LE SENS Ce que l’acteur pense «être»
A) Catégorie Compétences clés de l’Agent de changement
A quantidade de textos potenciais no livro é mais um exemplo do desafio lançado ao leitor. Como vimos, há o primeiro Paludes, no qual o narrador se exprime fazendo uso do pronome “eu” e escreve um segundo “Paludes” que se incorpora ao primeiro. Esse “Paludes” é, por sua vez, o diário de Títiro, que nele também diz “eu”. Mas há também outras narrativas integradas ao texto, como a estória contada por Richard ao narrador ou a caçada de Hubert – sem falar das explicações do narrador sobre seu texto, das quais é possível gerar muitas outras estórias.
A estrutura en abyme é o principal elemento da autorreflexão presente no texto. Teorizada pelo próprio Gide em 1893 em seu Journal, a mise en abyme em Paludes reflete o trabalho do escritor e também o do leitor, que é exposto à “gênese” do “Journal de Tityre”, ele próprio escrito em primeira pessoa com algumas interferências em terceira pessoa. Essa profusão de textos que se refletem produz, voluntariamente, o questionamento da obra que temos diante dos olhos.
204“Candide, o Hurão, (...) o Gaspard Hauser ‘pouco esperto’, sem raiz ou estado civil, que fascinou o
século XIX e ao qual se associaria Verlaine (...), todos esses representantes do ‘olhar distanciado’ (...) ou do olhar ingênuo da criança desestabilizam, através de suas questões, da interpretação ao pé da letra do discurso alheio, o sistema de costumes, as várias regras de conduta e as hipocrisias institucionalizadas que regem o mundo bem ‘organizado’ no qual penetram.” HAMON, Ph. L’Ironie
98 Um parágrafo do Journal revela o modo como Gide compreendia a presença de outros textos em seus escritos.205 Para ele os trechos mais perfeitos em um texto não geram descendência, e a obra-prima é “lisse comme un oeuf. On n'y saurait faire rien entrer”.206 O escritor é atraído pelas falhas,
pois somente a partir delas pode inscrever sua marca. Sua imagem do trabalho intertextual é de continuação e, ao mesmo tempo, de postura crítica diante do texto anterior. E a imperfeição poderia estar na forma, mas também no conteúdo, posto que Gide julgava as Bucólicas incompreensíveis na harmonia de seus versos, algo exterior à memória e muito ligada a uma realidade distante.207
Após atravessar o paratexto no início do livro (dedicatória, epígrafe e prefácio), o leitor descobre que “Paludes” é também o nome do texto escrito pelo narrador. Ao mesmo tempo, esse livro – do qual temos acesso a alguns trechos e notas – também é “escrito” por Títiro, o personagem que mantém um Journal de Tityre ou Paludes. Todos esses Paludes têm em comum o fato de ser works in progress, nos quais vemos escritores às voltas com várias questões ligadas à escritura. Através da mise en abyme, Gide exibe não apenas os bastidores da criação literária, mas coloca em pauta alguns dos pilares da literatura, como seu sentido (ou ausência de sentido) e sua relação com o real. Uma das formas a partir das quais o vínculo entre a realidade e a ficção é discutido é a narração em primeira pessoa.
Além do narrador, seu personagem Títiro também conta suas “aventuras” em seu próprio nome, e o faz controlando totalmente sua estória:
De ma fenêtre j’aperçois, quand je relève un peu la tête, un jardin que je n’ai pas encore bien regardé; à droite, un bois qui perd ses feuilles ; au delà du jardin, la plaine ; à gauche un étang dont je reparlerai.208
Na última frase Títiro indica claramente que escolhe os detalhes a serem transmitidos a seu leitor, e a ordem na qual eles serão expostos. Afirmando voltar posteriormente à descrição da lagoa, o personagem acentua o ato de
205 Cf. GIDE, A. Journal 1887-1925. Paris: Gallimard, 1954.
206 Idem, Paludes, op. cit., p. 65. “liso como um ovo. Não se poderia fazer entrar nele nada”. Trad., p. 55. 207 Cf. DELAY, op. cit.
208 GIDE, op. cit., p. 20. “Ao levantar um pouco a cabeça, vejo da minha janela um jardim que ainda não
observei bem; à direita, um bosque que vai perdendo as folhas; para lá do jardim, a planície; à esquerda, uma lagoa da qual voltarei a falar.” Trad., p. 19.
99 criação e insiste sobre a escritura sujeita à lógica do pensamento do autor, e não a uma realidade transposta sem alterações.
Entretanto, o “reinado” de Títiro dura pouco, e caso o leitor se esqueça de sua origem virgiliana – que, portanto, deveria nos impedir de atribuir a ele qualquer realidade – ele é relegado por vezes à categoria de terceira pessoa:
Tityre achète un aquarium; il le place au milieu de sa chambre la plus verte et se réjouit à l’idée que tout le paysage du dehors s’y retrouve. Il n’y met que de la vase et de l’eau; en la vase est un peuple inconnu qui se débrouille et qui l’amuse; dans cette eau toujours trouble, où l’on ne voit que ce qui vient près de la vitre, il aime qu’une alternance de soleil et d’ombre y paraisse plus jaune et plus grise – lumières qui, venues par les fentes du volet clos, la traversent ; – Eaux toujours plus vivantes qu’il ne croyait…209
Durante todo o texto Gide joga com os elementos constitutivos do efeito de real, desmascarando seu aspecto de construção cada vez que o leitor corre o risco de aceitar a “suspensão voluntária da descrença”. Através de Paludes, o escritor convida seus leitores a refletir sobre o modo como tal ilusão é criada, e desenvolver um olhar crítico sobre a literatura e, através dela, sobre o mundo.
