Por dentro da dialética do processo social, a categoria “trabalho” é assim compreendida pelo geógrafo Thomaz Júnior (2002, p. 04),
[...] como expressão de uma relação metabólica entre o ser social e a natureza, sendo que nesse seu ir sendo ou em seu vir a ser está inscrita a intenção ontologicamente ligada ao processo de humanização do homem. A dupla linha de ação entre a ideação, a previsibilidade (a finalidade), enfim a teleologia (inexistente na natureza), e a materialidade fundante (causalidade), formam uma conexão interativa […] que solda a práxis ontológica do trabalho diante do agir societal.
Para o autor, por meio do trabalho, em sua práxis, o ser social cria e recria as próprias condições de sua reprodução. Nesse sentido, acerca do mundo do trabalho, da crise do capital em escala mundial, iniciada na década de 1970, e das profundas modificações estruturais demandadas por este processo nas últimas décadas do século XX, que impuseram consequentemente, uma reorganização das forças produtivas e econômicas, faz-se necessário refletir sobre as novas relações capital-trabalho e o aprofundamento das desigualdades sociais que emergiram do modelo de acumulação “flexível” de reprodução do capital, no que tange ao espaço agrário, foco do debate aqui proposto (THOMAZ JÚNIOR, 2002).
Iniciou-se um processo de reorganização do capital e de seu sistema ideológico e político de dominação, cujos contornos mais evidentes foram o advento do neoliberalismo, com a privatização do Estado, a regulamentação dos direitos do trabalho e a desmontagem do setor produtivo estatal, da qual a era Thatcher-Reagan foi expressão mais forte; a isso se seguiu também um intenso processo de reestruturação da produção e do trabalho, com vistas a dotar o capital do instrumental necessário para tentar repor os patamares de expansão anteriores (ANTUNES, 2002, p. 31).
O processo de flexibilização e precarização do trabalho (MÉSZÁROS, 2008), demonstra a perversidade que atinge o trabalhador em todos os setores da sociedade, direta ou indiretamente. Dentre as principais conseqüências deste processo, conforme Thomaz Júnior (2002) apresentam-se o desemprego estrutural, a intensificação do ritmo de trabalho, o crescimento do trabalho temporário e de tempo parcial, a polarização em termos de qualificação. Desse modo, o universo de transformação das relações de trabalho torna o Estado também flexível, e seu papel ante as políticas de proteção e garantias de direitos do trabalhador,
se estrutura no modelo welfare state29, no qual o setor agropecuário se inclui, sob a lógica da modernização do campo e do agronegócio.
Para Harvey (1996, p. 140), a acumulação flexível do capital se desdobra em uma maior “[...] flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo”. Esta (re)estruturação exige rápidas alterações “[...] dos padrões do desenvolvimento [...], tanto em setores como em regiões geográficas” (HARVEY, 1996, p. 140).
As mediações usadas pelo sistema do capital para alienar os seres humanos (Estado, mercado, trabalho, educação, etc.) são os mesmos espaços de ocupação contra-hegemônicos, que poderão ampliar as possibilidades de emancipação humana. “Nenhum dos objetivos emancipadores é concebível sem a intervenção mais ativa da educação, entendida na sua orientação concreta, no sentido de uma ordem social que vá para além dos limites do capital” (MÉSZÁROS, 2008, p. 73).
Para compreendermos o poder do capital sobre as relações laborais, tanto na reprodução da vida quanto nas possíveis (e sutis) atividades de criação dos camponeses, precisamos partir do reconhecimento das limitações e da grandeza das intencionalidades da práxis na luta camponesa, diária e histórica, por esses sujeitos, empreendida. Tornar visíveis as experiências e ações, individuais e coletivas, pode ser o caminho para se pensar, por dentro da luta de classes, a dinâmica da complexa trama de relações imbricadas na organicidade do trabalho, em sua dialética e contraditórios movimentos, trabalho-natureza e nas diferentes formas fragmentadas da concretude do trabalho do campo (trabalho assalariado, tempo parcial, informal). Que situações de trabalho vivenciam os camponeses egressos da CFR Três Vendas no Brasil? E os da CEA Campo Verde, em Portugal? Em que aspectos as distintas realidades se aproximam e em que aspectos se contrastam?
