DEMARCHE METHODOLOGIQUE
3) La tension comme vecteur de changement
3.2. LA DEMARCHE METHODOLOGIQUE DE LA THESE
3.2.2. La collecte des données
A prestigiante carreira universitária desenvolvida por Delfim em Portugal, a partir de 1943, ano em que ingressa como primeiro assistente de Ciências Pedagógicas na Faculdade de Letras de Lisboa, é profundamente marcada por algumas decepções, contrariedades, ausência de recursos e falta de incentivos, aspectos que, de certa forma, impedem a concretização de uma acção renovadora, tão desejada pelo Autor, no âmbito da cultura e do ensino nacionais. Tal facto repercute-se, de modo inevitável, na reflexão delfiniana em torno do sector de ensino universitário que sofre, da parte de Delfim e também de outros pensadores, acentuadas críticas.
Subjacente a esse trabalho crítico encontra-se a defesa de um ensino cuja finalidade deve ser cultural e humanista, ideia já expressa pelo Autor num escrito publicado em 1934, alguns anos antes de ingressar no ensino superior, intitulado «Linha Geral da Nova Universidade», e que origina grande polémica no meio universitário da época em virtude das propostas delfinianas tendentes a uma reorganização completa do ensino universitário português, que acusa de caótico, decadente e ridículo e de não corresponder aos anseios da vida e da cultura do seu tempo. Nesse escrito, que surge nos Cadernos
de Cultura Democratista do grupo «Renovação Democrática», Delfim
esboça os traços fundamentais que deveriam constituir a linha geral da nova Universidade.
Um dos primeiros aspectos, diz respeito à separação que deveria ser feita entre o ensino universitário - das letras e ciências, ministrado nas faculdades assim denominadas - e o ensino técnico existente noutras faculdades e escolas superiores, e que visava a especialização
na aplicação de conhecimentos estritamente profissionais, como acontecia com a medicina, o direito e a engenharia, no caso das faculdades e, por outro lado, como acontecia também com o ensino da agronomia, da farmácia, da veterinária, do comércio, das belas artes e da música, ministrado nas escolas superiores. Para o Autor, o ensino universitário só deve consignar-se ao domínio das letras e das ciências o que não significa, no entanto, o desprezo pelo ensino técnico ou profissional:
Não se suponha, porém, que depreciamos o ensino técnico - só o contrário é verdade. (...) A técnica é um domínio de aplicação da cultura e, só por ela, esta se pode renovar e aprofundar. (...) O ensino técnico ou profissional não é superior nem inferior ao universitário: é diferente. No esboço de plano universitário que vamos apresentar, os dois ensinos aparecem como ramos convergentes, cujos pontos de encontro são os institutos de cultura e investigação, anexos indispensáveis de cada faculdade.280
Efectivamente, apesar da separação entre os dois tipos de ensino, Delfim defende a criação de institutos de cultura e investigação junto de cada faculdade, de modo a fazer convergir o ramo técnico e o ramo universitário. Caberia a estes institutos a importante missão de coordenarem a técnica com a cultura, servindo de intermediários entre a escola técnica profissional e a especulação pura, o que possibilitaria que os alunos oriundos dos cursos técnicos estagiassem com os universitários e, assim, pudessem enriquecer-se culturalmente no âmbito da sua especialidade.
Acusando a universidade portuguesa de promover o elitismo social tal como fizera a universidade medieval, que apenas orientava e promovia a vida e a cultura de certas classes, Delfim defende a necessidade da universidade procurar novos fundamentos ideológicos e sociológicos de forma a que possa adequar-se à vida e à cultura do nosso tempo. Para tal, urge que deixe de ser um organismo passivo e
se torne numa instituição dinâmica que possibilite a renovação do espírito e da vida cultural, devendo, igualmente, efectuar-se uma completa regeneração da mentalidade dos seus professores, relativamente aos quais o Autor tece uma acesa crítica:
As nossas três universidades estão recheadas de homens sem probidade intelectual, sem carácter e sem a menor capacidade para o trabalho remunerado pelo Estado e exigido pela sociedade. Dizer que temos professores plagiários e ignorantes - é dizer uma verdade sem novidade
nenhuma. Dizer que, em cada faculdade universitária, há meia dúzia de professores que possuem as virtudes raras da seriedade e da
contemporaneidade é ser excessivamente generoso.261
É contra o academismo, catedratismo, eruditismo, positivismo, arqueologismo e burguesismo vigente no ensino do seu tempo que Delfim se posiciona, o que o leva a propor a extinção da universidade, tal como na época ela se apresenta, e a defender a organização de uma nova universidade que não se posicione à margem da vida mas dentro dela e que se constitua como um organismo vivo e dinâmico, verdadeiramente capaz de levar a efeito a missão cultural e humanista
que deve ser o seu verdadeiro baluarte.
