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De l'individualité à l'expérience

C. Approche et problématique géographiques

2. De l'individualité à l'expérience

Este estudo pretendeu explorar pela primeira vez os preditores da praxe académica utilizando um paradigma experimental, ou seja, quais os preditores que poderão estar

relacionados com a motivação de estudantes do ensino superior para praxar os novatos. Neste sentido, seguindo o paradigma utilizado por Ciminio (2013b), manipulou-se o grau de

cooperação dos grupos e de contribuição do indivíduo no grupo, como também se explorou o papel que variáveis tradicionalmente trabalhadas em Psicologia Social (e.g. a dominância social e o grau de identificação com o grupo) desempenham neste processo.

Tal como foi descrito anteriormente, referente aos dados sociodemográficos, foi verificado que o sexo, a idade e a universidade do participante exercem influência na participação da praxe, foi praxado e praxou. Os resultados evidenciaram diferenças significativas entre a variável idade do indivíduo e as variáveis participação na praxe académica e fui praxado. Esta diferença é maior no grupo etário que possui entre 18 e 24 anos. Estas diferenças podem estar associadas a este “grupo etário típico de uma educação formal” (Instituto Nacional de Estatística, I.P.,2011, p. 18), em que a integração ao novo meio académico constitui um dos maiores e preocupantes desafios do estudante (Garrido &

Calheiros, 2016) e por ser a praxe dita promotora de integração (Código de Praxe da Universidade de Coimbra, 2017; Ferreira, 2017; Ribeiro, 2000), os estudantes mais novos veem a sua participação na praxe e o deixar ser praxado como uma forma de se integrarem no meio académico.

Na análise dos resultados obtidos e respondendo a H1 (Quando a perceção do grau de cooperação do grupo é percebida alta esperam-se maiores benefícios automáticos e não automáticos, maior identificação com o grupo e níveis mais elevados de stress desejados para os iniciados do que quando a cooperação é percebida como baixa), permitiu verificar que quando o tipo de cooperação do grupo é alta (com alto grau de contribuição do grupo) os benefícios automáticos percecionados são mais altos, como também a desejabilidade de stress nos rituais de praxe é maior. Porém, a perceção do grau de cooperação do grupo não exerce influência na identificação com o grupo, como também na perceção dos benefícios não automáticos. Desta forma, a H1 é admitida em parte. Cimino (2013), alude que em grupos considerados do tipo altamente cooperativos, que exigem maiores esforços do indivíduo para pertencer ao grupo, geralmente, são grupos percecionados como detentores de maiores benefícios automáticos e a praxe munida de stress que o veterano deseja ao caloiro é a forma encontrada para evitar a utilização “gratuita” dos benefícios automáticos por parte do caloiro

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(Cimino, 2013b). Os resultados deste estudo vêm ao encontro dos resultados de Cimino (2013b) que mostraram que o desejo de praxar com stress aumenta com a perceção dos benefícios automáticos e diminui com a colaboração do novato para o grupo (benefícios não automáticos).

No que refere a H2 (Este efeito será moderado pelo grau de contribuição percebida do individuo em relação ao grupo no sentido em que o efeito nas variáveis de interesse será maior quando a contribuição individual para o grupo é mais elevada), os resultados

evidenciaram que o grau de contribuição que um membro possui para o grupo exerce o efeito moderador esperado apenas no caso da perceção de benefícios automáticos. Neste caso, tal como esperado, a perceção de benefícios automáticos é mais elevada na situação em que o grupo é percebido como mais cooperativo e o indivíduo contribui mais.

Nas restantes variáveis, a este respeito, os nossos resultados permitiram verificar que o grau de contribuição irá exercer influência apenas na identificação com o grupo, ou seja, quanto maior for a sua contribuição no grupo, maior a identificação com este. Desta forma, a H2 também é admitida em parte. Diante disso, quando o indivíduo possui um elevado grau de identificação com o grupo, irá esforçar-se, trabalhar, acatar com maior facilidade as suas regras, assimilar os seus valores e terá maior apreço pelo grupo (Jones, Dovidio & Vietze, 2013). Numa correlação entre as variáveis os resultados mostraram que quanto maior é a identificação do veterano com o grupo, maior é a perceção de benefícios automáticos no grupo. Desta forma a chegada de um novo membro irá ser percecionada como uma ameaça a estabilidade interna do grupo, o que poderá levar o indivíduo com alta identificação com o grupo a ter comportamentos violentos contra o novato (Morrison & Ybarra, 2008), visto que a chegada de um novo membro causa uma desenfreada exploração dos benefícios automáticos e a praxe servirá para conter esta exploração gratuita destes benefícios (Cimino, 2013).

Os resultados mostraram que a orientação para a dominância social está significativa e negativamente relacionada com os benefícios não automáticos, isto é, quanto mais orientação para a dominância social, menor é a perceção de benefícios não automáticos. Os resultados apontam que quanto mais o estudante praxou, maior foi o seu desejo de uma praxe com stress. O ter praxado possui uma relação significativa e positivamente com a orientação para a

dominância social. De acordo com a literatura o elevado nível de stress desejado na praxe são tentativas de regulação e dominação comportamentais durante um determinado período, para evitar o “abuso” desregrado da utilização de benefícios automáticos do grupo (Cimino,

2013b). Desta forma, quanto mais alta a orientação para a dominância social de um indivíduo, maior será a sua motivação para manter o poder e aumentar os recursos relevantes para o seu

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grupo (Schmitt, Branscombe & Kappen, 2003) e assim maior a tendência para praxar. Porém, os estudantes que foram praxados desejaram maior stress no ritual de praxe. Provavelmente, estes estudantes tornaram-se veteranos e a forma encontrada para “se vingar” das humilhações sofridas quando novato foi o desejo de uma praxe com stress para os próximos caloiros (Zuin, 2011).

