LES UNIVERS DES JEUNES Diversité et significations
LES SIGNIFICATIONS
Felícia é uma moça pobre que se prostitui para sobreviver. Em diversas passagens do romance em que aparece é sempre dito que ela está com fome e a prostituição foi o único caminho que encontrou para poder minimamente saciar suas necessidades básicas.
Quando criança, teve uma infância humilde, mas na companhia de seus pais. Ou seja, ela vivia como muitas outras crianças da Vila, brincando na mata e ajudando a sua mãe em pequenos afazeres domésticos. Com o passar dos anos, já mocinha, passa a se interessar pelos rapazes. Há o relato no romance de dois namorados: Teodoro e um soldado da polícia, com quem pretendia fugir, mas ele se esconde e é com o fracasso desse plano que começa o seu infortúnio:
O soldado se escondera debaixo do toldo e Felícia voltou para a barraca, com a trouxa no braço (...) e caiu nas ripadas de sua mãe, siá Marocas. Nessa noite seu pai chegava cambaleando. Os bigodes do Sousa pingavam, o seu grito fez Felícia erguer a cabeça e sustar o choro. Que era? Sousa gritava àtoa. Estava dentro dum porre como uma sagrada atuação. Havia nele qualquer coisa de grande e de puro naquela roupa imunda, no rosto inchado, nas mãos molhadas e nodudas.
— Hum! Te tiraro o sangue, não! Tá dentro do sangue isso. Tinha de se dar. É do sangue. Não?
E ela correu para o quintal debaixo da chuva, como enxotado corria o cão Tigre toda vez que se aproximava do prato de peixe do irmãozinho de Felícia que comia no chão. (JURANDIR, 1941, p. 115).
Expulsa injustamente de casa e desamparada pelos seus parentes, por ter sido desonrada, sem ter outra forma de sobreviver e não morrer de fome, a jovem
torna-se prostituta. Seus pais nem sequer tentam ouvir a versão dela do ocorrido. É abandonada à própria sorte.
Felícia tem sua trajetória em Chove nos Campos de Cachoeira ligada ao do personagem Eutanázio. Desiludido com a vida e sentindo-se devastado por não conseguir o amor de Irene, o rapaz vai ao encontro da prostituta, e, imaginando que ela é portadora de uma doença sexualmente transmissível, deita-se com ela com o objetivo de adquirir a mesma doença como uma tentativa de autopunição:
Felícia tinha sido aquela dolorosa circunstância. Foi uma vingança contra si mesmo. Foi uma sede de degradação. E logo lhe apareceu a imunda moléstia. Sim, que ele teve quase a certeza de que ia adquirir o mal de Felícia. Estava fora de si, como nunca esteve. (JURANDIR, 1941, p. 182).
O momento em que Eutanázio se dirige até o quartinho em que Felícia vive, bem como a própria prostituta, é assim apresentado pelo narrador:
Tomou o rumo de Felícia. Uma mulher que cheirava a poeira, a poeira molhada. Cheirava a terra depois da chuva. A fome. Fedia a fome. Estava descalça, gripada, assoando o nariz, no fundo do quartinho, onde tinha, na parede, uma estampa de Nova Iorque. Um pote d’água destampado, um caneco jogado no chão, um pedaço de esteira e um cachorro espiando pela porta. A lamparina era como a língua do cachorro com fome ou sede. Quem teria dado a Felícia aquela estampa de Nova Iorque? Os arranha-céus cresciam dentro do quartinho escuro e sujo. A língua da lamparina dava aos arranha- céus uma cor apocalíptica. A estampa aumentava sobre Eutanázio. Mas numa mesa velha ao canto, e meio arriada, um grande crucifixo mostrava na luz escassa umas vagas costelas redentoras. Onde estavam os olhos de Cristo naquele crucifixo? (JURANDIR, 1941, p. 26-27).
A descrição do quartinho humilde de Felícia nos mostra toda a pobreza dela e o lugar miserável que vivia. Não há móveis, não há comida, não há nenhum conforto. A moça vivia em condições subumanas. Dois elementos decorativos no local, no entanto, figuram ali de forma irônica: o crucifixo, símbolo da religião cristã e uma estampa da cidade de Nova York, uma representação do sistema capitalista e também do mundo. Se o primeiro – o cristianismo – abandonou-a completamente, o segundo – o capitalismo – oprimiu-a a ponto de ter que se manter por meio da prostituição. Não há nada, nem ninguém por Felícia.
O sistema social opressor no qual estava inserida subjuga-a a cair na prostituição para poder sobreviver. Além de ser importante para o desfecho do drama de Eutanázio, Felícia também é um meio de denúncia social presente na narrativa. Um exemplo disso é a forma como as pessoas a tratam: ninguém tem o menor respeito por ela: depois de deitar com ela, os homens não a pagam direito e quando ela exige o pagamento, é agredida por eles. Duas situações no romance apontam para a maneira vil como as pessoas se comportam com ela.
