SOMOS MESMO?”.
Você acha que está certo mais a verdade tá perdendo. É melhor dá valor ao curso que tu tá fazendo. Por isso eu te peço com sinceridade. Dê valor à esse curso que tu precisa de verdade. Por isso eu te peço dê muito valor. Termine esse curso e seja um trabalhador. (By: MC. jovem, sexo masculino, 17 anos, recado deixado no Questionário).
Nesse item, temos a intenção de mostrar as diferentes faces dos jovens. Discutimos a identificação dos jovens pelos professores e técnicos e também pelos próprios jovens: como alunos, como funcionários, como jovens aprendizes ou como jovens. No Projeto Político Pedagógico, a referência ao jovem era especificamente de aluno. Porém, observamos que não havia uma definição de qual referência o sujeito jovem possuía no Programa.
Inicialmente, cabe destacar como os jovens se viam no Programa. Dos 16 jovens que participaram da entrevista em grupo, 9 jovens responderam que se consideravam alunos, principalmente pelas características do Programa.
Me considero aluno, porque a gente tá aprendendo, quem é aluno aprende alguma coisa, coisa que nunca vi na vida, tô aprendendo aqui, eu me considero aluno. (Leonardo, 16 anos, grupo focal).
Eu aqui eu me vejo como aluna, nós estamos aqui aprendendo coisas novas que podem nos beneficiar no futuro e, como o Serginho disse, aprendiz, nós estamos no momento de aprendizagem, novos cursos, porque aqui no Programa ele fornece cursos para a gente. Nós estamos no momento de aprendizagem, nós somos empregados pela empresa, cada um tem uma empresa aqui que contrata. Estamos recebendo e temos uma carga horária para cumprir. Outras pessoas nos vê como trabalhador, mas eu me vejo como aluna, as pessoas de fora, eles vê a gente como trabalhador, as pessoas de fora que não conhece aqui. [pausa]. O que somos mesmo?[risos]. (Cláudia, 17 anos, grupo focal).
Três deles se veem como “jovem aprendiz”, alegando que estão no momento de aprendizado para o trabalho e não lhes é cobrada a responsabilidade de um trabalhador (adulto). Existem ainda os jovens que se autodenominam tudo ao mesmo tempo (aluno, trabalhador, aprendiz) e outros criaram uma nova denominação: “Aluno Aprendiz” e “Trabalhador Aprendiz”.
Tipo assim, eu me vejo como aprendiz, porque fica como intermediário entre todos, como jovens, estudante, trabalhador e como meu amigo falou: peão, brincadeira, gente [risos]. Não, tipo assim, eu estudo zoando, mas que estudo eu também trabalho, quando me dão oportunidade quando me deixam encostar nas peças, sem medo de perder o dedo. Como aprendiz, que, tipo assim, a gente não tem aquela pressão toda em cima da gente, você tem que trabalhar e tipo assim, você tem aquela parte de alívio, você pode conversar, que você é um aprendiz, eles não vão te dá um tipo uma coisa superpesada, tipo assim conserta este caminhão para amanhã está funcionando. Eles vão te dá uma coisa mais leve. Aí, a gente vai evoluindo para trabalhador e vai indo. (Emílio, 17 anos, grupo focal).
Aluno é aquele que tá ali para aprender, que vai colher tudo o que for ensinado, aqui é meio técnico a gente estuda como sendo aluno e aprende até a parte prática é considerado aprendizado, é coisa que a gente não fazia ideia nenhuma, entendeu? A gente pode dividir como aluno a parte
teórica e a parte prática como aprendizagem. Eu me considero um aluno aprendiz. (Jorge, 16 anos, grupo focal, grifo nosso).
Eu me considero um trabalhador aprendiz porque eu vim aqui para aprender e para trabalhar, a gente assinamos, nós o contrato, para ter responsabilidade e a gente vem aqui para aprender com os professores, então somos alunos, pois nós precisamos dos professores e os professores precisam da gente. (João Paulo, 17 anos, grupo focal, grifo nosso).
Percebemos, nas falas dos jovens, a internalização dos discursos dos professores e técnicos do Programa. Porém, por não se considerarem trabalhadores/funcionários especificamente, criavam novos conceitos e preferiam ser vistos como alunos. Alguns professores e técnicos não conseguiram precisar com clareza a sua concepção em relação a essa situação. Há o reconhecimento dos professores de que os jovens não são mais crianças, mas há, também, a consciência de não saberem como construir as relações com eles. Se não sabem como tratá-los e nem como reconhecê-los, é porque não sabem, realmente, quem são esses jovens e como eles vivenciam a juventude dentro do Programa49.
Bom, realmente eu tenho duas visões, eu tenho uma visão quando eles entram aqui no Programa trato eles puramente como profissionais, às vezes algumas pessoas falam que eu sou meio ignorante, meio rígido, meio chato, mas eu sempre mantenho com eles uma postura de nível profissional, exatamente como eu trato meu chefe eu trato eles. Porém, a gente não pode esquecer que estamos lidando com adolescente [...], porém com adolescente é meio complicado, às vezes eles não estão preparados para aceitar algumas regras, alguma autoridade ainda [...].Os alunos têm que ser tratados aqui como profissionais, chamar pai e mãe é um caso extremo. [...] eu trato eles aqui dentro como funcionários, só que a gente não pode esquecer que são adolescentes, quase crianças, a gente não pode querer que sejam como nós. (Professor Júlio, 24 anos, entrevista individual).
