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5.2 Prévision des crues

5.2.5 Identication, validation

Parece fazer parte da cultura religiosa ucraniana, tanto ortodoxa quanto católica de rito oriental, sustentar e conservar alguns dos distintivos e dos símbolos que a identificam com uma ideologia imperial sacralizada, perceptíveis nos entremeios da celebração dos muitos ritos que abarcam a tradição litúrgica bizantina.

Afora seu conceito especificamente litúrgico, em sua natureza funcional, o rito nem sempre se referiu tão somente ao culto divino, preocupando-se em legitimar e sacramentalizar uma aliança do império com a igreja.162 Na corte do império romano do Oriente, onde imperadores e patriarcas distinguiam-se dos demais bispos e príncipes, o rito tinha papel determinante de serviço em veicular um poder acordado entre duas instituições e apontava quem eram seus legatários. Logo, compreende-se que o rito ganhou naturezas, sentidos e foi susceptível às hermenêuticas diferenciadas conforme o seu uso e lugar.

Agamben, analisando o fundamento jurídico do caráter litúrgico que unia a celebração religiosa cristã dos primeiros dez séculos ao mundo pagão, encontrou na etimologia da palavra ‘liturgia’ (ληιτον +

162 LARCHET, Jean Claud (Org.). Grands spirituels orthodoxes du XXème siècle. Lausanne:

έργον) o significado de uma prestação pública de um serviço que se contrapunha ao privado.163 Assim, no tocante às cerimônias religiosas, o rito para a igreja pareceu condensar objetivos para além do mundano ao executar um serviço para Deus, por isso, litúrgico. Se a palavra liturgia, de etimologia grega anteriormente remetia à ideia de função pública de interesse igualmente público164, com a instituição de regimes de crença, ganhou atribuição devocional passando a designar o serviço que previa oferendas e sacrifícios aos deuses do império romano.165 Já com o cristianismo, os serviços litúrgicos executados nas comunidades recentes revestiam-se aos poucos de uma significação alheia àquela da comilança e dos sacrifícios cruentos, passando a configurar a formalidade de um convite à participação na Ceia do Senhor, como advertiu o apóstolo Paulo à recém-fundada comunidade cristã grega de Corinto, na Grécia:

Não aprovo vossas assembleias que causam mais prejuízo que proveito. Desde modo quando vos reunis já não é para comer a Ceia do Senhor, porque mal pondes a mesa, e cada um toma antecipadamente a sua própria ceia; e assim um tem fome e outro se embriaga. Não tendes porventura casas para comer e para beber? Ou desprezais a igreja de Deus, e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto não vos louvo.166

163 AGAMBEN, Giorgio. Op. Cit., 2011, p. 193.

164 MORINI, Enrico. Os ortodoxos: o Oriente do Ocidente. São Paulo: Paulinas, 2005, p. 45. 165 BINNS, John. Las Iglesias del Oriente. Madri: Ediciones Akal, 2009, p. 12.

166

A advertência do apóstolo acerca da inconveniência de fazer do encontro em que cristãos rememoravam a Ceia do Senhor um lugar só de satisfação do estômago, para além de uma primária catequização, demonstrava a necessidade da instituição de regras de comportamento. Lembrar-se da instituição da Eucaristia significava então ritualizar os procedimentos de boa conduta ao redor de uma mesa cuja finalidade era a saciedade espiritual e não somente a do corpo. Para tanto, era prudente que se estabelecessem limites, modos de comportamento e de posturas e que se anulassem as atitudes de desvios àqueles propósitos. A partir de então, a rememoração da Ceia do Senhor passou a ser produzida, padronizada e pensada como um evento comunitário que, no percurso de montagem de estruturas celebrativas, ganhou expressão, forma, solenidade e enobrecimento, angariando o pomposo nome de rito litúrgico.