A primeira é a surra que ela leva de Dionísio, por se recusar a recebê-lo, mesmo mediante a oferta dele de lhe pagar com peixe. Na visão dele, ela era uma miserável que não tinha o direito de ser criteriosa na escolha dos homens com quem se envolvia. Devia apenas aceitar sem questionar.
— Acabei de bater na Felícia, doutor. Me mete uma pena mas fui obrigado a dá. Nunca quis que eu... Não me recebeu. (...).
— Pois é um desgraçado! Espancaste uma mulher!
— Mas se, doutor... se ela não me quis! Ela não me quis. Pedi, não tinha dinheiro mas tinha esta cambada de peixe, pedi, pedi, chorei, ela não me quis. Então me deu uma raiva. Dei dois pontapés na barriga. Ela deu um grito e eu me botei... Nunca me quis... Me botei pelo aterro debaixo da chuva. (JURANDIR, 1941, p. 92)
Como vemos no trecho acima, Dionísio se diz obrigado a puni-la pela negativa. Ele pensa como um cliente que reclama insatisfeito por um produto, pois é assim que ele a via, como uma mercadoria. Vemos também a forma brutal como ele a agride, com dois pontapés na barriga.
A segunda situação é o diálogo dela com Dr. Campos, juiz da Vila, casado, um homem respeitável naquela sociedade. Ele a acusa de não lhe avisar que estava doente e lhe transmitir uma doença sexualmente transmissível e se enfurece quando ela pede dinheiro. Humilhando-a, ele não permite que ela complete uma frase para tentar se justificar. Para ele, assim como para Dionísio, ela é uma mercadoria com defeito, a qual não lhe satisfaz como usuário:
—Mas Dr...
— Cale-se... Lhe dei dois mil-réis, a semana passada, mandei um quilo de açúcar, hem? Um quilo! Tabaco... E agora... Olha que eu enlouqueço, acabo rachando de uma vez, com um pontapé, essa podridão que és tu mesma... E puxe daqui, puxe-se daqui, senão te mando botar creolina e ainda ponho de molho no xadrez e... — Dr. Campos depara Eutanázio que espiava pela janela, pálido. Dr. Campos se desorienta um pouco, sente-se talvez vexado e para que
Eutanázio não pense que ele esteja diminuindo tanto Felícia (sempre se compadecia dela diante de Eutanázio) simula que tudo aquilo era uma brincadeira.
— Estou aqui... brincando com essa... é a Felícia. Eutanázio. Entra. Mas Felícia, que até então estava esmagada de terror na cadeira, encara Eutanázio e se debulha em soluços. (JURANDIR, 1941, p. 281-282).
Dr. Campos não esconde de Eutánazio que teve um envolvimento com a prostituta. Nesse sistema social, é aceitável que os homens tenham relações extraconjugais. Ele somente entrega mais dois mil-réis para ela por estarem na presença do filho do Major, a fim de manter uma aparente bondade. Nesse momento que Dr. Campos agride Felícia, ele se iguala a Dionísio, pois também a vê como uma mercadoria defeituosa. O juiz, da mesma forma que o bêbado, pensa que pode puni-la com agressão física, uma vez que ela é vista como um objeto.
Felícia não assume nenhum protagonismo na obra, mas a cena em que Eutanázio vai até ela é significativa, não só para o desenvolvimento dos conflitos internos dele, como também nos ajuda a perceber o que uma mulher sem família ou posses naquela sociedade extremamente patriarcal é induzida a fazer para sobreviver: se prostituir, tornar-se um objeto sexual nas mãos dos homens da região. Praticamente todos os homens da Vila tinham esse pensamento e objetificavam Felícia, ao mesmo tempo que a desprezavam.
Ela é importante também para o drama de Eutanázio, pois ele, completamente mergulhado em um desprezo por si mesmo, obcecado por Irene e desesperado por qualquer motivo para estar perto dela, rouba trinta mil-réis da prostituta, os quais foram doados por um barqueiro que prometeu ajudá-la. Ele lhe confia o dinheiro, tendo certeza de que o entregará para Felícia, mas, como dias antes Seu Cristovão lhe pedira essa exata quantia para pagar dívidas, Eutanázio entrega o dinheiro a ele, sem se importar com a situação da moça.
— Entregue. As notas estão se largando mas é dinheiro. São trinta mil-réis. Tive pena daquela rapariga. Pobrezinha... E doente. É para ela se tratar. Me disse que seu Ribeirão enxotou ela da farmácia. Que lhe deve oito mil-réis. Chamou do que a boca dele achou de dizer. Ela tinha ido pedir um remédio. Tão desesperada que a desgraçada estava com as doenças! Leve esse dinheiro porque agora tenho que sair. Vou aproveitar a maré. Vim e prometi mandar. O senhor veio a tempo. Foi a Providencia. Porque, do contrário, tinha de ir ainda e assim atrasava a viagem. (JURANDIR, 1941, p. 216).
