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CHAPITRE III : LE COMPROMIS SUR LA NORME

3.1. Le temps de travail des cadres n’est pas strictement

Nas visitas domiciliares, preconizadas como uma estratégia de cuidado, para aqueles que não estão em condições de ir à unidade de saúde, é que alarga-se a compreensão da extensão dos problemas, que as famílias com pessoas em uso abusivo de drogas, enfrentam.Como na fala de Magdala, se referindo ao marido em sua trajetória de uso abusivo, já adentrando a situação de dependência química, por descuidar de suas atividades diárias com o trabalho:

Magdala: As roupas que ele vestia antigamente, também ficava tudo frouxa... Aí

agora já tá começando a acochar, pois ele come e dorme direitinho, tudo. Estava indo bem, daí voltou pra esse lugar (fala do lugar onde consome drogas). E aí eu disse pra ele: “Voltou pro sujo!” Aí, as pessoas estavam distanciando dele, né? Souberam que ele teve uma recaída e já começaram a ficar meio assim, sem confiar. Então eu pensei: “A pessoa volta pra esse lugar...” Então ele não parou, ele só deu um tempo... Porque ele disse que pode deixar de vez. Teve até uma vez, que ele recebeu o pagamento no trabalho e... Eu até pensei: “Vou pegar e vou entrar nas

drogas, pra ver a reação dele!”, mas na mesma hora eu pensei no meu filho.

Não deixo que ela continue, e completo: “Imagine dois envolvidos com o uso de drogas, quem cuida de quem? Quem cuida de si? Quem cuida do filho? Você diz que ele está doente, que vai ter que lutar todos os dias com essa doença... E é preciso viver, não? Como você disse ainda agora.” Então, Ivan, que estava junto nesse momento diz: “Só por hoje...” e recorda que seu desejo sendo intenso, sua batalha tem que ser vencida um dia após o outro, como nos recomendam os AA.

Nesses momentos, como o que relatei acima, é que fica mais patente a importância da criação de vínculo entre profissional e pessoas com uso abusivo de drogas, bem como seu familiares e comunidade, no que se puder fazer. Nesse dia, Ivan tinha sofrido uma recaída e fui chamada para dar um apoio à família, pois Magdala estava pensando em separar-se.

O caso é que ela havia comprado um celular para ele, e uma bicicleta, para que ele pudesse ir trabalhar. Do trabalho ele foi para uma “boca de fumo”, como são conhecidos os pontos de venda e uso de drogas, lá passando os bens comprados para o traficante. Ivan só voltou, então, para casa, de madrugada, sem condições de ir trabalhar naquele dia.

A ACS informou-me da situação e fui visitá-los após o expediente. Era um momento de dor ― e eu teria de pensar também na minha frustração, que eu deveria trabalhar em mim. A ida à casa de Magdala representava o vínculo que eu aprendia a construir, como também estava a adentrar na proposição da necessidade da categoria do amor, em saúde. Bigheto (2010, p. 64), sintetiza os quatro pontos centrais da teoria do amor de Platão. Vejamos:

1) O amor é falta, é insuficiência, desejo de se conquistar o que não se possuí; 2) O amor é uma força propulsora que nos impulsiona na direção do Belo, e, ao mesmo tempo, na direção do Bem, que Platão identifica com o Belo;

3) O amor caminha da beleza física, dos corpos sensíveis, até a beleza da sabedoria, do belo do mundo metafísico e da alma.

4) E, por último, o amor é cuidado de si e dos outros, que é o que o filósofo tem de mais elevado e nobre (BIGHETO, 2010,p.64).

Eu me reconhecia na perspectiva desse amor que cuida e caminhava para a visita envolta em pensamentos que remetiam a soluções possíveis no caso do jovem casal. Havia uma relação construída que precisava se manter entre a profissional e a família. Havia contudo mais que isso, a empatia desenvolvida ao longo dos encontros do Grupo Acolhida que tornava o olhar diferente, comovido, envolvido e imbuído do desejo do “Bem.”

