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4.4 La notion de compétences

4.4.2 La gestion par les compétences

Em A Próxima Vítima, logo que houve a confirmação da relação homossexual entre Sandrinho e Jefferson, grupos e movimentos homossexuais posicionaram-se a favor de uma abordagem não- estereotipada do casal, alegando que a visibilidade é importante para a luta contra o preconceito e a injustiça simbólica, contanto que as representações não sejam desvalorizantes20.

Quando Sílvio de Abreu declara expressamente suas intenções sobre o relacionamento homoerótico entre os dois personagens, podemos notar uma intensificação do debate sobre a questão nos mídia. Alguns dos membros de movimentos gays valorizam a representação criada em torno de Sandrinho e Jefferson, manifestando preocupações que se relacionam às concepções de cidadania, reconhecimento e auto-estima:

Sinto-me dignamente representado por Sandro e Jefferson. A novela os apresenta como cidadãos. Os dois estudam, têm família e amigos. Não são irresponsáveis nem folclóricos como os personagens de programas humorísticos. Não saem rebolando pelas ruas à caça de parceiros. Também não se comportam como os tipos exóticos que o dramaturgo Nélson Rodrigues criou. Não são suicidas nem assassinos em potencial. Tratar os homossexuais na televisão com delicadeza, sem exageros, eleva a auto-estima da comunidade gay (Toni Reis, secretário geral da Associação de Gays, Lésbicas e Travestis/ ABGLT, com sede em Curitiba) (grifos nossos).21

Por outro lado, se a representação de Sandrinho de Jefferson a princípio parecia agradar aos militantes de movimentos gays de vários grupos do país, em um segundo momento, esses mesmos militantes se mostram incomodados com essa representação “ideal” que neutraliza a sexualidade e, portanto, sua própria diferença:

A relação entre Sandro e Jefferson foi mostrada de uma forma muito bonita, mas não vimos nenhuma expressão de afeto. A TV costuma desassociar a relação homossexual do sentimento, como se fosse apenas sexo. Por que não falar de história de amor entre gays? (Cláudio Nascimento, presidente do Grupo Arco-Íris e secretário de Direitos Humanos da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis).22

A falta de proximidade física entre Sandrinho e Jefferson é assim justificada pelo autor da telenovela:

Não estou tratando de uma história de amor gay. Mas da aceitação do homossexualismo dentro da família. (...) A

minha preocupação com o universo gay é fazer com que as pessoas respeitem esse tipo de relacionamento (Sílvio de Abreu)(grifos nossos).23

Contrariamente, Torre de Babel apresenta uma história de amor entre duas mulheres decididas, bonitas e bem sucedidas. Mas a reação às lésbicas, viu-se estruturada por um movimento que já existia na sociedade civil contra a “imoralidade na TV”. Sendo assim, É importante registrarmos que as primeiras reações contra Torre de

Babel são difusas e abrangem outros personagens, além das lésbicas.

O primeiro capítulo é marcado, não apenas por cenas que mostram a intimidade de Leila e Rafaela, mas, também, por um assassinato a golpes de pá cometido por Clementino (Tony Ramos), por uma crise de abstinência do drogado Guilherme (Marcelo Antony) e pela invasão – seguida de tiroteio – da mansão da abastada família Toledo por um grupo de traficantes armados. Esse conjunto de elementos fez com que alguns telespectadores fizessem associações entre temáticas como sexo, drogas, homossexualismo, infidelidade, assassinato, ódio, vingança etc:

Sílvio de Abreu conseguiu uma façanha: reunir, em uma só novela, todos os ingredientes negativos dos sentimentos humanos. O assassinato, a traição, o homossexualismo, o

ódio, a vingança, a infidelidade, as drogas, estão presentes

na TV, no horário das 20h30, quando a audiência é maior e mais diversificada, atingindo até mesmo as crianças (Lenita Soares, RJ) (grifos nossos) 24.

De maneira mais específica, a organização social “Tradição, Família e Propriedade” (TFP) protestou contra a presença das lésbicas em Torre de Babel. Ao revigorar a campanha “O Amanhã de Nossos Filhos” (OANF), que existia desde 1989, a TFP tem como objetivo maior “protestar contra a imoralidade desenfreada de programas de TV.” A campanha da OANF defende que os princípios católicos da sociedade brasileira estariam sendo subestimados pela TV25.

Torre de Babel foi tomada como maior exemplo nocivo da

televisão para mobilizar o debate acerca do excesso de violência e dos “abusos” dos mídia por um grupo de escolas particulares de São Paulo. Ciro de Figueiredo, presidente do Grupo-Associação de Escolas Particulares (entidade que representa 58 escolas em SP), apontou Torre de Babel como um exemplo de exacerbação de violência e erotismo (referindo-se às cenas de sexo entre os casais heterossexuais da novela).26

Tais reações restringiram o debate a respeito das lésbicas em torno de sua permanência ou eliminação da trama, acabando por levar os produtores da novela a optarem pela segunda alternativa.

Os diferentes finais dados aos casais homoeróticos aqui apresentados apontam o quão ligadas estão as opções do autor e as interpretações produzidas no momento da recepção. Em primeiro lugar, as escolhas feitas por Sílvio de Abreu no momento de codificação das duas tramas traçaram um quadro possível de limites e possibilidades de entendimento das histórias apresentadas. Isso não quer dizer ques as rotas interpretativas estavam definidas de antemão, mas que apenas algumas fronteiras fluidas foram construídas de modo a orientar a leitura dos telespectadores. Lembramos que o processo de construção do sentido é imprevisível, mas não pode ser avaliado sem que consideremos, conjuntamente, os âmbitos da produção e da recepção.

Em segundo lugar, os contextos de recepção em que as telenovelas foram exibidas apresentam diferenças marcantes. A

Próxima Vítima demorou a instaurar a questão do homoerotismo, o

que favoreceu, aliado ao tratamento conferido ao casal, uma certa identificação com as personagens. Por outro lado, em Torre de Babel a polêmica foi instaurada um ano antes do início da novela. Esse debate articulado de forma antecipada somou-se a movimentos conservadores, sobretudo a TFP e a OANF, de modo a fazer com que as lésbicas se tornassem exemplos emblemáticos do que deve ser repudiado na televisão brasileira.

Não podemos, portanto, desconsiderar as estratégias presentes no âmbito da produção e da codificação para enquadrar certos temas de modo a antecipar as expectativas do telespectador sugerindo-lhe

rotas de interpretação. Todavia, a mensagem não pode ser concebida como um mero encontro de intencionalidades e desejos gerados por produtores e receptores. A mensagem é algo que nasce na interseção de uma “contestação simbólica complexa sobre a qual a interpretação irá prevalecer” (Gamson,1992, p.xii). Ela é fruto de constrangimentos e conflitos que se movimentam nos interstícios porosos entre produção e recepção. Por isso mesmo, a mensagem é o resultado de um processo que já nasce relacional, dando a ver as múltiplas passagens possíveis entre os âmbitos que compõem a comunicação em sua globalidade.

Assim, os modos de endereçamento escolhidos pelo autor de uma telenovela certamente influem nas rotas interpretativas traçadas pelo público receptor, mas não as determinam. A imprevisibilidade está justamente nos modos conflitivos de atribuir e contestar significados.