Susan Emmenegger *
IV. Etendue du devoir d’information
1. Distinction selon les transactions bancaires
Do lado da oferta da indústria turística, é importante destacar que o turismo não se constitui em um ramo de produção definido entre aquelas atividades econômicas listadas pela ONU pois, de acordo com Ignarra (1999) ele utiliza-se de vários setores econômicos para compor seus produtos, sendo que parte expressiva destes não se dedicam exclusivamente ao turismo. O complexo diversificado de empresas e serviços que compõem o turismo consegue aglutinar o também diversificado segmento dos turistas, atuando como um fator de coesão através de um trabalho que compreende a identificação, o estímulo e a satisfação das necessidades dos viajantes. Em outros termos, como observam esses autores, são as empresas da indústria turística que:
[...] refuerzan el instintivo deseo del ser humano de apartarse de la polución y la alienación que generan nuestras sociedades industrializadas y urbanizadas, al tiempo que se encargan de proporcionar los medios necesarios para poner en práctica el cumplimento de estos sueños. (TURNER; ASH, 1991, p. 15).
As empresas do turismo, segundo observa Treboul (1998), são marcadas por uma diversidade, conformando um grupo heterogêneo, mas que estão ligadas por laços de interdependência pouco conhecidos dos analistas econômicos e dos pesquisadores. Em termos práticos, o trade turístico, segundo Ignarra (1999), é constituído por um imenso complexo que compreende os atrativos e os serviços turísticos, os serviços públicos e a infra-estrutura os quais se concretizam em uma diversidade de empresas como as operadoras – que planejam e organizam o processo de viagem –, agências de viagem, meios de hospedagem, empresas de transporte aéreo, terrestre, fluvial e de restauração, empresas de propaganda e marketing, empresas de entretenimento, bancos, financeiras, comércio e serviços de diversos tipos (saúde, segurança, informação, comunicações). Além disso, incluem-se na oferta os recursos humanos que, por sua vez, prestam serviços especializados.
Na linha de frente do mercado turístico, ponteiam as empresas tradicionais – as operadoras – que podem ou não ter agências específicas subordinadas, ocorrendo, contudo, transformações profundas nos últimos anos. De um lado, verifica-se um movimento empresarial com alianças estratégicas e fusões, configurando grandes consórcios com concentração de poder econômico no mercado, e que chega a estender-se também ao plano político. De outro, há o surgimento de um outro tipo de empresas que, segundo Molina (1988), orienta seus valores e suas práticas com base em novas culturas empresariais e de management. A situação de alta competitividade no mercado na atualidade, aliada às exigências de qualidade, preços e diferenciação, produz sinais claros de guerra comercial em que existe uma pressão constante por ajustes na forma de produzir e do que se produz. A esse respeito, criticamente, Molina (1988) observa que a situação atual de alta competitividade e concentração de poder econômico e tecnológico do que chama pós-turismo deve provocar desigualdades econômicas, sociais, tecnológicas e produtivas.
Alguns autores, em face da explosão do ecoturismo na segunda metade dos anos 90, chegam a se referir a ele como uma moda. Coelho (2000), entretanto, explica que por trás de cada fenômeno turístico há milhares de reais de investimento realizado pelo empresariado em prospecção e comunicação. Segundo a autora, em um mercado competitivo, constituído por alguns destinos permanentes e outros tantos efêmeros, os operadores estão continuamente à procura de novas galinhas dos ovos de ouro. Nesse mercado, há uma divisão de funções entre o Estado e as operadoras. Enquanto o primeiro constrói infra-estrutura e lança campanhas, os operadores turísticos fazem prospecção de mercado, buscando parceiros para os pacotes que são construídos através de negociações de melhores preços e condições junto a hotéis, companhias aéreas e restaurantes, bem como de convites a agentes de viagens e jornalistas para experimentarem os serviços. Ao lado disso, outras ações são desenvolvidas com vistas a complementar o processo como apresentação de brochuras, mailings, campanhas de publicidade e
stands em feiras. Este é um processo que se inicia com o operador, que funciona como um
grossista junto às agências de viagem produzindo os programas padronizados que são apresentados para distribuição nas agências, havendo também a participação das agências ou Secretarias de Turismo dos Estados. Como o custo dessa produção é elevado, ele é repassado ao consumidor na aquisição do pacote. Com a modernização do setor, as empresas introduziram estratégias de fidelização dos clientes, que contam com ações de mailling e telemarketing e também o trabalho de construção de perfis dos clientes que são importantes na definição dos atrativos a serem criados e vendidos.
