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2.3 De la conception de produit à la conception du couple produit/usage

2.3.1 Le processus de conception de produit

2.3.1.2 Les modèles de processus de conception

Até 1500, eram muito poucos os cristãos que aprendiam – e sabiam – a língua he- braica, ou tinham acesso à literatura rabínica medieval. Os poucos que o faziam – como, por exemplo, Pico della Mirandola, Sanctes Pagnino, Johanes Reuchlin ou François Tis- sard – viam-se obrigados a recorrer frequentemente à ajuda de médicos e rabinos judeus. Mas a situação mudará radicalmente no decorrer do século XVI.

Por toda a Europa difundem-se os estudos de língua hebraica. Num primeiro momen- to, isso acontece através da criação dos chamados «colégios das três línguas [bíblicas]»133 em algumas das mais importantes cidades europeias (Alcalá, Lovaina e Paris). Mas o mo- vimento é bem mais vasto, pois o estudo do hebraico entra definitivamente na Universida- de, sendo particularmente encorajado nas universidades protestantes e nos colégios jesuí- tas. Graças à tipografia, recentemente inventada, começam a publicar-se os textos bíblicos em hebraico (muitas vezes com a respetiva tradução aramaica, os targumim)134, mas tam- bém textos de apoio para o estudo da língua hebraica (as gramáticas) ou até as obras dos mais influentes autores judeus medievais.

Os humanistas dos séculos XV e XVI veem o estudo das línguas cultas (latim e grego,

e depois também o hebraico e o «caldeu» [ou seja, o aramaico]) como um «regresso às fon- tes»135 do Cristianismo, e um instrumento para levar a cabo a tão desejada «reforma» da Igreja. E não são apenas os estudos bíblicos o objeto desta «refontalização», pois o mesmo acontece com a própria patrologia: há um interesse crescente pela obra dos antigos escrito- res cristãos e surgem também as primeiras grandes edições dos Padres da Igreja136.

                                                                                                               

133 O collegium trilingue é uma recomendação do Concílio de Viena (1311/1312) para as principais

universidades europeias, onde se deveriam estabelecer cátedras de Grego e Línguas Orientais. O objetivo desta instituição, de acordo com o seu principal inspirador (Raimundo Lúlio), era pastoral: preparar pessoas para o diálogo com judeus e muçulmanos. Mas esta proposta só viria a concretizar-se praticamente dois sécu- los mais tarde com a criação dos colégios de línguas em Alcalá (1508), Lovaina (1518) e Paris (1530). Bem como a criação de uma escola de línguas orientais no Vaticano, sob Leão X (1515).

134 Temos estes textos em três tipos de publicações: as edições da Bíblia Hebraica (por judeus ou por

cristãos), as Bíblias Poliglotas e a Bíblia Rabínica (de iniciativa cristã, mas com a colaboração de judeus, ou judeus conversos).

135 Cf. Arjo VANDERJAGT, Op. cit.

136 Este interesse pode manifestar-se no mesmo autor. Dois exemplos. O camaldulense Bernardin Ga-

dolo foi o primeiro a editar o texto latino da Bíblia – a Vulgata – com alguma preocupação crítica, tendo ane- xado a Glosa ordinária e a Postila de Nicolau de Lira, ao mesmo tempo que realizava a editio prínceps da Obra Completa de S. Jerónimo. E Erasmo, tradutor e editor do Novo Testamento (bilingue) e editor também de alguns dos principais Padres da Igreja (Orígenes, Jerónimo e Agostinho). Porém, rapidamente, o recurso à patrística transformou-se num instrumento de combate aos «hereges»: a Reforma protestante. É esse o objeti- vo das obras de Jean SICHARD, Antidotum contra diversas omnium fere saeculorum haereses (Basileia, 1528), e de Jean HÉROLD, Orthodoxographa (Basileia, 1555). Paulatinamente, começa-se a constituir uma

Bibliotheca patrística com um objetivo mais amplo: «[ajudar a] interpretar a Bíblia, refutar a heresia, expul- sar a discórdia e ensinar a verdadeira religião» (apud Pierre PETITMENGIN, «Les patrologies avant Migne», in

2.2.1 A hebraica veritas

Este interesse pela língua hebraica tem que ver com uma já antiga preocupação cristã com a hebraica veritas, de que podemos enumerar, brevemente, os momentos mais impor- tantes.