Através da correlação das variáveis verificou-se que a orientação para a dominância social não influencia o desejo de stress na praxe para o novato, o que levou a H3 não ser verídica. Isto poderá estar relacionado com diversas variáveis que não são possíveis de verificar estatisticamente nesta amostra (e.g. diferenças culturais existentes nos rituais de praxe, perceção do que é praxe para o estudante), sendo pertinente a inclusão de outras variáveis em futuros estudos.

Em face destes resultados, e em resposta a questão de investigação “Porque os estudantes universitários praxam?” algumas destas variáveis em estudo mostraram ser

preditores motivacionais que sustentam os comportamentos da praxe académica num contexto universitário. Ao analisar a dominância social, verificou-se que esta poderá, ser um preditor motivacional da amostra do estudo para praxar. Assim, apurou-se que a dominância social correlaciona positivamente com o praxou, sexo masculino e negativamente com os benefícios não automáticos. Os estudantes que possuem maior dominância social são alunos que

praxaram, do sexo masculino, da menor faixa etária (18-24 anos) e quanto maior a dominância social, menor a perceção de benefícios não automáticos. É de referir que a

dominância social não se relaciona com o desejo de uma praxe com stress. Deste modo, pode- se inferir que a dominância social exerce influência nesta amostra para praxar, mas sem componentes de stress.

No referente aos benefícios automáticos como um preditor da praxe, parece verificar- se verdadeiro. Os resultados mostraram evidências de que nos grupos que são percebidos do tipo de alta cooperação (como provavelmente é considerada a praxe), quando a contribuição é alta, espera-se maiores benefícios automáticos e havendo uma relação significativa com os benefícios não automáticos (quanto mais benefícios automáticos, mais o caloiro deve trabalhar e assim passar a usufruir de benefícios não automáticos). Os benefícios não automáticos, neste sentido, não parecem ser um preditor do comportamento de praxe.

Ao averiguar o nível de stress desejado na praxe para o novo membro, deparou-se que quanto mais o estudante praxou maior foi a componente de stress desejada na praxe ao

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No que se refere à identificação, verificou que quanto mais o indivíduo se identifica com o grupo, maior é a sua contribuição para o grupo, como também a perceção de benefícios automáticos. Como resultado da exploração dos benefícios automáticos, o veterano ao se identificar com o grupo poderá percecionar a chegada de um novo membro como uma ameaça à estabilidade interna do grupo e como a praxe parece ter a função de obrigar o caloiro a “pagar” pelos benefícios automáticos (Cimino, 2013), pode-se inferir que a identificação com o grupo onde a contribuição do indivíduo é alta poderá ser um preditor para praxar.

Diante destes resultados sugere-se novas investigações sobre a mesma temática, com amostras mais equilibradas entre o sexo, como também entre as universidades, sendo esta uma limitação do estudo. Do mesmo modo sugere-se para futuras investigações a verificação da manipulação para a perceção do grau de tipo de cooperação dos grupos. Este estudo seguiu a lógica de Cimino (2013), que só incluiu no estudo original a verificação de manipulação do grau de contribuição. No entanto, considera-se que esta é uma limitação importante que deve ser ultrapassada no futuro, procurando-se incluir também uma verificação da manipulação do grau de cooperação. Todos estes resultados encontrados ainda requerem melhor elaboração em estudos futuros. Sugere-se também, em futuras investigações, a inclusão de novas variáveis (e.g. crença no mundo justo, atitudes, influência social) tendo em conta os fatores individuais, crenças, valores, componentes sociais, diferenças culturais, e a perceção do que é a praxe para o estudante.

Conclusão

Este estudo constituiu um contributo para o entendimento das variáveis que motivam e que estão por detrás dos comportamentos de praxe. Pela primeira vez em contexto nacional, através de um estudo experimental, mostrou-se que o grau de cooperação percebido em grupos de praxe que possuem “supostos” benefícios (e.g. apoio aos membros, proporciona a diversão, promotora da socialização) é um importante preditor do tipo de stress que se espera que um novo membro do grupo (i.e., um caloiro) deverá ter se desejar pertencer a esse grupo.

De forma interessante também se demonstrou que variáveis psicossociais como a orientação para a dominância social e o grau de identificação com o grupo podem influenciar os comportamentos de praxe.

O conhecimento dos fatores que preveem a praxe é essencial para o desenho de intervenções adequadas neste domínio. Por exemplo, se a praxe é em parte justificada pela necessidade de entrada num grupo que é percebido como muito cooperativo e que traz benefícios aos membros, então talvez esse desejo de pertença possa ser substituído pela

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entrada noutro tipo de grupos altamente cooperativos detentor de benefícios, mas com outro fim, por exemplo, programas interativos, liderados por estudantes mais velhos que são reconhecidos como líderes no meio académico, sendo uma estratégia para quebrar o ciclo da praxe e explorar as relações sociais saudáveis existentes na comunidade académica.

Esperamos que esta dissertação seja um contributo importante para mudar o modo como vemos a praxe no nosso país, pensar sobre a complexidade desta cultura que faz parte do meio académico e que não existe solução única para acabar com os ensejos de violência contida nesta prática.

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