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anos para ficar pronto e terá 700 páginas. Mas, para conseguir escrever, ele precisa fazer uso de substâncias psicoativas, como álcool e a maconha, pois elas o ajudam com essa tarefa. Mesmo que isso deixe a sua família irritada.

João diz não ter medo porque “todo o homem tem um contrato espiritual” no qual se determina quanto tempo viverá e qual a “sua missão na Terra”, e que ele é uma das poucas pessoas que têm conhecimento sobre o respectivo contrato. Em seu contrato, está escrito que ele viverá por muitos anos e, por isso. diz não preocupar-se com as consequências do uso substâncias e de seu envolvimento constante em brigas: “Eu tenho uma missão importante de doar dinheiro aos pobres e defender as pessoas que estão sendo agredidas. A entidade que me controla nessas horas é uma que me protege da injustiça”. João conta que, como é feito de metal e, não apenas de carne e osso como as outras pessoas, isso lhe ajuda no momento de “fazer justiça”.

Além de ser Wolverine, João me diz que é uma das reencarnações de Jesus: “Jesus reencarnou no ano de 1978 em dez mil homens e eu sou uma dessas pessoas. A minha missão é ajudar e educar”.

5.3 Carlos e a pequenez do mundo

Nas reuniões de equipe, o caso de Carlos, 57 anos, já havia sido mencionado pela enfermeira chefe do setor. Segundo ela, na entrevista de admissão, os familiares disseram que Carlos havia sido diagnosticado como tendo transtorno bipolar há muito anos. Desde então, as crises se repetem anualmente, com necessidade de tratamento em internação em dez delas. Usualmente, suas crises se iniciam com diminuição da necessidade de sono. Em seguida, ele começa a fazer gastos excessivos, “com viagens para outras cidades, hospedando-se em hotéis caros”. Depois das crises, ele “entra em depressão”, com culpa e vergonha pelo que fez, além de isolamento social durante aproximadamente dois meses. Desta vez, a família notou suas horas de sono estavam diminuindo e contaram que Carlos havia pedido ajuda. Mas, antes que pudessem fazer qualquer coisa, ele fugiu de casa. Ele foi encontrado no dia seguinte, nu, correndo em uma estrada.

Nas primeiras semanas de internação, Carlos não quer ser atendido. Ele fica sozinho durante boa parte do tempo, perto da porta da unidade de internação, e conversa apenas um pouco com as técnicas de enfermagem que ficam no posto próximo à porta.

Quase prestes a receber sua alta médica, ele entra na sala em que me encontro preenchendo prontuários, com a porta aberta. Bastante simpático e sorridente, ele se apresenta, pergunta o meu nome e diz que já está “velho”. Ele conta que sabe que está ficando velho porque “quando a gente vai ficando velho, começa a contar causo”. Eu o convido a sentar-se e peço então para ele “contar seus causos”.

Carlos começa a contar a história da sua vida desde a juventude, sobretudo sobre a sua escolha profissional. Ele conta que gostaria de ter sido piloto de avião, mas que foi desencorajado pelo pai, que era militar do exército. Escolheu outra profissão, na qual se sentia realizado.

Estava trabalhando, já casado, quando teve a primeira crise, aos 26 anos: “Meu cérebro nunca mais funcionou do mesmo jeito, a minha memória ficou ruim. Acho que colocaram alguma coisa na minha bebida, eu não era assim”. Na época, durante o período da ditadura militar, percebeu que um grande amigo estava envolvido com “alguma coisa”. Seu pai havia lhe avisado para “não se envolver com nada”. Quando pergunto sobre o amigo e a situação, Carlos é bastante evasivo, como também o é ao se referir aos acontecimentos que precederam sua recente internação. Ele conta apenas que estava a caminho de ir “pagar uma promessa para um amigo”. Diferente de outros casos, percebo que Carlos evita falar sobre os assuntos que se referem às suas crises, sobretudo sobre um determinado momento da crise.

Ele passa a falar sobre sua paixão pelo futebol: “Eu gosto mesmo é de futebol. Eu jogava por duas, três horas seguidas. O médico disse que eu tinha que aprender a respeitar os limites porque os outros meninos tinham vinte, trinta anos e eu estava forçando. Mas era uma regra assim: quem não fez gol, joga mais quinze minutos”. Chama a minha atenção o fato de Carlos precisar que o médico precise lhe dizer sobre os limites de seu corpo, sobretudo quanto à sensação do cansaço.

Depois disso, Carlos conta como conheceu a sua esposa, com muitos detalhes. Diz que em um dos aniversários dela, ele decidiu que queria fazer uma “festa com música”. Na ocasião, ele foi até uma loja de instrumentos musicais e comprou “todos os instrumentos da loja”. Segundo ele, assim que a esposa soube, “mandou devolver tudo. Às vezes, a crise é assim”.

Eu pergunto: Assim como? E ele responde sorrindo: “Ah! Aí o mundo fica pequeno! Quero comprar tudo. Fico tolerância zero. As emoções afloram, é um conjunto de coisas. Mas não é que as coisas levam à crise, é que eu já estou mais sensível e aquilo me faz mal”. Eu pergunto a ele se sabia o que havia lhe feito mal dessa vez e ele diz que estava triste com um acidente aéreo com um time de futebol. Conta que ficou muito triste porque que não gosta de ver “pessoas jovens morrerem”. Carlos faz comentários sobre a “imperícia do piloto” e explica sobre o que era necessário fazer com a aeronave para que o acidente não ocorresse. Para ele, o acidente ocorreu por causa da “ganância”. Carlos afirma que não se conforma em ver jovens morrerem.

Essa foi a única conversa que tive com ele, que logo recebeu alta da internação.

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