2.5 Convergence multidisciplinaire et Objets Intermédiaires de Conception (OICs)
2.5.4 Objets pour supporter les phases de convergence multidisciplinaire
António Lopes advertia201, com razão, que é importante referir o impacto da experi- ência dos exercícios espirituais de um mês no jovem António Vieira. Estes exercícios inacianos correspondem a quatro semanas de retiro, em que o aspirante é convidado a «en- trar em contacto íntimo com Jesus Cristo, ou – como diz Santo Inácio – para saborear inti- mamente a sua mensagem e a sua vida»202.
Existe uma tendência geral para desvalorizar a literatura espiritual fora do seu «con- texto» original, ou seja, o âmbito da experiência espiritual. Como tal, atribui-se-lhe pouca importância teológica. No entanto, como bem observou K. Rahner, esta literatura pode ser mais profunda e sábia que a teologia das escolas. Ela formula algumas experiências cristãs em que homens e mulheres foram guiados pela luz do Espírito de Deus e, como tal, consti- tui um lugar teológico privilegiado203.
É neste sentido que vamos sublinhar três momentos fundamentais da experiência es- piritual inaciana: o exercício do «Chamamento do Rei temporal», a «Meditação das Ban- deiras» e o tema da eleição que está omnipresente no mês de exercícios, mas que se revela particularmente na chamada «Contemplação para alcançar o amor»204.
200 Ibid., p. 32. Vieira confirma-o durante o seu processo em Coimbra, afirmando que esses «manuais»
se encontravam ainda na Baía (cf. OC, III, IV, p. 439).
201 António LOPES, SJ, Vieira, o Encoberto: 74 anos de evolução da sua utopia, São João do Estoril,
Principia, 1999, p. 94.
202 Ibid., pp. 94-95.
203 Cf. Víctor CODINA, SJ, «Dos Banderas» como lugar teológico, Barcelona, Cristianisme i Justícia,
2009, p. 4.
204 Para o texto dos Exercícios usamos a edição SANTO INÁCIO DE LOIOLA, Exercícios Espirituais
[EE], tradução do autógrafo espanhol, por Vital Cordeiro Dias Pereira, SJ, organização e notas de F. de Sales
3.1.1 «Chamamento do Rei temporal»
Este exercício205 situa-se no início da segunda semana de retiro (EE, 91-100), numa altura em que se começam a meditar os «mistérios» da vida de Jesus. Tradicionalmente, o exercício é ainda chamado «Segundo fundamento» – em relação ao «Princípio e Funda- mento» do início dos Exercícios [EE, 23] –, uma vez que é nele que se fundamentam as contemplações posteriores.
O exercício está estruturado em três partes. Primeiro, oferece uma «parábola»: fala- se de um rei humano, escolhido por Deus, reverenciado e obedecido por todos os reis e príncipes do mundo, que se dirige aos seus súbditos e lhes revela a sua vontade de conquis- tar os «infiéis» – o qual recebe uma resposta positiva e pronta das pessoas boas. Em se- gundo lugar, a parábola é aplicada ao Rei eterno, Jesus Cristo, que chama todos os homens a trabalhar por Ele – e pelo seu Reino –, para que também possam participar da sua vitória – e qualquer pessoa razoável responderá afirmativamente a este apelo. Por fim, o exercício termina com uma oração, em que ocorre a resposta da pessoa generosa e magnânima (que é suposto qualquer exercitante dever ter).
Não há dúvida que o tema deste exercício é o Reino anunciado por Jesus Cristo; e, por isso, o exercício é também chamado, com frequência, «Meditação do Reino». O qua- dro metafórico é o da realeza medieval num contexto de confrontação com o Islão, ou seja, num claro quadro de apelo à «Cruzada» para conquistar os lugares santos às mãos dos «in- fiéis». Mas é o Cristo ressuscitado, vitorioso, quem chama, e a meditação do Reino move- se entre um «já», que acontece na história humana, e um «ainda não» escatológico ou, se quisermos, metafórico. No atual chamamento, o aspirante é convidado a identificar-se com Cristo e a realizar o seu serviço apostólico com Ele. Há uma clara ênfase na relação pesso- al.
Como sublinha António Lopes, podemos supor que o jovem António Vieira tenha concebido nesta altura a decisão de um voto de dedicar toda a sua vida na conversão dos escravos índios e dos pretos206.
205 O título completo do exercício é: «O chamamento do Rei temporal ajuda a contemplar a vida do
Rei eterno». Para o que a seguir dizemos, cf. sobretudo David L. FLEMING, SJ, «Reino», in GRUPO DE ESPIRI- TUALIDAD IGNACIANA, Diccionario de espiritualidade ignaciana, dir. por José G. de Castro, vol. 2, Bilbao- Santander, Mensajero/Sal Terrae, 2007, pp. 1562-1565.
206 «De idade de dezassete anos fiz voto de gastar toda a vida na conversão dos gentios, e doutrina dos
novamente convertidos; e para isso me apliquei às línguas do Brasil e Angola, que são os gentios, e cristãos boçais daquela Província» (OC, III, IV, pp. 443s).
