3.3 Série expérimentale 1 : valorisation de la collaboration en réalité virtuelle
3.3.3 Virtusketches : Expérimentation 1 P.P
3.3.3.5 Résultats et discussion
Na tradição teológica ocidental, a começar por Agostinho de Hipona, a abordagem do mistério da Trindade inicia-se pela «unidade de Deus» (De Deo uno), para depois tratar da trindade divina (De Deo trino). Porém, nesse procedimento teológico (percursor da abordagem especulativa) foi-se perdendo a dimensão histórico-salvífica, ou seja, o acesso à Trindade «económica», experimentado no encontro com o Filho (Jesus Cristo) e com o Espírito divino349.
Ora, com a redescoberta da filosofia aristotélica, o dogma cristão é repensado «espe- culativamente», nomeadamente a articulação lógica entre o uno e a trindade em Deus, pri- vilegiando ora um ora a outra. Assim, na primeira metade do século XII, Bernardo de Cla-
raval pede e obtém a condenação de Abelardo, que ele acusa de triteísta (Concílio de Sens, em 1141); e na segunda metade desse mesmo século, é a vez de Gilberto de Porreta e Pe- dro Lombardo serem acusados de «quatridade», por proporem uma realidade superior (Summa Res) distinta das três Pessoas divinas. O IV Concílio de Latrão (1215) daria razão a Pedro Lombardo e condenaria Joaquim de Fiore, seu altercador. Mas, a partir de então, existe o risco de separar o tratado do Ser supremo (o Deus dos filósofos, do deísmo, da En- ciclopédia, do Iluminismo, da piedade burguesa oitocentista) do Deus vivo, revelado nas Escrituras judaico-cristãs350.
348 Cf. Jean DELUMEAU, La peur en occident: XVIe-XVIIe siècles. Une cité assiégée, Paris, Librairie
Arthème Fayard, 1978.
349 Cf. José Jacinto Ferreira de FARIAS, O Espírito e a história. O Pneuma divino no recente debate
sobre as pessoas da Trindade, tese de doutoramento na Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, 1989, p. 127. A teologia oriental parte sempre da Trindade económica, isto é, da revela- ção de Deus na história como horizonte de encontro com o mistério.
350 Cf. Evangelista VILANOVA, Historia de la teología cristiana, vol. 1, Barcelona, Herder, 1987,
p. 784. Mais recentemente, Luisa VALENTE, Logique et théologie: les écoles parisiennes entre 1150 et 1220,
No entender de Philippe Lécrivain, no debate pós-tridentino em torno da liberdade (humana) e da graça (divina), é isso mesmo que acontece: nesse momento, Deus já se en- contra extremamente distante, e cabe a uns e a outros, reformados e católicos, reavaliar a sua omnipotência à luz da autonomia humana351. E a própria doutrina da Trindade acaba por diluir-se: não são só os socianos que defendem haver apenas uma pessoa em Deus, e não três, como também a maior parte dos católicos se tornam, efetivamente, «monoteís- tas», como denuncia, já no século XX, Karl Rahner352.
Na leitura dos textos do padre António Vieira não parece ser ainda esse o caso.
5.1.1 A teologia trinitária clássica
O padre António Vieira conhece bem a teologia trinitária e a linguagem «técnica» desenvolvida nos séculos precedentes relativamente ao mistério divino. Os sermões vieiri- anos, embora sendo escritos de circunstância e surgidos em contexto litúrgico, refletem bem essa teologia e linguagem.
1.º — O «mistério» da trindade de Pessoas na unidade (essência) de Deus353.
2.º — A questão da «distinção» de Pessoas, que não se faz nem pela natureza (por- que têm uma essência divina comum), nem pelas perfeições (que se referem à mesma natu- reza divina) nem pelas obras exteriores (pois atuam sempre em conjunto), mas apenas pela origem: o Pai não provém de ninguém, o Filho é gerado pelo Pai (por via do entendimento: é o Verbo do Pai) e o Espírito que procede do Pai e do Filho (por via da vontade e do amor: é o Espírito do Pai e do Filho)354.
3.º — A explicação do Nome das Pessoas divinas: o «Pai» porque gerou o «Filho» desde toda a eternidade (é o Filho por natureza, distinto dos «filhos» por adoção, os ho-
351 Cf. Philippe LÉCRIVAIN, «Liberté et grâce au XVIIe s. et la part prise par la Compagnie de Jésus
dans ce débat», in Henri LAUX-D. SALIN (dir.), Dieu au XVIIE siècle. Crises et renouvellements du discours:
philosophie, esthétique, théologie, mystique, Paris, Éds. Facultés Jésuites de Paris, 2002, p. 193.
