2.CADRE THEORIQUE
2.1. NOTION SUR LE PROCESSUS DE SOCIALISATION 1. La socialisation
2.5.3. Les 3 composantes (V.I.E)
Antes da interpretação dos resultados deve-se considerar que o RU apresenta uma cultura específica quanto às normas sociais que seus usuários parecem compartilham. O Estudo 4, por exemplo, adiante relatado, mostrou indicativos de considerável tolerância à ação de intrusos nesse mesmo ambiente. Some-se a isso o fato de que o ambiente é propício a intrusões em função de sua arquitetura e também bastante homogêneo em sua composição social. Mas, diante de todos esses elementos, o registro de uma alta freqüência de comportamentos de dissimulação pelos intrusos demonstra que eles de fato reconhecem suas ações como ilegítimas e sentem-se pressionados a minimizá-las em seu caráter anti- normativo. Esses achados remetem não só às técnicas de gerenciamento da impressão,
(Goffman, 1975; Leary, 1995), mas também ao “jeitinho brasileiro” (Barbosa, 1992), como forma de burlar as normas dissimuladamente ao invés de desrespeitá-las deliberadamente.
O tamanho da amostra de intrusões registradas ofereceu limites para o uso de testes inferenciais, de modo que não seria apropriado interpretar algumas das aparentes diferenças nas variáveis como representativas da população que freqüenta o ambiente estudado. A tendência de se registrar filas classificadas como grandes, por exemplo, explica-se em função do horário escolhido para a pesquisa, quando há maior procura e conseqüentemente as filas tendem a ser maiores. Por outro lado, em termos de custos e benefícios, filas pequenas obviamente representam um tempo de espera menor e tendem a atrair menos intrusos, já que os benefícios de uma intrusão não seriam tão grandes quanto numa situação de fila grande em que se teria que esperar muito mais ao respeitar a ordem de atendimento.
A correlação negativa entre o tamanho da fila e a freqüência de intrusões por minuto parece ferir, neste caso, o argumento lógico de que haveria maior ocorrência de intrusões quando há maior demanda. Filas grandes implicam não só em maior tempo de espera, mas também, considerando o ambiente do restaurante, em maior probabilidade de encontrar um conhecido na fila, aumentando as chances de uma intrusão bem sucedida. Vale notar, entretanto, as limitações da amostra analisada, tanto pela pouca quantidade de dias de registro quanto pelo pouco registro de situações com filas pequenas, que podem ter criado um viés na correlação.
O estudo já constitui um primeiro esforço no sentido de examinar a dinâmica de interação entre intrusos e usuários legitimamente posicionados, permitindo o uso do instrumento desenvolvido em outras situações. Mesmo em certos campos de pesquisa como a microssociologia e o interacionismo simbólico não se encontraram quaisquer pesquisas específicas sobre esse tema. O registro em vídeo oferece certas vantagens ao permite que o sistema de categorias de comportamento possa ser continuamente aprimorado, à semelhança da metodologia típica de observação em outros contextos (Fassnacht, 1982).
Como justificado, não foram considerados nesta análise possíveis dados sobre as reações das vítimas às intrusões. O RU mostra-se um lugar de grande tolerância a intrusos e quase inexistência de reações. Entre os dados aqui registrados, destacaram-se apenas 4 situações que poderiam ser classificadas como reação negativa ao intruso, representadas por pequenas mudanças de expressão facial ou postural, enquanto em apenas um caso foi possível identificar um comportamento de inatenção civil da vítima, que voltou seu olhar para outra direção ao identificar a atuação conjunta de três intrusos. Assim, embora se pudesse insistir até mesmo na identificação de reações faciais mais sutis a partir do sistema elaborado, os
dados estariam bastante comprometidos de inferências que não existiriam numa situação com uma cultura local de normas mais rígidas quanto à atuação de intrusos.
Esses dados sobre reações das vítimas também dependeriam, como discutido anteriormente, do estabelecimento de critérios para definir qual(is) vítima(s) analisar. Há que se considerar que a escassa literatura sobre intrusões analisa o comportamento de reação da primeira pessoa após o ponto de intrusão, mas nesses casos tratavam-se de filas retas e uniformes, onde era mais fácil essa identificação. No caso do ambiente aqui estudado, mesmo que se delimitasse a análise das vítimas, ela seria dificultada pela desorganização dos usuários, muitas vezes em grupos ou posicionando-se de forma paralela e não um atrás do outro, como na típica fila linear.
A alta ocorrência de algum tipo de ajuda por parte de usuário(s) conhecido(s) do intruso na fila e a alta ocorrência de comportamentos de cumprimentar sugere certo grau de familiaridade entre os usuários na situação registrada, seja por relacionamento pessoal direto, seja pelo fenômeno dos “estranhos conhecidos” descrito por Milgram (1992). Por outro lado, é possível que “mexer em objetos” tenha aparecido como categoria muito freqüente porque a entrada nos refeitórios exige o registro do cartão magnético na roleta eletrônica, de modo que muitos usuários já a mantêm em mãos desde o momento que entram no final da fila. Além do sexo, que não mostrou diferenças, variáveis pessoais como idade não puderam ser examinadas, uma vez mais porque o ambiente é bastante homogêneo e a grande maioria dos usuários tem uma faixa etária similar.
Embora limitado às suas características ambientais, o Estudo 1 atingiu o objetivo de desenvolver um sistema de categorias inédito. Esse sistema pode ser estendido e gradativamente aprimorado conforme sejam estudadas novas situações e ambientes, principalmente considerando o papel metodológico central que a metodologia de observação tem no estudo de situações naturais urbanas. O uso da metodologia de observação é bastante escasso atualmente na pesquisa psicossocial de orientação quantitativa, com poucos trabalhos na literatura, que tem centrado muito mais no uso de medidas de auto-relato e pesquisa experimental. Scherer (1993) chegou a argumentar que na psicologia social contemporânea, principalmente de influência norte-americana, raramente os fenômenos são primeiro analisados de perto em campo para depois serem testados em laboratório. Berkowitz (1999) também observou que a grande maioria dos estudos publicados nos periódicos mais renomados da área, tais como o Journal of Experimental Social Psychology e o Journal of
Personality and Social Psychology¸ são estimulados muito mais por outros estudos de
metodológico e estimula o desenvolvimento de trabalhos que possam zelar mais pelo estudo de situações reais e espontâneas, cobrindo de algum modo essa deficiência na psicologia, já identificada desde a década de 1970 por Sommer (1977).