A prostituta Felícia é uma pária social, mantida à margem da sociedade, tanto pelas mulheres que não querem ter um destino semelhante ao dela, como pelos homens que a procuram para relações sexuais. É interessante perceber, no excerto acima, como o barqueiro retrata o momento em que Seu Ribeirão a expulsa da Farmácia da Vila: ela é enxotada, pois não é vista como um ser humano, mas como um animal, cuja presença incomoda.
Esse acontecimento – o roubo do dinheiro – vem aliar-se a sua atração por Irene para assombrar ainda mais a mente de Eutanázio. Fisicamente debilitado pela doença, ele fica ainda mais enfraquecido pelo sentimento de culpa que carrega por ter feito uma maldade à pobre Felícia: “Ele não tinha morto um homem para roubar mas estava como aprendiz, correndo, perseguido pelos fantasmas, sem saber onde cair morto. Tinha furtado Felícia.” (JURANDIR, 1941, p. 248).
A prostituta fica em uma situação de maior desamparo após Dionísio queimar a barraca em que ela morava. No incêndio, ela perdera o pouco que tinha e ficara sem um lugar para morar. Ao saber disso, Eutanázio intensifica seu sentimento de culpa, debilitando-se ainda mais.
À noite começou a chover. A vida da varanda entrava pela saleta lhe trazendo noticias:
— Dionísio tinha queimado a barraca de Felícia. Depois ouvia o choro de Felícia se queixando para D. Amélia. Chorando. O fogo queimara os arranha-céus e o crucifixo. Felícia fugindo do fogo pelo campo. Caíra pelo campo encharcado e foi quando começou a chover. Chegara, a ponto de botar o coração pela boca, no chalé, como podia chegar em qualquer casa.
Deu-lhe um desejo de morrer assim vendo Felícia enlameada, sob o pavor do fogo, a cara lustrosa de lágrimas, perto dele... A chuva apodrecia os campos e os homens. (JURANDIR, 1941, p. 364-365)
Felícia é simultaneamente desamparada e oprimida, primeiro por sua família que a abandonou e depois pela sociedade que a despreza. Os mesmos homens que lhe ignoravam durante o dia, procuravam-na em sua barraca à noite para satisfazer seus desejos, pagando por isso uma quantia irrisória, valor que eles achavam que ela merecia por ser tão pobre e miserável.
Ao se vender, Felícia torna-se um mero objeto nas mãos dos homens. Eles não a tratam como um ser humano, mas como uma mercadoria. Até mesmo Eutanázio a vê assim, por isso o impulso de lhe roubar o dinheiro. A degradação dela é o resultado de ser um mero objeto nas mãos dos homens.
O desfecho da personagem encontra-se no romance Três Casas e um Rio. Por meio de rememorações de Alfredo, sabemos que ela faleceu, provavelmente da mesma doença que matou Eutanázio, uma vez que sem os trinta mil-réis e sem ter onde morar, não teve como fazer um tratamento. Sem ter o apoio de ninguém – apenas D. Amélia se compadeceu dela e lhe confortou no dia do incêndio – a pobre prostituta sucumbe à morte.
Entre os recentes terrores e visões, surgia-lhe Felícia; no caixão negro, com quatro pessoas e um cachorro, atravessava o campo no sol da tarde. (...). Alfredo ouvira Rodolfo contar o que sucedera a Felícia. A desenganada, vela na mão, falou em levar o seu crucifixo, a estampa dos arranha-céus que tinha na parede. Coitada, era delírio, pois os arranha-céus e o crucifixo desapareceram quando a barraquinha dela foi incendiada por Dionízio. (JURANDIR, 1958, p. 69).
À beira da morte, Felícia não pensa na sua família que a expulsou e abandonou, tampouco nos homens que a oprimiram, não permitindo que tivesse direito de escolha, mas tem devaneios com o seu crucifixo e a estampa de Nova York, únicos bens que ela possuiu em toda a sua vida e que a levavam a pensar em uma realidade diferente e melhor do que aquela viveu durante toda a sua miserável vida.
Abandonada por todos ao seu redor, sujeita às mais terríveis humilhações pelos que a objetificaram, a prostituta Felícia é um retrato da miséria e degradação humanas, bem como do sofrimento e humilhação que uma mulher pode vir a sofrer em uma sociedade patriarcal. Morreu doente, confiando na promessa do barqueiro, à espera dos trinta mil-réis que nunca chegaram até suas mãos.