A sessão que se segue descrita reflexivamente remete para a minha primeira aula nesta turma do 2º CEB. Precisamente por ser a primeira aula, tentei que a temática da aula estivesse muito próxima do que a turma andava a preparar, dito de outro modo, tentei chegar até aos alunos e não fazer acontecer o inverso. Assim, como a turma preparava algumas actividades para celebrar o dia de São Valentim, achei por bem continuar nessa ambiência trazendo para a sala de aula o poema de uma música cantada pelos Clã.
Pretendia, com esta sessão, experimentar os alunos quanto à receptividade do texto poético enquanto fruição, procurando que sentissem entusiasmo na leitura do texto e que, quando convidados a tal, conseguissem falar do texto, conversando à mesa como se conversa à toa (Figueiras, 2013). Delineei também um propósito em relação à escrita, propósito esse que se prendeu com a redacção de um texto estruturado em quadras acerca da temática conversada.
Iniciei a sessão conversando com os alunos sobre o dia de São Valentim, que se avizinhava e para o qual preparavam algumas actividades transdisciplinares, tentando que a conversa nos levasse espontaneamente à temática do amor, temática essa que apareceu naturalmente, tendo convidado os alunos a divagarem sobre os vários tipos de amor.
Contei aos alunos, no seguimento da nossa conversa, que encontrei uma história de amor que gostava de partilhar com eles, história essa que se apresentava escrita em forma de poema com o título de Os Embeiçados, de Regina Guimarães. Perguntei-lhes que tipo de amor lhes sugeria tal título. A turma não reagia. Dei algumas pistas no sentido de os motivar para a descoberta e os alunos, confusos, esforçavam-se por responder: falaram tanto do amor dos amigos como do amor dos namorados.
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Concluí a actividade de pré-leitura passando a fazer a leitura expressiva do texto, depois de ter distribuído os textos aos alunos. Enquanto fazia a leitura expressiva de Os Embeiçados, conseguia ver os sorrisos iluminarem os rostos confusos dos alunos, conseguia ouvir os sons dos risos que se faziam desenhar ecoando na sala, conseguia, verso a verso, ir conquistando a atenção e a alegria da turma. Quando terminei, os alunos mostravam-se encantados.
Os alunos fizeram também eles a leitura do texto, e aqui as diferenças foram evidentes entre os alunos que liam muito expressivamente e os alunos que liam com francas dificuldades tanto de projecção de voz como de entoação dos versos. Valorizei a participação de todos: a primeira aula é fulcral para a construção da confiança e por isso quis que todos os alunos, os que liam bem e os que liam menos bem, se sentissem motivados para continuar a ler, quis levantar uma ponta do tapete para que o fio de confiança fosse resgatado. Penso que consegui.
De seguida, propus-lhes que falássemos do texto, conduzindo a conversa para a questão das diferenças de cada um de nós e o quanto isso é irrelevante para quem nos ama. Lancei algumas questões; cada vez mais vozes iam-se chegando à conversa. Esta fluía, os alunos começavam a sentir a sua opinião respeitada. Desvendei aos alunos que este poema de Regina Guimarães foi musicado pelos Clã, na voz de Manuela Azevedo, e que iríamos ouvir a música como banda sonora de um vídeo do famoso actor Charlie Chaplin.
Aquando do visionamento do vídeo e da audição da música, os alunos divertiram-se a tentar perceber a história apresentada em cinema mudo e a acompanharem a canção fazendo uso das fotocópias que estavam dispostas nas mesas com a letra da canção. Depois, os alunos pediram para ver outra vez o vídeo. Consenti, pois previ isso mesmo, tanto para que os alunos se apropriassem de mais elementos da história como pela oportunidade de ter em sala de aula um momento de rara beleza do cinema a preto e branco.
Os alunos estavam alegres com a música e com algumas dúvidas sobre o filme. Então tentámos narrá-lo, fizemos a narrativa oral da história, que os alunos definiram usando a expressão que usei inicialmente: uma história de amor. Em grande grupo, conversámos acerca dos pontos comuns entre a letra da canção e o vídeo e os alunos concluíram peremptoriamente que, quando se ama, não importa que se seja feio ou
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bonito, cego ou surdo, não importa nada; então insisti na ideia de que o que é feio para um pode não o ser para outro. Os alunos concordaram evidenciando a consciência de que todos temos opiniões e gostos diferentes. Então aproveitei para rematar:
– Todos temos diferentes gostos, diferentes opiniões, não é verdade? Com os textos e as
palavras é a mesma coisa: há textos de que gostamos e dos quais os nossos colegas não gostam e o contrário, o que não quer dizer que estejamos errados ou certos. Não se trata de estar errado ou certo, trata-se de sermos diferentes e de nos respeitarmos uns aos outros. Eu posso gostar de algo ou de alguém que para outra pessoa seja feio e não é por isso que devo de achar que estou errada ou que essa pessoa esteja errada. Eu gosto e pronto. Não me importa se essa pessoa é feia ou bonita, o que me interessa é gostar dela e que ela esteja bem. É assim que deve ser tanto aqui como em qualquer outra parte do mundo, não acham?
Os alunos, pensativos, faziam que sim com a cabeça. O silêncio alegre tornara-se convidativo para lhes propor um trabalho escrito individual: tinham de me dizer o que era para eles o amor em versos, com ou sem rimas, com ou sem palavras, brinquei eu. E eles perceberam.
O ambiente de escrita mostrou-se complicado de construir; notei uma certa relutância no que concerne à escrita em si - o medo dos erros, as palavras que não se faziam chegar, a ideia do que é o amor que desaparecia de entre os dedos quando minutos antes se fazia ecoar na sala de aula.
Dois ou três alunos abriram caminho, fizeram-se à estrada, mas o resto da turma travava uma batalha com o papel em branco. Maldiziam, entredentes, as rimas e os versos e então fui-lhes dando pistas. Assim, quase à força, começaram a chegar os primeiros versos, depois deixaram que o lápis vencesse o branco do papel e que o cinzento singrasse na batalha. Declarei-os vencedores, e eles sorriram. Tinham ultrapassado o medo do erro e tinham escrito o amor pela mão dos versos fazendo das rimas suas amigas. Os rostos zangados do começo estavam agora iluminados pelo triunfo e eu, comovida, agradeci-lhes a persistência e a não desistência, sempre alertando que amanhã será sempre melhor, desde que não percam o entusiasmo que tinham ganhado naquela batalha.
Avançámos para a partilha dos textos e aqui pensava eu que iria haver alguma resistência, mas o momento empolgante da batalha que travaram foi tal que os levou a partilharem os seus textos alegremente, como exibição do seu triunfo.
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Tal aula mostrou-se sobremaneira relevante para a auspiciosa continuação de todo o plano de acção, pois nesta aula os alunos interiorizaram tanto o entusiasmo na leitura e na fruição do texto como venceram a batalha da folha em branco fazendo com que dos textos em verso se fizessem ouvir cânticos de amor14.