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6.2 Impl´ementation num´erique du reconstructeur MMSE

6.2.2 Reconstructeurs non MMSE

Como anunciamos no início, no terreno sociológico, porém, a palavra jogo pode ser interpretada de forma equivocada como “manipulação”, “encenação”, “dissimulação” ou qualquer farsa que se revista com contornos de uma seriedade malipulatória, fazendo levantar a suspeita de que os seus protagonistas não acreditam realmente no que dizem e/ou fazem. Converter em jogos os encontros sociais seria semelhante a uma peça de teatro na qual todas as falas e papéis, que já estariam pré-definidos, precisando apenas contar com a conivência tácita de todos, que sabem exatamente a máscara da falsidade que recobre a cena inteira, esperando seu momento certo de contribuir com a farsa. Ou seja, numa visão comum, pensar em práticas sociais como jogos é sinônimo de fraude, de performance de atores cênicos. Se se conseguir convencer alguém da veracidade, ao menos das emoções, seria apenas pela qualidade dos atores, que por meio de seu treino e habilidades repetitivamente reiteradas, convencem pela gravidade e fidelidade com que se atua. Mas a cena continuaria sendo fajuta, por mais convincente que fosse.

Nos textos sociológicos de Bourdieu, há vastas aparições do termo “jogo”, que significa, nesse uso feito pelo autor, qualquer atividade coletiva que existe e se perpetua pela contribuição conjunta que anima essa atividade compartilhada. Ao “investimento no jogo”, Bourdieu se refere a isso pelo termo illusio. Cada jogo tem seu investimento emocional, a

illusio que dá significado pessoal e social à ação. Os jogos, por isso mesmo, estão investidos

de uma parte essencial do ser humano e de seu ser social. A atribuição de sentido que é dada aos jogos guarda relação com uma condição fundamental de toda ação social: anterior à ação existe um sentido produzido em sociedade para que tal tipo de empreendimento valha a pena ser realizado. As ações dos indivíduos são movidas não apenas por energia física, mas também por energia simbólica, que é o mais forte incentivador e mecenas dos produtos humanos. É o lugar onde se besuntam os bens e atividades sociais, conferindo-lhes valor. As ações sociais recebem de seus praticantes, além da reprodução (história incorporada e objetivada), a percepção de que determinada atividade merece ser perpetrada. Os investimentos simbólicos não são feitos a fundo perdido, mas, por meio da correlação das estruturas incorporadas e das objetivas, se tornam uma atividade convertida em algo relevante e livre de sua gratuidade e da banalidade de coisas jogadas ao vento. Um dado jogo, então, é a condição social para a reunião de investimentos parciais que se combinam, produzindo a vida

135 social. É um exemplar no qual se reproduz uma pequena fração da vida social. A sociedade está nos seus múltiplos jogos.

Ao contrário de um espetáculo teatral, as cenas que se desenrolam nos jogos são mais reais para aqueles que estão no palco do que para os que apenas assistem de fora, na platéia. O entendimento de Bourdieu, quando se refere a “jogo”, deixa entrever que o microcosmo dos atores em ação é difícil de ser captado pelos profanos, dada a sua especificidade; a manipulação simbólica de procedimentos pode ser inapreensível para os não-participantes, por conter valores simbólicos que são intangíveis para aqueles que assistem a pessoas que lutam, esbravejam e levam a cabo seus interesses e posições, como se fosse o bem mais valioso que estes últimos teriam. Na verdade, é exatamente isso do que se trata. A validade e urgência dos jogos só não são assimiláveis para aqueles que dele não participam ou simpatizam se se levar em conta que a ação humana está envolvida em valores de outras ordens que não se reduzem ao poder econômico, embora haja casos em que estes também constituem uma das motivações. Então, a cena dos jogos é como uma performance na qual se acredita verdadeiramente no seu papel. O investimento no jogo, a illusio, sustenta as ações, dando-lhe sentido e realidade pois, na ausência da mesma, careceriam de sentido tanto subjetivo (porque os agentes podem dissolver o jogo por apatia e incongruência), quanto objetivo (porque nada estaria sendo buscado pelos envolvidos e a inexistência de um objeto de litígio implodiria o jogo).

