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L'extension de l'éducation et la formation professionnelle depuis le do; moi

Dans le document et ressources humaines au Viêt-nam (Page 118-126)

Na continuidade da colonização mundializada, hoje denominada globalização (SANTOS, 2009; SANTOS, B., 2018), como os jovens, agentes sociais, abstraídos pelo capital e trabalho, podem criar “outras” circunstâncias e experiências na (re)produção da vida e, ao mesmo tempo, constituírem-se enquanto “jovem do campo”?

Na contemporaneidade, o jovem do campo é, ao mesmo tempo, o jovem da cidade e do mundo. Estes espaços-tempos, campo-cidade-mundo, não somente estão interconectados pela expansão interplanetária das relações sociais intrínsecas ao processo colonial que, historicamente opôs mundo “civilizado” ao mundo “por civilizar” (econômicas, políticas, educacionais, culturais, ideológicas e socioafetivas, religiosas), como pelas necessidades interculturais e objetivas que envolvem o lugar de vida e o todo social. Nesse contraditório, apesar de o jovem ter à disposição tecnologias e instrumentos que permitem uma conexão “global”, a condição econômica e infraestrutural desigual da classe camponesa, em relação a sua opressora, tem impedido uma equidade de acesso e de garantia de direitos nos diversos âmbitos que compõe o Sul global.

De acordo com o Estatuto da Juventude92 (BRASIL, 2013), o que caracteriza etariamente o indivíduo jovem é o período entre quinze (15) e vinte e nove (29) anos de idade. Adolescentes, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)93, são pessoas com idades entre quinze (15) e dezoito (18) anos. Deste modo, as casas familiares rurais, por usarem o termo jovem quando se referem aos alunos ou alternantes, misturam as duas legislações. No entanto, o próprio Estatuto da Juventude ressalva que sua atuação será enquanto “[...] não conflitar com as normas de proteção integral do adolescente” (BRASIL, 2013). Os egressos aqui estudados estiveram nas escolas no período da faixa etária que variava entre 15 a 29 anos. Para além da idade, Castro (2012) aprofunda a abordagem ao considerar que jovens são seres histórico-sociais que se constituem em determinadas sociedades e processos históricos. Portanto, a juventude é uma construção social que se altera de acordo com o processo histórico.

92 A Lei nº 12. 852, de 05 de agosto de 2013, institui o Estatuto da Juventude e dispõe sobre os direitos dos jovens,

os princípios e as diretrizes das políticas públicas de juventude e o Sistema Nacional de Juventude (SINAJUVE).

Para a autora, a juventude do campo é uma parte do todo que se vincula ao movimento histórico, estrutural e sistêmico que envolve a questão agrária, o trabalho e a educação, dentro do modo de produção capitalista.

Nesse sentido, procuramos analisar o jovem do campo como uma produção social, a partir de uma visão sócio-histórica (CASTRO, 2012), na qual as relações indivíduo-sociedade, educação-trabalho estão circunscritas às realidades da reestruturação produtiva do trabalho94 para o capital global (THOMAZ JUNIOR, 2002; 2004).

Este jovem vai se constituindo socialmente no decurso histórico da agricultura e do campo atual. Considerando que as políticas para a agricultura camponesa são escassas e limitadas, no Brasil, uma alternativa encontrada pela família dos dois egressos, juntamente com outros camponeses, do noroeste do RS, foi a constituição de uma Associação, uma proposta que nasceu com a consciência camponesa sobre a própria realidade, a partir da formação da Casa, como afirma a egressa. Esta família é constituída por nome (9) pessoas, sendo que dois, dos três (3) filhos, são egressos da CFR e todos trabalham somente na unidade de produção familiar, com exceção da mãe, que, além do trabalho em casa, também é professora da educação básica na comunidade local:

Tínhamos terra do meu sogro, 100 ha, aí deu problema de família e foi dividido. Naquele momento, não tínhamos como comprar o maquinário e foi aí que juntamos, os demais também são pequenos agricultores, 15, 18, 20 hectares. Ao invés de comprarmos 15 tratores, temos um só (Pai da C. R. R., entrevistada brasileira, 2017).

