Para Santos (2002), é necessário centralizarmos nos fragmentos da experiência social que não são socializados na dinâmica neoliberal global, a fim de alargarmos o presente, e assim podermos credibilizar socialmente aquilo que é invisibilizado pelas relações capitalistas, patriarcais e colonialistas da modernidade ocidental.
Assim, de modo mais amplo que um estudo comparativo, o autor sugere a tradução como um procedimento que permite criar inteligibilidade recíproca entre as experiências do mundo. Para tanto, são necessários e essenciais dois momentos: o desafio da desconstrução, que “[...] consiste em identificar os resíduos eurocêntricos herdados do colonialismo e presentes na vida coletiva [...]”; o segundo desafio é um desafio reconstrutivo, isto é, trazer à tona “[...] as possibilidades histórico-culturais da herança nativa, subjugadas pelo colonialismo e pelo neocolonialismo” (SANTOS, 2002, p. 262).
O trabalho de tradução tanto pode ocorrer entre saberes hegemônicos e saberes não- hegemônicos como pode ocorrer entre saberes não-hegemônicos. A importância deste último trabalho de tradução reside em que só através da inteligibilidade recíproca e consequente possibilidade de agregação entre saberes não-hegemônicos é possível construir a contra-hegemonia (SANTOS, 2002, p. 265).
De acordo com a questão de partida, o objetivo geral e os sujeitos que delineiam a tese, propomo-nos, a partir das epistemologias do sul, visibilizar as relações não-capitalistas de produção da vida dos camponeses por meio da tradução intercultural.
O processo da tradução intercultural tem critérios e procedimentos específicos para uma pesquisa social que pretende reconhecer o valor da diversidade cultural do mundo. O primeiro ponto a ser considerado é o caráter democrático do processo por ser ela, a tradução intercultural, simultaneamente, um trabalho intelectual, um trabalho político, e também um trabalho emocional, pois trata com (e da) subjetividade, com sentidos e significados produzidos na trajetória humana de grupos sociais. Por decorrer do inconformismo com a carência e, em consequência, do reconhecimento da experiência e prática de um determinado grupo de saberes, multiculturais e diversificados, por si só o trabalho de tradução intercultural não utiliza os mesmos procedimentos e técnicas das ciências sociais convencionais nem da linguística tradicional.
Desse modo, o ponto de partida delineou-se após terem sido selecionadas as zonas de contato, ou campos de estudo (neste caso, duas escolas e seus territórios distintos, mas também convergentes entre si), cada uma das práticas culturais deu rumo aos aspectos que deveriam ser selecionados para o confronto ou aproximação multicultural, por meio das categorias enfatizadas pelos sujeitos da pesquisa. Em cada cultura existem aspectos tão específicos que talvez possam ser impossíveis de confrontar ou traduzir com outras. Por exemplo, a abertura para responder sobre algum aspecto da vida concreta de cada camponês (a exemplificar, neste estudo, a renda familiar mensal não foi mencionada por um dos grupos em questão).
Em face desta perspectiva, o que é que existe de singular e complexo nos saberes e práticas sociais da relação educação e trabalho, dos contextos Casa Familiar Rural Três Vendas e Casa Escola Agrícola Campo Verde, que não se resume à dicotomia educação do sistema formal e educação do campo?
Ressalta-se que “[...] a seleção dos saberes e práticas entre os quais se realiza o trabalho de tradução é sempre resultado de uma convergência ou conjugação de sensações de experiência de carência, de inconformismo e de motivação para as superar de uma forma específica” (SANTOS, 2002, p. 270). Por exemplo, a agroecologia é uma zona de contato entre o conhecimento de sementes geneticamente modificadas (e insumos químicos) que ampliam a produtividade e o conhecimento ancestral do cultivo agrícola de comunidades camponesas da America Latina, com a produção de alimentos bons e saudáveis para a humanidade. Outro exemplo, o MST abrindo-se a zonas de contatos com outros movimentos sociais como movimentos feministas, ambientais ou de imigrantes, com o objetivo de reivindicar dignidade, trabalho, cuidado com a natureza, anti-discriminação contra mulheres, e outros grupos sociais, ou seja, são traduções que transformam cada um dos grupos, mas também aumentam o círculo de lutas e reflexões que permeiam não só as relações de classes (capitalistas), mas as étnico- raciais (de colonialidade) e as de gênero (de patriarcado).
Além disso, a zona de contato cosmopolita tem que conjugar tempos, ritmos e oportunidades, de modo a não serem exclusivamente limitados aos interesses da cultura ocidental e que, ao dialogar com outras culturas e outros saberes dos quais antes oprimiam, não pressuponha que estes estariam naturalmente prontos para o diálogo. Como afirmado anteriormente, uma das lógicas da sociologia das ausências consiste em contrapor-se à lógica da monocultura do tempo linear e essa consideração é fundamental, “[...] sobretudo nas zonas de contato entre saberes e práticas em que as relações de poder, por serem extremamente desiguais, conduziram à produção maciça de ausências” (SANTOS, 2002, p. 271). Isso significa dizer que é preciso desconstruir a ideia moderna de que a história tem sentido e direção únicos e lineares de que, se o indivíduo não está em um processo de desenvolvimento linear, evolutivo e formal, seu saber e prática social devam ser desconsiderados enquanto conhecimento.