Concordamos com o pensamento deste estudioso da “Geografia do Trabalho” ao indicar que:
[...] é no interior do processo de auto-realização da humanidade através do trabalho, ao longo dos tempos, que podemos reconhecer o conteúdo do metabolismo social do capital, que faz com que sociedade e natureza e as mediações que governam essa relação dialética sejam "lidas" pela Geografia como base fundante da compreensão da polissemia do trabalho no mundo atual (THOMAZ JÚNIOR, 2002, p. 04).
29 Neste modelo o Estado atua como agente regulador, política e economicamente, intervindo na área econômica
de modo a regulamentar a área produtiva e o desenvolvimento econômico e social do país. O “Estado do Bem- Estar”, iniciado após a Segunda Guerra Mundial, na Europa Ocidental, se propagou para outras regiões do mundo (MACHADO, 2006).
Existem diversas experiências de resistência a serem “contadas”. Os camponeses sem terra, por exemplo, são parte da classe trabalhadora que não tem terra e que não tem meios para produzir na terra, logo, precisa vender sua força de trabalho, tornando os proprietários das terras, detentores das máquinas e também da força de trabalho destes. Outras tantas lutas precisam ser reconhecidas e creditadas no território epistemológico camponês, de modo a alargarmos o presente deste lado da linha abissal, mediando e creditando um espaço que possa ultrapassar o capital.
No movimento contraditório da historicidade do MST, a experiência ativa e organizada fez emergir, em meio a tantas ausências (morar em lonas, vivenciar limitações econômicas, alimentares, educacionais, etc.), o tipo de escolarização, de educação, de produção, de vida, que os sujeitos coletivos almejavam para si. Se olharmos para o Setor da Educação do MST, ao ser visibilizado socialmente, promoveu, no Brasil, uma ampla transformação com a efetivação de políticas públicas que se tornaram a base do que concebemos hoje como Educação do Campo. Ainda que no século XXI tenha havido um recuo na atuação do MST, e de movimentos sindicais, esta luta camponesa deu suporte para a construção de algumas garantias legais, embora o Estado (da flexibilização) atue somente no controle e não na garantia destes direitos. “É nessa linha de ação que o Estado brasileiro, amparado pelo pacto de classes que lhe dá sustentação política, protagoniza políticas em concordância aos interesses do capital, e as coloca em prática a fim de exercer o controle social” (THOMAZ JÚNIOR, 2004 p. 19).
No percurso histórico deste século, em que ocorrem rápidas e profundas transformações na vida da classe trabalhadora camponesa, há a urgência de uma “sociologia das ausências” no campo, rumo a uma sociologia das emergências30. É necessário trazer as experiências epistêmicas aos olhos da sociedade de tal modo que possam tornar-se visíveis e promotoras de outra constelação cognitiva. Reconhecermos os conhecimentos, os modos de vida, os saberes, as formas de pensar e agir, em relação ao enfrentamento das contradições do capitalismo, bem como, promovermos o fortalecimento de uma educação que leve à ultrapassagem dos espaços de opressão poderá representar um salto cognitivo e social de emancipação.
A espacialização cognitiva poderá ser ampliada por meio da tradução intercultural. Conforme Santos (2002), a partir de um extenso e intenso projeto de pesquisa, realizado por ele e mais um grupo de pessoas, há mais de dez anos, chamado “A reinvenção da emancipação
30 Para Santos (2002, p. 246), a ampliação do mundo poderá ocorrer por meio de uma investigação que visa “[...]
demonstrar que o que não existe é, na verdade, activamente produzido como tal, isto é, como uma alternativa não- credível ao que existe”.
social”31, desenvolvido em seis países de diversos continentes32, o qual teve como objetivo
principal “[...] determinar em que medida a globalização alternativa está a ser produzida a partir de baixo e quais são suas possibilidades e limites” (SANTOS, 2002, p. 237), este grupo de estudos e pesquisas pôde comprovar, pela complexidade de experiências vivenciadas, que é possível pensar sobre outras formas de resistência frente ao capitalismo.
Na mesma perspectiva, desde o final do século XX, a América Latina também vem construindo um expressivo e amplo trabalho teórico-prático, que tem como tema central “Modernidade/Colonialidade”. Para esses estudiosos33, a hegemonia do modelo eurocêntrico e
do colonialismo da modernidade sobre a vida do sistema-mundo34, perpetuados durante 500 anos, se ressignifica em um formato pós-moderno e segue em um percurso de colonialidade global. “O fin de la guerra fria, hacia finales del siglo pasado, terminó ciertamente com el colonialismo de la modernidad (primera descolonización), pero dio inicio al proceso de la colonialidad global” (CASTRO-GÓMEZ; GROSFOGUEL, 2007, p. 13).