3.1.2 «Meditação das Bandeiras»
A meio da mesma segunda semana, existe uma outra meditação, intitulada «Medita- ção das [Duas] Bandeiras», que complementa o exercício anterior207. Contrariamente ao que possa parecer, o objetivo desta meditação não é que o aspirante opte por Jesus ou por Satanás (as duas bandeiras), mas, antes, ajudar o exercitante a realizar um discernimento à luz dos Evangelhos, que é o tema específico desta semana.
Inácio continua no domínio do metafórico cavaleiresco medieval, e marcado também pela demonologia desse período histórico. A fonte inspiradora da meditação é a Cidade de Deus de Santo Agostinho, via Flos Sanctorum [A legenda áurea] do dominicano Tiago de Voragine. O contexto é ainda o do combate: o termo «bandeiras» refere-se aos dois chefes, às duas pessoas que recrutam soldados para as suas fileiras. Porém, supõe-se que o exerci- tante já tenha feito a sua escolha de «a quem» seguir (precisamente na oração final do exercício anterior). Por isso, agora, trata-se sobretudo de discernir «o como» seguir e imi- tar Jesus Cristo.
Não é por acaso que esta meditação foi colocada por Inácio entre o batismo de Jesus e as suas tentações no deserto. A exegese atual também reconhece que é esse o contexto em que Jesus teve de refletir e discernir acerca do seu messianismo208. As tentações não são uma narrativa moralizante, de um suposto combate entre Deus e Satã, mas a expressão de dois tipos de messianismo possíveis, duas lógicas às quais a pessoa é confrontada no seu próprio interior: a lógica da autossuficiência, da segurança, da racionalidade sem mis- térios, triunfalista e alheia ao sofrimento do povo (uma lógica de «sistema»); e a lógica da solidariedade, da vulnerabilidade, da simplicidade e da pobreza (alternativa ao «sistema»).
Pedir para ser recebido sob a bandeira de Jesus, em pobreza e opróbrios (EE, 147), é claramente escolher o estilo de vida de Jesus: a lógica da solidariedade (o abaixamento quenótico de Deus), da vulnerabilidade (aceitar o conflito com os poderosos), da pobreza (a opção preferencial pelos pobres). E este era o programa de Inácio para a Companhia de Jesus, como revela uma passagem de uma carta de Polanco aos jesuítas de Pádua: «A ami- zade com os pobres torna-nos amigos do Rei eterno»209. A intuição inaciana tal como é expressa na «Meditação das Bandeiras» é profundamente profética, face à Igreja de cris-
207 Cf. Maurizio COSTA, SJ, «Banderas», in GRUPO DE ESPIRITUALIDAD IGNACIANA, Diccionario de
espiritualidade ignaciana, pp. 211-221.
208 Cf. V. CODINA, Op. cit., p. 7, que se baseia sobretudo na investigação de J. A. PAGOLA, Jesús.
Aproximación histórica, 5.ª ed., Madrid, PPC, 2007.
tandade do seu tempo, aliada do poder político e económico, e que ele desejava reformar, tanto ou mais que o seu contemporâneo Martinho Lutero.
3.1.3 «Contemplação para alcançar o amor»
A «Contemplação para alcançar o amor» (EE, 230-237) ocorre na última semana de retiro210. A intenção de Inácio parece ser bastante clara: «Reenviar o exercitante ao mundo com uma determinada e permanente chave espiritual: encontrar Deus em tudo, para poder deste modo amá-lo e servi-lo em tudo»211. Esta chave espiritual – ou, se quisermos, «devo- ção» – seria a expressão mais clara da própria experiência espiritual de Inácio, durante toda a sua vida, e que ele procurou incutir aos seus discípulos: toda a realidade criada é lugar de encontro, adoração, amor e serviço a Deus. O amor suplicado nesta contemplação é um modo permanente de ser, estar e atuar no mundo. É obra da graça divina e, simultaneamen- te, fruto do esforço humano («alcançar», ou seja, «conseguir» por seu próprio esforço).
Inácio não costuma usar muito o substantivo «amor», que para ele tem como que uma aura sagrada e é praticamente associado sempre a «serviço». Esse substantivo remete- ria, em primeiro lugar, para uma colaboração com Deus no mundo, à maneira de Jesus. É assim que se podem entender as duas advertências de Inácio: primeira, a de que «o amor se deve pôr mais nas obras que nas palavras» (EE, 230); segunda, a de que «o amor consiste na comunicação recíproca [do que ama à pessoa amada, e vice-versa]» (EE, 231). Em se- gundo lugar, esse amor tem uma origem claramente divina: a) a fonte de todo o amor é o amor com que o Criador e Senhor abraça – e abrasa – toda a alma devota (cf. EE, 15); b) é o amor da entrega a Cristo, do seguimento e da identificação com Ele, que brota do agra- decimento pelo que Ele fez por nós (EE, 95-98); c) o amor que leva o crente a «descer» com Cristo ao mundo, para encontra-lo em todas as coisas, e em tudo amá-lo e servi-lo (EE, 233).