Era o mesmo olhar “inconformado” que Vasconcelos, (2010, p.116) dizia que possuía uma “vitalidade surpreendente” que impulsiona o ser a transcender, “ir além das realidades ditas naturais”. A transcendência, neste sentido é “este elã vital presente no ser humano, fonte de sua garra teimosa para a luta social.” Eu me sentia assim naquele momento.

Lacerda et al, (2006, p. 94) refletem que :

A visita domiciliar é uma forma de assistência domiciliar à saúde, que dá subsídios para a execução dos demais conceitos desse modelo assistencial. É, por intermédio

da visita, que os profissionais captam a realidade dos indivíduos assistidos, reconhecendo seus problemas e suas necessidades de saúde.

Em seu artigo, Lacerda et al,(2006) propõe ainda, uma reflexão sobre os tipos de atenção à saúde no domicílio, caracterizando por atenção à saúde um olhar que incorpora vigilância à saúde, promoção, manutenção e recuperação da saúde do indivíduo. Desse modo, tem uma maior amplidão que o simples atendimento, que se constitui numa prática de uma atividade mais direta de um profissional a um indivíduo.

A internação domiciliar, já comporta uma maior complexidade, embora seja realizada ainda no domicílio e, por fim, a visita funciona como uma forma de avaliação dos indivíduos, sua família e o domicílio. Uma avaliação que reorienta o processo como um todo e não apenas o resultado. Conclui então, o autor, que a visita e a internação são formas de atendimento domiciliar, cada uma existindo com sua ordem de complexidade diversa ( LACERDA et al, 2006) .

Na visita a Magdala, e diante dos problemas que o casal estava vivendo, me preparei para encontrar um ambiente conturbado, mas veja como se deu nosso encontro, segundo as anotações do Jornal da Pesquisa.

Ao chegar à casinha onde moravam, numa área de risco da comunidade,poucos móveis decoram o ambiente, tudo está bem limpinho, e o casal me recebe, um pouco constrangido,em parte, pela situação que estão vivendo, em parte, também, porque não tem cadeira suficiente para todos. Após ouvi-los, ligo para o CAPS-ad para verificar o encaminhamento ao hospital. É necessário um encaminhamento do CAPS, porém o casal dizia não ter dinheiro para os transportes e coisas dessa ordem. Penso que isso poderia significar algo além do que diziam e me calo. Concretamente, negocio com eles a ida à emergência do hospital e ligo antes para ver possibilidade de vaga. Mais tarde ela me liga para contar que só puderam ir à noite, quando a mãe dele chegou do trabalho, ofertando o dinheiro do ônibus. Face às outras demandas programadas, não é uma prática comum, de minha parte, realizar visitas fora do dia programado, entretanto, a possibilidade de separação do casal acenava para uma crise na família, e eu sabia que Ivan não demonstrava estrutura emocional de permanecer sem a presença da esposa e do filhinho. Minha simples presença lhes diria o quê? (Jornal da pesquisa)

Como Albuquerque e Bosi (2009) citam: “as relações muitas vezes regem o processo de adoecimento dos indivíduos”. Nas suas palavras:

A atenção às famílias e à comunidade é o objetivo central da visita domiciliar, sendo entendidas, família e comunidade, como entidades influenciadoras no processo de adoecer dos indivíduos, os quais são regidos pelas relações que estabelecem nos contextos em que estão inseridos (ALBUQUERQUE; BOSI, 2009, p.1104).

Lembrei-me de imediato da frase que ouvira de Ivan, ao se referir a sua mãe: “Ela não conversava comigo não, ela só sabe brigar e bater.” A relação de afetividade se mostrava comprometida; o jovem fora criado pela avó, e somente na adolescência, após o desencarne dela, passara a viver com a mãe. Havia um movimento de vida, no entanto, que lhe levava a reconstruir laços. Essa aposta era minha.

A história de vida de Ivan parece mostrar que estar apartado das pessoas que ama lhe imprime rumos que desagregam. Segundo ele, desde a perda da avó, que o criou e que é a referência afetiva mais forte em seu passado, até a esposa e o filho, a quem se apegava, diuturnamente, tudo fala em alguma medida do esforço de leitura de si e recomposição de vínculos. “Ao perder o referencial de lar”, diz Araújo (2008, p.73), “podemos nos sentir desabitados, sem algo maior para nos apoiar”. E a autora continua:

Por mais doloroso que seja, é necessário desvelar as tramas de nosso contexto porque contém nossa vida. Sentimos necessidade de pertencer a um grupo para nos sentir acolhidos, mas também para nos sentir participantes da construção de uma história singular e coletiva.