Como mencionamos, o capitalismo global contemporâneo continua sentenciando exclusões por meio de hierarquias epistêmicas, raciais, étnicas, espirituais, de gênero, de sexualidade, econômicas, culturais. Os autores defendem a segunda descolonialização que o século XXI, “[...] tendrá que dirigirse a la heterarquía de las múltiples relaciones raciales, étnicas, sexuales, epistémicas, económicas y de género que la primera doscolonización dejó
31 Os seis países escolhidos como periféricos, pesquisados no projeto, foram: a África do Sul, o Brasil, a Colômbia,
a Índia e Portugal, além de um país, considerado um dos dez mais pobres do mundo: Moçambique.
32 Os três elementos que mais contribuíram para esta escolha e que iam ao encontro da análise dos conflitos entre
a globalização neoliberal hegemônica e a globalização contra-hegemônica, são: “Em primeiro lugar, tratava-se de um projecto conduzido fora dos centros hegemônicos de produção da ciência social, com o objectivo de criar uma comunidade científica internacional independente desses centros. Em segundo lugar, o projecto implicava o cruzamento, não apenas de diferentes tradições teóricas e metodológicas das ciências sociais, mas também de diferentes culturas e formas de interação entre a cultura e o conhecimento, bem como entre conhecimento científico e o conhecimento não-científico. Em terceiro lugar, o projecto debruçava-se sobre lutas, iniciativas, movimentos alternativos, muitos dos quais locais, muitas vezes em lugares remotos do mundo e, assim, talvez fáceis de desacreditar ou torná-los irrelevantes, ou demasiado frágeis, ou localizados para oferecer uma alternativa credível ao capitalismo” (SANTOS, 2002, p. 238).
33 O livro “El giro decolonial, reflexiones para una diversidade epistémica más allá del capitalismo global”, editado
por Santiago Castro-Gomez e Ramón Grosfoguel (2007), traz, em sua introdução, a síntese histórica do grupo de investigação que vem se dedicando ao “Projeto latino-americano modernidade/colonialidade”, tendo como categoria principal a descolonialidade de povos ou grupos invisibilizados pelas sociedades. Fazem parte integrantes de diversos países, dentre eles, o sociólogo peruano Aníbal Quijano (vinculado à Universidade do Estado de Nova Iork – SUNY), Kelvin Santiago e RamónGrosfoguel, portorriquienhos, Sylvia Wynters, investigadora afro-caribenha, Edgardo Lander, sociólogo da Venezuela, Walter Mignolo, Enrique Dussel, e ainda, outros e outras, pesquisadores mais jovens que têm se ocupado de estudos sobre modernidade/colonialidade.
34 As categorias “decolonialidade” e “colonialidade do poder” são compreendidas pelos autores por dentro das
relações sociais que se estabelecem no sitema mundial, porém, demarcam um “sistema-mundo” (Teoria da Dependência) definido como“[...] europeu/euro-norteamericano capitalista/patriarcal moderno/colonial [...]” e não somente do “[...] sistema mundial capitalista” (CASTRO-GOMES; GROSFOGUEL, 2007, p. 13). Na tese usaremos “sistema capitalista” ou “modo de produção capitalista” como aquele que engloba as três pontas do sistema: patriarcado, colonialismo e capitalismo. Nossa análise tem como referência as Epistemologias do Sul, de Boaventura de Sousa Santos.
intactas” (CASTRO-GÓMEZ; GROSFOGUEL, 2007, p. 14). A primeira descolonização ocorrida no século passado, como o término do colonialismo da modernidade, se revestiu e segue, neste século, como processo de colonialidade global.
Estas pesquisas propõem-se à construção de uma ciência que, além de explicar as relações que envolvem o “mundo do trabalho” (HOBSBAWM, 1987) e as exigências formativas do trabalhador, relativas à organização do trabalho do século XX e XXI (ANTUNES; PINTO, 2017), possa dar visibilidade ao desperdício da experiência/atividade, dando credibilidade às iniciativas dos movimentos alternativos ao modo de produção capitalista. Para isto, “[...] não basta propor outro tipo de ciência social [...], é necessário propor um modelo diferente de racionalidade” (SANTOS, 2002, p. 238).