Neste contexto, o Autor elabora uma tentativa de esboço de um plano de organização curricular para uma nova Universidade no qual será notória a dominância da filosofia. Assim, a par da apreciação do ensino ministrado nas faculdades de ciências e de letras e da consequente proposta para a sua reorganização, Delfim procura traçar, igualmente, o plano especial da Faculdade de Filosofia, na medida em que considera ser ela a escola que, «para quem tiver cultura actualizada e perfeita intuição da vida espiritual, deverá ser a alma da Universidade.»282
281 Ibid., p. 377.
O ensino das ciências e das letras é fortemente atacado pelo Autor que, em ambos, denuncia a total ausência de reflexão filosófica:
O principal defeito no ensino superior de ciências consiste na especialização excessiva e na falta de correlação com o saber total ou cultura. (...) Nas velhas faculdades de letras dominam dois vícios perniciosos e aniquiladores: o filologismo e o historicismo. E nelas, como nas faculdades de ciências,
carência de reflexão filosófica sobre o que mais importa: o sentido da cultura e o seu valor de influência social. Em ambas desconhecimento dos problemas.283
Assim, no plano traçado por Delfim para a nova Universidade, é possível distinguir três secções: a Faculdade de Ciências, a Faculdade de Letras e a Faculdade de Filosofia, atribuindo a esta última um papel primordial na medida em que a sua constituição por quatro grupos ou licenciaturas - Filosofia, Pedagogia, História e Política e Economia - permitir-lhe-iam desenvolver um papel significativo na acção política e social, constituindo-se como o centro dinamizador da Alta Cultura e como núcleo orientador de toda a acção especulativa e técnica.
Na nova Universidade, os professores deviam ser preparados nos centros especializados do estrangeiro e a sua selecção seria feita a partir do valor dos trabalhos que publicassem e não baseada nas notas obtidas nos cursos. Depois de nomeados como professores auxiliares, teriam que realizar conferências públicas bimestrais nos institutos de investigação anexos às faculdades e conferências de divulgação cultural junto do grande público. Só pelo desempenho destas tarefas ao longo de dez anos e com três obras publicadas, desde que demonstrassem a sua importância para a função docente, poderiam os professores ser nomeados para a cátedra, nomeação na qual participariam os alunos e antigos alunos. Só nestas condições,
afirma Delfim, «a Universidade seria dos alunos e para os alunos e não, como agora, dos professores e para os professores (,..)».284
A par destas considerações, Delfim defende um ensino gratuito em todos os seus graus por considerá-lo o serviço público mais importante e, para os bons alunos sem recursos económicos, além da isenção de propinas, defende a atribuição de bolsas de estudo em função da sua aplicação e capacidades demonstradas.
Também ao nível universitário o aluno surge revestido de fundamental interesse, devendo constituir, segundo Delfim, o centro de todo o trabalho da Universidade. A importância que atribui ao estudante, conduz o Autor a estabelecer uma diferenciação entre escolar e estudante: «O escolar - ou aluno liceal - aprende o que se sabe; o estudante - ou aluno universitário - pretende aprender o que ainda se não sabe. E numa verdadeira universidade, é claro, só há estudantes ...».285
Desta forma, enquanto a função do escolar consiste em se amoldar ao saber já constituído e considerado útil para a sua preparação, o estudante deve explorar os caminhos do saber, consciente de ser um interventor no desenvolvimento da ciência e um participante activo nas formas culturais da sua época.
Esta distinção implica uma relação pedagógica específica entre os professores e os alunos - a colaboração -, pela qual o professor coloca à disposição dos seus discípulos as ferramentas que permitem realizar a verdadeira missão da Universidade: uma missão humanizante, cuja máxima realização é a formação de personalidades autónomas. Mas, no entender de Delfim, embora o principal propósito do ensino superior deva ser a formação pessoal do aluno, ele não deve desligar-se de outras intenções igualmente válidas e fundamentais: «Não pode atribuir-se à Universidade uma intenção exclusivamente investigativa, nem uma intenção exclusivamente preparativa do
284 i b i d . , p . 3 8 8 .