Norbert Elias, ao transcrever e reunir algumas normas de comportamento à mesa dos nobres da Idade Média, observou que toda aquela mudança de conduta era um reflexo de um percurso, de construção de um saber-viver dado pelas injunções e proibições pelas quais era modelado o indivíduo. Isso posto e fazendo as devidas distinções do tempo da Idade Média e do início das primeiras comunidade cristãs, pode-se constatar, como Nobert Elias, que a aquisição e a aprendizagem de um saber-viver polidamente e de forma padrão em qualquer sociedade ou no interior de qualquer instituição é

uma liturgia que obedece a um movimento não perfeitamente retilíneo, mas feito aos poucos, ainda que cheio de flutuações e curvas.167 Infere- se, então, que os ritos religiosos, como o bom comportamento social foram instituídos por acordos e conveniências, e legitimados e consagrados pelas práticas, conforme tempo e lugar.

Buscando os fios que teceram a trama e a feitura do rito bizantino, observa-se que o consórcio entre império e igreja, em cada porção do Oriente e do Ocidente cristãos, influenciou a organização e a compilação de leis, de estrutura hierárquica e das formas de culto que passaram então a ser mais estáveis e regulamentadas. Somente a partir do século IV, houve certa preocupação em unificar as formas de celebração litúrgica em torno de um fim, para além do da adoração e da contemplação à divindade, transferindo um pouco das reverências aos expoentes de cada porção do cristianismo oriental e ocidental. Porque o período que vai do século IV ao XV representa na igreja do Oriente um tempo de intenso dinamismo teológico, a suntuosidade litúrgica bizantina, para além de espelhar o modo do saber-viver da corte, refletia, ao mesmo tempo o controle e a formação disciplinada do comportamento. Se a “igreja revelou-se como tantas vezes ocorreu, um dos mais importantes órgãos de difusão de estilos de comportamento” desde as primícias do cristianismo até chegar às civilizações europeias, sobretudo à França168, a complexidade e a ritualização das cerimônias religiosas não poderiam ter outro destino.

167 ELIAS, Norbert. Op. Cit, 1994, p. 109. 168

Contudo, para se compreender o atual rito litúrgico das Igrejas ucranianas é preciso traçar o caminho de volta e buscar no passado as razões de sua construção. A forma padronizada da celebração bizantina - das quais as eparquias ucranianas ortodoxa e católica de rito oriental foram também herdeiras-, sobreviveu ao tempo e ancorou-se junto às famílias de imigrantes, em seus territórios de devoção. E, em cada domingo ou dia de festa, os ritos religiosos exibiam, com mais ou menos fulguração, o resultado de uma aliança entre o sagrado e o profano celebrados por séculos nos palácios e na nave das catedrais do império cristão no Oriente e que veio aportar-se em uma cidade que tinha pressa de crescer e de se desligar dos mofos do passado.

O apogeu litúrgico, preso às prescrições de rubricas e em suas poucas variantes, manifestava como a religiosidade ucraniana de tradição bizantina encontrava um lugar para se expor, encarnando-se em movimentos ritmados, em gestos e respostas síncronas, que vinham à vida e organizavam um mundo circundante de lembranças e esquecimentos. O rito religioso torna-se então um material documental em que se podem perceber mensagens identificatórias gestadas por acordos e que são ao mesmo tempo origem de recordações, reconstruções, apagamento ou sublinhamento com tons fortes de algo que marcou a memória. Se a identidade religiosa também é definida e depende do modo como é recebida169, o rito catalisava os partidários dessa expressão de fé não mais individual, mas coletivamente, deixando

169 PRANDI, R. PIERUCCI, F. A realidade das religiões no Brasil. São Paulo: Hucitec, 1996,

revelar uma forma de apreensão do mundo milimetricamente delimitado por realismo litúrgico que beirava, por vezes, ao nostálgico mundo do ontem.

Se no interior das catedrais ucranianas, o espaço religioso organizava, dispunha e preparava os meios para se celebrar coletivamente, o rito colaborava para que se fizesse de forma mais elaborada, não tendo como preocupação primeira escandir como os eventos litúrgicos eram sentidos, mas como eram espetacularizados. Porque a percepção de mundo com suas derivações de sentido é de natureza individual e pessoal, paradoxalmente, o encontro simbólico de apreensões produzido pela ritualidade em um mesmo espaço, onde se aglomeram muitos espectadores, é coletivo. Os ritos produziam lógicas devocionais por onde orbitavam formas de amostragem de uma fé ucraniana, trazidas à vida de forma decodificada e era na subjetividade de cada percepção que estava sua duração, compreensão, aceitação ou rejeição.