352 Cf. Philip DIXTON, Nice and Hot Disputes: The Doctrine of the Trinity in the Seventeenth Century,
Londres/Nova Iorque, T&T Clark, 2003, pp. XI e XIII. Segundo este autor, durante o séc. XVII, a doutrina da
Trindade deixou de ser um mistério da fé, para se tornar um problema teológico (p. 1). O Espírito Santo é praticamente esquecido na teologia (p. 213) e Deus – o Deus da razão – é «domesticado»: é visto mais como um Governador sisudo e um Arquiteto racional, do que como um Amante indomável (p. 215).
353 A título de exemplo, veja-se: «Sermão da primeira sexta-feira da Quaresma» (cf. OC, II, II,
p. 183), «Sermão do Santíssimo Sacramento» (cf. OC, II, VI, p. 98), «Sermão de Santa Teresa e do Santíssi- mo Sacramento» (cf. OC, II, VI, p. 124), «Sermão de Nossa Senhora da Graça» (cf. OC, II, VII, pp. 302s), «Sermão VII» do Rosário (cf. OC, II, VIII, pp. 231s), «Sermão de Santa Catarina» (cf. OC, II, X, pp. 394s), «Sermão de Santo Inácio, Fundador da Companhia de Jesus» (cf. OC, II, X, p. 499).
354 Cf. «Sermão de São Pedro» (cf. OC, II, XI, pp. 257-259), «Sermão gratulatório e panegírico»
mens). «Filho» porque gerado pelo «Pai», e «Verbo» porque fruto do entendimento do «Pai». «Espírito Santo» porque aspiração ou impulso do amor do Pai e do Filho, ao qual se atribui a santificação do homem355.
4.º — Enfim, as operações das Pessoas divinas. Ad intra: fundam-se nas relações de origem (a paternidade, a filiação e a aspiração)356. Ad extra (embora haja uma ação comum, existem atribuições próprias de cada Pessoa)357: ao Pai Omnipotente, as obras da omnipotência como a Criação e a conservação das criaturas; ao Filho Sabedoria, as obras da sabedoria, como a Redenção e o Juízo Final; ao Espírito Santo Amor, as obras do amor, como a santificação das almas e os dons ou carismas358.
Além disso, o pregador jesuíta também dá conta de algumas questões de escola, como a relativa à encarnação das diferentes pessoas da Trindade359.
5.1.2 O Deus vivo da Bíblia
Mas o que é mais decisivo em Vieira, e que António José Saraiva e outros viram muito bem, é a imagem de Deus quer no «Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda» (1640)360, quer no «Sermão de Santa Teresa» (1654). O primeiro dos sermões é tanto mais decisivo, quanto nele já aparecem as características fundamentais da teologia profético-escatológica de Vieira. Senão vejamos.
355 Cf. «Sermão XXI» do Rosário (cf. OC, II, IX, p. 188), «Sermão de Santo António» (cf. OC, II, X,
pp. 193s).
356 Cf. «Sermão XV» do Rosário (cf. OC, II, VIII, pp. 432-434).
357 O padre António Vieira aplica também as operações da retórica às Pessoas da Trindade, p. ex.: o
Filho ensinando, o Espírito deleitando e o Pai movendo (cf. «Sermão do Nascimento do Menino Deus», OC, II, I, p. 297).
358 Cf. «Sermão da segunda Dominga do Advento» (cf. OC, II, I, pp. 205-206), «Sermão da terceira
dominga post Epiphaniam» (cf. OC, II, I, p. 416), «Sermão da primeira sexta-feira da Quaresma» (cf. OC, II, II, p. 194), «Comento ou Homilia sobre o Evangelho» (cf. OC II, II, p. 295), «Sermão do Mandato» (cf. OC, II, IV, p. 272), «As cinco pedras da funda de David: Discurso IV» (cf. OC, II, IV, p. 93), «Sermão de Santo António» (cf. OC, II, X, pp. 167s), «Sermão de Todos os Santos» (cf. OC, II, XI, pp. 489-492).
359 Cf. «Sermão de Nossa Senhora da Graça» (cf. OC, II, VII, p. 267).
360 Cf. António José SARAIVA, «O pregador, Deus e o seu povo na Bahia em 1640: estudo do Sermão
pela Vitória das Nossas Armas contra as dos Holandeses», in ID., O discurso engenhoso. Ensaios sobre Vi-
eira, Lisboa, Gradiva, 1996, pp. 111-137; Frits SMULDERS, «Que diga o herege, que Deus está holandês?!
O Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda (1640) em duas versões com dife- renças úteis e fúteis», in Terceiro Centenário da morte do Padre António Vieira: Congresso Internacional. Actas, vol. III, Braga, UCP-Província Portuguesa da Companhia de Jesus, 1999, pp. 1559-1576. Citando
Raynal, que dizia que este sermão era o mais extraordinário que alguma vez se ouviu num púlpito cristão, Smulders sublinha que a argumentação é verdadeiramente provocadora e audaciosa para a época. Mas, como também sublinha Saraiva, não se pense que é uma peça meramente retórica! O mais extraordinário é ele colocar-se como intermediário entre o povo e Deus e, qual Moisés, interpelar o Senhor da história sobre os eventos em que participa. Esse gesto revela uma grande confiança na intervenção de Deus na história hu- mana.
O Deus vieiriano deste sermão é o Deus vivo das Escrituras. Como observa A. J. Sa- raiva, não estamos perante uma «noção» útil de uma mise en scène literária, mas diante de uma «pessoa», de um Tu (ou de um Vós) com quem nos relacionamos pessoalmente, que pode comover-se até «às entranhas» e revelar ternura e arrependimento, como ocorre com o Deus veterotestamentário ou com o Pai de Jesus Cristo361. Ora, este Deus bíblico é o Deus do Reino.
O mais extraordinário do sermão pregado na Baía está no facto de o pregador não se dirigir ao povo, mas, antes, ao próprio Deus. Vieira toma o lugar do profeta, não para falar ao povo «em nome de» Deus, mas, como também acontece em muitas passagens da Bíblia hebraica, para interpelar Deus em nome do povo. Margarida Vieira Mendes já havia cha- mado a atenção par o carácter «biográfico» dos sermões vieirianos362. E aqui temos um bom exemplo disso. Vieira assume-se como profeta e intermediário entre Deus e o seu po- vo. Certamente, o jesuíta pensa nos grandes personagens das Escrituras Sagradas (Abraão, Moisés, David, os profetas) que interpelaram Deus e o fizeram recuar nos seus propósitos punitivos363. Ou, talvez, se recorde de Job, imagem da «autonomia radical do homem dian- te de Deus, seu Criador»364. E para «converter» Deus, o pregador apoia-se sobretudo na sua infinita misericórdia:
O em que se manifesta a Majestade, a grandeza, e a glória de vossa infinita Omnipotên- cia, é em perdoar, e usar de misericórdia: Qui Omnipotentiam tuam, parcendo maxime, et
miserando, manifestas. Em castigar, venceis-nos a nós, que somos criaturas fracas; mas em
perdoar, venceis-Vos a Vós mesmo, que sois todo-poderoso, e infinito. Só esta vitória é dig- na de Vós, porque só vossa Justiça pode pelejar com armas iguais contra vossa Misericórdia; e sendo infinito o vencido, infinita fica a glória do vencedor365.
Com este pleito366, o pregador esperava mover Deus a salvar o seu povo da Baía des- ta situação aflitiva. Posteriormente, as suas profecias do «futuro» de Portugal manifestarão
361 António J. SARAIVA, Op. cit., pp. 113-123.
362 Margarida V. MENDES, Op. cit., p. 15. Na proposta de Vieira Mendes, «o jesuíta integrou a sua
ação discursiva num modelo ou padrão aparentemente binário, correspondente ao modo como entendeu ou avaliou a sua biografia apostólica: a do profeta e a do missionário» (p. 95).
363 Cf. António J. SARAIVA, Op. cit., p. 112. 364 Ibid., p. 114.
365 OC, II, XIII, p. 93. Vieira expressa aqui o que um jesuíta nosso contemporâneo denomina de
«princípio misericórdia», ou seja, considerar a misericórdia como «o princípio fundamental da atuação de Deus e de Jesus, e que também o deve ser da Igreja» (Jon SOBRINO, El principio-misericordia: Bajar de la
cruz a los pueblos crucificados, Santander, Sal Terrae, 1992, p. 32).
Também o padre Manuel Antunes sublinhava que é a misericórdia que confere sentido à história (cf. M. ANTUNES, «O homo misericors (II)», in Brotéria, 96 (1973), pp. 14-22. Situada no âmago das media- ções humanas, a misericórdia é também, para este pensador jesuíta contemporâneo, «a grande via de acesso à Transcendência».
a mesma confiança no Deus, Senhor da história, capaz de instaurar o reino de Cristo neste mundo, contando com a colaboração dos portugueses.