Assinalado isso, para Bourdieu, há na sua obra tanto usos comuns de “jogo”, como o acima descrito, como há também a noção de “jogo de linguagem”. No primeiro caso, trata-se, como já frisado, de atividades sociais cujos integrantes investem tempo e recursos para neles participar. No segundo caso, o sociólogo se assemelha ao que Wittgenstein diz sobre o funcionamento prático da linguagem. Tanto no singular como no plural, o certo é que a dimensão pragmática é ressaltada e acolhida para se referir aos domínios simbólicos que configuram usos e modalizações especiais a cada caso. Ou seja, jogo de linguagem como o repertório lingüístico e conceitual de determinadas pessoas envolvidas num campo ou numa matéria específica, que, ao fazerem isso, demarcam certas nuanças que lhes são próprias, a

doxa. A diferença em relação a Wittgenstein é que, para Bourdieu, falar não é apenas um jogo

de aprendizagem e aplicação, mas também um jogo de poder que se dá entre os falantes; que exercem poder social pela linguagem. Para uma leitura a partir de Bourdieu, o mais correto é falar de jogo de linguagem como um acervo lingüístico que seria mobilizado nos espaços sociais como uma forma verbalizada de praticar uma linguagem coletiva, que implique o reconhecimento e a concorrência entre as partes. Bourdieu está mais preocupado com o poder simbólico que está codificado na linguagem e que não se resume apenas ao seu aspecto

136 arbitrário (como poder que se exerce por desconhecimento da sua origem e historicidade), mas também toda uma visão econômica das práticas sociais que podem ser apreendidas por meio da observação de que linguagem também é poder. Para ele, dentro da sua teoria sociológica, os jogos de linguagem relevantes para a pesquisa são os jogos de poder simbólico. Os jogos sociais têm uma gramática própria que, apesar de serem feitas nos idiomas ordinários – a língua nativa de cada sociedade – e, por isso, não infringirem a concordância comum dos falantes, criptografam outras dimensões (camadas) da mesma, embora não sejam transcendentais, mas sociais. Seria uma gramática profunda, que contém elementos simbólicos além da mera comunicação explícita.

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Na acepção que trata jogo de linguagem como uma linguagem própria de grupos, os usos de jargões de grupos corporativos acentuam o afastamento entre os iniciados e os profanos. É certo que as divisões que o estudioso pode adotar como critério metodológico encontrarão vários níveis possíveis de classificação para pessoas que tenham habitus lingüísticos semelhantes ou, pelo menos próximos dentro da topologia social, àqueles muito afastados. Mas, além disso, haverá também aqueles modos de vida monopolizados ou oligopolizados cuja condição de entrada não é tanto a linguagem característica usada pelos iniciados, mas uma trajetória pessoal que leva em conta outras relações de forças simbólicas. Porém, como expressa um modo de vida dentro de uma sociedade, a linguagem se sobressai com uma das distâncias evidentes que demarcam os usos especializados dos eventuais ouvintes. Pensemos no caso da economia econômica, como quer Bourdieu, e na linguagem usada pelos juristas e operadores do direito em geral. O “economês19” e o “juridiquês” são esses jogos de linguagem que, por sua importância social para as pessoas direta e indiretamente afetadas por sua influência, privilegia um corpo de pessoas capazes de entender a rede de conceitos que lá se instalaram, dando um bom exemplo de como ocorre a filtragem dos indivíduos que transitam em certos jogos de poder. O isolamento dos seus usos aplicações

