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Le rôle du patient dans la chaîne causale

Valérie Junod *

A. Le lien de causalité

4. Le rôle du patient dans la chaîne causale

Os termos comunidade e população local41 são usados generalizadamente na literatura turística e ecoturística. Porém, como observa Souza (1997), população e seus derivados como população local são categorias muito pouco operacionais, pois sugerem uma homogeneidade objetiva e de interesses, encobrindo a tendência de alguns grupos dentro da comunidade terem ganhos, enquanto outros não. Ou seja, há uma distribuição desigual de benefícios e impactos do turismo entre os locais, com o envolvimento de alguns grupos e a marginalização de outros, o que, por sua vez, está relacionado com o grau de organização política

41 Sociologicamente, comunidade é definida por Nisbet (1997), de uma forma mais ampla, como todas as formas de relacionamento caracterizadas por um grau elevado de intimidade pessoal, profundeza emocional, engajamento moral, coerção social, e continuidade no tempo. De La Heras (1999) define a população local como a gente que vive no lugar onde se realiza a atividade ecoturística.

dos grupos locais, na medida em que, quanto mais frágil (socioeconômica e politicamente) é um grupo, maior tende a ser a sua dependência para com recursos de base estritamente local, conforme observa Souza (1997). Apesar do uso generalizado, essas categorias não contemplam os múltiplos aspectos que caracterizam e conformam uma comunidade, como a estratificação social existente, a localização espacial, a inserção econômica, sua história, as atividades econômicas principais, as condições de vida e trabalho, as manifestações culturais, entre outros importantes aspectos.

Na opinião de Ruschmann (2000) é a valorização dos aspectos econômicos do turismo que faz com que a população local não tenha destaque ou visibilidade social. As comunidades são contempladas, em geral, em estudos de caso quando são analisados os impactos provocados pelo turismo, ou em trabalhos de planejamento em que superestimam ou idealizam sua participação. Observa-se que as definições tendem a difundir uma posição idealista, na qual a população local é sempre destacada como importante agente do processo, porém, nessa formulação, não estão contemplados os interesses e conflitos que envolvem as comunidades, particularmente os locais onde já existe fluxo regular de turistas. Sobre isso, Salvati (2002) é bastante crítico ao observar que existem deficiências graves nos locais ecoturísticos, a exemplo de ausência de legislação específica, indefinição de normas de uso do solo e zoneamento ambiental e turístico, falta de mão-de-obra especializada, falta de equipamentos ambientalmente corretos e de programas de controle e educação de visitantes e comunidades, havendo conflitos42, tanto com os turistas quanto com os empresários.

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Há relatos de conflitos no Parque Nacional da Serra da Capivara, onde os empresários e ONGs pressionam para que a população local assuma relações de trabalho que implicam mudanças culturais. Já no Parque Nacional do Iguaçu, os conflitos relacionam-se com o uso de uma estrada – a do Colono – que facilitaria o trânsito dos agricultores e moradores da região, mas que foi proibida pelo Ibama porque corta área do Parque Nacional.

Mas, por outro lado, a população local é vista como um ator fundamental, na medida em que:

[...] solo ellos van a saber explotar el recurso natural, porque son los que lo conocen, ellos saben dónde se encuentran las plantas interesantes, elllos conocen el comportamiento del ecosistema y, lo que es más importante, ellos pueden ser los perfectos guardianos de las areas protegidas. (De Las Heras,1999, p. 36).