E a filha complementa,

Deu tão certo que começamos em 2010 e funciona até hoje, está quase tudo pago e em bom estado. O segredo está na associação, mas onde um só cuida, sabe quando tem que trocar o óleo, não demos nada nosso, financiamos no nome de dois associados na Sicredi, era uma prestação de 17 mil por ano, pra ter todas essas máquinas, sempre conseguimos pagar em dia, somos entre 15, o problema maior é aprender viver em sociedade. Alguns saíram, mas a maioria ficou, estamos entre 11 famílias agora, tudo por agendamento, ficaram os que comungam a idéia e saiu aquele que começou a plantar soja. A manutenção e a prestação saem dos valores pagos pelo uso: 12 reais mais o trabalho do operador (10 reais por hora) e cada máquina tem um valor de uso mais o operador, pra fora cobramos 50% a mais. Na época de feno sai mais. Esse ano entrou 17 mil, vale a pena porque paga a prestação só com o serviço. O trator sai com o tanque cheio e larga o tanque cheio. Até hoje faltou 300,00 reais por associado num ano, mas ainda vale a pena, porque se fôssemos comprar qualquer uma dessas máquinas seria muito maior o custo pro agricultor. Depois que as prestações forem pagas, vamos ver como vamos investir o que entrar e sobrar. A associação também faz a gente resolver junto. Pensamos juntos, chamamos todos e explicamos a aquisição

94 Para Marx (2010, p. 132): “Só é produtivo o trabalho assalariado que produz capital. Isso equivale a dizer que o

trabalho assalariado reproduz, aumentada, a soma de valor nele empregada, o que restitui mais trabalho ao que recebe na forma de salário. Por conseguinte, só é produtiva a força de trabalho que produz valor maior que o próprio”.

de uma máquina, os consertos, assim vamos conseguindo, é tudo esclarecido e decidido junto (C. R. R., entrevistada brasileira, 2017).

Apesar de haver a invisibilidade intencional do Norte global sobre as práticas camponesas, consensualmente entendidas como não-trabalho, não-estudo, não-existências, não-produções, percebemos que é no encontro ontológico homem-natureza, ou seja, no trabalho como processo educativo, enunciado nas trocas de saberes com seus ancestrais, nas batalhas do dia a dia com as inovações do mundo moderno contemporâneo, que o trabalhador do campo (re)existe.

Mais do que uma reflexão sobre o jovem no âmbito transitório de um ciclo de vida, há que se discutir sobre o sujeito produtor de cultura, de trabalho, de conhecimentos, de estratégias, de políticas. Uma tradução intercultural, entre os egressos de países com culturas e realidades distintas, poderá legitimar o valor de suas ações no espaço-tempo da atualidade, já que é no processo sócio-histórico que fazemos alterações (história) sobre o que existe e nos tornamos seres sociais em transformação.

Estudos portugueses, sobre a juventude do século XXI, apontam para um momento peculiar da vida ao qual Guerreiro e Abrantes (2007) chamam de período de “transições incertas”, que envolvem o jovem, o trabalho e a família. Os autores demonstram que fatores estruturais e culturais têm requerido uma expansão das qualificações superiores e um respectivo adiamento da entrada do jovem no mundo do trabalho.

Em Portugal: 40% dos jovens entra ainda no mercado de trabalho no escalão etário dos 15-17 anos, sem possuir quaisquer qualificações (Alves, 1998); e cerca de metade dos jovens entre os 17 e os 24 anos têm o trabalho como meio de subsistência (Garcia e outros, 2000). Aliás, a “terciarização do emprego” envolve também um aumento (ainda que menos acentuado) dos sectores desqualificados dos serviços (Castells, 1996), além de que os sectores industriais e agrícolas continuam a precisar de mão- de-obra, muitas vezes, desqualificada (GUERREIRO; ABRANTES, 2007, p. 16)

Desse modo, de maneira relacional, a concepção sócio-histórica de explicarmos os processos da vida dos jovens enfatiza aspectos da materialidade histórica e social concernentes à condição juvenil. Entretanto, embora comunguem problemas semelhantes, a cultura juvenil dos camponeses do Brasil e de Portugal tem suas peculiaridades e diferenças, assim como o trabalho que desenvolvem e as relações que estabelecem à reprodução.

Abramo (2005), no tocante ao Brasil, chama atenção para a indeterminação do termo "juventude". Em suas investigações, a autora tem priorizado os atributos socioculturais desse período de vida, que vai muito além da visão clássica de uma transição entre a infância e a fase adulta. Lembra-nos, ainda, que a concepção atual de juventude coloca em uma fase de

moratória, não no sentido de suspensão dos nos âmbitos da sexualidade e da educação, dos compromissos e dos encargos, e, por isso, as políticas públicas deveriam considerar não somente a dimensão formativa da juventude, mas também aquela referente à experimentação e à participação destes sujeitos.

