PROFESSIONNELLE RESTREINTE CHEZ LES PROFESSIONNELS DU PROJET URBAIN
1. Des représentations interdisciplinaires intégrant une dimension subjective et expérientielle
1.2. Des thèmes environnementaux pluridisciplinaires avec l’évocation du sensible et des usages
Se, de um lado, foi possível evidenciar que o saber tácito é marcado por uma validade e pertinência no que se refere à realização de uma determinada atividade, por outro lado, é possível afirmar, também, que o fato de este saber ser tido como tácito favorece em muito para que haja dúvidas em relação a sua relevância epistemológica. Todavia, entendemos, ain- da, que os debates sobre o saber tácito não evidenciaram todas as possibilidades de formaliza- ção deste tipo de saber, e tampouco desvelaram em que medida ele pode ser tido realmente como tácito.
Neste sentido, elaboramos uma hipótese, na qual consideramos que o uso do saber tá- cito ocorra mediante o uso de estratégias, também tácitas, de produção, mobilização e forma-
lização de saberes. Consideramos, ainda hipoteticamente, que estas estratégias tácitas poderi- am se desenvolver em um esquema de retroalimentação cíclica isso quer dizer que o uso de estratégias tácitas para produzir saberes é dependente de estratégias tácitas de mobilização de saberes que, por sua vez, dependeriam do acionamento de estratégias tácitas para formalizar os saberes a serem mobilizados, ou seja, todas as estratégias tácitas se realimentam constan- temente. Por esta trilha, as estratégias tácitas para produzir, mobilizar e formalizar só encon- tram um sentido uma perante a outra.
Essas estratégias tácitas além de garantir a validade e pertinência do saber tácito, so- bretudo para quem as realizam, uma vez que por meio delas, entrariam em marcha os saberes que monitoram a realização de uma determinada atividade, poderiam, também, funcionar co- mo um mecanismo de “filtragem” que permitiria ao sujeito selecionar os saberes a serem mo- bilizados para realizar uma tarefa. Essa hipótese encontra respaldo em Malglaive (1990) com a expressão “saber em uso”, que designa um determinado conjunto de saberes que regem uma ação. De acordo com esse autor:
O conjunto destes saberes forma uma totalidade, complexa e móvel, operatória, quer dizer ajustada à acção e às suas diferentes ocorrências; uma totalidade substi- tutiva no seio da qual os diversos tipos de saber se substituem uns aos outros à mercê das modalidades sucessivas da actividade, uma totalidade que eventualmente se deforma sem, todavia, modificar a sua arquitetura, mas alterando, por vezes, o modo e a qualidade dos seus constituinte. (p. 87)
Em que pese a possibilidade de um determinado grupo social criar e consagrar deter- minadas estratégias que mobilizam um tipo de regulagem entre o corpo e a mente, a hipótese de haver um esquema de retroalimentação entre as estratégias “tácitas” por parte daqueles que fazem uso de saberes tácitos nos remete, ainda, a uma última pergunta: o sujeito que faz uso do saber tácito poderia criar e recriar uma regulagem na relação entre o seu corpo e a sua mente? Se o saber possui uma dimensão individual e subjetiva, a singularidade do sujeito po- deria estar na forma de como ele regula a relação entre o seu corpo e a sua mente? E ainda, a
partir dessa regulagem, o sujeito criaria formas não só de produzir, mobilizar e formalizar saberes, mas, também, de expressá-los?
A idéia de que possa haver estratégias de regulação entre o corpo e a mente para a a- preensão da realidade é de certa forma sugerida por Damásio (1994):
(...) A escolha de uma decisão quanto a um problema pessoal típico, colocado em ambiente social, que é complexo e cujo resultado final é incerto, requer tanto o am- plo conhecimento de generalidades como estratégias de raciocínio que operem so- bre esse conhecimento (...) Mas como as decisões pessoais e sociais se encontram inextricavelmente ligadas à sobrevivência, esse conhecimento inclui também fatos e mecanismos relacionados com a regulação do organismo como um todo. (p. 109)
Todavia, se foi importante apresentar a nossa hipótese mais refinada, qual seja, a idéia de que o sujeito que faz uso do saber tácito o faça mediante o uso de estratégias tácitas de produção, mobilização e formalização de saberes, é igualmente importante lembrar que a construção dessa hipótese tem débito com situações concretas do chão de fábrica que corrobo- ram a possibilidade de que haja saberes produzidos, mobilizados e formalizados a partir de uma racionalidade distinta da formalidade científica.33
Neste sentido, acreditamos que a atividade de trabalho se constitua como um excep- cional campo para se analisar o saber tácito, dado que as contradições presentes neste espaço são marcadas por um apelo à inteligência operária que, de um lado, é um alvo cada vez maior dos interesses do capital e que, por outro lado, como afirma a literatura especializada, os tra- balhadores nunca ficaram sem produzir saberes e tampouco deixaram de imprimir o seu inte- resse no trabalho (EVANGELISTA, 2001; SANTOS, 1997; ARANHA, 1997).
33
Essa possibilidade é apresentada por diversos pesquisadores (SANTOS, 1997; ARANHA, 1997 e SALERNO, 1994).
3 AFERRAMENTARIAEASATIVIDADESINDUSTRIAIS
O trabalho de ferramentaria se insere em diversas atividades industriais, como, por e- xemplo, a indústria alimentícia, farmacêutica, automobilística e eletro-eletrônica. Nesta pes- quisa será abordada a ferramentaria de autopeças, portanto, aquela que se vincula ao setor automotivo. No que se refere à inserção da ferramentaria no ramo autopeças, há que se dizer que o crescimento nas vendas de automóveis de passeio no século XX é apontado como um dos eventos responsáveis pela expansão desta atividade. Ainda hoje, ela responde por boa parte dos componentes automotivos, dado que, dentre outras características, o emprego deste processo de fabricação é apropriado para as grandes séries de peças, ou seja, a produção em larga escala (NAVARRO, 1954; SENAI 1998). No caso brasileiro, podemos apontar que o impulso da ferramentaria se vincula à indústria automotiva dada, principalmente, pela política de nacionalização das peças a partir de meados da década de 1950 (GATTÁS, 1981). Em Mi- nas Gerais, é também a chegada de uma montadora que vai impulsionar a atividade de ferra- mentaria como recordou um dos ferramenteiros com quem conversamos, “no inicio da década de 1970 tinha muito pouco serviço de ferramentaria aqui em Minas, depois veio a Fiat e a Ferramentaria evolui aqui”. Um outro ferramenteiro disse que: “Quando saí do Senai e fui parar na Fiat, eu era um ajustador mecânico, lá na Fiat eles perguntaram quem queria ir para a ferramentaria. No início eu não queria, eu não sabia o que era aquilo, aí um cara lá me falou, pode ir que esse negócio é bom, o ferramenteiro ganha mais do que qualquer peão”.