Na sociedade moderna, as possibilidades de transformação individual e coletiva foram/estão drasticamente reduzidas, haja vista que a ciência moderna foi posta a serviço do capital, no desenvolvimento do capitalismo, que transformou o conhecimento científico em um conhecimento regulador hegemônico. Ou seja, ocorreu a transformação da ciência moderna na racionalidade hegemônica e na força produtiva fundamental. “A hegemonia do conhecimento- regulação significou a hegemonia da ordem, enquanto forma de saber, e a transformação da solidariedade – a forma de saber do conhecimento-emancipação, numa forma de ignorância e, portanto, de caos” (SANTOS, 2011, p. 119).
Para o autor, a tensão dialética entre regulação e emancipação origina-se e mantém-se por meio de cinco lógicas35 de produção de não-existência, pertencentes à monocultura racional e ao desenvolvimento linear da sociedade capitalista: 1) a monocultura do saber e do rigor do saber (transformar a ciência moderna como única forma de verdade); 2) a monocultura do tempo linear (a história é determinista, tem sentido e direção únicos e válidos); 3) a lógica da classificação social (assenta na monocultura da naturalização das diferenças, onde a distribuição das populações por categorias naturaliza a hierarquia, isto é, a relação de dominação é a consequência e não a causa da hierarquia); 4) a lógica da escala dominante (a escala adotada como primordial determina a irrelevância de todas as outras possíveis escalas, sendo que, na modernidade ocidental, a escala dominante aparece como universal ou global); e 5) a lógica produtivista (monocultura dos critérios de produtividade capitalista, aplicado tanto a natureza quanto ao trabalho humano). Em síntese, de acordo com o sociólogo, são cinco as principais formas sociais de não-existência produzidas e legitimadas pela racionalidade moderna: o ignorante, o residual, o inferior, o local e o improdutivo (SANTOS, B., 2018).
Por este pensamento, em busca da dilatação do presente, engendrando a ampliação das experiências credíveis, como podemos fazer a libertação dessas experiências do ser em sociedade, imaginando que possam emergir da inexistência para a existência? Será possível reverter a (re)produção social destas ausências no sistema de produção capitalista?
No âmbito da sociologia das ausências, a tese é de que podemos reverter o desperdício da experiência. Logo, ao identificarmos experiências alternativas de produção da vida, que estejam na “contra-maré” da adaptação ao sistema do capital, podemos reconhecer a imposição da sua invisibilidade que não é sinônimo de inexistência. Ao serem libertadas dessa invisibilidade imposta, são reconhecidas como experiências desperdiçadas e não só apresentadas como experiências alternativas, mas também inspiradoras da refundação de um sistema alternativo, criando não só uma ampliação das experiências credíveis neste mundo e neste tempo, mas também de novas possibilidades de re-existência. Re-existir remete para a possibilidade de “[...] sua credibilidade poder ser discutida e argumentada e as suas relações com as experiências hegemônicas poderem ser objecto de disputa política” (SANTOS, 2002, p. 249).
A partir da visibilidade dos conhecimentos ancestrais, de cada cultura e modo de vida, torna-se então imperativo possibilitar essas formas de resistência como constituintes da globalização intelectual contra-hegemônica (SANTOS, 2009). Portanto, uma proposta para a superação da globalização neoliberal seria a de tornar visível o invisível, por meio da resistência, que tem como pressupostos o inconformismo com o descrédito e a transgressão como luta pela credibilidade (SANTOS, 2002), questionando cada uma das lógicas impostas (FREIRE, 2005) e tornando viável a validação de outras.
A proposta é uma reversão da lógica da monocultura do saber e do rigor científico pela ecologia de saberes; da monocultura do tempo linear pela ecologia das temporalidades; a lógica da classificação social pela ecologia dos reconhecimentos e a lógica da escala dominante pela ecologia das trans-escalas; a lógica produtivista, pela ecologia da produtividade, ou seja, uma lógica de reconhecimento epistemológico e intercultural. Isto posto, para o autor, “[...] o objectivo da sociologia das ausências é revelar a diversidade e multiplicidade das práticas sociais e credibilizar esse conjunto por contraposição à credibilidade exclusivista das práticas hegemônicas” (SANTOS, 2002, p. 253).
No centro da concepção destas ecologias, percebemos que a sociologia das ausências aumenta o domínio das experiências sociais já disponíveis, abrindo o caminho para uma sociologia das emergências, que dilata o domínio das experiências sociais possíveis. Conforme Santos (2002), a associação destas duas sociologias é estreita, pois, quanto mais experiências
estiverem hoje disponíveis, mais experiências são possíveis amanhã e maior será o número de experiências credíveis no mundo possível e objetivado. “Na sociologia das ausências, essa multiplicação e diversificação ocorrem pela via da ecologia dos saberes, dos tempos, das diferenças, das escalas e das produções, ao passo que a sociologia das emergências as revela por via da amplificação simbólica das pistas ou sinais” (SANTOS, 2002, p. 259).
