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João tem 30 anos e acaba de chegar à internação psiquiátrica. Embora esta já fosse a sua terceira internação nesta instituição, aquela era a primeira vez que eu o atendia.

Assim que foi admitido ali, João foi logo trazido à sala de atendimento pela enfermeira chefe, algo inabitual para o protocolo de atendimentos naquele serviço. Ela já o conhecia das internações anteriores e diz “Conversa um pouco aqui com a Renata”, como se ao deixá-lo na sala, ela pudesse se livrar um pouco de sua agitação que atrapalha a rotina da equipe de enfermagem. Há um tom de humor na situação, ele ri e parece estar à vontade ali.

Bastante desenvolto, ele se apresenta, me cumprimenta, como se estivesse em casa. Esse aspecto poderia estar relacionado ao fato de João já conhecer o serviço e as pessoas que trabalham ali, mas havia outros pacientes na mesma situação, e no geral o retorno à internação não costumava ser motivo para tantos sorrisos. Há algo estranho na situação, João é diferente dos pacientes que já atendi ali por algum motivo que não consigo identificar.

Eu pergunto a ele o que o trazia ali e ele responde: “Eu estou aqui apenas para dar um tempo porque estou sem casa. Vou esperar aqui enquanto minha família procura uma casa para mim. Já que tenho convênio médico, vou esperar aqui”. Pergunto o que aconteceu com a sua casa e ele me conta que o seu casamento acabou após ele fumar uma “pedra de crack”:

“Eu usei crack e nosso relacionamento crack”. Ele ri, brincando com o significado da palavra para língua inglesa e sorrindo. Nesse primeiro momento, não demonstra se sentir incomodado por essa situação ou por qualquer evento, nem mesmo pelo fato de estar internado. Ele parece realmente estar em casa.

Essa é a única pergunta que consigo fazer, tamanha é a rapidez da fala de João. Ele emenda uma frase na outra, um assunto no outro, mas eu não consigo acompanhar a ligação entre os temas. A certa altura, ele conta que está compondo canções para a sua banda e começa a cantar suas as músicas. Canta uma música após a outra, reproduções as melodias, os efeitos dos instrumentos, sem pausa. Ele intercala frases em português, passa para o espanhol e depois para o inglês, tanto nas canções quanto no que comenta depois. Não consigo acompanhar os encadeamentos, mas noto que João não narra eventos, mas emite opiniões sobre o mundo, a situação do capitalismo, a necessidade da liberação das drogas, a justiça e a distribuição de renda.

Neste momento, ele, que está sentado a minha frente, decide me mostrar as suas mãos. Vejo que elas estão muito inchadas e com muitas escoriações. Eu pergunto o que aconteceu e ele diz que, na noite anterior, fez “justiça”, dando murros em dois homens que ameaçavam uma “pessoa indefesa”. João me conta que também já fez “justiça” contra pessoas corruptas em seu local de trabalho.

João então fala, no tom de quem faz uma revelação, que desde de que lhe foi prescrito lítio1, algo aconteceu em seu corpo: “Eu tomo lítio há muitos anos, ele é um metal. Já tem muito metal no meu corpo. Eu sou o Wolverine2”. Nesse momento, eu noto que tanto a roupa e quanto o seu corte de cabelo são como as do personagem da história em quadrinho.

Ele diz ter “poderes telepáticos” e que “psicografa mensagens” das três entidades que o acompanham. Nesse momento, pergunto o que são as entidades. Ele responde que as entidades são uma “ficção que tem efeito, elas não são reais. Elas são reais, mas não posso falar sobre isso aqui no hospício”. Ele ri. Diz que, além delas, também é acompanhado por dez panteras negras que são controladas por sua mente, e que elas o protegem.

1 O carbonato de lítio é uma das principais drogas psiquiátricas utilizadas no tratamento farmacológico da mania

(Healy, 2008).

2 Personagem das histórias em quadrinho, cujo esqueleto é revestido de metal resistente que lhe confere força,

Ele conta que escreverá um livro com as mensagens psicografadas e que demorará sete anos para ficar pronto e terá 700 páginas. Mas, para conseguir escrever, ele precisa fazer uso de substâncias psicoativas, como álcool e a maconha, pois elas o ajudam com essa tarefa. Mesmo que isso deixe a sua família irritada.

João diz não ter medo porque “todo o homem tem um contrato espiritual” no qual se determina quanto tempo viverá e qual a “sua missão na Terra”, e que ele é uma das poucas pessoas que têm conhecimento sobre o respectivo contrato. Em seu contrato, está escrito que ele viverá por muitos anos e, por isso. diz não preocupar-se com as consequências do uso substâncias e de seu envolvimento constante em brigas: “Eu tenho uma missão importante de doar dinheiro aos pobres e defender as pessoas que estão sendo agredidas. A entidade que me controla nessas horas é uma que me protege da injustiça”. João conta que, como é feito de metal e, não apenas de carne e osso como as outras pessoas, isso lhe ajuda no momento de “fazer justiça”.

Além de ser Wolverine, João me diz que é uma das reencarnações de Jesus: “Jesus reencarnou no ano de 1978 em dez mil homens e eu sou uma dessas pessoas. A minha missão é ajudar e educar”.

5.3 Carlos e a pequenez do mundo

Nas reuniões de equipe, o caso de Carlos, 57 anos, já havia sido mencionado pela enfermeira chefe do setor. Segundo ela, na entrevista de admissão, os familiares disseram que Carlos havia sido diagnosticado como tendo transtorno bipolar há muito anos. Desde então, as crises se repetem anualmente, com necessidade de tratamento em internação em dez delas. Usualmente, suas crises se iniciam com diminuição da necessidade de sono. Em seguida, ele começa a fazer gastos excessivos, “com viagens para outras cidades, hospedando-se em hotéis caros”. Depois das crises, ele “entra em depressão”, com culpa e vergonha pelo que fez, além de isolamento social durante aproximadamente dois meses. Desta vez, a família notou suas horas de sono estavam diminuindo e contaram que Carlos havia pedido ajuda. Mas, antes que pudessem fazer qualquer coisa, ele fugiu de casa. Ele foi encontrado no dia seguinte, nu, correndo em uma estrada.

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