LES RELATIONS ENTRE COMPAGNIES ET STRUCTURES DE DIFFUSION
3. Les aides à la diffusion
Enquanto a filosofia moderna desde Descartes liga o tema da verdade ao problema do conhecimento, isto é, à questão epistemológica da verdade, Foucault, em sua análise sobre esta problemática da verdade, se depara com mecanismos e organismos que distinguem as verdadeiras ou falsas declarações. Assim, por exemplo, sobre as formas como se pune um outro67; as técnicas e procedimentos que são medidos para se obter a verdade68; o status daqueles que têm a responsabilidade de dizer sobre o funcionamento da verdade69, etc.
Em texto escrito em 1966 intitulado A prosa do mundo, texto que pode ser encontrado nos Ditos e escritos II, Foucault apresenta como os sujeitos históricos contemporâneos se encontram em relação ao saber, admitindo que estamos situados “na era do saber”, momento em que são debatidas as grandes questões epistemológicas. Foucault considera também que o saber, quando ponderado e avaliado, apresenta-se, por via das investigações e revisões constantes, como um saber múltiplo e variado. Nessa multiplicidade, percebe-se que o estatuto da veridicção não se encerra no limite do conhecimento, isto é, em definições acabadas, em descobertas finalizadas, mesmo porque, como bem acentua Foucault, o saber filosófico na contemporaneidade se associa e se nutre de vários outros domínios e disciplinas:
[...] estamos hoje na era do saber. Fala-se correntemente de um empobrecimento do pensamento filosófico; julgamento inspirado por conceitos ultrapassados. Existe hoje uma reflexão filosófica extremamente rica em um campo que, antigamente, não fazia parte da reflexão filosófica. Os etnólogos, os linguistas, os sociólogos, os psicólogos comentam os atos filosóficos. O saber se disseminou. O problema filosófico contemporâneo é cernir o saber em seu próprio limite, definir seu próprio perímetro (FOUCAULT, 2013a, p. 34).
Desta forma, diante do saber disseminado, múltiplo e diverso o problema filosófico contemporâneo, conforme Foucault, é colocar o saber em seu próprio limite, ou seja, se faz necessário estabelecer os objetos próprios da filosofia, bem como os momentos em que ela estabelece uma relação com outras áreas do conhecimento. Todavia, para aclarar essa perspectiva levantada pelo francês, vale destacar o texto Filosofia e verdade, publicado em
Ditos e escritos X, fruto do Dossiê pedagógico de 27 de março de 1965, originado da conversa
67 Em Vigiar e punir, a problemática da verdade, em relação a como se pune o outro, se depara com mecanismos e organismos que distinguem as verdadeiras ou falsas declarações.
68 Sobre as técnicas e procedimentos que são medidos para obter a verdade, Foucault debate tanto em Pierre Rivière como em Loucura e desrazão.
69 Em Arqueologia do saber e em muitas passagens de As palavras e as coisas, Foucault deixa reflexões sobre o status daqueles que têm a responsabilidade de dizer qual o funcionamento da verdade.
entre A. Badiou, G. Canguilhem, D. Drefus, J. Hypollite, P. Ricoeur e que contava com o próprio Michel Foucault. Nesse texto, Canguilhem e Foucault apresentam uma reação diante dos sistemas filosóficos com pretensão de verdade. Afirma Canguilhem: “Pessoalmente, eu não o admito. Não vejo qual é o critério ao qual vocês poderiam referir um sistema filosófico para dizer dele que é verdadeiro ou falso”. Foucault (2014b, p. 5), por sua vez, concorda com Canguilhem e afirma: “Eu também não, não o admito. Há uma vontade de verdade [...]”.
Por conseguinte, sobre saberes e veridicção, Foucault propõe realizar um movimento inverso: ele não está interessado na verdade enquanto disposição conceitual, pois, ao reconstruir tal problemática, ele se reporta aos indivíduos em suas singularidades. E, conforme Canguilhem, ao dar conta do singular e da singularidade no campo da epistemologia da biologia: “[...] O singular está sozinho porque, diferente de outros, o singular está sozinho porque separado. É o conceito de um ser sem conceito, que sendo somente por ele mesmo interdita toda outra atribuição à ele que não seja vinda dele mesmo [...]” (CANGUILHEM, 1983, p. 214).
Como vimos, Canguilhem destaca que o singular tem como aspecto básico de si a singularidade. Entretanto, essa singularidade não o constitui enquanto um ser dissociado dos outros, pois, ainda segundo o autor, “[...] a singularidade consiste num tipo de garantia para a reconhecida vaidade de toda investigação de relações. Assim, o singular não é tanto o ser que recusa o gênero [...], mas com a regra do gênero considerada aqui como a fixação da norma [...]” (CANGUILHEM, 1983, p. 214)70. O singular, em sua singularidade, recusa essa modalização, essa universalização da qual faz parte, por exemplo, um conceito confuso como o de homem.