Walter Rehfeld, filósofo contemporâneo das religiões e religiosidades bíblicas, mostra que, por muito tempo, se pensou que algo passageiro ou que não perdurasse no tempo fosse algo sem valor, de tal forma que algo poderia ser avaliado a partir de sua constância ou falta de durabilidade.170 Parece, então que, nos ritos bizantinos, a durabilidade na observação das formas celebrativas não era regida apenas por um valor subjetivo da vontade, mas pela conveniência de

170 REHFELD, Walter. Tempo e religião: a experiência do homem bíblico. São Paulo:

observá-las dentro de um contexto em que inalterabilidade de costumes era sinônima de identidade e de obediência a uma instituição. Assim, a especificidade e a precedência dos ambientes das celebrações ucranianas pareciam curvar-se perante o espírito de concessões que pairava nas eparquias instaladas em meio urbano e em época pós-conciliar. Nesse caso, parece que o local específico das celebrações instituía-se uma lembrança contundente do passado e das realidades celebrativas, impedindo que as novidades litúrgicas se instalassem. Na Constituição sobre a Sagrada Liturgia, número 23, o Concilio advertia que “as inovações não sejam introduzidas a não ser que uma verdadeira e certa necessidade da Igreja o exija, e sejam feitas com precaução, a fim de que as novas formas procedam das já existentes.171

Se por um lado os fluxos migratórios que desembocaram em Curitiba amealharam o tempo em que se preservavam casamentos endogâmicos, facilitando matrimônios mistos, por outro, tornaram o caldo cultural urbano mais denso e menos uniforme, multifacetado. Logo, no encalço do descompromisso da continuidade étnica ucraniana, infiltraram-se novos modos de recepção da cultura, sobremaneira do rito bizantino, fazendo surgir perguntas, curiosidades, uma vez que nem sempre os cônjuges seguiram a mesma fé do consorte.

Modos diferenciados de percebê-los e aceitá-los proporcionaram a feitura de novas redes de sociabilidades e novo

171 PAULO VI. Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia.

Disponível em http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat- ii_const_19631204_sacrosanctum-concilium_po.html . Acessado em 14 de feveriro de 2011.

realinhamento da confessionalidade ucraniana que se expunha em um espaço em movimento. Nesse sentido, Martine Segalen, estudiosa dos ritos celebrados em espaços urbanos, explica que, tanto nos bairros que compõem a cidade grande quanto nos de características rurais, as expressões e os compromissos coletivos, diante das novas configurações espaço-sociais individualizantes e diante do interesse pessoal, destronam-se buscando recompor-se em outras vertentes.172 A aglutinação de culturas diversas entre as novas famílias mistas tornou a eleição dos códigos de identificação seletiva; e as singularidades advindas dessas escolhas mantinham o elo de pertencimento com feições menos rígidas.

4.2 O rito bizantino na cidade e suas (in)conveniências

No inédito contexto de religiosidades que se cruzaram após o desemboque de tantas levas de imigrantes, em Curitiba a partir de 1960, surgiram, por exemplo, perguntas incontornáveis a respeito da maneira de se celebrar daquelas comunidades que se viam tradicionais, como evidenciou Maria Pavliv.

Quando menina vinha mais a igreja. Hoje venho só nas grandes festas. Acho que a liturgia ucraniana é muito longa, cheia de exageros. O bispo chega com uma longa capa de cor violeta, e com um tipo de chapéu preto na cabeça,

172 SEGALEN, Martine. Ritos e rituais contemporâneos. Rio de Janeiro: Editora Fundação

segurando um bastão. Às vezes, crianças jogam flores no corredor para o bispo passar. Depois o bispo coloca mais roupas, mais cruzes e por fim uma brilhante coroa. Me incomoda esses exageros. Para que tantas roupas, tantas capas?173

Na interrogação de Maria subjaz um inconformismo em que a inconveniência de um rito testemunha a inadequação de temporalidades e de compreensões que se cruzavam, impedindo que gerações não tão distantes se convencessem da necessidade de conservar o que julgavam desnecessário. Os paramentos descritos por Maria Pavliv referiam-se ao compósito indumentário que os bispos bizantinos trazem consigo desde o século IV quando suas vestimentas equiparavam-se às do imperador,174 como demonstração de poder e autoridade. Os bispos desde então em cerimônias portam coroa, báculo, cruz, elgopion (medalhão com a imagem de Cristo ou de Theotokos), capa magna, triquirion e diquirion (castiçal com três velas na mão esquerda e com duas velas na direita). Fora das celebrações, o bispo substitui a coroa pelo epanokalímafo (chapéu com um longo véu preto), como mostra a Figura 11.

