa correspondência não é assim tão linear. Torna-se mais "consistente" para a teoria sociológica encarar a industrialização e a urbanização na sua especificidade histórica e social, admitindo, contudo, que tais processos irão ter repercussões na totalidade do sistema social. Portanto, há, segundo este autor, ganhos acrescidos se considerarmos essa relação indirecta (Luckmann, 1974: 38-39).

Não é apresentado, por Luckmann, um período histórico específico para o advento da secularização. A questão central, para ele, reside no facto de nas sociedades mais simples a visão do mundo ser indiferenciada, devido à função englobante desempenhada pela religião, fenómeno que não acontece nas

sociedades mais complexas. À medida que as sociedades se complexificam e a religião adquire uma forma institucional especializada, através do surgimento dos especialistas religiosos, a interiorização do cosmos sagrado também passa a ser diferenciada. Embora não indique um momento da história que anuncie claramente a emergência da secularização, Luckmann entende que a segmentação - conceito que não é independente da secularização - é ensaiada no judaísmo e início do cristianismo, contida na Idade Média porque as esferas económica e política não se autonomizaram, e é reforçada a partir da Reforma:

Luckmann associa, assim, a diferenciação da religião com o nascimento duma esfera social especificamente religiosa. Por outro lado, a religião, ao imiscuir- se progressivamente no quotidiano, passa a ser apreendida como uma ideologia dum subsistema institucional. Vejamos o que o autor nos diz, a esse propósito:

Apesar de as civilizações clássicas orientais,. europeias e americanas serem caracterizadas por uma forma de clero institucionalizado, só no período da tradição judaico-cristã que marca a história ocidental, se estabelece uma completa especialização institucional e uma "autonomia" da religião, com todas as suas concomitâncias estruturais (Luckmann, Ibidem: 62).

Uma das consequências da diferenciação ou segmentação institucional será a privatização. Os modelos oficiais da religião deixam de ser os elementos referenciais únicos do sagrado (Ibidem 98) e o indivíduo privatiza a sua atitude religiosa. A "camada 'religiosa' da consciência individual situa-se numa relação para a identidade pessoal, que é análoga à relação do cosmos sagrado para a visão do mundo no seu todo" {Ibidem. 71). Ao tomar-se "assunto privado", o indivíduo é livre para fazer as suas opções acerca das "significações últimas", as quais deixam de ser a reprodução de um modelo único e imposto pela socialização das igrejas oficiais

para passarem a ser determinadas fundamentalmente pela história de vida individual

{Ibidem 102 e 99). Associada a privatização da crença, Luckmann, de forma

inovadora, introduz, assim, a ideia de bricolage religiosa, isto é, o surgimento de uma forma de religiosidade auto-construída a partir de ingredientes vários.

Outro aspecto desenvolvido por Luckmann é o da secuiarização interna das instituições religiosas. Para ele, a religião, tal como qualquer instituição social, também é, ela mesma, permeável ao processo de secuiarização, adquirindo uma aparência secular. Por outro lado, o sociólogo vê, em paralelo, o surgimento na sociedade de uma forma institucional não especializada da religião, que mais não é do que referenciais religiosos difundidos na vida social. Sem que faça alusão ao título do livro, The Invisible Religion remete, para além da questão da privatização, para esses vestígios das representações religiosas presentes no todo da vida social. A este propósito, diz-nos:

Os temas dominantes no moderno cosmos sagrado, concedem algo como um status sagrado aos indivíduos, ao articular a sua "autonomia". Isto, claro, vai de encontro à

nossa perspectiva que a significância "última" é encontrada pelo indivíduo típico nas modernas sociedades industrializadas, em primeiro lugar na "esfera privada" - e, assim, na sua biografia "privada". Os tradicionais universos simbólicos tornam-se irrelevantes à experiência do quotidiano do indivíduo típico e perdem as suas características como realidade (superordenada). As instituições sociais primárias transformam-se em realidades cujo sentido é estranho ao indivíduo. A ordem social transcendente, por outro lado, deixa de ser subjectivamente significante tanto como representação dum significado cósmico envolvente, como nas suas manifestações institucionais concretas {Ibidem: 109).

Mais tarde, Luckmann (1990) virá a introduzir o termo de mundanização (Dobbelaere 1999 e Tschannen, Ibidem. 266), conceito que lhe parece útil para traduzir os vários níveis de transcendência, socialmente construídos, no mundo moderno. Entre os agentes responsáveis pela transcendentalização ele cita os media, as igrejas e as seitas.