Desenvolvendo-se num meio grego-romano, a Bíblia dos cristãos foi, desde o início, a Septuaginta – a saber, a tradução grega da Bíblia hebraica, levada a cabo em Alexandria –, a que se juntaram depois os escritos neotestamentários. Precisamente devido ao uso cris- tão daquela tradução, durante o século II, os meios helénicos judaicos realizaram novas

traduções da Bíblia hebraica para grego: as conhecidas versões de Áquila de Sinope, Síma- co Ebionita e Teodócio. Pretendiam deste modo desvalorizar a Bíblia alexandrina. Em res- posta a essas realizações, e em defesa da «autoridade» da Septuaginta, Origenes elaborou a sua monumental Hexapla, onde colocava lado a lado o texto hebraico, e uma transcrição do mesmo, o texto grego da Septuaginta e as versões de Áquila, Símaco e Teodócio. Desta «sinopse» sobressaía a qualidade da tradução dos Setenta137, que, além do mais, era para Orígenes um texto «inspirado» por Deus.

Um procedimento algo semelhante está por detrás da tradução latina de Jerónimo, conhecida por «Vulgata». Inicialmente, houve um pedido do papa Dâmaso, logo após o Concílio de Constantinopla (381), para que Jerónimo fizesse uma revisão do texto latino dos Evangelhos, pois o das antigas versões latinas (Vetus Latina) era muito deficiente. Je- rónimo fez uma nova tradução a partir do grego, que dominava perfeitamente, e, animado por este trabalho, iniciou ainda uma revisão de toda a Bíblia, recorrendo inclusive à ajuda de estudiosos judeus da Palestina. Ele inaugurava, deste modo, à semelhança do que fizera Orígenes em relação às traduções gregas, a busca da hebraica veritas, isto é, o confronto com o original hebraico para eventuais correções dos textos traduzidos noutra língua (neste caso, o latim)138. Passados alguns anos, porém, abandonaria este projeto para traduzir de novo todo o Antigo Testamento a partir do original hebraico139.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               

A. MANDOUZE-J. FOUILHERON [eds.], Migne et le renouveau des études patristiques: actes du colloque de

Saint-Flour, 7-8 juillet 1975, Paris, Beauchesne, 1985, p. 20). É assim que é formada a Sacra Bibliotheca sanctorum Patrum de Marquerin de la Bigne (1575), inicialmente com 9 volumes, mas que chegou a ter 27 (na edição Magna Bibliotheca de Lyon, 1677).

137 É este mesmo espírito de Orígenes, de confronto com os originais hebraicos, que presidirá à elabo-

ração das Bíblias poliglotas dos séculos XVI e XVII, a começar pela de Alcalá.

138 Cf. John E. STEINMUELLER, «The History of the Latin Vulgate», in The Homiletic & Pastoral Re-

view, 39 (1938), pp. 252-257 e 347-361; edição online em www.catholicculture.org/culture/library/ view.cfm?id=7470 (acedido em 14 de fevereiro de 2015). Uma obra importante para esta «história» foi a de D. H. QUENTIN, Mémoire sur l’établissement du texte da la Vulgate, Rome, 1922.

A preocupação pela hebraica veritas manter-se-á ao longo da Idade Média. A tradu- ção de Jerónimo, a Vulgata, não se impôs de maneira imediata. (A este propósito, é sinto- mática a polémica que o «Doutor Máximo» manteve com Santo Agostinho, para quem a Septuaginta mantinha ainda toda a sua autoridade.) Isso só aconteceria 400 anos mais tar- de, quando Carlos Magno encarregou Alcuíno de estabelecer uma versão latina que passa- ria a ser o texto oficial da Bíblia no seu império. Alcuíno tomou por base a Vulgata de Je- rónimo, que reviu a partir de um manuscrito antigo próximo do Codex Amiantinus (consi- derado um dos melhores manuscritos da Vulgata), e emendou os erros introduzidos pelos copistas monacais. O mesmo fez, pela mesma época, Teodulfo de Orleães, que recorreu a manuscritos ibéricos e à ajuda de estudiosos judeus (tal como fizera Jerónimo), mas a sua revisão é menos conseguida do que a de Alcuíno, estando por isso na origem de futuras «contaminações» da Vulgata imperial, durante a Idade Média.

O século XIII conhece novas revisões do texto latino, recorrendo ainda aos textos he-

braicos. A mais significativa foi realizada na Universidade de Paris e teve por base o texto estabelecido por Alcuíno. A Biblia Parisiensis depressa se tornaria num texto de referên- cia, por toda a Europa, precisamente devido ao prestígio daquela universidade francesa. Nela, Stephen Langton introduzira, pela primeira vez, a divisão em capítulos, o que viria a facilitar enormemente os estudos bíblicos, e, nomeadamente, os correctoria bíblica prepa- rados por dominicanos e franciscanos ao logo do mencionado século.

