A importância desse vínculo sublinhado por Freud entre a formação do Ideal e a absorção de uma multiplicidade de vozes é evidente pelo que vimos até aqui. Justamente nessa determinação podemos reconhecer um traço característico da mania, que, no entanto, a concepção psicanalítica consagrada não pareceu dar a devida atenção. Porém, um outro aspecto, intrinsecamente ligado a esse primeiro, é igualmente fundamental: o aspecto corporal dessa formação.
O Ideal, além de ter sua origem nas múltiplas vozes, desde sua primeira menção em 1914, é descrito da seguinte forma: “A instituição da consciência moral foi, no fundo, uma corporificação (eine Verkörperung) inicialmente da crítica dos pais, depois da crítica da sociedade (...)” (Freud, 1914/2010, p. 43). É curiosa essa menção ao corpo, presente tanto tempo antes de Eu e o Isso, na qual a instância do Eu é definida como sendo um “eu corporal” (p. 39). Trata-se, portanto, de um fragmento de fora que se instala, que é introduzido no corpo e passa a fazer parte de seu funcionamento, uma corporificação.
Nos casos vistos no capítulo anterior, há dados suficientes para a suposição de que se encontra aí uma das formas mais relevantes para o Ideal começar a vir à cena. O caso de João é o mais emblemático. Um elemento, o lítio, leva à equivalência com Wolverine. Como uma invasão viral na célula hospedeira, esse elemento estranho determina seu metabolismo, utilizando o que já existe no interior da célula. Para Antônio, por sua vez, em sua primeira crise, foi a transformação de seu físico em um “corpo atlético” que o levou a ser “um ator famoso”, como se essa nova forma de seu corpo permitisse a manifestação de seu Ideal.
Entre os casos apresentados, há relato da alteração da propriocepção em todos eles. João dizia sentir que possuía poderes telepáticos e a capacidade de controlar as panteras com sua mente. Marcelo relata que, ao final de sua primeira crise maníaca, começou a sentir que estava em “conexão com o cosmos”. Já Antônio conta que em suas crises maníacas conseguia enxergar melhor, falar melhor e que tinha a sensação de que poderia controlar os efeitos das medicações em seu corpo. Já Marina diz em seu pequeno relato que havia se sentido diferente durante a prova do concurso, principalmente no que se refere ao fluxo do pensamento, pois
“pensava demais”. A versão desse outro em que a pessoa se transforma é resultado desse algo que lhe foi dado. Por exemplo, Francisco exclama: “Eu sou o Salvador do Povo Brasileiro. Mas sei que tenho que aprender a controlar os dons que foram dados”. E José: “Desde pequeno, todo mundo na escola sabia que eu era especial. Peguei um autógrafo do Chico Anísio quando eu tinha quatro anos”.
A dimensão corporal pode ter um papel relevante em outros modos na crise. No início da dela, como vimos desde o capítulo dois, há alterações na percepção do próprio corpo e de suas capacidades. Para Carlos, a sensação de ter energia o permitia jogar futebol durante três horas seguidas, sem se cansar, precisando da fala de terceiros para saber sobre o seu limite. Além disso, Carlos também descreveu que, durante as crises, sentia que suas emoções afloravam. Para Marcelo, a crise “ativou diferentes áreas do cérebro”, e, para Jorge, o seu coração havia sido tocado. O mesmo vale para Francisco, quem sente em seu corpo uma “energia cinética, um campo de energia”. E algo similar no caso de José, quem tinha uma “mente brilhante” e se sentia “super”.
No entanto, apesar dessas alterações nas representações de si, o maníaco não perde sua Gestalt corporal. Ele não percebe seu corpo como algo impessoal ou mecânico. Não há sentimento de incômodo com o corpo ou sentimento de que está sendo invadido e que suas ações ou sentimentos são comandados desde fora.