As relações camponesas, em seus territórios de vida, são impregnadas de situações e dificuldades que, para serem resolvidas, requerem criatividade, arte e sabedoria intercultural. Ter a consciência das faltas e da situação de opressão, conforme Freire (2005, p. 36) fazer “[...] a leitura de mundo, ver as faltas [...]” é a condição inicial para a mudança e presença do ser social no mundo. Fernandes (2012, p. 744), ao falar do território camponês, defende que “[...]
essas relações sociais e seus territórios são construídos e produzidos, mediante a resistência [...] num processo de enfrentamento permanente com as relações capitalistas”.
Assim, de que maneira se manifesta a resistência camponesa nos contextos deste estudo? Em que aspectos a educação, a pedagogia da alternância e o trabalho do campo podem ser pedagógicos e oferecer condições de apropriação de bens e valores econômicos, culturais, intelectuais, técnicos, políticos e, assim, desencadear processos de territorialização do jovem no campo?
Esse trabalho de tradução, entre territorialidades do Brasil e Portugal, foi realizado considerando-se representantes dos dois grupos sociais em questão, egressos que tiveram suas formações fundamentadas na Pedagogia da Alternância e com o objetivo comum de produzir suas vidas no campo, visto que os saberes e as práticas só existem à medida que são exercidos ou usados por eles. Concordam, Santos (2002) e Gramsci (2011), que os intelectuais orgânicos cosmopolitas devem estar fortemente enraizados com esses saberes e práticas, compreendendo profunda e criticamente cada um deles.
Portanto, tais tradutores interculturais (ou intelectuais orgânicos) estão entre os dirigentes do movimento social ou entre os ativistas da base, neste caso, os egressos da CFRTV e CEACV, gestores, Associação38, familiares e representantes fundadores das escolas, a pesquisadora.
É necessário destacar que entre as dificuldades do trabalho de tradução está o de realizar o trabalho argumentativo de compartilhar o mundo com quem não compartilha o nosso saber ou nossa experiência. Nem sempre os lugares comuns ou as premissas de argumentação são aceitos por todos os que participam no círculo de argumentação, haja vista que os que são de uma dada cultura não são os mesmos aceitos por outra. Além disso, outra dificuldade é a questão da língua, e mesmo a linguagem, a ser usada na argumentação.
De acordo com Santos (2002), pode haver preponderância de uma língua ocidental querer ocupar a tradução e, deste modo, negligenciar aspectos da língua e da linguagem de uma cultura subjugada. Por exemplo, seria impossível uma análise relevante nesta pesquisa, se desconsiderássemos os aspectos dialéticos e contraditórios, espaço-temporais, histórico- políticos e socioculturais, entre os dois países como as diferenças significativas e concretas que se materializam quanto à extensão, à demografia, aos dialetos, à mistura de culturas,
38 Associação, no contexto das Casas Familiares Rurais, é um dos pilares da proposta formativa, como veremos
no capítulo IV. A principal função desta organização sem fins lucrativos é gerir, apoiar, e agir político- administrativamente nas relações que envolvem o coletivo e a instituição.
colonialidades, assim como, aos processos e respostas dadas pelos grupos no enfrentamento e na resistência do modo de produção capitalista, enquanto camponeses.
No intuito de reconhecermos a importância da compreensão e dos sentidos, trazemos um estudo (CARDOSO et al., 2014) realizado pela Universidade Estadual de Londrina, Paraná, inserido em um estudo em nível nacional coordenado pela Universidade Federal da Bahia, desde há várias décadas, que tem como temas a Língua Portuguesa, os dialetos e o Brasil, inseridos nos estudos da Geografia Linguística, apresenta em seu Volume 2, do Atlas Linguístico do Brasil ALiB –, a pesquisa, que pontua aspectos fundamentais da história social das 25 capitais39 brasileiras referente ao povoamento e desenvolvimento do Brasil, além de um estudo sobre cada cidade e sobre a história do seu nome, com destaque à configuração das capitais criadas mais recentemente, a partir do século XX. Destaca-se, como um dos resultados do estudo, o fato de que as levas de migrações internas provocam um fluxo migratório intenso, “[...] sobretudo de nordestinos para o Sudeste, Centro-Oeste e Norte, de paulistas e sulistas para o Centro-Oeste e Norte e, mais recentemente, o retorno de nordestinos de São Paulo para sua terra de origem” (CARDOSO et al., 2014, p. 25), bem como, o consequente arcabouço linguístico da matriz dialética que constitui a realidade da língua portuguesa de um país como o Brasil, com tanta miscigenação étnico-racial e histórico-culturais já em sua formação original40.