Especificamente em relação aos empresários que atuam no lado da oferta, identifiquei duas pesquisas no Brasil que investigaram empresas que atuam na área do ecoturismo. Com o objetivo de caracterizar as empresas, os serviços e produtos ecoturísticos
oferecidos e determinar o perfil dos seus clientes, Ruschmann32 (1995) pesquisou agências de turismo ecológico com serviços receptivos nacionais e internacionais. Constatou que a maioria do empresariado fundou suas agências entre os anos de 1986 e 1990, têm de 1 a 4 sócios situados na faixa etária entre 24 e 35 anos, em São Paulo, e 36 e 45 anos, em outros Estados. Observou a vinculação desses empresários com a área ambiental, uma vez que a maioria informou que possui nível superior nas áreas de ciências humanas ou biológicas, sendo que muitos deles foram motivados a criar empresas pela experiência de terem sido guias ecológicos, pelo interesse pela natureza ou como hobby. Apesar disso, verificou que no comércio das viagens, as empresas não hesitam em realizar viagens com número elevado de turistas que podem degradar o meio visitado na medida em que a capacidade de carga do local não é considerada. Além disso, usam veículos motorizados que provocam ruídos e poluição.
A informação de que 80,8% dessas empresas (52,3% em São Paulo e 28,5% em outros Estados) atuam apenas com pacotes de ecoturismo (enquanto as demais trabalham com todos os tipos de turismo), mostra que o ecoturismo já se constitui em uma atividade econômica consolidada e confirma observações anteriores sobre as raízes do ecoturismo, ao mostrar que em São Paulo existe uma maior especialização, bem como um maior mercado consumidor desse tipo de turismo. Os empresários pesquisados trabalham na divulgação dos produtos utilizando tanto a mídia quanto enviando mala direta e participando de eventos no País e no exterior.
Bely Pires (1999), por outro lado, realizou um estudo exploratório mais específico sobre o processo gerencial das agências de ecoturismo situadas na Cidade de São Paulo. Nos quatro casos estudados, a autora observou o envolvimento dos sócios com as questões ambientais
32 A pesquisadora ressalta a dificuldade de caracterizar as empresas dado que a legislação não obriga a especificação, o que fica na dependência do interesse do proprietário. Assim, para enquadrar a amostra como científica, entrevistou somente empresas cadastradas na Embratur.
em dois casos, sendo que o terceiro tem perfil mais administrativo, mas envolve-se com o meio ambiente, enquanto, no quarto caso, a maior preocupação é com a administração do negócio. Quanto aos funcionários, observou também uma diferenciação no que diz respeito à formação, havendo casos em que eles tiveram cursos de turismo e meio ambiente e em outros não. Em termos de planejamento e organização, predomina a informalidade, sendo que os maiores cuidados se dirigem para os processos de mercado - operação e comercialização -, observando a pesquisadora que os empresários parecem não apontar o meio ambiente como parte integrante dos objetivos da agência. Como a maioria das empresas não realiza controle de satisfação junto aos clientes – apenas uma o fazia –, a autora ressalta que o desconhecimento sobre o comportamento do ecoturista parece ser um obstáculo para o aprimoramento da gestão ambiental. Quanto aos aspectos do mercado consumidor das agências, em três empresas, o público inicial foram as escolas e pessoas das classes A e B. Um outro setor empresarial, mencionado esporadicamente por alguns autores, é o de consultoria, que tem ocupado grande espaço na área ecoturística, realizando trabalhos para o Estado, em especial de planejamento e formulação e assessoria de projetos.
As pesquisas acima afirmam a existência de um trade ecoturístico, organizado através do Instituto de Ecoturismo do Brasil (IEB, 2000), que foi criado em Canela/RS, em 1995, com o objetivo de representar nacionalmente os interesses de empresários e instituições de ecoturismo. Além disso, destaco a ação da Ecobrasil (2000), criada em 1993, em Ilhéus, como fruto da preocupação de alguns operadores especializados com a qualidade dos produtos de turismo ecológico disponíveis no mercado, cuja razão social é de empresa de assessoria e consultoria, mas que tem desenvolvido ações voltadas para o fortalecimento da atividade.
Todavia, a situação não é tranqüila, havendo críticas ao fato de muitas empresas do setor privado, em especial as operadoras:
[...] não possuírem critérios para o planejamento de suas atividades ou para a proteção da própria base dos recursos naturais e culturais que fundamentam seus negócios. Em alguns casos sequer há a preocupação em se auto-regulamentar, organizando-se para estabelecer diretrizes ou códigos de ética próprios. (SALVATI, 2002, p. 2)
Concluo neste item, que existe um setor empresarial ecoturístico estruturado e organizado politicamente no Brasil há mais de uma década, influenciando as políticas públicas e desenvolvendo projetos em parceria com o Estado.