Tantas narrativas encaixadas umas nas outras rompem a linearidade textual e levam o leitor a duvidar do que lê. O terreno sobre o qual este se encontra é tão incerto quanto os pântanos de Títiro. Se assim for, embora o gênero desarme as expectativas do leitor, temos então uma espécie de advertência para o tipo de texto que o aguarda. A leitura é uma atividade de decifração e que requer do leitor maior atenção e sutileza, pois este será confrontado a um quebra-cabeça cujas peças obedecem a motivações desconhecidas e/ou inexistentes. A passividade diante da mera descrição de ações cede espaço a uma postura diferente do leitor, que para Fillaudeau é confrontado a “des pantins visiblement manipulés par le Narrateur, à une absence, un ressassement ou à l'éclatement de l'histoire; il ne lui reste dès lors d'autre choix que de participer à ce jeu auquel le convie l'écrivain”.210
209 Ibid., p. 59. Grifos do autor. “Títiro compra um aquário, coloca-o no meio de seu quarto mais verde e
se alegra com a ideia de que roda a paisagem de fora lá se encontra. Só põe nele lodo e água; no logo está um povo desconhecido que se agita e o diverte; nessa água sempre turva, onde só se vê aquilo que chega perto do vidro, ele gosta que uma alternância de sol e de sombra pareça mais amarela e mais cinzenta – luzes que, vindas das fendas da veneziana fechada, a atravessam; águas sempre mais vivas do que ele pensava...” Trad., p. 50-1.
210“fantoches visivelmente manipulados pelo Narrador, à ausência, à repetição, ou à fragmentação da
estória; não resta outra alternativa a não ser participar ao jogo proposto pelo escritor.” FILLAUDEAU, op. cit., p. 285.
100 Paludes é um texto ao qual podemos chamar “aberto”, se pensarmos nas definições formuladas por U. Eco. A existência de interpretações possíveis para um livro é uma característica inerente a toda obra, em qualquer época, mas nem todos os escritos consideram esse aspecto. A chamada “obra aberta” é um texto na qual a abertura é problematizada de modo claro, e a interação com o leitor é mais explicitada. Se toda obra é uma colaboração, a obra aberta tem plena consciência disso, e é estruturalmente concebida para que o leitor perceba sua importância dentro dela. O intérprete, suas emoções e experiências passam a ser vistos como o fator determinante para o sentido da obra, que não é mais controlado pelo autor:
A obra fechada e unívoca do artista medieval refletiu uma concepção do cosmo como hierarquia de ordens claras e predeterminadas. A obra como mensagem pedagógica, como estruturação monocêntrica e necessária (…) reflete uma ciência silogística, uma lógica da necessidade, uma consciência dedutiva pela qual o real pode manifestar-se aos poucos, sem imprevistos e em uma única direção (…). A abertura e o dinamismo barrocos assinalam, justamente, o advento de uma nova consciência científica; a substituição do tátil pelo visual, isto é, o prevalecer do aspecto subjetivo (…).211
Essas obras também são autoconscientes, isto é, “metáforas epistemológicas” que não difundem uma teoria específica, mas representam a indeterminação inerente aos fatos naturais. No caso da literatura, as obras abertas são também metatextuais, pois expõem e questionam os mecanismos formais de sua criação. Toda grande obra se volta para seu processo de criação em qualquer época, mas a obra aberta faz dessa reflexão um de seus destaques, quando não o tema principal. Se a arte é um instrumento de representação do mundo, a autorreflexão pensa justamente o modo como o mundo é interpretado e os mecanismos através dos quais essa interpretação é feita.
A abertura textual se dá em todas as instâncias, e talvez uma das mais evidentes seja a dissolução do enredo “entendido como estabelecimento de nexos unívocos entre aqueles eventos que resultam essenciais ao desenlace final”212, que cede espaço a fatos sem nenhuma determinação aparente. Esses
eventos, sem importância, demonstram a impossibilidade de se construir um
211 ECO, U. Obra aberta. Tradução de Giovanni Cutolo. São Paulo: Perspectiva, 2005. p. 55. Grifos do
autor.
101 discurso coerente e linear diante de um mundo no qual os acontecimentos estão longe de ser perfeitamente ordenados e determinados de modo positivista. O desaparecimento do enredo encadeado por uma relação de causa e consequência denuncia a mentira da representação que confere às ações significados de interpretação unívoca. Para Bertrand:
(...) ce texte que l'on voit s'écrire, dont il nous est donné quelques pages même, lesquelles se confondent bien souvent avec celles du roman encadrant, refuse de fédérer tout contenu romanesque. Mais, en même temps, Paludes est habité par une pluralité de romans possibles qui ne démarreront jamais. Aussi pourrait-on voir dans chacune de ces propositions le prototype renversé et exténué du héros romanesque de tout le siècle: un héros immobile, inactif, célibataire, sans psychologie, inadapté, reclus dans un monde qui lui est totalement étranger. Un héros sans histoire qui n'aurait qu'un modèle, singulier par son asémie narrative, le bien nommé Tityre – rien de plus qu'un nom et qu'un non.213
A ausência em Paludes de um mundo no qual as aventuras se sucedem de maneira encadeada é a condição para a potencialidade do texto. Ao cotidiano banal do leitor, o narrador não opõe um universo exótico, fantástico ou rico de acontecimentos, mas apresenta a mesmice de sua própria vida e de seus personagens. O desafio do narrador de transformar “l’émotion que [lui] donna [sa] vie (...): ennui, vanité, monotonie”214 em matéria literária termina por
aproximar o texto do leitor. Se for possível existir uma identificação entre o leitor e o texto, ela poderá feita através do marasmo.