As abordagens latino-americanas, mais especificamente, as destacadas no “Seminário95

de Investigación en Juventud, Sujeto, trayectorias y ciudadanías. Reflexiones de los estudiantes del Diplomado Mundos Juveniles 2012”, estão articuladas, teórica e empiricamente, analisando a categoria pela perspectiva das “transições”, um entendimento de ciclo vital onde ocorre uma sucessão de eventos-transição no marco de um calendário social determinado. Outras abordagens, cujo elemento comum é a descrição de diferentes mecanismos de desigualdade e heterogeneidade que afetam os jovens. Algumas enfatizam a ideia de que é necessário compreender a concepção de política e espaço público das novas gerações, mas a partir de referenciais interpretativos originais que destacam formas de participação e representação política juvenil não tradicional. Ressaltam que a compreensão deva ocorrer através de uma perspectiva que permita visualizar a capacidade de agência dos jovens e dos modos insurgentes de participação política, com a utilização das redes sociais como instrumento de luta e de expressão social (ZÚÑIGA, 2012).

Tanto em âmbitos urbanos quanto rurais, o jovem torna-se destaque no marco de processos sociais e econômicos da modernidade, que definiram sua atual concepção, a partir das determinações e necessidades de reprodução do capital. Se o conceito aparece com a consolidação das sociedades modernas e, a partir delas, o surgimento de práticas que o identificam (linguagem, estética, música, modo de vida, etc.) correspondem a um modelo específico de acordo com determinações acordadas socialmente. Conforme Groppo (2010, p. 11) “[...] a juventude é uma categoria social usada para classificar indivíduos, normalizar comportamentos, definir direitos e obrigações”, indispensáveis ao fluxo desse modo de produção.

Para Guilherme e Dietz (2014), uma abordagem deve ultrapassar o paradigma eurocêntrico das análises sobre indivíduo-sociedade. Desse modo, os autores criticam os paradigmas da desigualdade e o da diferença, historicamente imbricados às questões sociais

95 Este Seminário de Investigação sobre a Juventude vem acontecendo desde 2007. Em 2012, ocorreu na

Universidad Nacional Autónomea de México. O “Seminario de Investigación en Juventud” tem como principal objetivo ser um espaço de discussão e trocas de ideias sobre o jovem. México, D. F. Disponível em: <http://www.sij.unam.mx>. Acessso em: 19 set 2019. Disponível em: <https://www.academia.edu/19244676/J%C3%B3venes._Sujetos_Trayectorias_y_Ciudadan%C3%ADas?email_ work_card=title>. Acessso em: 19 set 2019.

globais. O primeiro, por estar centrado em uma análise vertical de estruturas socioeconômicas, e que representam um enfoque universalista, monolinguístico e monocultural. O segundo, o da diferença, focado em uma visão horizontal, que tem sido desenvolvido por movimentos sociais e sua política identitária (étnica, cultural, religiosa, de gênero, etária, sexual, etc.), os quais objetivam o empoderamento de grupos minoritários. A crítica a esse paradigma deve-se ao apelo às respostas particularistas e multiculturalistas, ignorando as desigualdades e as condições estruturais e socioeconômicas que as determinam.

Assim, os autores propõem uma análise pela diversidade, que parte “[...] del carácter plural, multi-situado, contextual y, en consecuencia, necesariamente híbrido de cualquier identidad de clase, cultural, étnica, religiosa, de clase o de género” (GUILHERME; DIETZ, 2014, p. 20). Essa articulação entre identidades diversas ocorre tanto individual como coletivamente, resultando em uma análise que seja intercultural. A concepção de interculturalidade é no sentido relacional, transversal e interseccional. De acordo com os autores, tem o propósito de enfatizar a interação que se produz entre dimensões identitárias extremamente heterogêneas que, combinadas entre si, são pontos de partida para a análise intercultural de constelações de diversidades do mundo e da vida, bem como, no tratamento metodológico e normativo das mesmas.