Incidindo, agora, a nossa atenção em Peter Berger vemos que o início da sua carreira sociológica é antecedida por uma passagem pela teologia (luterana) e é tomando como autores de referência Bultmann, Barth e, principalmente, Bonhoeffer - representativos do protestantismo liberal - que ele virá a interessar-se pelo estudo da secuiarização. Embora Berger disponha, ele próprio, de vários textos num registo teológico, é com forte convicção que defende a autonomia da sociologia em relação

à teologia. Daí a sua proposta para que a sociologia oriente as suas análises segundo um "ateísmo metodológico rigoroso"24.

A origem da secularização é localizada por Peter Berger no início do monoteísmo, o que significa a transcendentalização de Deus e o surgimento de uma racionalização ética (1967: 115 e seg.). Para este autor, o catolicismo da Idade Média representa um retrocesso na secularização {Ibidem. 122), enquanto o protestantismo, ao apresentar um "Deus radicalmente transcendente" e um "mundo radicalmente humano" (Ibidem: 112-113), irá retomar e acelerar o processo de secularização. Reflectindo sobre a religião na sociedade moderna, Berger vai adjectivá-la como frágil, na medida em que passa a ser o único canal de comunicação. Esta concepção irá levá-lo a afirmar que Deus está "bem morto"

(Ibidem) e, por essa razão, "[u]m céu vazio de anjos torna-se aberto à intervenção

dos astrónomos e, finalmente, dos astronautas".

Em termos gerais, Peter Berger entende por secularização o processo mediante o qual as representações colectivas se emancipam em relação às referências religiosas, o que se encontra directamente associado com o desenvolvimento de saberes independentes relativamente à religião. Apesar de Berger falar em autonomia não se dedica propriamente à autonomização. Associa-a à diferenciação e entende que a separação entre o Estado e a Igreja é o primeiro sinal dessa realidade (Ibidem. 107), momento em que a religião no mundo ocidental deixa de ser a Sacred Canopy.

Quando falamos da sociedade e instituições na história moderna ocidental, claro que a secularização se manifesta a si própria como a perda por parte das igrejas cristãs de áreas previamente sob o seu controlo ou influência - como a separação da Igreja do Estado [...]. No entanto, quando falamos de cultura e de símbolos, nós queremos dizer que a secularização é mais do que um processo sócio-estrutural. Isso afecta a vida cultural e as ideias no seu todo, e pode ser observado no declínio dos conteúdos religiosos nas artes, na filosofia, na literatura e, mais importante ainda,

24 Cfr. O Appendix II. Sociological and Theological Perspectives in The Sacred Canopy (Ibidem: 179-

188).

na ascensão da ciência como uma perspectiva autónoma e (...) secular do mundo

{Ibidem. 107).

Berger não vê a secularização como um fenómeno unicamente sócio- estrutural. Atribui-lhe, igualmente, um lado subjectivo {Ibidem: 107-108), que se traduz na autonomia da consciência e do comportamento individuais em relação às

prescrições religiosas. Ao referir-se à secularização como o processo através do qual os sectores da sociedade e da cultura são subtraídos à autoridade das instituições religiosas e respectivos símbolos, Berger remete-nos para o conceito weberiano de desencantamento do mundo.

Gostaríamos de ressaltar que tanto Berger como Luckmann (os dois primeiros sociólogos aqui analisados) defendem que secularização implica uma análise comparativa histórica e evolutiva (Dobbelaere, 1981: 16) e que a religião, cada vez mais, tende a integrar-se no domínio do privado.

Centrando, por último, o nosso olhar em Bryan Wilson (1969, 1988), verificamos que ele não olha a secularização com qualquer tipo de entusiasmo: emprega o termo sem qualquer sentido ideológico, algo que não é objecto nem de aplauso nem de lamentação (Idem ,1969: 11). É, contudo, o autor que afirma a perspectiva mais evolutiva do processo e o único, entre os portadores do modelo, que se preocupa em clarificar teoricamente esta noção. Wilson define a religião em termos substantivos e de um modo muito próximo do seu uso quotidiano25 e a secularização como uma transformação que se opera a nível estrutural, o processo através do qual o "pensamento, as práticas e as instituições religiosas perdem importância social" {Ibidem. 14).

Para os sociólogos o termo secularização é um conceito, ao invés de um simples termo descritivo. A expressão a tese da secularização denota um conjunto de proposições geralmente pouco formalizadas, que equivalem quase a um corpo teórico respeitante aos processos de mudança social que se desenrolam no interior

25 "Este propósito substantivo, esta busca por valores positivos tem de ser, quase por definição,

religiosa, uma vez que invoca algo que ultrapassa a experiência ordinária do dia-a-dia dos homens" (Wilson, 1988: 50).

de um período histórico não determinado. Com toda a evidência os detalhes de tais processos podem ser formulados com um grau de especificidade variável, e em relação com períodos históricos diversos (Idem, 1988: 148).