Eu vejo eles mais como jovens, como adolescentes, eu tento cobrar um pouco mais deles como profissionais, porque eles estão aqui como funcionários, mas eu não consigo vê eles como profissionais, eu só consigo ver eles como jovens e alunos do Ensino Médio que está aqui. Não sei decifrar. Acho que é mais como jovem, acho que é pelas atitudes deles, eles brincam muito, aquelas brincadeiras de jovens, aquela maliciazinha deles. Até a gente estava conversando, uns dias atrás, eles não tem muita mentalidade do futuro, eles vivem muito a questão do presente, e isto é muito do jovem. Eles são cobrados como funcionários, em momento nenhum eles são tratados como alunos. Vocês não são só alunos, vocês são profissionais, eu vejo eles como jovens, mas eu cobro deles, porque a instituição pede que eu cobre como funcionários, não dá para decifrar muito o que é. (Professor Erasmo, 25 anos, entrevista individual).
49
É preciso ressaltar que todos os jovens disseram que vivenciam a juventude no Programa, conforme já mencionado no capítulo 3. Camacho (2004, p. 340), no texto “A invisibilidade da juventude na vida escolar”, afirma: “Para contornar tal situação, as novas gerações acabam construindo estratégias: dentro dos limites do espaço escolar se expressam como alunos na presença dos adultos e como jovens nas suas relações de sociabilidade com seus pares”.
Além disso, na visão dos professores e técnicos, essa situação não seguia uma linha comum. Essa definição ficava a critério de cada um, gerando uma fluidez e inconsistência no tratamento dos jovens.
Os profissionais faziam constantemente uma distinção entre o ser aluno, ser jovem aprendiz, ser trabalhador/funcionário e ser jovem e agiam conforme a conveniência do momento e da situação, muitas vezes por imposição da própria instituição. Percebemos, ainda, a inadequação no tratamento aos jovens ocasionadas pela visão enviesada de não conseguirem enxergar os participantes do Programa como jovens.
Observamos também, que essa visão propicia uma inflexibilidade, falta de tolerância e até mesmo imposição de ideias e valores por parte dos profissionais diante das condutas dos jovens dentro do Programa. O depoimento de uma técnica do Programa, retrata tal situação.
É... geralmente a gente passa o discurso para ele de funcionário, para ver se eles têm uma responsabilidade. A gente fala você é funcionário, você tem que saber chegar no horário, sair no horário, dentro da sala de aula, até pátio, se portar como se você tivesse dentro da empresa. Na empresa você ficaria sentado no colo, dando beijinho?Não, a gente tenta mostrar para eles como funciona dentro de uma instituição. Para quê? Quando eles saírem daqui, eles poderem realmente conseguir uma colocação e o procedimento de um funcionário, mas realmente é isso que a gente tem que fazer, além do ensino, auxiliá-lo nesta outra questão porque eles não têm isso na outra escola. [...] Pois é, para ser sincera, mas não consigo vê-los como funcionários, eu falo com eles assim, mas eu vejo mais eles como adolescentes, jovens ou como alunos. (Tereza, analista de programa, 25 anos, entrevista individual).
Parece que os jovens, nas formas em que vivem a experiência do Programa, estão nos dizendo que não querem ser tratados como iguais (somente trabalhadores/funcionários, somente alunos, somente jovens aprendizes), mas querem, ser reconhecidos nas suas especificidades. Isso implica serem eles reconhecidos como jovens, nas suas diversidades, sendo este um momento privilegiado de construção de identidades, de projetos de futuro, de experimentações, de curiosidades, de aprendizagem e, principalmente, de autonomia das suas escolhas.
Vários são, portanto, os impactos que a visão dos profissionais do Programa pode ocasionar na vida dos jovens: dificuldades ou até rupturas de comunicação entre as gerações mais novas (jovens) e as mais velhas (professores, técnicos, pais). Os
jovens, possivelmente, encontrarão dificuldade de construir uma identificação (juvenil) com a instituição, especificamente no Programa Social no qual estão inseridos. Assim, percebemos que à condição de aluno, à condição de funcionário/trabalhador, e à condição de jovem aprendiz precede a de jovem. Ressaltamos que, neste estudo, enxergamos os participantes do Programa Jovem Aprendiz, acima de tudo, como jovens.
Concordamos com Camacho (2004) quando fala sobre a invisibilidade do jovem no ambiente escolar. Esta autora evidencia, em sua pesquisa, uma certa inadequação no tratamento do jovem pelos profissionais, que muitas vezes, o reconhece como criança ou tão somente pela faixa etária.
Esquece-se da lógica do e para adotar-se a do ou. Isto é, o aluno é concebido ou como aluno ou como criança e muito raramente como jovem. Diante deste quadro, é preciso que as propostas pedagógicas sejam pensadas para aquele que é jovem e aluno (CAMACHO, 2004, p. 330, grifo da autora).