Maria Eugênia continuava a quebrar vidros (e este novo prédio tinha muitas portas de vidro), dizendo que queria acabar com a própria vida, ou que gostaria de ir para casa.
Mensagens ambíguas, que tentávamos discutir com ela: quer mesmo ir para casa, quebrando os vidros (pois quebrar vidros significava não estar em condições de ir para casa)? Quer mesmo se matar? Sabe que pode mesmo conseguir numa dessas tentativas?
As quebradeiras de vidros passaram a ser quase diárias, e os machucados foram maiores ou menores (posteriormente a paciente feriu a perna gravemente, deixando aparecer a gordura, e exigindo cirurgia plástica com enxerto de pele).
A contenção mecânica no leito, associada à contenção química, veio depois de vários vidros quebrados.
Eugênia pedia para ser contida, às vezes verbalizando o pedido antes de quebrar os vidros. E, de fato, nem sempre conseguíamos ouvi-la, ou decifrar o seu pedido. Por certo faltaram ainda nesse processo muita discussão e elaboração por parte dos profissionais, e destes com os pacientes. A expectativa que eu tinha de que os processos de reflexão coletiva se multiplicariam a partir da mudança não se concretizou, pelo menos na intensidade que eu desejava. Acredito que vários fatores dificultaram o exercício das reuniões: a falta inicial de definição da direção da unidade (não estávamos mais, eu e a antiga equipe de intervenção, no papel de gerentes da unidade, e a Prefeitura demorou um pouco para definir alguém para esse papel); a falta de prática de discussão entre os profissionais (que fazia com que o agitado dia-a-dia não fosse interrompido para se valorizar as discussões). A troca de experiências entre profissionais que têm histórias e formações tão diferentes (o que é uma riqueza para o processo) certamente poderia conferir mais sentido ao trabalho, permitir que as situações fossem mais bem compreendidas e aumentar a escuta das mensagens enviadas pelos internos (como era o caso de Maria Eugênia).
Lembranças de Santos XI
Em Santos, ainda dentro do hospital, ou, entre o hospital e o espaço externo, vivia-se muitas situações-limite. Lembro de um interno que, aproveitando-se da possibilidade de sair e voltar ao hospital, enquanto sua alta era negociada com a família que insistia em não querer seu retorno, certo dia resolveu beber bastante, pois assim se sentia com coragem suficiente para dar cabo da própria vida ou, melhor dizendo, para nos ameaçar de dar cabo da própria vida. Tentava arrancar-nos afeto à força e, por várias vezes, depois de horas de negociação em que tentávamos convencê-lo a largar um caco de vidro que friccionava contra um dos punhos, voltávamos para casa exaustos, sem saber o que ele faria depois de o termos convencido.
Naquele dia, embriagado, o paciente quebrou com força um dos vidros e atingiu uma artéria, fazendo o sangue jorrar. Automaticamente, tapei com minhas mãos o fluxo de sangue, deixando-as ao final encobertas por uma luva vermelha, feita de sangue seco. Enquanto eu e outros colegas o socorríamos, outro paciente passava mal, por ter aspirado líquido, tendo tido uma convulsão logo depois de comer. Saí arrasado, dizendo a mim mesmo que não voltaria mais ao hospital (eu vinha de São Paulo todos os dias, perfazendo muitas horas de viagem e trabalho dentro do hospital). Mas voltei no dia seguinte, e descobri que as histórias felizes convivem com as tristes quando se quer mexer com a vida das pessoas de fato. Viver implica riscos, e quando os assumimos a tendência é que a vida fique cheia de sentido.
Curtas...
• Depois das primeiras semanas no novo prédio, a equipe passou a realizar mais passeios com os pacientes, ocupando os espaços comunitários. Mas a composição de mini-equipes ainda estava sendo realizada. Seria preciso resgatar a história de cada paciente. Dois deles, por exemplo, estavam no hospital desde os 12 anos de idade, totalizando entre 20 a 30 anos de internação. Dizia-se que um desses pacientes, que possuía um déficit intelectual e um alto grau de impulsividade e agitação, havia dado um soco numa mulher quando garoto e o marido dela exigira sua internação. E lá estava o sujeito desde os 12 anos de idade, mas muito diferente do que era, não só
por agora ser adulto, mas por ter passado mais de vinte anos institucionalizado, o que o tornava uma pessoa dependente, anulada, apagada, sem projetos.
• Havíamos conseguido manter uma trégua, deixando de internar novos casos naquele período de transição e adaptação do novo serviço.
Um desabafo
Foi necessário um grande esforço para reorganizar o meu novo papel naquele processo. Não era mais o interventor, mas os profissionais e a SMS ainda esperavam de mim e da psiquiatra da equipe de intervenção a liderança do processo.
Insistimos muito na designação de profissionais que se encarregassem da direção do novo serviço. No entanto, não foi fácil convencer alguém da equipe de acompanhamento da intervenção (equipe local formada antes da intervenção, que fez algumas importantes mudanças no hospital mesmo com a presença do proprietário) a assumir a direção e a liderança técnica do processo.
De imediato, conseguimos apenas a adesão da ex-administradora do hospital sob intervenção, que naquele momento cumpria, assim como a psiquiatra da equipe de intervenção, o papel de co-interventora e que se apaixonou pelo trabalho com saúde mental. Essa mulher, extremamente corajosa, só foi avisada pelo secretário de saúde de que seria a administradora do hospital sob intervenção, apenas no próprio dia em que esta se iniciou.
Junto com essa crise local, que muito dificultou a transição da liderança do processo do Ministério da Saúde para a gestão local (problemas políticos locais evitaram que outros membros da comissão pudessem assumir a direção do processo), ocorreu nesse período uma mudança ministerial, e o ministro da Saúde foi substituído.
Isso trouxe certa insegurança quanto ao nível de apoio que continuaríamos a ter do Ministério. Até então, e durante todo o processo de intervenção, o Ministério estava fortemente presente principalmente através da Área Técnica de Saúde Mental, que havia assumido e protagonizado a intervenção, enquanto os outros departamentos do Ministério estavam um pouco mais distantes. Mas, ao final das contas, continuamos tendo todo o apoio para continuar a acompanhar o processo em nossa cidade.