Souza (1997) converge com essa visão ao defender, em termos de planejamento, que a questão da autonomia é central para as coletividades onde se realiza o turismo dado que ela é importante para gerir o próprio destino e para disciplinar o turismo conforme seus interesses e necessidades. Todavia observa que dadas, a heterogeneidade da população e a assimetria de renda e do poder, as relações podem ser traumáticas e haver dificuldade de se estabelecer quem terá autonomia entre os locais. Nesse sentido, considera que, se a maioria dos locais não puder participar livremente da gestão dos recursos socioespaciais de seu município, dificilmente o turismo tenderá a trazer um tipo de desenvolvimento duradouro. Em continuidade, Souza (1997) argumenta que as propostas postas em prática no espaço comunitário só serão possíveis se forem promovidas mudanças no processo de desenvolvimento atual, visto que as áreas com potencial ecoturístico têm vários problemas, a exemplo da pobreza e das necessidades básicas das comunidades não resolvidas; da ausência de visão crítica da realidade; da falta de organização comunitária; de um processo de gestão concentrador, os quais se refletem na conservação dos recursos, no turismo, na sustentabilidade e no desenvolvimento local. Mais especificamente, o autor observa a necessidade de uma integração dos atores envolvidos no ecoturismo, uma vez que o ponto fundamental dessa integração é o envolvimento das comunidades em um esforço para preservar a natureza e o patrimônio cultural local.

Com relação aos impactos socioeconômicos, verifica-se, com base em Cornejo (1998), que há uma progressiva segregação que sofre a população local, à medida que o turismo vai dominando os melhores lugares e expulsando-a, o que pode provocar sérios conflitos sociais. Confirma essa situação depoimento de pesquisadora do Instituto de Estudos Ambientais43 que aponta o mercado e a legislação ambiental como responsáveis por agravarem os problemas de comunidades locais. De um lado, explica que as comunidades são recheio de um sanduíche, apertadas e disputadas por, pelo menos, quatro forças: pelo capital ambiental, pelo capital imobiliário, pelas igrejas e pelos empresários de turismo. De outro lado, a legislação coloca na ilegalidade o modo de produção de vida de populações locais, tornando proibidas atividades que executavam através de leis que são externas, estranhas ao meio ambiente onde sempre viveram. O atenuante nesse quadro é que as áreas protegidas pelo capital ambiental, associado ao capital turístico, podem adiar temporariamente a expulsão de comunidades locais por parte do capital imobiliário. Continuando nessa linha, afirma que os atores externos à comunidade, independentes de usarem da sedução ou da manipulação, todos passam de trator sobre a cultura local. E chega a uma importante conclusão: esse segmento social não tem um projeto próprio articulado, organizado, de resistência e desenvolvimento. Em vista disso, é importante se analisar qual o modelo turístico que se está implantando em uma localidade, uma vez que os resultados podem não beneficiar a população local, conforme observou Lirandina Gomes (1998, p. 58) em Praia do Forte-Bahia, onde quem está se beneficiando efetivamente são os empresários e os novos habitantes, na medida em que possuem melhores condições de se integrarem ao modelo turístico implantado.

Em termos de impactos culturais do turismo sobre as comunidades, Cornejo (1998) afirma que, quanto maior a diferença cultural e maior a subordinação econômica da comunidade receptora, maior é, proporcionalmente, o impacto negativo que o turismo pode ter sobre as pautas socioculturais e a criatividade endógena. Observa também que a relação sociocultural está intimamente ligada às formas de dependência econômica estabelecida pela industria turística. Para Cornejo (1998), o benefício econômico não necessariamente se traduz em benefícios culturais, podendo produzir desorganização das pautas culturais tradicionais, aumento da agressividade social, etc., além do fato de que a comercialização da cultura induz muitas vezes a um mimetismo repetitivo que modifica a criatividade espontânea dos costumes primitivos. Outro tipo de impacto cultural é o desaparecimento do artesanato, seja como fruto da pressão por mais produção, que leva à modificação das pautas artísticas, seja pela depreciação das manifestações locais, visto que cria um sentimento de inferioridade que destrói a confiança e os próprios valores, necessários para a criatividade artística.

Destaco, neste item, dois pontos relacionados com a comunidade local: as diversas deficiências nos locais ecoturísticos e os impactos que sofrem em decorrência de processos de desenvolvimento. A referência à influência do desenvolvimento, tanto na resenha sobre o Estado quanto nas comunidades, me levou a criar um espaço para discutir esta questão e a dos riscos referentes ao ecoturismo, o que faço no item a seguir.