173 PAVLIV, Maria. 31 anos. Casada, ortodoxa ucraniana. Entrevista cedida em 21 de março de

2012. Acervo do autor. Curitiba-PR.

Figura 11- Indumentária episcopal bizantina.175

Por vezes, órfãos de se saber dos porquês da permanência de tanta suntuosidade principesca nas cerimônias e nos paramentos, em uma cidade que queria respirar modernidade, os ucranianos ortodoxos e católicos de rito oriental, presentes em Curitiba, tentavam buscar na inalterabilidade dos costumes as explicações e as conveniências de se manter tais apegos. Embriagados pelo simbólico, muitos ucranianos da capital paranaense, ainda que sentissem o distanciamento entre o

175 THEODOROS, Ivan. In: SABATELLI, Michael. A divina liturgia em rito bizantino

cotidiano e o estupor dos faustos bizantinos em cena, procuravam se manter em seus pertencimentos, sem que não escapassem vez por outra vozes de protestos e contestação que se faziam notar mais por uma incômoda inadequação do que pela imponência. Os rumores e asseverações por vezes partiam dos descendentes da terceira e quarta geração, que observavam a falta de justeza entre o que se celebra de forma tão protocolar com uma realidade cotidiana cheia de contradições. No tocante a essa percepção, Pierre Sanchis explica que em tempos modernos as pessoas não estão mais presas às instituições religiosas como antes, e que cada um constrói e escolhe seu modo de viver e perceber o sagrado.176 Porque deixaram de ver as instituições religiosas como único centro regulador, ordenador e postulador das condutas socioculturais e diante das prerrogativas de suas escolhas, muitos descendentes ucranianos enraizados em espaços urbanos, tendem de certa forma a relativizar ou até mesmo comutar alguns valores ditados pelas igrejas. A aceitação de novos códigos culturais interroga as permanências de costumes se desprovidos de convencimentos ou de formas simbólicas reconhecíveis.

A capa, a coroa, o cetro – resquícios da realeza que ainda vigoram em alguns países no tempo presente – encontraram lugar seguro e perduração nas igrejas de rito oriental –católicas e ortodoxas – que teimosamente resistem às inovações culturais sem que se escapem

176 SANCHIS, Pierre. O campo religioso será ainda o campo das religiões? In: HOONAERT,

Eduardo. História da Igreja na América Latina e no Caribe (1945-1995). O debate metodológico. Petrópolis: Vozes, 1995, p. 90.

por isso de críticas por parte de fiéis que enxergam nisso, usando uma expressão de David Cannadine, “uma farsa sem valor”. O autor solta essa expressão ao analisar a tradição ritualística da qual se serve a monarquia britânica no que tange à forma ritual para aclamar os reis.

Embora o texto básico de ritual repetido possa permanecer fundamentalmente inalterado [...] a maneira exata pela qual se apresenta o cerimonial pode variar, o que por si só serve para acrescentar uma nova dimensão às mudanças de significado. O cerimonial pode ser bem ou mal executado. Pode ser cuidadosamente ensaiado ou levado a efeito de qualquer maneira, sem muita preparação. Os participantes podem mostrar-se entediados, indiferentes, interessados [...]. Assim, dependendo do contexto da apresentação quanto do contexto em que se realiza, o significado de uma cerimônia visivelmente igual pode sofrer mudanças profundas.177

Como na monarquia inglesa, ainda que a solene entrada do bispo, no ritual bizantino, repetida tantas vezes no interior das catedrais ucranianas, seja aparentemente a mesma, o seu significado, porém, modifica-se profundamente, dependendo da natureza do contexto e da pessoa que a assiste. Alguns fiéis ucranianos, à expensa do modo como atribui significado às solenidades, no desdobrar do cerimonial, recordavam-se dos antepassados ou questionavam a serventia daquele evento bisado que durante gerações permanecia fixo em sua ritualidade.

