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Chapitre 4 : Des relations porteuses de guérison

4.3 Critique des conceptions occidentales

“E, ‘chartiste’ que era – isto é, ex-aluno da famosa École de Chartes -, era mais um historiador que um professor de História. Ensinar para ele não era nem mesmo orientar pesquisa de outrém: era fazer pesquisa ele mesmo”259.

Concebida em 1806, prevista pelo imperador Napoleão Bonaparte (1769-1821), a renomada École des Chartes foi criada durante o reinado de Luis XVIII em 1821, na capital francesa, com objetivo de “treinar jovens capazes de organizar registros de apreensões revolucionárias e renovar a história da nação”260. Desde sua criação até hoje,

é vinculada à Universidade de Sorbonne. O título de arquivista paleógrafo foi estabelecido em 1829. Em 1846, uma ordem fixou o período de curso em três anos e estabeleceu uma tese como requisito para formação dos chartistes. Trata-se de uma instituição pioneira na preparação de arquivistas, bibliotecários e curadores, que desde seus primórdios tem servido de modelo para instituições congêneres no exterior e por onde já passaram intelectuais como Charles-Victor Langlois (1863-1929), Paul Meyer (1840-1917), Michel François (1906-1981), René Girard (1923...) dentre outros importantes nomes da cultura galicana. Trata-se de uma tradicional instituição acadêmica.

Léonard ingressou na École em 1911 mas, devido à sua participação na 1ª Guerra Mundial, de 1915 a 1918, foi diplomado somente em janeiro de 1919 na

257 GUIRAL, P. Op.cit., p. 35. “Estes valores” se refere aos valores do passado.

258 Cf. DURAND, Bruno. Émile G. Léonard. In: Hommage au Professeur E.G. Leonard. Aix-en-

Provence, 1962, p. 38 e 47.

259 SALUM, Isaac Nicolau. O Prof. Emile-G. Léonard... , p. 467. 260 Disponível em www.enc.sorbonne.fr/node/12. Acesso em 24/07/12.

condição de “primeiro da sua turma, com uma tese brilhante”261 – tese que lhe garantiu

a nomeação como membro da École Française de Rome262: Estudo sobre as chancelarias e a diplomacia dos condes de Toulouse (804-1204). Não é difícil perceber como a formação de arquivista paleógrafo marcou sua carreira. Uma vista de olhos sobre o título de seus escritos e, principalmente, sobre o conteúdo deles, revela o quanto ele se doava ao tema ora pesquisado, indo às fontes primárias, analisando tudo já escrito sobre o assunto, revisitando autores e obras, num levantamento bibliográfico típico de um “minerador, caçador ou investigador criminal”263. Era um revirador de arquivos,

estudioso que lançava os olhos para além dos textos propriamente históricos: diários, cartas, boletins, relatórios, jornais, inventários, documentos administrativos, policiais e judiciários, localizados em acervos públicos ou particulares, em arquivos estaduais, municipais ou eclesiásticos – quer evangélicos quer católicos. Quando possível, recolhia “testemunhos vivos de um passado mais ou menos próximo” que se constituíam, para ele, numa “fonte importante da qual certos autores começam a servir-se de uma maneira sistemática”264; procurando, nesse último caso, precaver-se da mera “reportagem

pitoresca e edificante”265.

Seu espírito chartiste nos ajuda a entender o porquê da publicação de catálogos e informativos bibliográficos266, da edição de textos267 e da teorização acerca de um determinado ramo do saber268. Suas obras abrem caminhos de pesquisa para outros estudiosos269. Suas notas de rodapé revelam o endereço das fontes consultadas – numa época em que tal prática já era preconizada porém nem sempre praticada.

261 Cf. SALUM, Isaac Nicolau. O Prof. Emile-G. Léonard... , p. 474. 262 Cf. DURAND, Bruno. Op.cit., p. 38.

263 Os termos são atribuídos a ele por Salum. Cf. SALUM, Isaac Nicolau. Prefácio, p. 5. 264 LÉONARD, Émile-G. O Protestantismo Brasileiro. p. 23.

265 Ibid.

266 Catalogue des Manuscrits de la Bibliothèque de La Société de l’histoire du protestantisme français à Paris (1930); Catalogue des Actes des comtes de Toulouse. Raymond V, 1149-1194 (1932); “Récentes publications italiennes sur les Normands de Sicile (artigo, 1935); Bibliografie calvinienne abrégée (artigo, 1943); e Bibliografie de l’Histoire du protestantisme (sem data). Cf. SALUM, Isaac Nicolau. O Prof. Emile-G. Léonard... , p. 477-482.