Para efeito de comparação, tomemos o caso da paciente Glaucia, que a nosso ver não corresponde ao funcionamento maníaco que buscamos compreender. A paciente é internada após a morte repentina da mãe. Bastante agitada, anda sem parar, não consegue ficar sentada. Conta que quando a mãe morreu, andou com o documento de identidade de sua mãe “grudado ao seu corpo” durante uma semana. Então sonhou com sua mãe gritando: “Eu morri!” e, desde então, parou de andar com o RG. Em seguida, passou a ter “síndrome do pânico” (sic), mas o psiquiatra lhe deu remédios e ela se sentiu melhor por alguns dias. No entanto, há três dias, ela conseguiu “entender o mundo dos mortos”. Mas, ela diz, o problema é que os espíritos agora “mexem em seu corpo, trocaram a sua costela por de outra mulher, trocaram as suas partes íntimas”. Além disso, “colocaram gordura” em seu corpo: “Eles falaram, toma! Mais 3 kg!” Desde então, Glaucia chora sozinha. Ela abraça seus travesseiros “como se estivesse abraçando a parentela” e soluça bem fundo, mas diz que esse soluço não é seu: “É o soluço da minha mãe. É ela que está soluçando”. Apesar de bastante agitada e de caminhar sem parar, é possível perceber como a relação de Glaucia com o seu corpo e com o que os espíritos colocam nele é muito diferente daquele dos pacientes que estamos analisando.
Tampouco a experiência corporal dos pacientes maníacos se parece com as experiências, menos extremas mas não menos intensas, descritas por Moretto (2006) a respeito da relação que um paciente pode ter com um órgão transplantado. Quando o paciente sente que a introdução desse “enxerto no organismo”, não faz parte dele, mas é parte do outro (p. 193). Aqui, as transformações corporais que os pacientes relatam são sentidas de outro modo, mesmo quando algo é inserido em seu corpo, como no caso de João. O lítio, objeto estranho, é incorporado, e faz surgir a voz de um super-herói.
Outro aspecto a ser notado no caso de Glaucia diz respeito à representação de que esses pedaços de outras pessoas estariam sendo colocados pelos espíritos em seu Eu, ou seja, ela se manteria como Gláucia durante a crise. Ela tem a capacidade de entender o mundo dos espíritos, mas, desde então, estes mexem no seu corpo. Há algumas diferenças em relação aos pacientes maníacos. Apenas para mencionar algumas delas para efeito de comparação com o que estamos tratando. A primeira é a manutenção do Eu durante a crise, apesar de ser um Eu que está misturado com o Eu de sua mãe, mas ainda assim o Eu. O segundo ponto tem a ver com a observação de que a costela dada a Glaucia, uma costela de outra mulher, não faz dela uma mulher excepcional, como ocorre nos casos dos maníacos. Pelo contrário, ela se incomoda com a intrusão das partes de outras pessoas e da manipulação de seu corpo oriunda dos espíritos. São eles que estão, digamos, no controle da situação. As fronteiras do corpo de Glaucia são abertas ao outro, mas ainda assim ela não perde a referência a seu Eu.
Ainda para efeito de contraste, retomemos o caso de Agathe Leonël, em que o fragmento ou a modificação no corpo era capaz de gerar uma transformação brutal no Eu. Durante a entrevista com a enfermeira, Leonël se lembra de Beckett e os traços comuns que tem com o autor, a mesma blusa, o fato de que tomavam o mesmo remédio, e isso a fez pensar que ela era a “encarnação de Beckett ou ainda que sua alma se apossou do meu corpo”.
É importante assinalar, nesse contexto, que essa invasão do Ideal não é uma intrusão de tipo dissociativo. Chama a atenção que o maníaco não considera estar sob influência estrangeira, de uma força maior, que o domina. A energia que o toma pode ser sentida como excessiva, mas pertence a ele. Nos casos estudados, os pacientes não sentem, segundo suas expressões, que fazem algo contra a sua vontade. Por exemplo, quando começam a escrever, não sentem que sua escrita ou linguagem são mecânicas ou ditadas de fora; se ele psicografa, isto é um dom. Apesar da alusão à novela O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde que um dos pacientes faz à mania, na maioria das vezes, também não se trata de uma forma de duplo.
