Valérie Junod *
A. L’information sur le médicament : les deux notices d’emploi
Na introdução do ecoturismo no País, as primeiras ações foram desenvolvidas por atores isolados com objetivos culturais e empresários. É a partir de meados dos anos 90 que se tem registros de iniciativas de ONGs ambientalistas que, nos últimos anos, se vêm constituindo em atores importantes na consolidação do ecoturismo no Brasil.
Historicamente, o que caracterizou a ação das ONGs ambientalistas até início dos 90 foi a visão preservacionista35 e a defesa intransigente da reversão do modelo de desenvolvimento centrado no uso indiscriminado dos recursos naturais. Nesse sentido, constava da pauta do movimento ambientalista a criação de áreas protegidas, espaços proibidos ao uso público, postura esta entendida como uma forma de proteger ecossistemas singulares e sua biodiversidade. Entretanto, estudo realizado por Viola (apud CRESPO, 2002) constatou a profunda mudança de posição que ocorreu no seio desse movimento, entre os anos 80 e 90,
situação esta reafirmada por pesquisas realizadas por Crespo em 1997 e 2002, que observou a profissionalização do movimento e o abandono de posições político-ideológicos mais à esquerda, arrefecendo a oposição ideológica ao empresariado, tido como o grande degradador do meio ambiente, passando a admitir que o mercado é um dos entes estratégicos de mudança sociais (CRESPO, 2002).
Uma das visões que predominam no presente acompanha a linha de Bruni36, cujo ponto de vista é que o Brasil tem um enorme potencial turístico tendo em vista os ecossistemas existentes como a Mata Atlântica, o Pantanal, a Floresta Amazônica. Para ele, o que se precisa é que o empresariado brasileiro se conscientize dessas potencialidades, pois o ecoturismo pode impulsionar o turismo no Brasil, na medida em que o turista estrangeiro quer ver no País a natureza, as florestas, os rios que se constituem em marketing natural (BRUNI, 2003). A manifestação acima não é de um empresário, mas do presidente de uma ONG ambientalista, que conclama a sociedade civil, órgãos do governo e empresários para o uso comercial da exuberante natureza do País, uma proposta que se contrapõe aos pontos de vista defendidos pelo movimento ambientalista ao longo dos anos 70/80.
Segundo Crespo (2002), a atual fase desse ambientalismo pragmático, que é aplaudida por parlamentares e empresários, apresenta, entre outras características, uma ação profissional e institucional com formulação de políticas, proposições negociadas e a ocupação de espaços públicos além do abandono do radicalismo por uma ação voltada para problemas ambientais específicos, projetos demonstrativos e propostas concretas de alternativas, parcerias com o Estado, com empresários e com a academia, além de uma aproximação cada vez maior
35 Segundo Foladori (2000), preservacionistas são os que defendem a opção pelo não desenvolvimento.
36 Dorival Correia Bruni é presidente do Instituto Ambiental Biosfera (uma ONG com sede no Rio de Janeiro), professor da UFRJ e especialista em ecoturismo e planejamento ambiental urbano. Participou do 4º Congresso
com os movimentos sociais. Entrevistados de Crespo (1997) indicam que o debate que se processa hoje é mais amplo, não limitado à defesa da fauna e flora, mas em torno do modelo de desenvolvimento, em uma linha que se aproxima do conceito de desenvolvimento sustentável.
Crespo (1997) também captou os conflitos e severas críticas que essas mudanças de posições provocaram, internamente, no próprio movimento, distinguindo duas vertentes: uma que acredita que o movimento ambientalista perdeu espaço para o social, e outra que apresenta contradições entre os valores do conservacionismo e os dos que defendem o uso da natureza por agrupamentos sociais. Em vista disso, algumas ONGs têm estudado as situações onde existem conflitos socioambientais, buscando metodologias de resolução de conflitos que auxiliem na conciliação entre as lógicas da conservação e do desenvolvimento, construindo a base do chamado desenvolvimento sustentável. Sobre isso, Irving (2000) identifica duas correntes, a dos conservacionistas – que defendem o isolamento das áreas naturais e sua manutenção sem qualquer atividade antrópica – e a outra que chama de socioambientalistas – que prega a convivência harmoniosa entre homem e natureza, defendendo a gestão participativa das unidades de conservação, admitindo a flexibilização do conceito de área protegida e a construção de acordos pela conservação da natureza.
Teoricamente, Foladori (2000) observa que o ambientalismo caracteriza-se por uma diversidade de opiniões, apresentando um quadro em que se situam, em dois pólos extremos, os ecocentristas e os antropocentristas, e, no campo intermediário, os verdes e o ambientalismo moderado dos tecnocentristas. Para ele, o mais problemático é que as ideologias que estão por trás das diferentes posições, poucas vezes se explicitam. Considerando a nova posição majoritária dos ambientalistas identificada por Crespo, pode-se enquadrá-la no que Foladori (2000) classifica
Internacional sobre Planejamento e Gestão em Centros Urbanos (Ecourbis), realizado em Florianópolis (SC), em dezembro de 2002. A entrevista foi publicada no jornal catarinense A Noticia, Florianópolis, 12 jan. 2003.
como tecnocentristas, corrente antropocêntrica que tem posições reformistas e que confia na adaptação das instituições aos desafios ambientais, assim como em soluções técnico-legais, admitindo que o livre mercado pode solucionar os problemas ambientais.
Em termos da organização de movimentos sociais sobre o ecoturismo, identifiquei, tão-somente, uma mobilização pela sua certificação, iniciada no segundo semestre de 1999 e, coordenada pelo Conselho Brasileiro de Turismo Sustentável (CBTS)37, que vem mobilizando entidades, empresários, acadêmicos e o Estado para discutirem, em diversos fóruns, metodologias e princípios políticos, econômicos, filosóficos, éticos, culturais e ambientais que possam ser aplicados aos diversos tipos de atividades ecoturísticas.
Destaco, deste item, a ação das ONGs ambientalistas na formulação de políticas e de projetos demonstrativos com vistas a tornar o ecoturismo uma alternativa concreta de desenvolvimento, bem como a aproximação com os movimentos sociais, aspectos estes que me pareceram importantes para investigar nesta pesquisa de campo, particularmente o que se refere às influências de suas mudanças político-ideológicas no processo de implantação e desenvolvimento do ecoturismo. No item a seguir, produzo a resenha sobre as ações do Estado.