210 Cf. J. António GARCÍA RODRIGUEZ, SJ, «Amor», in GRUPO DE ESPIRITUALIDAD IGNACIANA, Dicci-
onario de espiritualidade ignaciana, pp. 148-157.
3.1.4 Dimensão «dramática» dos Exercícios
Os Exercícios Espirituais de Inácio de Loiola já foram objeto das mais variadas in- terpretações. As duas abordagens mais frequentes foram a ascética e a mística.
A abordagem ascética fundava-se no primeiro número dos Exercícios Espirituais, logo após as anotações orientadoras, que diz o seguinte: «Para se vencer a si mesmo e or- denar a sua vida sem se determinar por afeição alguma que seja desordenada» (EE, 21). O conjunto de exercícios apresentados por Inácio serviriam então para «preparar e dispor a alma», para «buscar e achar a vontade divina» para a sua vida, tendo em vista «a salvação da alma» (Primeira anotação; EE, 1). Esta interpretação ascética, fundada no esforço pes- soal, atualmente, parece ser redutora da espiritualidade inaciana e é criticada por seguir mais a ética estoica que o Evangelho de Jesus Cristo.
Ao longo do século XX foi-se impondo uma outra abordagem, que situa os exercícios
inacianos no contexto do século de ouro espanhol: a mística espanhola. Os exercícios da segunda e terceira semanas concentram a atenção do exercitando na contemplação do Rei Eterno, e da sua vida nesta Terra. À medida que ele busca a vontade divina, pretende-se que «o mesmo Criador e Senhor se comunique à alma a Ele devotada, abraçando-a no seu amor e louvor, e dispondo-a a seguir pelo caminho que melhor o pode servir no futuro» (Décima quinta anotação; EE, 15). A experiência do encontro com Deus parece, neste ca- so, ser o elemento mais decisivo212.
Mas existe ainda uma alternativa a estas duas abordagens, e que foi desenvolvida pe- lo teólogo suíço Hans von Balthasar: a dramática. Para este teólogo, o ponto central dos exercícios inacianos encontra-se no elemento da «eleição»: o encontro com Deus (o «Cria- dor e Senhor [da história]») é um encontro com um Deus que elege e chama213. E aqui en- tramos no cerne do projeto teológico da «teodramática» que, através da analogia do teatro, pretende «iluminar o mistério da ação divina na história, tal como é narrada na tradição bíblica»214.
212 Cf. Bernard SESBOÜE, «Spiritualité ignatienne et théologie», in Revue de Spiritualité Ignatienne,
115 (2007), pp. 27-35. Karl Rahner foi o maior impulsionador desta abordagem.
213 Werner LÖSER, «Hans Urs von Balthasar and Ignatius Loyola», in The Way, 44/4 (2005), pp. 115-
130, aqui p. 117.
214 Lucio FLORIO, «Creación y teodrama : incorporación de la historia de la vida en el horizonte de la
Teodramática de H. U. von Balthasar» [em linha]. Jornadas Diálogos: Literatura, Estética y Teología. La libertad del Espíritu, V, 17-19 septiembre 2013. Universidad Católica Argentina. Facultad de Filosofía y Letras, Buenos Aires. Disponível em: http://bibliotecadigital.uca.edu.ar/repositorio/ponencias/creacion- teodrama-incorporacion-historia-vida.pdf [consultado em 22.01.2015]. Cf. Ainda Cecilia Avenatti de PA- LUMBO, «Mirar adentro, actuar desde el centro. Por la via pulchritudinis a la acción teodramática: una voz
A revelação judaico-cristã não é uma doutrina ou uma moral, mas tem que ver com a ação de Deus no mundo, pelo que o topos teatral é perfeitamente útil para a teologia. Po- rém, é preciso afirmar desde já que Deus não é apenas o «diretor» deste «teatro do mundo» (como acontece em Calderón de la Barca), Ele é também, e sobretudo, ator. Em Jesus Cris- to, Ele «comprometeu-se» com a humanidade, fazendo com que a história do mundo se torne um «teodrama». E mais: em Cristo, e graças a Ele, a pessoa, mediante a eleição- chamamento-missão, constitui-se em «pessoa teológica». Ou seja, nesta teodramática, não se trata apenas de atuar, mas de nos convertermos nos papéis que representamos, «quanto mais o homem se aproxima desta identidade [papel-pessoa], com maior perfeição interpre- ta o seu papel»215.
Como jesuíta, Vieira estava profundamente marcado pela espiritualidade dos Exercí- cios, e o carácter dramático dessa espiritualidade não deve ter sido estranho ao nosso autor: o exercício do «Chamamento do Rei temporal[/eterno]» no início da segunda semana, se- guido depois pela «Meditação das Bandeiras» (de Cristo e de Satanás), introduzem o exer- citando nessa dinâmica da eleição-chamamento-missão. Esta experiência pessoal aliada ao estudo exegético-teológico devem ter sido o crisol do sonho vieiriano na sua dupla verten- te: eclesiológica (consumação do Reino de Cristo na Terra) e nacionalisto-imperialista (es- peranças de Portugal)216.