Como bem realça Tschannen {Ibidem. 281), Wilson é o sociólogo - sublinhamos - que apresenta uma teoria mais desenvolvida e completa da secularização, só que, ao contrário de outros como Berger e Luckmann, não a apresenta de um modo sistemático. Ela encontra-se diluída ao longo das suas obras. Seguindo uma perspectiva clássica de linha weberiana, Wilson estabelece uma forte proximidade entre secularização e racionalização. O autor vê a racionalização principalmente como um produto da tecnologização. A racionalidade é, desta forma, proveniente dos progressos científicos e tecnológicos e a expansão das orientações científicas veio facultar alternativas às explicações religiosas e substituir os pontos de vista místicos e míticos representados pela religião. Este novo tipo de orientação conduz ao desencantamento do mundo, uma das dimensões típicas da sociedade moderna no sentido, bem específico, do calculismo baseado nos meios e nos fins.

A diferenciação constitui uma das consequências da racionalização e encontra-se estreitamente relacionada com a autonomização - conceito central tanto em Wilson como em Berger para definir secularização. Precisando melhor, a autonomização está associada à diferenciação estrutural {Ibidem. 419). A sociedade deixa de necessitar das funções latentes da religião que são assumidas por outras instituições. Resta à religião as suas funções manifestas: a salvação. As indústrias do lazer, os meios de comunicação de massa entram em competição com a religião (Idem, 1969: 62-63). A autonomização virá a dar origem também à descrença, mas esta, segundo Wilson, não afecta apenas a religião: todos os outros sistemas de conhecimento exteriores, sejam a teoria política, as ideologias e a própria ciência deixam de ser objecto de uma crença absoluta. Como já tinha sido defendido primeiro por Luckmann, depois por Berger, cada indivíduo passa a construir os seus próprios sistemas de conhecimento.

Outra questão relevante na teoria de Bryan Wilson é a da societalização. De acordo com o seu ponto de vista, numa sociedade secularizada, a religião enfraquece e periferiza-se. Recorrendo à dicotomia de Tõnnies, o autor associa a secularização à passagem "de um sistema de base comunitário a um sistema de base societal" (Idem, 1988: 153). A secularização é uma das dimensões da modernidade, é uma consequência da passagem da comunidade a sociedade. Numa entrevista concedida a Olivier Tschannen {Ibidem: 280), no início dos anos noventa, Bryan Wilson afirmou, de forma reincidente, que "a sua análise da secularização não é nada mais do que a reformulação da teoria que sustentou a maior parte dos fundadores da disciplina26, a saber, a dicotomia comunidade/sociedade".

Em consonância, novamente, com a perspectiva weberiana - tal como o fazem Berger e Luckmann - , Wilson tem presente o problema da mundanização. É dentro desta temática que estuda o metodismo27, em Inglaterra, nos séculos XVIII e XIX (Idem, 1969). O seu objectivo é o de demonstrar como a mundanização afecta este movimento religioso. A ilustração é adequada, dado que o metodismo,

protagonista de um espírito puritano e de um "ascetismo intra-mundano", disseminou uma ética de trabalho com ênfase na profissão, adaptando o cristianismo às novas classes sociais e incentivando-as à auto-disciplina e à organização.

Por último, não podemos deixar de registar que Wilson, ao longo da sua obra, defende o ponto de vista de que a ciência e a religião podem facultar orientações complementares, considerando, deste modo, o debate do século XIX como um falso debate. A secularização não conduz, de forma inevitável, ao desaparecimento da religião: a secularização deverá antes ser entendida - isso sim - como o processo através do qual diminui o significado social da religião. A este propósito, devemos ainda lembrar que Wilson revela profundas preocupações

26 Note-se que Wilson, num texto publicado em 1985, apresenta a secularização sob o título "The

Inherited Model".

27 Movimento ascético e pietista, fundado por John Wesley, no século XVin, em Inglaterra dentro da

Igreja Anglicana que, pondo a tónica na doutrina da santificação, defendia um tipo de vida disciplinada, "metódica" - a origem do nome do grupo vem daí - mas numa linha mais pietista, afastando-se da rigidez do racionalismo teológico calvinista.

morais. Segundo ele, na sequência da racionalização, as normas são, cada vez mais, resultantes de dispositivos mecânicos e burocráticos e, por efeito disso, a sociedade tomou-se mais centralizada, um sistema racionalmente organizado e articulado, objecto de um planeamento permanente.