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A tradução de termos técnicos para a linguagem comum é motivo de destaque, principalmente quando há áreas de conhecimento nos quais o jogo de linguagem é tão objetivamente e subjetivamente marcado que não se consegue mais verter numa linguagem para uma compreensão mais simples. O recém-falecido economista norte- americano Milton Friedman teria com um de seus méritos conseguir transpor para a linguagem simples do cotidiano, ou pelo mais acessível para não-especialistas, os termos da economia: “Ele mostrou como quem sabe do que está falando não tem medo de discutir e levar seus argumentos para o maior público possível. Talvez a maior contribuição de Friedman tenha sido para a democracia – levar idéias desenvolvidas nas torres de marfim da academia moderna para o maior público possível” (Língua Portuguesa, número 15, p.49. Editora Segmento, 2007)

137 e teóricas e práticas numa esfera autônoma da sociedade20 mostra que esses modos de vida e a linguagem, que se faz exprimir suas ordenações e procedimentos, é uma oportunidade para um exame sociológico das relações que se cristalizam na linguagem. A linguagem é poder; e manter os leigos, que provavelmente poderiam ter interesse em saber o que é praticado às suas expensas, também. Deixar um público ignorante sobre o jogo pode ser uma das condições de se manter o monopólio e de afastar as críticas e contestações dos profanos.

Compreender a gênese social de um campo, e apreender aquilo que faz a necessidade específica da crença que o sustenta, do jogo de linguagem que nele se joga, das coisas materiais e simbólicas em jogo que nele se geram, é explicar, tornar necessário, subtrair ao absurdo do arbitrário e do não-motivado os actos dos produtores e as obras por eles produzidas e não, como geralmente se julga, reduzir ou destruir. (BOURDIEU, p. 69: 2005b)

Ou seja, para Bourdieu, penetrar nesses espaços sociais onde se joga é perceber que a tarefa do sociólogo é captar o que os leigos e os próprios jogadores talvez não se dêem conta. Vemos também no trecho citado que, além de compararmos a sociedade a uma idéia geográfica, como espaço de relações, podemos acrescentar que é útil também pensar como espaço de jogos sociais. A idéia de jogo como a síntese de arbitrariedade, processo de formação de seus jogadores, investimento psíquico e regras que podem ser explícitas ou implícitas. “Jogo” também porque só faz completamente sentido para os que jogam efetivamente, não despertando maiores interesses para os observadores passivos. Essa noção de jogo, que nos escritos de Wittgenstein são exemplificados principalmente no jogo de xadrez, é o mote para Bourdieu ir além das aparências de normalidade das formas sociais e lingüísticas e investigar o algo que está por trás dos usos e ações.

Todo integrante de uma comunidade tem um repertório comum que o faz ter acesso aos usos igualmente comuns. O interesse sociológico começa quando há usos diferenciais entre as pessoas que podem ser catalogadas em idade, sexo, nível social (educacional e econômico) etc. Ou seja, embora se conheça os jogos e seus funcionamentos práticos, nem todos fazem usos deles, segmentando os usos às pessoas que precisam deles, reproduzindo-os repetidamente. Então, com respeito à prática lingüística, com exceção dos usos mais elementares, a linguagem é usada desigualmente, porque corresponde a desvios individuais diferenciais com a cultura. A inserção social traz como desdobramento, no âmbito da linguagem, a distinção entre saber uma técnica e aplicá-la (ter a oportunidade de). Na acepção de “jogo de linguagem” como o conjunto de linguagem comum partilhado por um grupo,

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138 significa o segundo estágio dessa relação entre o indivíduo e a linguagem: agora ela é constituinte de uma prática que distingue os participantes dos que estão de fora.

Os jargões profissionais não são o único caso em que encontraremos a distinção do privilegio de manipulação de certos códigos. Na citação abaixo, vejamos como a organização racista norte-americana, Ku Klux Klan, foi desbaratada, e então teremos a noção exata de como um uso particular de um certo jargão pode ser decisivo para a sobrevivência de um grupo que, objetivamente, existe antagonicamente aos que estão de fora. O controle do jogo de linguagem de um grupo é uma das condições dele se manter, como monopólio, e intimidar aqueles que são ignorantes quanto aos meandros lingüísticos e técnicos que lhes permanecem inacessíveis:

Isso não se deu ao fato de Kennedy ser corajoso, decidido ou persistente, embora ele fosse todas essas coisas. Tudo aconteceu porque Kennedy percebeu o poder da informação em si. A Ku Klux Klan foi um grupo cujo poder – à semelhança daquele dos políticos e dos corretores de imóveis ou da Bolsa – em que grande parte resultava da sonegação de informações. Uma vez nas mãos erradas (ou, dependendo do ponto de vista, nas mãos certas), boa parcela da superioridade do grupo vira pó. (DUBNER, p.68)

A linguagem secreta da organização caiu em domínio público, se tornando literalmente

brincadeira de criança, o que abalou profundamente a existência daquela organização.

Você acertou se concluiu que muitos especialistas usam contra você as informações que detêm. Eles dependem do fato de que você não as possui. Ou que fica de tal forma confuso diante da complexidade de operá-las que acaba não sabendo o que fazer com elas. Ou, que, impressionado com a competência que demonstram, não ouse desafiá- los. (ibidem, p.73)

O poder simbólico que se encontra nas mãos dos portadores de informações na forma de códigos, termos técnicos, que estão no acervo daqueles que dominam um jogo de linguagem qualquer, é uma amostra de como a relação entre linguagem e poder é muito estreita. Sendo o ser social topológico e temporalmente finito, a fragmentação das informações fomenta o surgimento de peritos de toda ordem cujo saber é mais o domínio conceitual (o conhecimento dos códigos lingüísticos) do que, às vezes, habilidade técnicas. Ou seja, salvo as situações bem específicas nas quais se exige know-how, um saber interventivo (como saber operar um paciente na mesa de cirurgia), há uma parte considerável de procedimentos que é realizada pelo manejo da terminologia do jogo. O poder técnico, nestes casos, atribuído aos especialistas pode ser mais virtual do que real. De qualquer modo, aqueles que estão fora do jogo são potenciais reféns daqueles que estão enredados no jogo. Numa

139 visão em retrospecto, isso ocorre desde a primeira divisão do trabalho social, quando ocorreram as primeiras formas de segregação de tarefas. Dentre as modalidades lingüísticas que expressam uma carga de poder monopolista, temos também o direito: o juridiquês também se constrói e se reproduz como o código que sobrevive graças ao uso de arcaísmos e uso de palavras que denotam uma característica que os seus participantes procurarão transmitir à sociedade. Bourdieu não se furta de tecer algumas considerações sobre os traços marcantes desse jogo:

O efeito de apriorização, que está inscrito na lógica do funcionamento do campo jurídico, revela-se com toda a clareza na língua jurídica que, combinando elementos diretamente retirados da língua comum e elementos estranhos ao seu sistema, acusa toda uma retórica da impessoalidade e da neutralidade. (...) O efeito da neutralização é obtido por um conjunto de características sintáticas tais como o predomínio das construções passivas e das frases impessoais, próprias para marcar a impersonalidade do enunciado normativo e pra constituir o enunciador em sujeito universal, ao mesmo tempo imparcial e objetivo. (BOURDIEU, p.215: 2005b).

O nível de linguagem em cada instância social demarca o que pode ser dito e como deve ser a fórmula apropriada. No caso do poder jurídico, a maneira lingüística de manifestar a legitimidade consentida é usar a linguagem de modo que se faça desaparecer o poder do monopólio, a violência contida nele, e que prevaleça, pelo menos ao nível da apresentação de enunciados, a isenção dos julgamentos e vereditos. Seria necessário um estudo sobre o campo jurídico no Brasil, já que, na experiência comum, os membros do corpo jurídico são percebidos com “intocáveis”. Em Bourdieu, já está indicado que, na constituição dos campos simbólicos, há a distinção entre os que participam do jogo, por terem recursos para tal, e aqueles que não preenchem as condições para terem a permissão de jogar. O campo teria como um dos seus traços marcantes a autonomia que goza em relação a outros espaços sociais. Apesar disso, no Brasil, aparentemente, haveria também uma autonomia bem mais incisiva, como no caso do campo jurídico, do que aquelas que aparecem nos trabalhos de Bourdieu.

