4.4 La notion de compétences
4.4.1 La définition de la compétence
O crescimento e alargamento da produção, emissão e circulação de bens simbólicos é fato inegável e tema de estudo de vários autores. A midiatização da vida social, ou seja, o potencial difusor dos mídia de comportamentos, valores, sentimentos, estilos sugere o que Antônio Albino Canela Rubim e Lindinalva Silva Oliveira Rubim (2004) chamaram de Idade Mídia. Se há, assim, uma forte presença dos meios nos circuitos culturais, no agendamento de temas políticos, na prática do consumo etc, é preciso desvendar o universo no qual isso foi produzido entendendo-o como um significativo elo na relação mídia/sociedade. Nem mesmo os estudos culturais mais recentes, na análise de Kellner, não contemplam essa abordagem. Para este autor:
Embora a tônica no público e na recepção tenha sido uma excelente correção da unilateralidade da análise puramente textual, cremos que nos últimos anos os estudos culturais deram ênfase demais à análise do texto e da recepção e ênfase de menos na produção da cultura e sua economia política. Enquanto antigamente o grupo de Birmingham costumava dar atenção às instituições da mídia, às suas práticas e às relações entre suas formas e as formas e ideologias sociais mais amplas, no últimos anos essa ênfase se atenuou para prejuízo de muitos trabalhos atuais em estudos culturais (2001, p.61 e 62).
Reforçando esse posicionamento, o autor assegura que,
na verdade, poderíamos dizer que a maioria dos mais recentes estudos culturais tende a negligenciar as análises dos circuitos da economia política e do sistema de produção em favor de análises centradas no texto e no público (2001, p.63).
Pensar na produção como uma das dimensões que constituem o processo comunicativo é conferir-lhe um status proeminente de articuladora de mensagens que fomentam práticas interpretativas, que dão subsídios e alimentam o imaginário social, que reforçam ou questionam valores, que expõem realidades, é, enfim, considerá-la, ao lado do processo de codificação, como um locus que dá forma e fornece rico material simbólico que em muito auxilia na compreensão da cultura e das realidades sociais as quais representam ou expressam. Além disso, entender a produção como mediação aponta
para a superação da forma redutora e simplista que considera os mídia apenas como suporte técnico, mero veículo transmissor de
conteúdo.13 Na verdade, eles conformam um novo meio ambiente
no qual ocorrem interações sociais tecnicamente mediadas, ou seja, constituem uma mediação na qual se produz um modo próprio de construir realidades, de produzir sentido e novos entendimentos sociais, políticos e culturais, levando-nos a crer que ali a vida social também se configura (Thompson, 1998; Martin-Barbero, 1987; Kellner, 2001; Muniz Sodré, 2002). Nos mídia pode-se ter acesso e conhecimento de realidades distantes, visões de mundo, quadros de referência compartilhados nas diversas realidades sociais e culturais - de acordo com seu modo operatório - e subsídios que auxiliam na construção e formação de identidades culturais.
A dimensão da produção pode ser uma instância mediadora entre indivíduo e sociedade se pensarmos, por exemplo, nos diversos processos de construção de identidades culturais em curso e o quanto as narrativas e discursos produzidos nos mídia (em seus diversos gêneros) oferecem recursos que subsidiam essas formações identitárias e dão suporte às lutas por reconhecimento e legitimidade por parte dos indivíduos e grupos ali apresentados e representados. Sobre este aspecto discutiremos mais adiante.
Entender a produção como uma dimensão, significa, então, ampliá-la, retirar a idéia restrita segundo a qual se trata de um esquema emissor-mensagem-receptor. Significa introduzir a noção de cultura que aí também adquire sentido. Além da noção de política que, sem dúvida, precisa ser levada em conta. Pensar na produção sob essa perspectiva é pensar na produção cultural e política e nos interesses que vigem nesse processo.
Trata-se, também, de abordar as mediações intervenientes no processo de produção e codificação das mensagens midiáticas. Para tanto, faz-se necessário retomar a distinção que Stuart Hall estabelece entre as noções de produção e codificação. Segundo ele, o processo de produção opera através dos usos e conhecimentos “sobre rotinas de produção, habilidades técnicas historicamente definidas, ideologias profissionais, conhecimento institucional, definições e pressupostos, suposições sobre a audiência etc.” (2003, p.389). Já a
codificação apresenta-se como a forma discursiva, ou “forma- mensagem” (Hall, 2003, p.389), através da qual a circulação do produto se realiza, bem como sua distribuição para diferentes audiências. Hall afirma que “a codificação não pode determinar ou garantir, quais os códigos de decodificação serão empregados pelos receptores” (2003, p.388), mas admite a influência que a atividade de codificação exerce sobre os modos de apreensão e significação das mensagens.
Nas seções subseqüentes deste artigo, procuramos mostrar, através de um exemplo empírico, não só algumas das variáveis que determinam o processo de produção, mas também algumas das mediações intervenientes no processo de codificação e seus conseqüentes desdobramentos interpretativos. Selecionamos duas telenovelas de Sílvio de Abreu: A Próxima Vítima (1995, Globo, 20 h.) e Torre de Babel (1998/99, Globo, 20 h)14, sendo que em ambas o
autor insere a temática do homoerotismo procurando escapar a estereótipos ou representações desvalorizantes. Em A Próxima Vítima, ele retrata o envolvimento amoroso de dois rapazes, Sandrinho (André Gonçalves) e Jefferson (Lui Mendes), caracterizados como bons filhos, estudantes de Direito, responsáveis e excelentes amigos. Já em Torre
de Babel, o autor apresenta aos telespectadores um casal de lésbicas,
Leila (Sívia Pfeifer) e Rafaela (Christiane Torloni), que, desde o primeiro capítulo da trama, vivem uma relação estável e equilibrada.