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rencontres pendant la Guerre (1943 1945) :

C. Résultats, rencontres et second cycle de conférences Macy (1949-1953) :

5. Conférence Macy 6 :

Contudo, sendo as obras desses autores amálgamas das duas formas narrativas, Alencar e Saramago não renunciaram a nenhuma delas, pois que souberam usar a história como suporte para ficção; um historiador menos tradicional poderia até entender que valeram-se da ficção como suporte para a história, sem permitir que esta aparecesse somente como um fator externo às obras literárias, mas desempenhando um papel na constituição interna de suas estruturas. Para tanto, apostaram na força do discurso para atingir a dimensão sentimental através da liberdade discursiva de seus narradores e das ações dos personagens, que dramatizam o fato histórico, interagindo com ele.

A partir daí, considerando as inovações que José de Alencar empregou em Guerra dos mascates – e não somente neste, mas em As minas de prata também –, pode-se refletir sobre a relação da metaficção historiográfica com o século XIX. Pelas análises aqui apresentadas, é possível enfatizar alguns pontos: a ironia dos narradores que subvertem a história, a reconstrução de personagens que levantam questionamentos sobre esta, além dos próprios títulos24 das obras que “despitam” o leitor e não entregam logo que as narrativas não têm os acontecimentos dos títulos como principais. São pontos em comum entre as duas obras – tão distantes temporalmente em suas escritas – como são também pontos em comum com o conceito de metaficção historiográfica.

5.2.1 As liberdades que tomam certos narradores

É certo que os narradores e os romances, sejam estes históricos ou não, desde sempre se valem de algumas artimanhas para levar a simpatia do leitor a este

24 Em Guerra dos mascates, a narrativa termina antes da batalha propriamente dita e, em Memorial

do convento, a construção do convento surge apenas como pano de fundo dos acontecimentos, mas

ou àquele personagem. Porém, em uma narrativa de cunho historiográfico, o narrador tradicional – o que segue os passos de Walter Scott, por exemplo – evita tomar qualquer atitude “dessacralizadora” em relação ao fato histórico selecionado para sua obra, pois não é sua intenção levantar questionamentos sobre o mesmo, e sim, usá-lo como fonte de enriquecimento à narração apresentada.

Ora, mas não é isso que foi observado ao longo da pesquisa, ao se direcionar a análise das obras para suas vozes narrativas. O que se notou foram narradores que reconfiguram os acontecimentos históricos, modificando-os e atualizando-os aos olhos do leitor de seu tempo25.

Narradores que transitam pelos fatos e pelas personalidades a eles relacionadas, sem se importar com a mácula que deixam nos livros de História. Pode-se entender, até, que ironizam os próprios historiadores, ao incitarem seus leitores a duvidar dos registros oficiais através da ironia que perpassa o discurso.

De um lado, Guerra dos mascates rebaixa a uma briga de senhoras o motivo último da contenda entre recifenses e olindenses. Desfaz a importância do fato histórico, já que seus líderes foram tão facilmente manipulados por motivos domésticos. Onde estaria, então, a seriedade de tal batalha?

De outro lado, em Memorial do convento, põe-se em dúvida o caráter da rainha, levando o leitor a decepcionar-se com um rei tão prontamente manipulado. Além de ter posto uma passarola nos céus, sem que os registros tenham conhecimento disso – para não falar do “combustível” de tal máquina voadora.

Vê-se, portanto, que não é a intenção desses narradores manter o passado como algo intocável. Se assim fosse, D. Sebastião de Castro e Caldas, no Brasil, e D. João V, em Portugal, não teriam passado da posição de grandes personalidades a personagens risíveis, de um egoísmo não compatível com o alto cargo que ocupavam. Os autores valem-se de uma liberdade anunciada por Hook (1962) que declara não haver mais uma figura a liderar as massas. As populações crescem continuamente no movimento orgânico particular de cada grupo, e a figura da liderança, apesar de ainda existir, serve mais para representá-la26 do que para guiá-la. Contudo, é preciso esclarecer que aqui se registram dois romances: um do século XIX e outro do século XX. Não é surpresa nenhuma que Saramago, inventivo

25 No caso de Alencar, também aos olhos do leitor atual, visto que o que ele fez na constituição de seus romances históricos é considerado inovação para contemporaneidade.

26 Como acontece com o sistema político brasileiro, em que o político eleito, em teoria, agirá buscando o bem do povo que o elegeu.

e inovador como era, apresentasse este tipo de narrador. A surpresa fica por conta do romancista do século XIX, supostamente seguidor de Walter Scott, que escolheu trilhar um caminho que só se daria a conhecer, de fato, em meados do século seguinte, com a Nova História e a metaficção historiográfica.

É preciso ressaltar, mais uma vez, que a inovação da voz narrativa, ao romper com a sacralidade da História, não é prerrogativa do narrador contemporâneo.

5.2.2 O papel de líder

As figuras de liderança de Guerra dos mascates e Memorial do convento, como mostrado nas análises das obras, são niveladas, apesar de sua importância histórica ao patamar dos seres comuns, propensos a errar e próximos, portanto, do homem do dia a dia que é o leitor.

Alencar e Saramago assim os fazem para fazê-lo novamente de barro, não mais revestidos do bronze inviolável do tempo. Recuperar sua mortalidade é uma forma de matá-los novamente. Não, é claro, em seus corpos físicos. A morte é percebida pelas suas silhuetas enrijecidas pelo discurso historiográfico e à figura romântica do grande homem.

Reduzi-los à sua humanidade é uma forma questionar seus atos e, até mesmo, sua capacidade de liderança.

A partir daí, o que se vê é um passado fragmentado, no qual não se tem mais a figura dirigente a guiar as massas (BOSI, 2006, p. 95). Esse tempo do romantismo passou. Não há mais a necessidade de “vates” a indicar o caminho do progresso e do conhecimento. O romance histórico moderno, e aqui se inclui os de José de Alencar, toma esta função para si: desfazer os mitos que envolvem as lideranças históricas, apresentando sua humanidade e fraquezas.

Alencar e Saramago parecem querer indicar que qualquer um poderia ter sido escolhido capitão-general de Pernambuco, como também rei de Portugal – tivesse d. João V falecido como o irmão queria, seria d. Francisco o rei que inauguraria o convento. Eles não conquistaram essas posições unicamente por mérito, mas por indicação e por nascimento. Outros poderiam ter exercido suas funções melhor do que eles.

Dessa forma, não há mais a necessidade de engessá-los nas páginas da história; são atualizados. Destituídos de uma mística inviolável, têm suas ações interpretadas e julgadas. São seres comuns. Um estilhaço da história.