Tal perspectiva não conduz a um solipsismo do indivíduo, muito pelo contrário: representa a possibilidade da valorização daquilo que o indivíduo tem de singular e da contribuição que dá para a constituição da história. Nesse sentido, Foucault valoriza esses sujeitos históricos e desenvolve uma analítica da verdade em relação ao poder, buscando identificar – na medida em que a realidade está repleta de pessoas que impõem o seu próprio estatuto de verdade, ou seja, tipos de discurso que hospedam e operam como verdade – os constrangimentos que essa “verdade” apresenta ao indivíduo, pois neles está a força que o moverá no desafio de superá-la.
70 “[...] Le singulier est seul parce que différent de tout autre, le singulier est seul parce que séparé. C'est le concept d'un être sans concept, qui n'étant que lui-même interdit toute autre attribution à lui que de lui-même. [...] La singularité est en quelque sorte garantie par Ia vanité recônnue de toute reçherche de relations. Donc le singulier n'est pas tant l'être qui refuse le genre mais avec la règle du genre, la règle étant ici une moyenne tenue pour norme [...] (CANGUILHEM, 1983, p. 214).
Foucault, ao se reportar aos saberes e veridicção e não à verdade, apresenta os “jogos de verdade” nas ações experienciadas historicamente. Esses jogos permitem ao indivíduo pensar quando e enquanto se identifica com o que está posto e estabelecido e, para além disso, o quanto pode haver de insano e doentio no que experiencia nessas vivências. É esse aspecto desviante das ações, seja no trabalho, seja na linguagem, seja na família, seja nas relações institucionais ou na vida com todas as suas reviravoltas, que interessa a Foucault. Como aponta Canguilhem:
[...] A vida teria, pois, abortado por engano a esse vivente capaz do erro. De fato, o erro humano não se produz que por uma errância. O homem se engana porque ele não sabe onde se por. O homem se engana quando ele não se coloca no lugar adequado para recolher uma certa informação que ele busca. Mas também, é por força de se deslocar que ele recolhe da informação ou no deslocamento, por toda sorte de técnicas – e poder-se-ia dizer que a maior parte das técnicas científicas vem desse processo – os objetos, uns em relação aos outros, e o conjunto em relação à eles. O conhecimento é pois uma pesquisa inquieta da maior quantidade e da maior variedade de informação. Por consequência, ser sujeito do conhecimento, se o a
priori está nas coisas, se o conceito está na vida, é tão somente estar insatisfeito do
sentido encontrado. A subjetividade é então, unicamente, a insatisfação. Mas esteja aí, talvez, a vida mesma. A biologia contemporânea, lida de uma certa maneira, é, de qualquer modo, uma filosofia da vida (CANGUILHEM, 1983, p. 364)71.
A veridicção em Michel Foucault possui uma aproximação com as ciências da vida, entendimento segundo o qual o indivíduo, ao apreender certo saber – ao mesmo tempo – modifica-se como ser vivo, na medida em que, constituindo-se, em sua subjetividade pode agir sobre si mesmo, mudar suas condições de vida e a própria vida. Foucault, inspirado nas análises de Canguilhem, encontra na reciprocidade da relação entre saber e vida, o que ele denomina de veridicção, sendo nela que se encontra a relação entre objetividade e subjetividade, considerando estar nessa relação a inclusão das ciências da vida – o elemento que faltava na história da espécie humana. Afirma ainda Canguilhem:
[...] Se não houvesse obstáculos patológicos, não haveria também fisiologia, pois não haveria problemas fisiológicos a resolver. Resumindo as hipóteses que havíamos proposto quando analisamos as idéias de Leriche, podemos dizer que, em matéria de biologia, é o pathos que condiciona o logos porque é ele que o chama. É
71 La vie aurrait donc abouti par erreur à ce vivant capable d'erreur. En fait, l'erreur humaine ne fait probablement qu'un avec l'errance. L'homme se trompe parce qu'il ne sait où se mettre. L'homme se trompe quand il ne se place pas à l'endroit adéquat pour recueillir une certaine information qu'il recherche. Mais aussi, c'est à force de se déplacer qu'il recueille de l'information ou en déplaçant, par toutes sortes de techniques - et on pourrait dire que la plupart des téchniques scientifiques reviennent à ce processus - les objets les uns par rapport aux autres, et l'ensemble par rapport à lui. La connaissance est donc une recherche inquiète de la plus grande quantité et de la plus grande variété d'information. Par conséquent, être sujet de la connaissance, si l'a priori est dans les choses, si le concept est dans la vie, c'est seulement être insatisfait du sens trouvé. La subjectivité, c'est alors uniquement l'insatisfaction. Mais c'est peut-être là la vie elle-même. La biologie contemporaine, lue d'une certaine manière, est, en quelque façon, une philosophie de la vie (CANGUILHEM, 1983, p. 364).
o anormal que desperta o interesse teórico pelo normal. As normas só são reconhecidas como tal nas infrações. As funções só são reveladas por suas falhas. A vida só se eleva à consciência e à ciência de si mesma pela inadaptação, pelo fracasso e pela dor [...] (CANGUILHEM, 2006, p. 108).