Assim, a multiplicidade e diversidade dos campos sociais emergirão em relação às experiências de conhecimentos, às experiências de desenvolvimento, trabalho e produção, às experiências de reconhecimento, às experiências de democracia e às experiências de comunicação e de informação.
Conforme Santos, B., (2018), o campo social das experiências de conhecimento corresponde ao tratamento dos conflitos e diálogos possíveis entre as diferentes formas de conhecimento, entre os científicos e os saberes tradicionais, sistematizados ou produzidos ao longo da história da humanidade, por exemplo, zonas de contato entre a agricultura capitalista e a agricultura camponesa. Em relação ao campo de estudo desta pesquisa, em que medida são visibilizados, viabilizados e validados os conteúdos que as associações, gestões e comunidade de cada escola, consideram importantes, mas que não estão na matriz curricular instituída pelo Ministério da Educação (MEC), para além daqueles, obrigatoriamente, desenvolvidos pelas escolas? Em que medida são reinvindicados como legítimos? Que mecanismos são utilizados para resolver questões de falta de recursos financeiros ou de pessoas para trabalhar nas escolas, visto que tais instituições não estão vinculadas exclusivamente, nem ao Ministério da Educação, nem ao Ministério da Agricultura? Qual a relação entre cada escola e a regulação do Estado? Quais as medidas reais e institucionais a serem implementadas que possam descortinar estes saberes a partir da exploração de uma “sociologia das ausências” e assegurar a legitimação destes saberes no âmbito de uma “sociologia das emergências”? Será possível que estas Casas saiam de ‘uma terra de ninguém’ para um campo de “regulação”, promotor de “emancipação”, que lhes assegure a sua função primordial de desenvolvimento sustentável de que o planeta carece?
O campo social das experiências de desenvolvimento, trabalho e produção trata dos conflitos e diálogos possíveis entre as diferentes formas ou modos de produção distintos. Por exemplo, formas ou modelos de economia solidária e tantas outras36 alternativas ao modo de desenvolvimento econômico hegemônico. Se existem, como são resolvidos os desafios para cada escola (CFRTV e CEACV) no seu objetivo em relação aos lugares onde estão inseridas
36 Existem vários estudos que relatam formas de produção alternativas, entre eles o projeto “A reinvenção da
(envolvimento com a comunidade, com o território)? Como são enfrentados os desafios entre a necessidade de responder ao modelo agrícola de desenvolvimento de cada país e a necessidade de criar e desenvolver produções alternativas a este? Que conteúdos ou espaços-tempos curriculares possibilitam reflexões sobre a divisão social do trabalho no campo, sobre as relações de poder que se confrontam no dia a dia dos egressos?
As experiências de reconhecimento dizem respeito aos diálogos e dissidências possíveis entre sistemas de classificação social, isto é, experiências possíveis de natureza não-capitalista no modo de produção capitalista. Por exemplo, as ações e práticas desenvolvidas pelos egressos aqui estudados, em suas experiências de vida social e coletiva, na reprodução social que, apesar de parecerem sutis, são de cunho contra-hegemônico pelo teor de resistência nelas observados. No que respeita ao campo das experiências de democracia, que emergem dos diálogos e dissidências prováveis entre o modelo hegemônico de democracia (democracia representativa liberal) e a democracia participativa, podemos dar como exemplo o orçamento participativo da cidade de Porto Alegre37. Que alternativas geopolíticas são experienciadas pelos egressos em seus espaços-tempos de vida coletiva?
As experiências de comunicação e de informação tratam dos diálogos e dissidências advindos “[...] da revolução das tecnologias de comunicação e de informação, entre os fluxos globais de informação e os meios de comunicação social globais” (SANTOS, 2002, p. 259), mas também dos desafios e possibilidades que trazem “[...] as redes de comunicação independente transnacionais e as mídias independentes alternativas” a esta dinâmica. Em que aspectos os integrantes das escolas CFRTV e CEACV se utilizam de fluxos globais de informação, associados à emancipação política, individual ou coletiva, para que aquelas possam ser consideradas experiências alternativas no trabalho camponês e nas ações do cidadão crítico e político?