Esse sentimento de pertença a um grupo familiar não é uma particularidade de Ivan, é uma necessidade inerente ao espírito. No desvelamento desses enigmas que gerenciam a existência de cada um, o espírito, ser inter-existencial, investiga em seu inconsciente e desvela de modo subjetivo, intuitivamente, ora mais consciente, os elos, vetores - como aponta Barsanulfo-espírito; Amui (2011), que circundam suas relações familiares.

Seria isso uma experiência espiritual? Eu sempre questionara o fato de vermos o espiritual dentro de um sistema ritualístico e igrejeiro, em que pese o valor das práticas comunitárias e religiosas, elas me ajudavam a viver espiritualidade em toda parte.Queiroz, (2010, p.29), entende espiritualidade como uma “dimensão subjetiva e emocional, que envolve um significado íntimo da vida e da existência”. Eu percebia a necessária saída da compreensão da espiritualidade como lugar e rito, e adentrava em minha prática em acolhida na ESF, a compreensão de um novo sistema de pensamento que, ao modo espírita, unia ciência, religião e filosofia.

O percurso vivido fazia-me lembrar das considerações encontradas em “O que é Evangelização de Espíritos”, sob orientação da equipe de Eurípedes Barsanulfo-Espírito por Amui(2011). “Os fatores causais das lutas no relacionamento têm quase sempre como base comum a preponderância das energias doentes que, condensadas na memória, passam a governar as estruturas mentais” (AMUI, 2011, p. 89). A emoção em desgoverno, de Ivan, me

fazia perceber a fragilidade de suas estruturas mentais,que ele parecia referir-se ao falar em uma vida repleta de cicatrizes. Magdala era a fortaleza para a qual ele se dirigia, em todos os momentos.

Outra jovem do Grupo Acolhida que denominei Madalena, fala de sua relação familiar:

Josy: Você nunca saiu da casa dos pais? Madalena: Não, nunca.

Josy: E ela aceitava essa situação dentro de casa?

Madalena: Aceitava assim... mesmo eu sendo sem vergonha, deu pegar as coisas

dela, o dinheiro, as coisas dela, mas ela nunca me jogou para fora de casa. Sempre ela foi assim, uma mãe com paciência.

Josy: Não brigava contigo não?

Madalena: Brigava, mas me dava conselho, né? Para mim não sair, mas aí, né, sei

não, só Deus mesmo. Ela tinha fé que um dia eu ia sair.

Os relatos se assemelham, o fator causal da crise é o mesmo: o mundo das drogas, No caso de Madalena, a família toda trabalha no setor informal, convivem com o uso da droga, diuturnamente, prejudicando inclusive a situação conjugal de sua mãe, como ela nos conta quando pergunto se ela vai trabalhar junto com a mãe:

Madalena: Não, porque o meu serviço é durante o dia, o da mãe é a noite. Ela já vai

a noite, ele (o padrasto) vira assim, ele vai de dia, e a mãe vai a noite. Já ele não vira a noite porque ele quer usar. Vai deixar de usar pra ficar na feira?

Josy: Ele fica sozinho em casa?

Madalena: É a mãe na feira, ela sabe que quando ele chega em casa ele vai usar. Josy: Tem irmão menor em casa?

Madalena: Só o que tem é a filha dele. Josy: E a filha dele não acha ruim?

Madalena: Não já tamo acostumada. Porque ele não quer sair dessa vida. Tem

coração crescido, mulher... coração crescido e não quer deixar.

Observe que aquestão do padrasto ter uma doença crônica associada, parece assustar Madalena. Entretanto, mais uma vez a naturalização do uso da droga chama a atenção num modelo invertido, não só o filho de Madalena se defronta com a mãe “lombrada”, como eles dizem. Seu padrasto também oferece esse modelo à sua filha.