Não há ideia de perseguição ou de intrusão no corpo resultante de um eu cindido, tal como as histórias terríveis recolhidas por Otto Rank (1925/2013).
Apesar de Ceillier (1924) em seu clássico estudo sobre a síndrome de influência citar o artigo de Logre e Heuyer, no qual os autores afirmam que haveria delírio de influência na mania que coincidiria com o período de excitação, Ceillier discorda da concepção dos autores no que se refere ao traço paranoico (p. 370) dessa influência:
“Diante dos fenômenos estranhos que ele experimenta, o paciente procura uma explicação que satisfaça o princípio de causalidade, e como, precisamente, ele não tem consciência de estar doente, como não reconhece a origem endógena de seus transtornos, é necessário que ele evoque uma causa exterior, independente dele mesmo, tal como o hipnotismo, o magnetismo, a influência divina” (Ceillier, p. 371)
Por seu turno, Dumas (1946) discorda dessa opinião de Ceillier. Segundo ele, todos os pacientes que entrevistou depois da crise dizem que se sentiam livres e não influenciados por um outro (p. 59). De acordo com Dumas, o paciente às vezes sente que não pode controlar o acesso, mas isso não quer dizer que sintam que estejam sob uma influencia externa que lhes é incomoda (p. 60).
É verdade que, em alguns momentos da crise, a alteração da propriocepção possa ganhar um tom desprazeroso, até mesmo angustiante, mas isso não é reputado à influência externa. Quanto a isso, há uma passagem bastante ilustrativa na biografia de Joshua Logan. Ao falar sobre o modo como transcorreu sua crise maníaca, ele fornece um bom exemplo da modificação na qualidade da experiência. No começo da crise, segundo suas palavras, ele vivia “vida extasiada fantástica” (p.127), e relata uma alteração na percepção de si bastante interessante: “era como se o mundo estivesse se movendo muito vagarosamente para mim e eu estivesse vinte milhas à sua frente” (p. 120). No entanto, no transcorrer da crise, a sensação de ser um super-homem, capaz de dançar, conversar, ter dons excepcionais, vai progressivamente dando lugar a uma sensação de cansaço e ansiedade. Estamos em 1930 e ele parte em viagem; começa então a incomodar-se com a velocidade do trem, que se movimentaria muito vagarosamente:
“Aquela viagem durava centenas de anos, e cada vez que o trem parava ou desacelerava eu pensava: esse vai ser meu fim. Eu vou morrer antes de esse trem chegar. Por favor, alguém o faça se mover mais rápido! Por favor! Por favor! Ele não o fazia. Ele rastejava tão lentamente que eu não conseguia senti-lo se movimentar” (p. 140).
Com muita dificuldade, ao chegar ao seu destino, Logan se dirige ao hotel. Ele descreve uma intensa agonia para chegar ao hotel pois já não se sentia em harmonia com o mundo. Ao deitar na cama, ele descreve suas sensações:
“primeiramente um tipo de calafrio que parecia disparar minúsculos tremores através de mim, depois aquele mesmo calafrio misturado com um diafragma apertado e a explosão de histeria jorrando. Meu corpo tremia tão violentamente que sacudiu a cama, eu não conseguia ficar parado” (p. 141).
Veremos mais adiante como o relato de Logan pode estar relacionado a uma fase determinada da crise maníaca. Mas como vimos, no conjunto, de acordo com os vários relatos acolhidos, o maníaco relata que se sente mais poderoso, mais rápido, dotado de várias habilidades e capacidades durante a crise. Além disso, a sensação de potência aumentada não é sentida como invasão, nem tampouco contém um tom desprazeroso em relação ao corpo; antes, teríamos algo como um corpo triunfal. A menção de incômodo corporal costuma aparecer, de modo geral, do meio para o final da crise.