O estudo referido concluiu que as características de formação de cada capital brasileira, como nome, ideologia e cultura, somadas às migrações internas no território “[...] determinam modos singulares de cultura que se refletem na norma linguística dos brasileiros, gerando formas próprias de ver o mundo, e de representá-lo por meio da linguagem” (CARDOSO et al., 2014, p. 26).
O nome da cidade, constituído por um agrupamento sociolinguístico distinto, carrega em sua origem histórica, a afirmação daquilo que a comunidade quer transmitir e perpetuar para as próximas gerações. O estudo demonstra que a peculiaridade do português do Brasil, um país
39 “Neste estudo foram excluídas Palmas (Capital do Tocantins, 1989) e Brasília (Distrito Federal, 1961), em
virtude dos princípios adotados com relação à data de fundação” (CARDOSO et al., 2014, p. 07).
40 A título de exemplificação, a história da fundação da capital do Estado do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, em
que se insere a região da Escola de Ensino Médio Casa Familiar Rural Três Vendas, de Catuípe, relata que a fundação da cidade de Porto Alegre, data do Brasil Colônia, no século XVIII. O marco inicial da capital gaúcha localizada às margens do Rio Guaíba, foram as três sesmarias recebidas em 1740, uma delas, a de Jerônimo Ornelas, deu início ao povoamento. Na fazenda de Ornelas, às margens do Rio Guaíba, havia um ancoradouro para embarcações, o Porto de Viamão, que atendia a recém fundada povoação da Capela Grande do Viamão. Em 1808 passou a ser Vila e em 1822, a Vila de Porto Alegre passa a ser cidade e a seguir, capital da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, com a denominação de Cidade de Porto Alegre. Em 1752, com a chegada de migrantes no Porto de Viamão, cerca de 60 casais açorianos representam importante função na formação da segunda maior capital do sul do Brasil, atualmente com 1.393.575 habitantes (CARDOSO et al., 2014).
tão diverso em culturas e linguagens, possibilita uma comunicação entre os habitantes das suas diversas regiões. Por exemplo, a denominação de “tangerina”, olhando somente para a região sul, pode ser: bergamota, poncã, mexerica, mimosa e tangerina e, referindo-se à “mandioca” como aipim ou macaxeira (CARDOSO et al., 2014). Os camponeses do Sul do Brasil plantam e consomem mandioca, e os do Norte de Portugal apenas conhecem ou ouviram falar.
Pelas diferentes denominações que carregam a mesma palavra, o importante é perceber aspectos da língua que são impronunciáveis nas suas aspirações peculiares, além dos saberes e práticas que foram se constituindo na colonialidade do grupo social, de modo que, “[...] a gestão do silêncio e a tradução do silêncio é uma das tarefas mais exigentes do trabalho de tradução” (SANTOS, 2002, p. 273).
Em síntese, esta forma de análise e compreensão de realidades, experiências e práticas, historicamente negadas pela razão colonial, patriarcal, capitalista, consiste em socializar ausências e emergências, a fim de traduzir o que os povos e suas culturas têm de genuíno, com vistas à socialização e produção alternativa de uma razão cosmopolita, na perspectiva de que “[...] a justiça social global não é possível sem uma justiça cognitiva global” (SANTOS, 2002, p. 274), ou seja, a compreensão de que a tradução entre saberes cria justiça cognitiva e a tradução de práticas e experiências cria as condições para uma justiça social global democrática. A planificação da história das sociedades e da natureza permitiu que, ao longo de sua reprodução, o capital, sorrateiramente, determinasse sobre os trabalhadores quais paradigmas deveriam ser seguidos e realizados na forma de vida moderna, designado por Santos (2002, p. 275) como “[...] globalização neoliberal e que não é mais do que um novo passo do capitalismo global, no sentido de sujeitar a totalidade inesgotável do mundo à lógica mercantil”.
A possibilidade de emancipação social, desde esta visão, está no alargamento do presente. Diferentemente da visão neoliberal do projeto da modernidade, de que todo o mundo “perfeito”, “desenvolvido”, está no futuro, aqui a práxis é transformadora hoje. Se aumentarmos o campo das experiências podemos avaliar melhor as alternativas possíveis e disponíveis de superação. Assim, a possibilidade de um mundo melhor não está no futuro, mas no presente, por meio da reinvenção do presente, calcada em grupos sociais concretos.
Nesta investigação, nosso foco foi nos saberes e experiências ancestrais de produção da vida no campo, compreendidos como referenciais importantes às próximas gerações de famílias camponesas, na “tradução intercultural” entre as escolas brasileira e portuguesa e seus espaços de resistência, intrínsecos à subalternização a que estão submetidos os egressos na sociedade do capital. Passaremos ao capítulo II onde analisaremos “o jovem e o mundo” e, dentro deste, o campo como espaço produzido e produtor dos sujeitos na contemporaneidade.