Foucault considera haver na abordagem de Canguilhem sobre a construção da biologia aspectos extremamente importantes para pensar relações com o sujeito, encontrando aí elementos que possuem um parentesco com o que ele aborda sobre o indivíduo em processo de subjetivação. Canguilhem apresenta nos obstáculos patológicos o que, provavelmente, Foucault enfatizaria como experiência-limite, na medida em que as pesquisas de Canguilhem sobre a biologia estão inicialmente e objetivamente instauradas na patologia como aquilo que move a descoberta da cura. É na dor que está instaurado o consequente redirecionamento de um extremo ao outro, de um estado a outro. Assim, a transformação própria do sujeito se dá nesse processo de constituição do novo saber.
Em Foucault, a forma do sujeito se constituir é similar ao processo indicado por Canguilhem para a biologia, pois é na patologia que se encontra o ponto a partir do qual pôde se constituir a ciência da vida. Só se constitui a biologia enquanto ciência com suas normas em se considerando as anormalidades, isto é, opondo-se, e em face da vida é que estão e se encontram as doenças, as anomalias, a morte e, quaisquer que sejam as experiências, estas se inserem, ao mesmo tempo, em cada nova descoberta, entre o velho e o novo, entre a oposição do verdadeiro e do falso, da afirmação e da negação. Isso significa, em Foucault, que as posições extremas na ciência biológica são as mesmas que fazem os “jogos de verdade” pois, como bem afirma Canguilhem (2006, p. 108), “[...] é o pathos que condiciona o logos porque é ele que o chama [...]”.
Neste sentido, é necessário considerar a história da ciência como descontínua, tendo em vista que ela é passível de alteração, correção, o que impede o fechamento dos conceitos no âmbito da verdade. Essa é também a dimensão peculiar à vida do indivíduo em processo de subjetivação.
Tem-se, então, a forma do indivíduo se constituir como a realização de si mesmo enquanto sujeito na medida em que não somente as suas necessidades são supridas, mas os seus fins são realizados, uma vez que seus desejos, suas relações se mostram na existência concreta e não são mais os discursos que definem o indivíduo, menos ainda são os discursos que possuem a verdade.
Assim, o discurso razoável, o saber apreendido na ciência da vida é a veridicção que, em Foucault, se constitui no movimento parresiástico. Por esta razão, o filósofo decide, no
fim de sua vida e em suas últimas aulas no Collège de France, investir sua análise sobre o poder a partir de uma espécie de história da verdade:
O discurso revolucionário72, quando assume a forma de uma crítica da sociedade existente, desempenha o papel de discurso parresiástico. O discurso filosófico, como análise, reflexão sobre a finitude humana, e crítica de tudo o que pode, seja na ordem do saber, seja na ordem da moral, extravasar os limites da finitude humana, desempenha um pouco o papel da parresía. Quanto ao discurso científico, quando ele se desenrola e não pode deixar de fazê-lo, em seu desenvolvimento mesmo - como crítica dos preconceitos, dos saberes existentes, das instituições dominantes, das maneiras de fazer atuais, desempenha justamente esse papel parresiástico. Eis o que eu queria dizer (FOUCAULT, 2013a, p. 29).
Neste sentido, percebe-se os "jogos de verdade" como onipresentes ao pensamento de Foucault. Poder-se-ia admitir na existência as condições de possibilidade de constituição dos sujeitos de conhecimento - ou o que poderíamos chamar de objetivação -, como inseparáveis das formas de subjetivação, na medida em que objetivação e subjetivação são dependentes uma do outra. Por outro lado, a descrição do seu desenvolvimento e da sua relação mútua, reciprocamente, é precisamente o que Foucault chama de "jogos de verdade".
Por conseguinte, não é a descoberta do que é verdadeiro, mas o apreender as regras segundo as quais o que um sujeito diz sobre determinado objeto aborda, ao mesmo tempo, a questão da verdade ou falsidade. Assim, há no dizer, na linguagem expressa pela fala, não apenas uma definição, mas o comprometimento com o que se enuncia. É, então, no aspecto dos “jogos da verdade” que se encontra o sentido dos saberes quando associados, pois permitem ao sujeito se renovar, se processar, se subjetivar.