267 Deux lettres de Dom Costantino Gaietani, fondateur Du premier collège bénédictin de Rome, à Richelieu et à Mazarin (1924); Chancelliers, notaries comtaux et notaries publics dans les Actes des comtes de Toulouse. Bibliothèque de l’École des Chartes (1956); “Lettre autobiographique du grand sénechal Nicola Acciaiuoli” (1956); Cf. SALUM, Isaac σicolau. O Prof. Emile-G. Léonard... , p. 478.

268 “σécessité et directives d’une conception nouvelle de l’Histoire de Eglise” (artigo, 1941). Cf.

SALUM, Isaac Nicolau. O Prof. Emile-G. Léonard... , p. 479.

269

Digno de menção ainda é o seu esforço em ler os textos na língua original. Lia, além do provençal e do francês de origem, em latim, italiano, espanhol, português, inglês, alemão e holandês.

Salum nos permite relacionar essa versatilidade no trato com vários idiomas com outra nuança do espírito chartiste em Léonard: nas regiões em que se estabelecia, ele procurava as sugestões para as suas pesquisas270. Sua bibliografia demonstra isso. Por onde passou, ele se dedicou à pesquisa e publicou textos sobre o lugar. Sua lista de publicações contempla estudos sobre diferentes aspectos dos três países onde morou: literatura, economia, história militar, cultura e principalmente história religiosa com ênfase no protestantismo.

Por fim, convém ainda lembrar que em Roma, na École Française, Léonard ouviu repetidas vezes um alerta que se somou ao aprendizado adquirido em Chartes, alerta do diretor Louis Duchesne (1843-1922), seu compatriota: “cuidado para não se afastar do presente, o presente que é o tempo que Deus nos deu para dentro dêle cumprirmos o nosso dever”. Depois do mergulho no passado, o historiador deve fazer seu retorno à vida presente271.

2.1.2.4 Os Annales

A formação acadêmica de Léonard se deu entre os anos 1911 e 1932 – do ingresso na École des Chartes à conclusão de seu doutorado na Faculté des Lettres de Paris – coincide com os anos de crise da disciplina história e a emergência do movimento dos Annales, encabeçado por Marc Bloch e Lucien Febvre – personagens que iniciaram as “apologias e combates por uma nova história”272.

Trata-se de um período caracterizado em certos círculos do ensino superior francês - como, por exemplo, a Universidade de Estrasburgo pós 1ª Guerra - pela defesa da interdisciplinaridade, da síntese decorrente da aproximação entre as diversas áreas do saber, da cautela na tomada de conclusões definitivas. Usando alguns slogans de Febvre e dos annalistes273, havia chegado a vez da “história-problema” (orientada por problemas), da história total ou história simplesmente em oposição à história

270 SALUM, Isaac Nicolau. Prefácio de O Protestantismo Brasileiro. p. 5.

271 Cf. LÉONARD, Émile-G. Brasil, terra de História. In: Revista de História, 1950, Número 2, p. 219. 272 REIS, José Carlos. Escola dos Annales: A inovação em História. 2. ed. São Paulo: Editora Paz e Terra,

2004, p. 68.

econômica, social ou política, da psicologia histórica ou história das mentalidades, e da famosa tríade conjuntura (tendência), civilização (cultura) e estrutura (longa duração).

Aqui, faz-se necessário pontuar o momento em que a aproximação de Léonard com o grupo dos Annales e, em especial, com Lucien Febvre, se evidenciou: década de 1940 – o que não significa que o contato não tenha se iniciado antes. Léonard publicou na revista o artigo Economie et religion. Les protestantes français au XVIIIe siècle (1940) e La question sociale dans l’armée au XVIIIe siècle (1948). No que diz respeito à temática religiosa, ele se torna

o principal nome ligado ao assunto nos anos 1940-1960, referenciado por historiadores já prestigiados na França, publicando resenhas de livros para a Revista Annales, sendo também seus livros submetidos à crítica no espaço destinado às resenhas do próprio Lucien Febvre nos anos 1940274.

Dessa década em diante, com alguns prêmios na prateleira e alguns livros já publicados, o reconhecimento do historiador aubaisienne cresceu pouco a pouco. Concomitantemente ao envolvimento com o grupo dos Annales, Léonard, então com 40 anos275, passou a se dedicar cada vez mais ao assunto que o tornaria conhecido dentro e fora da França como “historiador do protestantismo”: a Reforma e o movimento protestante. Seu contato com Febvre se intensificou e essa ligação com o cofundador do movimento – e único líder depois da morte de Bloch em 1944 – veio a ter grande influência sobre suas formulações276, sua produção277, seu itinerário278 e sua ascensão ao posto de maior prestígio que viria a ocupar: diretor da École Prátique des Hautes Études.