FRONT NATIONAL
3. Le lexique du Front National
3.3. Usage contrediscursif d’un vocabulaire nationaliste
pelas pessoas comuns. Mas depois de 1945, Hirohito começou a viajar por várias cidades e foi algumas vezes surpreendido pela população. A sua imagem nas ruínas urbanas, segundo Igarashi Yoshikuni (ibid 47), representou o próprio estado precário dos corpos japoneses no pós-guerra. Shiba Ryōtaro, jornalista que fez a cobertura das viagens do imperador a Kyoto em 1950, observou que havia um sentimento de vazio generalizado. Era como se não houvesse mais nada, tudo estivesse destruído e o imperador permanecesse sozinho com todo o resto à sua volta em ruínas.53 De certa forma, a sua própria figura havia mudado. Parecia humanizada e liberada das restrições do regime anterior a 1945, marcado pelo discurso nacionalista que o suspendia do tempo e o distanciava da vida cotidiana. O nacionalismo não havia sido banido, mas parecia ressignificado, como observou Miryam Sas (2011:XV). De certa
53 Como explicou Abe Mark Nornes em “The Body at the Center”, in Hibakusha Cinema (Broderick, 1996),
The Effects of the Atomic Bomb on Hiroshima and Nagasaki foi o primeiro documentário realizado após o
lançamento das bombas atômicas. São 2h45 minutos que começaram a ser filmados em 1945, acabando no começo de 1946. A obra dá início aos filmes conhecidos como hibakusha (as vítimas das bombas atômicas). Apesar de ter sido considerado por muitos como um mero acúmulo de fatos científicos, que eliminou todo fator humano, segundo Nornes, é justamente por isso que representa o espectro da impossibilidade. Depois dele, vários historiadores começaram a abordar o tema, não raramente transformando a narração em testemunho ou vice-versa. Em todos os casos, o corpo sempre foi o centro da discussão: representado em sua aparência grotesca ou absolutamente ausente.
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forma, foram os trabalhos experimentais da época que deram uma nova moldura aos discursos do nihonjinron (a especificidade japonesa日本人論).
Nesse contexto, a língua japonesa e a imagem do imperador sempre foram as referências fundamentais. Para os japoneses, Shōwa era o nome de um imperador e de uma era que vai de 1926 a 1989. Para o mundo, o imperador que esteve no poder durante todos esses anos ficou conhecido como Hirohito. No entanto, a sua fama não dizia respeito apenas às seis décadas em que foi imperador, mas sobretudo aos acontecimentos que marcaram a época. Pela sua longevidade, a era Shōwa englobou o amadurecimento da modernidade no Japão (era Meiji), a catástrofe da II Grande Guerra, o reconhecimento da derrota (assumido pelo próprio Hirohito) e o espantoso crescimento econômico aliado às mudanças da vida cotidiana que ocorreram após a devastação da guerra. Não é pouca coisa. No entanto, o aspecto mais marcante foi a humanização de Hirohito. O imperador Sol havia se transformado em ser humano. Deixara de ser um ente divino inacessível, tendo a sua fragilidade confundida com as ruínas das cidades devastadas.
Até a II Grande Guerra, o Imperador nunca havia sido fotografado. Este resguardo fazia parte da preservação de seu papel apolítico. Além disso, havia uma conotação espiritual muito forte que insistia em prevalecer. Um bom exemplo é o da primeira decisão do Imperador após a guerra, ou seja, o reconhecimento da derrota para os Estados Unidos. Esta também foi considerada uma espécie de intervenção divina.
Conscientemente ou não, Hirohito mostrou-se bastante hábil para realizar a mudança de papéis. Como inimigo convertido, passou a ecoar os desejos estadunidenses como seus. Ele sabia que precisava dos Estados Unidos para protegê-lo e contava com o apoio do general MacArthur. Ao final, Hirohito acabou sendo considerado uma marionete dos militares japoneses e assim se redimiu em relação ao resto do mundo. A fragilidade de sua figura foi reconhecida como uma metáfora do feminino, como explica Igarashi (ibid:84). Lado a lado com MacArthur, Hirohito foi transformado em uma personagem feminina, uma figura desamparada digna da condescendência do militar americano. O pronunciamento do imperador acerca da sua responsabilidade na guerra e o auto-sacrifício, apenas reforçou a sua imagem dócil.
Quando visitou os Estados Unidos pela primeira vez, em outubro de 1975, a imprensa estadunidense o saudou. O jornal New York Times escreveu, na ocasião, que Hirohito tinha “um charme tímido e que transmitia aos que o conheceram, um senso de honestidade árduo, sincero e afável” (apud Igarashi, 106). Em Los Angeles, Hirohito foi recebido por todos os ícones mais conservadores do cinema como os atores John Wayne e Charlton Heston. Mais uma vez, evidenciou-se a docilidade e a feminilidade do Imperador. Ao lado do fortão John Wayne, o contraste com a sua imagem miúda e frágil remetia, imediatamente, ao filme The
95 Barbarian and the Geisha (O Bárbaro e a Gueixa, 1958). Neste grande fracasso de bilheteria do diretor John Ford, Wayne interpreta Townsend Harris que havia negociado a abertura dos portos japoneses para os Estados Unidos e, durante a sua missão, apaixonou-se por uma gueixa delicada, interpretada por Ando Eiko. Os contrastes entre Hirohito e MacArthur, assim como entre Hirohito e John Wayne, renderiam, por si só, um ensaio curioso sobre os modos de representação do poder.
Após a guerra, o imperador decidiu afirmar-se como biólogo marinho, o que representou mais uma saída habilidosa frente aos conflitos decorrentes da derrota japonesa. Um bom exemplo ocorreu durante a já mencionada visita aos Estados Unidos. Enquanto ainda circulavam protestos políticos contra o Imperador, planava em uma flâmula atada a um avião a mensagem “Imperador Hirohito – por favor, salve nossas baleias”, reforçando assim, a sua nova imagem de cientista.
As fotografias veiculadas no pós-guerra passaram, portanto, a representar Hirohito como uma figura inexpressiva em contraste com o poderoso MacArthur, valorizando a profanação do Imperador que deixava de ser uma entidade sagrada para tornar-se um homem comum. O desequilíbrio entre os dois -- o forte e o frágil, o masculino e o feminino – anunciava também os modos como o conflito havia sido resolvido, tendo em vista as crises pessoais do Imperador, a sua reinvenção como homem da ciência e a valorização da natureza. Não há como deixar de observar a contundência desta ênfase na preservação da natureza após as catástrofes nucleares de Hiroshima e Nagasaki.
Sem fazer parte de um Japão militarizado e armado, a nova imagem do Imperador passou a ser a de defensor da natureza e dos seres vivos. É o que todos esperavam naquele momento: um caminho para viabilizar a passagem do poder sobre a vida, para uma política que conferia poder à vida.
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