A divisão social do trabalho cria esses jargões afastados dos usos comuns como inscrição, na esfera da linguagem, daquilo que se expressa como trabalho diferencial na esfera da prática. O campo jurídico é um deles, com suas características distintas quanto à sua modalidade lingüística. Mas o que serve para o direito serve também para entendermos o funcionamento de todos os jogos “sérios”: eles não podem prescindir de dotar sua linguagem de uma organização sistemática, que só quem está profundamente envolvido no jogo conhece

140 suas lacunas. A coerência da linguagem faz com que o jogo funcione na maior parte do tempo. Mas a produção de sentenças nem sempre cumpre as expectativas dos leigos, que vêem no aparelho judiciário um locus de poder que se exerce de cima, que só a poucos está reservado, sendo inacessível às pessoas comuns. Essas pessoas, por sua vez, sob a ótica da experiência de quem experimenta seus efeitos, somente através de especialistas conseguem que suas demandas jurídicas e legais sejam atendidas. A distância entre direito e justiça é semelhante à distância que separa as palavras contidas num dicionário das palavras que efetivamente são levadas a termo. As dificuldades para quem precisa recorrer a justiça começam pela linguagem do jogo e monopólio dela e a doxa de seus procedimentos, de difícil assimilação para os não-iniciados.

Então, confundir o jogo, lato sensu, com essa conotação sociológica não resulta em deturpação ou imprecisão do termo, mas apenas se faz perceber que a linguagem e as práticas sociais existem no seu entrelaçamento entre o indivíduo e seu meio, e, num segundo momento, entre uma linguagem que se organiza para dar conta de demandas mais voltadas para grupos e espaços de poder. Por sinal, o entrelaçamento não tem apenas a propriedade de fixar as palavras de seus usos, mas a própria condição social de existência se engendra nos jogos.

O jogo se apresenta àquele que é “enredado” pelo jogo, absorvido pelo jogo, com um universo transcendente e capaz de impor incondicionalmente seus objetivos e normas próprios: mesmo que o sagrado só exista para o sentido do sagrado, esse último se depara com o sagrado como plena transcendência e a illusio só é ilusão ou “divertimento”, como se sabe, para quem apreende o jogo de fora, do ponto de vista do espectador imparcial. (BOURDIEU, p.184: 2001a)

A arbitrariedade dos jogos sociais, a sua base artificial, que é própria da cultura, é o que inicialmente está por trás das críticas sobre a impropriedade de se falar de jogos quando se fala de fatos sociais e afins. Bourdieu está ciente de que, para os que contemplam o jogo de fora, não há razão para imputar qualquer “necessidade” transcendental à existência do jogo que, por ser produto humano, se fixa e se funda em contraposição à natureza instintiva dos outros seres. Sabemos que são nos jogos que se criam as identificações e os sentidos mundanos para os indivíduos (justificações para viver que são dadas pelos jogos de que se participa). Fora deles, é o Nada dos sujeitos entregues à sua liberdade e autodeterminação surda de suas pulsões. Então, sendo a linguagem humana a condição de boa parte da assimilação da cultura, podemos dizer que se vive dentro desses jogos como a condição para a aquisição e fundação da gênese subjetiva. O indivíduo gerado dentro da sociedade tem na sua

141 história uma exposição ostensiva a jogos, nos dois sentidos, que o faz ocupar certos espaços sociais com os quais criará laços. O jogo só é importante para quem o assiste e o pratica; fora dos seus espaços de legitimidade eles perdem todo o valor. É o ponto de intersecção entre o indivíduo e a cultura.

A diferença entre jogos de tabuleiros e empreendimentos mais sérios dentro do contexto social é que, enquanto que, no primeiro caso, se pode explicitamente declarar que se joga por jogar, pelo prazer de jogar, no segundo caso, embora o prazer seja a expressão ou