Reconhecendo a interculturalidade a partir dos jovens egressos dos CEFFAs do Brasil e de Portugal, que foram e continuam sendo colonizados pelo conjunto de desdobramentos do capital no global, por meio de uma cultura hegemônica no espaço camponês, encontramos em Marin (2009, 2017) e Neves (2010), a origem da concepção da categoria, na qual se insere a relação educação-trabalho das Casas Familiares Rurais. Os autores partem do conceito de Juventude Rural como uma construção cultural que se originou nas sociedades industrializadas da Europa e da América do Norte, nas últimas décadas do século XIX, e que se consolidou apenas na segunda metade do século XX. A partir de então, organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), impulsionaram o desenvolvimento tecnológico e econômico, por meio do reconhecimento social dos jovens nos países latino-americanos.

Neste sentido, Marin (2017) atribui às políticas de desenvolvimento rural um meio para facilitar esta colonização, em especial à de Crédito Juvenil (bancário), que junto aos serviços de extensão rural, propagados massivamente, e a abertura de clubes de jovens rurais, “[...] foi um instrumento para inserção da juventude rural nos processos de modernização da agricultura brasileira e para a produção de referências modelares para jovens rurais modernos” (MARIN, 2017, p. 01).

Ao encontro desta premissa, Carneiro e Castro (2007) afirmam que o jovem do campo é considerado, pela maioria dos estudos, apenas como um dos membros do trabalho familiar, sem considerar sua participação sociocultural no mundo globalizado. Além disso, no estreitamento das fronteiras culturais entre campo e cidade, há um olhar mais voltado ao jovem urbano. No questionamento dessa polarização, entretanto, a antropóloga destaca que educação, emprego, cultura e lazer abrangem igualmente jovens urbanos e rurais; lembra ainda que, ao manterem sua identidade afetiva no campo, os jovens rurais vivem conflitos de valores, à proporção que lançam para a cidade suas perspectivas de futuro profissional. E quanto ao jovem egresso estudado, quais suas perspectivas?

Groppo (2010, p. 19) analisa a juventude por meio da relação de sociedade versus indivíduos e grupos juvenis: “Esta relação é dialética, ou seja, fundada em uma contradição entre o movimento da integração/socialização e o movimento da autonomia/criatividade”. O autor ressalta que esta contradição se expressa historicamente nos processos de institucionalização da juventude, na dialética entre ação e resistência dos grupos que se assumem como jovens ou são considerados como tais.

Esta concepção «dialética» da condição juvenil demonstra trajetórias de indivíduos e grupos juvenis oscilando no duplo movimento que envolve integração versus inadaptação, socialização versus criação de formas de ser e viver diferentes, papéis sociais versus identidades juvenis, institucionalização versus informalização, homogeneização versus heterogeneidade e heterogeneização, cultura versus sub- culturas etc. Pode-se, deste modo, interpretar que desde o início do «percurso» das juventudes na modernidade houve possibilidades e concretas ações de protagonismo juvenil, criação de identidades diferenciadas, resistências e sub-culturas (GROPPO, 2010, p. 19).

Nossa ideia se inscreve na concepção teórica dos que entendem a juventude enquanto uma construção sócio-histórica e político-cultural, uma visão que compreende o jovem como sujeito que age e que, em sua práxis de produção e reprodução da vida, vai também se produzindo enquanto ser social (RAFFESTIN, 1993). A juventude dos Centros Familiares de Formação por Alternância faz parte de um grupo social que começou a existir com e no transcurso do estabelecimento do capitalismo como sistema e modo de produção dominante, no século XX.

Por esta perspectiva, percebemos que, entre o “ir sendo jovem” em Catuípe (BR) e em Póvoa do Varzim (PT), existem aspectos de singularidade e de multiplicidade próprios das experiências da juventude do campo, mas também da interseccionalidade, vinculada às migrações, aos mundos étnicos, à colonização, ao gênero, ao trabalho, à educação, ao modo de produção, à divisão social do trabalho, aos valores culturais (religiosidades, modos de

convivência e de trabalho familiar). O mesmo movimento globalizado que oprime, invisibiliza e negligencia faz emergir, do sujeito subalternizado, uma hegemonia, uma direção, um poder e estratégias, em uma relação que não é homogênea, mas particular entre os egressos em suas territorialidades e no espaço-tempo de produção. Os egressos afirmam que querem continuar vivendo e trabalhando no campo, demonstram que gostam do que fazem, evidenciam que pretendem dar continuidade àquilo que seus ancestrais passaram/passam.

