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Antes, no entanto, de dar a um passo a mais nessa direção, devemos abordar o segundo ponto, que nos permite sustentar que a mania é similar à estrutura da mente grupal em funcionamento. Ela se relaciona à vertente da identificação secundária formada com o grupo.

Neste segundo eixo de análise se encontram as expressões daquelas manifestações que os pacientes apresentaram a respeito da preocupação com os outros. Já dissemos acima que esse fenômeno não se relacionava em nada com as descrições freudianas a respeito do estado do Eu na mania. Pode-se contra-argumentar, no entanto, lembrando que, afinal, além do triunfo, o grande paradigma freudiano da mania era a festa, o carnaval e, portanto, um evento coletivo. No entanto, apesar desse tipo de apresentação poder estar presente, o que nos chamava a atenção eram dois aspectos.

O primeiro consiste no que Akiskal et al. (2003), Ghaemi (2003) e Leader (2015) mencionam sobre a sociabilidade do maníaco e a seu sentimento de estar como que ligado aos outros, mesmo às pessoas que são completamente estranhas. O segundo ponto era o caráter missionário, quase prometeico, de falas como “vou libertar o povo brasileiro”, de intenções de doar dinheiro aos pobres, de defender os injustiçados, de “fazer o bem sem olhar a quem”. Essa vertente conecta-se com o traço, por assim dizer “político” e “moral” da mania, aquilo que Caillard (1982) chamou de “proselitismo sindical da mania” (p. 14), como vimos no segundo capítulo. O maníaco veste a camisa de uma causa que diz respeito não só a ele.

Os casos reforçam essa dimensão missionária, vinculada aos destinos do grupo: Jamison descreve que, em certo momento de sua crise, tinha a missão de alertar o mundo a

respeito da proliferação descontrolada de cobras assassinas. Agathe Lenoël inicia sua preocupação com o outro participando de um jogo em favor do time de Paris e, dentro do avião a caminho da Córsega, muda a versão: a missão agora é salvar o mundo. “Cada habitante francês iluminou sua casa para nos dizer que estava conosco. Eu sou muito agradecida a essas pessoas: existem milhares que aderiram à nossa causa. Os passageiros do avião têm uma missão especial: salvar o mundo” (grifos nossos, p. 80).

Por sua vez, Patty Duke relata que, em uma de suas crises, também recebeu um chamado para algo similar:

“Estava na estrada, no caminho para minha aula de tênis, quando eu comecei a alucinar. (...). Vozes falavam para mim através do rádio do carro. Manchetes bizarras falavam pessoalmente comigo na forma de noticiário. A voz dizia que alguém estava invadindo a Casa Branca, e que eu poderia ajudar com esse assunto. Eu tinha que ir a Washington! Eu tinha uma missão” (p. 18)

É verdade que essas versões estão próximas do sentimento de si exagerado e poderíamos reputá-la apenas à megalomania. Mas sustentamos que há algo além disso e que fica mais evidente no relato de Agathe Lenoël. Se recuperarmos outros depoimentos, perceberemos que se trata de algo além do exagero do Ideal; antes, eles se referem à manifestação de um sentimento comunal ou de grupo, a expressão de um nós, como Freud fala da formação da identificação entre os irmãos na Psicologia das massas (ein Masse – oder Gemeinschaftsgefühl) (p. 130). Trata-se aqui de uma segunda dimensão da colocação em cena do Ideal de Eu; em torno dos laços libidinais com o líder, forma-se uma identificação secundária com os irmãos. Em suas missões, por seu lado, o maníaco expressa a necessidade de ajudar os seus irmãos.

A nosso ver, isso pode explicar por que em grande em suas falas há tanta demanda por justiça, ou a expressão da luta por uma causa comum com seus irmãos. Nesse ponto, compreendemos um traço fundamental da mania a partir da concepção de Freud segundo a qual o aparecimento da exigência de tratamento igual para todos e a demanda por justiça advém como a primeira formação reativa (p. 130) desse tipo de organização, substituindo a rivalidade e o sentimento de hostilidade e a inveja. A justiça aqui tem um sentido estritamente igualitário: todos são iguais perante o pai.

Trata-se assim de uma segunda dimensão da mania, relacionada ao sentimento de grupo, à expressão de pertencer a um grupo. Por exemplo, sem mencionar ser portador de uma grande missão, José anuncia: “Eu estou com os Girondinos”. Já Rosa leva esse

sentimento ao paroxismo e teme agora, no mundo em que todos serão tão iguais, que nada mais restará de singular em si para que sua namorada a distinga dos outros.