A comunidade representada pelo jesuíta reveste um carácter particular: é «povo elei- to» à semelhança do antigo povo de Israel. O tema do sermão é tomado do Salmo 43, que na época era muito usado numa hermenêutica de carácter nacionalista367. Para Vieira, po- rém, o interesse pelo salmo não era apenas alegórico – na linha do que já tinha proposto São Jerónimo, e que é mencionado logo no início do sermão –, mas sobretudo histórico. Entre Deus e os portugueses também existe uma aliança, estabelecida com o primeiro rei português, D. Afonso Henriques, nas vésperas da batalha de Ourique.
Com tanta propriedade como isto descreve Davi neste Salmo nossas desgraças, contra- pondo o que somos hoje ao que fomos enquanto Deus queria; para que na experiência pre- sente cresça a dor por oposição com a memória do passado. Ocorre aqui ao pensamento o que não é lícito sair à língua; e não falta quem discorra tacitamente que a causa desta dife- rença tão notável foi a mudança da Monarquia. [...] Mas o mesmo Profeta no mesmo Salmo nos dá o desengano desta falsa imaginação: Tu es ipse Rex meus, et Deus meus, qui mandas
salutes Jacob [43,5]. O Reino de Portugal, como o mesmo Deus nos declarou na sua funda-
ção, é Reino seu, e não nosso: Volo enim in te, et in semine tuo Imperium mihi stabilire; e como Deus é o Rei: Tu es ipse Rex meus, et Deus meus; e este Rei é o que manda, e o que governa: Qui mandas salutes Jacob; Ele que não Se muda é o que causa estas diferenças, e não os Reis que se mudaram368.
Como observa A. J. Saraiva, o verdadeiro rei de Portugal, para Vieira, não é Filipe IV, mas o próprio Deus, que também está na origem da «mudança da Monarquia»369. Aliás, mais tarde, Vieira utilizará este mesmo salmo para defender que Cristo foi, por he- rança, rei temporal de Israel, de modo que o seu reino terrestre não era apenas de carácter espiritual, mas também temporal370.
No «Sermão de Santa Teresa» (1654), o pregador jesuíta passa do registo da provi- dência divina relativamente a um povo – o «seu» povo –, para o registo do testemunho pessoal, aquando do naufrágio sofrido ao largo das ilhas açorianas. No meio do perigo, in-
367 O exemplo mais conhecido é o livro do teólogo madeirense António Veloso de LIRA, Espelho de
Lusitanos em o cristal do Psalmo Quarenta e três, cuja vista em summa representa este reino em três estados [...], Lisboa, 1643.
368 OC, II, XIII, p. 75.
369 António J. SARAIVA, Op. cit., p. 127. Noutras passagens da sua obra, Vieira dirá que a perda da in-
dependência foi um castigo de Deus pela escravatura dos negros africanos.
370 Este aspeto «político» é defendido noutros sermões deste mesmo tomo XIII da OC: «Sermão dos
Bons Anos» (1642), onde fala do tempo oportuno (kairos) e da segurança da promessa divina (pp. 104-106); «Sermão pelo bom sucesso das nossas armas» (1645), onde diz claramente que a Restauração é obra de Deus (p. 154) e exorta à conversão, e Deus cumprirá as suas promessas e o testamento feito a D. Afonso Henriques (pp. 156-158); ou o «Discurso Apologético» (1689), onde se manifesta queixoso, mas com a esperança de que Deus cumpra o que prometeu (pp. 268s). Cf. Luís Machado de ABREU, «Introdução: a política ou o corpo
voca Deus, por intermédio dos seus anjos, e fá-lo em nome dos seus cristãos do Maranhão, confiado de que Deus o haveria de escutar371. Como no sermão precedente, também agora Vieira se dirige ao Deus misericórdia e bondade, que quer que todos os homens se salvem (cf. 1Timóteo 2,4).
É neste ponto que podemos perceber as palavras de A. J. Saraiva, quando diz que o Deus de Vieira não é o mesmo Deus de Bossuet. O século XVII – e particularmente a orató-
ria sacra – deram muita importância aos atributos divinos da misericórdia e da justiça, com realce para o segundo372. Em Vieira, porém, é o primeiro que é colocado em destaque, quer na pregação, que na reflexão profética. O Deus relevado na Bíblia é o Deus do perdão e da misericórdia, que quer a conversão do pecador, como manifestou pelos profetas e, sobretu- do, em Jesus Cristo. E esse Deus de bondade quer que todos os homens se salvem373, pelo que Vieira chega mesmo a conceber uma «multiplicada misericórdia» divina que envolva os que não ouviram a pregação do Evangelho374.