Dentre a diversidade de abordagens, centramo-nos àquelas que compreendem os egressos do CEFFAs deste estudo, considerando que, desde a criação até a atualidade, as Casas utilizam o termo “jovem” para referirem-se ao “estudante”, mas não com o mesmo sentido atribuído pelas escolas formais, por exemplo. Nestes contextos, o jovem ocupa um lugar de destaque na escola (nos fazeres em equipes, na gestão, na Associação CFR), e, principalmente, na comunidade local, no meio onde está inserido. Além disso, é protagonista na relação educação-trabalho, pretendida nos tempos complementares de formação, o Tempo Escola e o Tempo Comunidade, desde a origem histórica da Pedagogia da Alternância (GIMONET, 2007). Portanto, a designação “jovem” que permeia esta pesquisa, ultrapassa o tempo etário, vem da maneira como são denominados e compreendidos aqueles que estudaram/estudam nestas instituições (CFRTV e CEACV). Esta interculturalidade tem sua historicidade ancorada nas Maisons Familiales Rurales e na Pedagogia da Alternância, de origem francesa, constituídas no período entre a Primeira (1914-1918) e a Segunda (1939-1945) Guerras Mundiais. Mais eficazmente, a partir da Segunda Guerra, período em que se buscava uma determinada reconstrução social e econômica nas sociedades, especialmente da europeia, em relação à sua perda hegemônica, que se reduzia não só pelo avanço dos Estados Unidos e da União Soviética no cenário mundial96, mas pela “[...] perda de uma hegemonia que tinha sido, durante séculos, planetária” (RIBEIRO, 2016, p. 18).

Marin (2009, p. 619) destaca que, naquele momento da modernidade

[...] as políticas educativas dirigidas às gerações jovens se estruturavam em torno do ensino agrícola e à formação de clubes, com o propósito de formar os futuros agricultores e as futuras donas de casa com a qualificação necessária para acompanhar o progresso científico e tecnológico.

96 Conforme Ribeiro (2016), ao relacionar memória e história, na visão que a autora propõe de Portugal na

atualidade, afirma que a Europa pós-Segunda Guerra Mundial foi fundada em uma aspiração de união de muitas

Europas, com o sentido de transformar uma memória de guerra em futuro de paz. Naquele momento em que a

hegemonia europeia se tornava vulnerável à nova hegemonia que seria protagonizada pelas potências da Guerra Fria, os Estados Unidos e a antiga União Soviética, foi se constituindo a Comunidade Europeia.

Desse modo, intrínseca à necessidade de uma cultura que projetasse o jovem como protagonista na sociedade moderna, produzia-se o sentido de responsabilidade, do valor dado à condição de trabalhador, bem como as aspirações implícitas à condição juvenil, que foram se estruturando vinculadas às relações determinadas pela reprodução social do capital, como a constituição da família, da propriedade, das relações de gênero, etc. Conjuntamente, produziu- se a conformação de necessidades e de especificidades, as quais estão visibilizadas no estudo atributos destes jovens do campo: manifestações de autorrealização, (sujeito que cria e que produz); um pensamento e uma atividade crítica e coletiva; uma mobilização política; uma consciência da função social nos espaços de vida. Tais modos de ser e de agir coincidem com o pensamento dos autores que defendem a juventude como categoria fundamental para a própria reprodução social do campo e, em especial, a da produção camponesa (CASTRO, 2012).

Compreendemos que a formação desse sujeito estabelece um debate fundamental sobre o vínculo dialético entre educação, trabalho e o ser político, especialmente ao problematizar esse fazer camponês com o campo de disputa hegemônica (GRAMSCI, 2011). A compreensão da dimensão política do processo educativo e de sua centralidade na consolidação de um projeto popular, como a Educação do Campo, é fruto de uma leitura histórica acerca do lugar ocupado pela educação e pela escola na estrutura capitalista, bem como de seu porvir no processo de emancipação humana (FREIRE, 1997). Nessa perspectiva, estas Casas partem do pressuposto de que existe uma intrínseca relação entre educação, trabalho e resistência, “[...] um terreno que reconfigura o educativo como ato político que se constrói na cotidianidade da vida no campo e da vivência cotidiana da resistência” (BARBOSA, 2019, p. 35).

4.2 EMERGÊNCIAS CAMPONESAS: A EDUCAÇÃO DO CAMPO NO BRASIL E UMA

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