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C OMPLEXE SUR SA J USTICE P ERÇUE

I. la perception de l’annonce d’un prix complexe

Afro viajou ao Fórum Social Mundial em Porto Alegre para representar a Posse. A notícia chegou por e-mail – que ele ainda nem sabia usar direito – e ficou marcada na memória dele. Falar sobre a viagem até lá, de avião, ainda o deixa extasiado. Foi uma oportunidade de conhecer grupos de todo o país e entrar em contato com a diversidade que compõe o movimento. Hoje, Afro não vê a Posse isolada no Guarapes, e sim em constante interação.

Somos um movimento conhecido em todo o Brasil. Tem muita coisa que mandam pra gente, pra dar ideia. São Paulo, o rap é uma coisa, Nordeste já é outra. Estamos engatinhando mas já trouxemos os caras que são feras. O movimento do Hip Hop criou um carinho, é que nem a força de uma gangue, só que com respeito (Afro, 39 anos). A Bodega Digital, sede da Posse, está tecnicamente desconectada da internet. A casa não tem muito movimento, passa boa parte do tempo vazia. “Se tivesse internet aqui, esses dois computadores iam estar ligados, a todo momento ia ter alguém aqui utilizando, seja do Orkut, seja do Facebook ou fazendo pesquisa. Quando tinha internet, toda hora tinha gente aqui no espaço” (Zezão, 36 anos).

Com os espaços desconectados, o grupo não mantem a mesma dinâmica dos tempos em que mantinham um telecentro comunitário na sobreloja de uma padaria em uma das principais ruas do bairro.

A internet do Gesac, que nós tínhamos aqui, gratuita e que, pela manhã era pra Posse de Hip Hop e à tarde era aberta à comunidade, aberta pra todo mundo. Vinha, dava o nome, agendava... Pronto. Meia hora pra cada pessoa. Todo dia, era escalado um membro da Posse para fazer essa organização. [...]. A gente orientava como elaborar um currículo, ajudava a enviar os currículos via e-mail pra os interessados, a gente às vezes, ajudava em pesquisa escolar... teve uma campanha pela internet para buscar uma pessoa desaparecida. A gente era responsável pela inclusão digital dessas pessoas (Zezão, 36 anos).

A experiência do telecentro rendeu frutos não somente para as pessoas beneficiadas pelo esforço de inclusão digital da comunidade. A Posse consolidou a sua participação nas redes, previamente constituídas em encontros de movimentos de Hip Hop articulados por todo o país. Hoje, o grupo se constitui profundamente pelas articulações realizadas em grande escala pela internet. “Sem internet, a instituição praticamente não sobrevive, por que

a Posse tá em rede com vários grupos de jovens, associação de juventude do Brasil inteiro. A gente está articulado a uma rede nacional de Hip Hop” (Zezão, 36 anos).

Articular-se nessas redes garante o acesso a informações privilegiadas que transformam a dinâmica da Posse. A transformação do grupo em uma organização não- governamental foi uma opção mediada pelas redes, uma vez que o grupo sentia a necessidade de participar de editais de projetos, de aplicar por aqui, experiências que deram certo em outros lugares.

Não tem como a gente se comunicar com esses parceiros sem se inteirar do que tá ocorrendo nacionalmente, o que pode nos inteirar em termos de edital, de projetos de atividades que foram desenvolvidas, de experiências que aconteceram em outras instituições que deram certo e que a gente poderia implantar, trocar ideia, isso e aquilo (Zezão, 36 anos)

No entanto, a Posse também faz o fluxo inverso de informações através da rede. Para estes jovens, receber informações, estar por dentro das articulações que ocorrem nacionalmente torna-se ainda mais fundamental quando eles conseguem, direto do Guarapes, se posicionar politicamente, interferir no debate cultural do Hip Hop e nas discussões sobre políticas públicas de juventude que se desenvolvem nacionalmente. “Sem a internet, não tem como a gente ter acesso a esse diálogo, esse contato e saber do que tá se passando lá e eles saber também como é que tá o andamento das atividades aqui”.