177 CANNADINE, David. Contexto, execução e significado do ritual. In: HOBSBAWM, Eric e

Se de um extremo havia os que não concordavam com a manutenção de ostentação dos ritos bizantinos, sentindo indiferença ou aversão, por outro, contabilizava-se quem emprestasse credibilidade a tais cerimônias religiosas sendo inclusive delas um entusiasmado defensor por observar nesse cuidado de costumes uma virtude, como mostram as palavras de Serguei Lustoif: “Cada vez que venho aqui, a emoção e o orgulho tomam conta de mim. Revivo o que meus pais e avós viveram e me sinto honrado por experimentar como nossa igreja mantém as tradições como sempre foi”.178

Tomando as palavras de Serguei, constata-se que os ritos praticados nessas igrejas ucranianas de Curitiba, mais que algo padronizado, organizado e seguidor de uma lógica funcionalista, podem ser compreendidos como um dispositivo que informa um agir religioso não desagarrado de um tempo específico porque conjugado por diferentes momentos. Nele, o passado e o presente continuam a esperar um futuro que nunca chega, protelando sua concretude para um porvir, que paradoxalmente se presentifica nos entremeios de uma linguagem devocional do agora, o que é denominado por Reinhart Koselleck “horizonte de expectativa”.179

Sob esse modo de ver, o que acontece nos ritos litúrgicos ucranianos é a celebração de uma expectativa do presente em relação a um futuro e a algo não experimentado, aberto e suscetível às descobertas, mas que se aproxima pelo desejo de experiência do

178 LUSTOIF, Serguei. Ortodoxo ucraniano, 67 anos, casado, nascido em Curitiba. Entrevista

cedida em 21 de março de 2011, em Curitiba-PR. Acervo do autor.

pretérito. Diante disso, o autor afirma que a experiência e a expectativa são duas categorias adequadas para observar o tempo histórico como o entrecruzamento do passado e do futuro.180 Também Walter Benjamim, observando a confluência de temporalidades entre passado e presente, afirma que

todo presente é determinado por imagens que lhe são sincrônicas e cada agora é o agora de uma determinada cognoscibilidade. Pois enquanto a relação do presente com o passado é puramente temporal, a do ocorrido com o agora é dialética não de natureza temporal, mas imagética. Somente as imagens dialéticas são autenticamente históricas, isto é, imagens não- arcaicas. A imagem lida, quer dizer, a imagem no agora da cognoscibilidade, carrega no mais alto grau a marca do momento.181

As palavras de Serguei exibiam, à mercê de uma pertença, a sutileza de um aparente zelo que dava de ombros aos rumores sobre sua inadequação de tempo. As emoções apropriadas por ele e que ganharam vida pela sua fala remetem aos acontecimentos dos outros, mas que encontrou ninho para agasalhar-se em quem se sentia herdeiro de uma cumplicidade de pertencimento étnico. Assim, fatos que ocuparam um lugar especial na vasta vida pregressa dos outros procuraram uma prorrogação em outros territórios, em outros agentes, com intuito de não serem esquecidos.

180 Ibidem, p. 337.

David Cannadine ajuda a pensar que, no âmago de tais questões, repousa a busca de fundamentos que possam explicar a conveniência de se manter tais repetições num espaço em que a vulnerabilidade e a efemeridade dos novos códigos culturais desbancam, quando não muito bem fundamentadas e aceitas, as mesmices desprovidas de qualquer encanto e sedução. Em espaço urbano, parece que a novidade tem vida curta e logo, após poucos respiros, é substituída por outra. Ainda acerca da inquietação de Maria, como já visto, reflete a de uma geração que busca respostas às questões improcrastináveis, não mais acostumada a reverenciar a importância dos outros se essa não lhe encontrar pouso e aval em seus sentidos.

Roger Chartier, ao analisar as escritas de um livro, afirma que “nenhum texto existe fora do suporte que lhe confere legibilidade”182.

Tal alerta também serve para analisar a manufatura dos ritos orientais que, em terras de acomodação e enraizamento, obtiveram não só novas leituras, como, por vezes, foram suprimidos em seus excessos. Trata-se então do jogo de forças entre o tempo e a conveniência de se justificar