Essas formas parecem tomar um sentido contrário às descrições de Le Bon sobre as massas, mas o próprio Freud faz a ressalva

“A fim de fazer um juízo correto dos princípios éticos do grupo, há que se levar em consideração o fato de que, quando indivíduos se reúnem num grupo, todas as suas inibições individuais caem e todos os instintos cruéis, brutais e destrutivos, que nele jaziam adormecidos, como relíquias de uma época primitiva, são despertados para encontrar gratificação livre. Mas, sob a influência da sugestão, os grupos também são capazes de elevadas realizações sob a forma de abnegação, desprendimento e devoção a um ideal” (Freud, p. 89)

Há uma passagem presente no texto de Georges Dumas (1946) que parece ilustrar bem o que estamos chamando aqui das duas vertentes em funcionamento na mania, ou seja, aquela que chamamos de protagonismo do Ideal e identificação secundária de grupo. Dumas atendeu um capitão do exército francês durante a sua internação e, algumas semanas após a crise ter terminado, ele resolve entrevistar o paciente para perguntar sobre alguns de seus comportamentos durante a crise. Dumas pergunta primeiramente sobre o significado de um grito específico que o paciente dava, “esse granito é meu!”, ao atirar-se no chão do quarto. O paciente respondeu: “Eu me lembro, havia em minha mente uma manifestação patriótica, um chamado para o velho solo francês, eu estava cheio de sentimentos patrióticos, ansioso para demonstrá-los”. Dumas então pergunta: “Um dia, quando entrei em seu quarto, você me saudou rugindo e virando os olhos terrivelmente”, o que isso significava? O capitão lhe responde que, naquele momento, ele era como um leão: “Sim, eu sei, foi em honra do meu pai, oficial antes de mim no exército da África. Um dia o acusaram, na cantina do exército, de não ser patriota, e ocorreu um duelo. Ao rugir como um leão da África, senti que eu encarnava o patriotismo de nossa família, o de meu pai como meu (1946, p. 59).

Essa situação talvez possa explicar por que, para o maníaco, mesmo as pessoas estranhas podem lhe parecer próximas, pois ela se sente ligadas a elas de alguma forma. As pessoas se tornam familiares para o maníaco. Essa segunda vertente da mania expressaria a criação dos laços fraternos, podendo se estender a um grupo mais restritos, como os “Girondinos”, ou, como no caso de Agathe Lenoël, ter como esfera a humanidade inteira.

Essa dimensão da criação de uma família revela-se também em um evento bastante comum relatado pelos pacientes, a saber: eles confundem a equipe médica com seus parentes ou com médicos já conhecidos. O paciente João, por exemplo, em sua segunda internação,

achava que eu era sua “tia Salete”. Os depoimentos de Patty Duke apresentados no segundo capítulo também estão repletos de situações desse tipo; ela fazia confissões em rede nacional, convidava estranhos para morar em sua casa, casou-se com seu inquilino. Mas há ainda mais um exemplo dela. Ela estava em crise quando o senador Robert Kennedy foi assassinado: “eu tive uma reação enorme e fora de proporção a seu assassinato. Eu sei que aqueles eram tempos malucos e que todos tiveram reações enormes a seu assassinato, mas para mim era como se ele fosse meu irmão ou meu pai (grifos da autora, p. 13).

Assim, nota-se que, para o maníaco, forma-se de algum modo um sentimento de familiaridade com estranhos. Pessoas que ele nunca avistou, se tornam íntimas. Ele não tem incerteza sobre o outro. É o inverso do que se passa nas descrições freudianas do Unheimlich. Para o maníaco, há um sentimento expandido de heimlich.

Mas, esse aspecto normativo vai mais longe. Nas falas de muitos maníacos, essa tendência ganha a expressão máxima de uma ligação com o mundo em sua totalidade, como um sentimento oceânico do mundo, como diz Freud se referindo no mais das vezes à religião. Disso se pode inferir, então, um sentimento de beatitude, comentado por muitos pacientes. A pessoa maníaca se sente “maravilhosamente ligada ao mundo, em vez de ser sua escrava ou sua serva” (Darian Leader, p. 27, grifo do autor).

Tudo se passa, por conseguinte, como se houvesse um acontecimento triunfal na crise maníaca. Porém, longe de ser um triunfo do Eu em reação ao sofrimento sentido na melancolia ou contra a violência do Supereu, o que podemos descrever nos casos analisados, e a partir das considerações de Freud sobre a formação do Ideal de Eu, é o triunfo do grupo, por assim dizer. Enquanto triunfo do Ideal, a mania é a cena do destino e do vínculo de um grupo e, no limite, da humanidade inteira.

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