Mas nem tudo são desconexões. Preto e Dina, coordenadores do grupo, assumem papel de não deixar a conexão da Posse ser desligada pela burocracia estatal. Se a antena do Gesac permanece desativada, a internet no trabalho torna-se a ponta de uma rede paralela que leva informações, ideias e debates a todos os componentes do grupo.

Funciona assim: diariamente, Preto e Dina mantém-se conectados aos debates em voga nas redes em que participam, principalmente os espaços que reúnem as entidades participantes do Movimento Hip Hop Organizado do Brasil. Em seguida, pelo telefone ou nas reuniões do grupo, eles repassam as informações aos outros colegas. Por reuniões, não devemos entender um espaço formal de discussão. Muitas vezes, um encontro festivo num sábado à noite, ou um encontro casual na porta da Posse pode render discussões profícuas e definir os posicionamentos da Posse de Hip Hop nos grandes debates da juventude brasileira na internet.

Os jovens com quem conversamos parecem confiar bastante no sistema, já que não expõem conflitos sobre esta dinâmica. O que não quer dizer que não haja divergências na hora das discussões. Nestes casos, as relações entre os jovens parecem ser suficientemente maduras para que as discordâncias cheguem ao ciberespaço pelas mãos de Preto e Dina. Mas a solução, ainda que funcione bem, não é aceitável. “Um espaço desse, cultural, de

intercâmbio, de rede de jovens que é interligado... é fundamental a internet aqui (Zezão, 36 anos).

Fundamental, pois a Posse é organizada politicamente e consegue usar a internet para se comunicar bem, mas ainda falta muito para que consiga consolidar uma identidade em rede construída coletivamente. “Somos um grupo bem articulado politicamente, usamos a internet como meio de se comunicar, mas a gente ainda não conseguiu fazer com que a gente crie uma identidade virtual” (Preto, 27 anos).

A Posse de Hip Hop já deu mostras de que o acesso à internet traz condições para ações transformadoras. A campanha Mulheres N'Ativa – ideias positivas foi uma delas. A ideia era chamar atenção para a violência contra a mulher e ao papel delas na transformação social. Com tudo articulado pela internet, o grupo divulgou uma campanha publicitária pela internet e conseguiu realizar eventos no Guarapes que reuniram milhares de pessoas.

A gente bombou no Orkut. Nas comunidades de Hip Hop. A gente mandava mensagens, as propagandas pra ser divulgadas em massa. E sempre, toda semana, mandando mensagem nova, publicidade nova [...]. Foi um evento bacana, reuniu muita gente, todos os canais de mídia, e a divulgação foi toda feita através da internet (Zezão, 36 anos).

O projeto dos agentes culturais, aprovado no Ministério da Cultura graças às articulações ciberespaciais do MOHHB, movimentou até mesmo a economia do Guarapes. Pela internet, os jovens se comunicaram com o Ministério da Cultura e conseguiram a liberação de 60 bolsas.

60 jovens da comunidade, de 15 a 22 anos, recebendo quatrocentos reais por mês para desenvolver e participar das nossas atividades. Até pra economia do bairro foi massa, porque a galera do comércio, quando saía o pagamento, nossas mães iam lá fazer compras [...]. O pessoal começou a valorizar o Hip Hop aqui no bairro por que chegava recurso de fora [...]. Quem nos deu acesso a isso foi a comunicação. Se não, a gente não tinha conseguido desenrolar isso não (Preto, 27 anos).

O próximo passo do grupo é buscar a conexão à internet de forma permanente. Nem que, para isso, desistam de esperar pelo Estado e tirem dinheiro do próprio bolso. Mais uma barreira que, vencida, abrirá ainda mais brechas para que os jovens explorem novas possibilidades e reinventem o seu próprio ciberespaço, organizem suas ações táticas e assumam uma estratégia de atuação que os permita explorar além das fronteiras que os oprimem e busquem, cada vez mais, modos de vida mais justos para inspirar a transformação da sua realidade.