Portanto, é com naturalidade que alguns dos primeiros humanistas italianos lançam mãos às línguas bíblicas (hebraico e grego) para melhorar os textos latinos da Bíblia, como acontece com Giannozzo Manetti e Lorenzo Valla na corte de Nicolau V140. Essa consci- ência será ainda mais aguda nos humanistas do século XVI, como o cardeal Jiménez, Eras-

mo ou Sanctes Pagnino, que reivindicam exemplarmente os esforços de Orígenes141 e Je-                                                                                                                

140 Cf. Arjo VANDERJAGT, Op. cit., pp. 167-174; Henning G. REVENTLOW, History of Biblical Inter-

pretation. Volume 3: Renaissance, Reformation, Humanism, trad. de James O. Duke, Atlanta, SBL, 2010, pp. 5-11. Mas Annet den HAAN, «Giannozzo Manetti’s New Testament: New evidence on sources, translation process and the use of Valla’s Annotationes», cit., pp. 731-747. Giannozzo Manetti tinha o projeto de tradu- zir todo o Antigo Testamento com o auxílio dos textos rabínicos; porém só viria a traduzir os Salmos. Loren- zo Valla reviu o texto da Vulgata a partir do original grego. Note-se, também, que foi precisamente Erasmo de Roterdão quem editou, em 1508, o livro Annotationes in Novum Testamentum de Valla, fazendo mais tar- de ele próprio uma nova tradução do NT a partir do grego.

141 O esforço das edições poliglotas retoma o espírito da Hexapla de Orígenes. No início do século

XVI, Aldo Manúcio tem já o projeto de uma edição trilingue da Bíblia (hebraico, grego e latim). Depois da

edição de alguns saltérios poliglotas (ver infra), cabe ao cardeal Jiménez de Cisneros realizar, entre 1514 e 1517, a primeira edição da Bíblia Poliglota, em Alcalá, para a qual contou com a colaboração de alguns ju- deus conversos (cf. Natalio FERNÁNDEZ MARCOS, «Poliglotas y versiones. Luces y sombras del biblismo

español en el siglo XVI», in Filología bíblica y humanismo, Madrid, Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2012, pp. 245-260).

rónimo, procurando fazer eles mesmos já não apenas revisões dos textos anteriores, mas novas traduções a partir dos originais.

2.2.2 As traduções a partir dos textos originais

O desenvolvimento do «hebraísmo cristão», e a consequente divulgação, entre os cristãos da língua e dos escritos hebraicos, conduziu evidentemente a um interesse sempre maior na realização de novas traduções a partir dos textos originais. Como já se disse, uma das primeiras tentativas aconteceu na corte do papa Nicolau V, um Pontífice que acolhia junto a ele os melhores humanistas de seu tempo (Manetti, Valla, Trebizonda) e criava, como grande bibliófilo que era, a Biblioteca do Vaticano. Embora não tivessem um impac- to imediato no seu tempo, quer a tradução dos Salmos, a partir do hebraico, realizada por Giannozzo Manetti, quer a revisão do texto do Novo Testamento da Vulgata por Lorenzo Valla, viriam a marcar os trabalhos filológicos dos inícios do século XVI.

Em início de Quinhentos, precisamente o livro dos Salmos foi objeto de várias edi- ções poliglotas, por parte de Jacques Lefèvre d’Étaples (1509 e 1513) e de Agostino Gius- tiniani (1516), e de uma nova tradução do agostinho Felix Pratensis (1515), responsável também pela primeira Biblia Rabbinica142. O mesmo Jacques Lefèvre d’Étaples traduziu as cartas paulinas em latim (1512) e, na década de 20, desta vez a partir do texto da Vulgata, a Bíblia completa em francês (o AT, em 1523, e o NT, em 1528).

Mas as obras de maior fôlego devem-se a Erasmo, Pagnino e Caetano. Tendo editado as Annotationes de Lorenzo Valla em 1508, Erasmo juntou alguns bons manuscritos do texto grego do Novo Testamento e publicou uma versão bilingue em 1516, sendo o texto latino da sua autoria. Sanctes Pagnino, um protegido do papa Leão X, traduziu toda a Bí- blia para latim, a partir das línguas originais, um texto que seria editado em 1528143. O car- deal Caetano, enfim, dedicou os últimos anos da sua vida (1523-1534) a comentar os livros bíblicos, tendo reunido uma equipa de hebraístas e especialistas em grego para a tradução                                                                                                                

142 A primeira Bíblia Rabínica (Mikra'ot Gedolot), preparada pelo monge agostinho Felice del Prato

(judeu converso), é obra do tipógrafo cristão Daniel Bomberg, em 1517 e 1518 (cf. Ernst WURTHWEIN, The

Text of the Old Testament: An Introduction to the Biblia Hebraica, 2.ª ed., Grand Rapids, Eerdmans Publis- hing Company, 1995, p. 184).

143 Esta tradução levou cerca de 25 anos a realizar, e é a primeira tradução cristã da Bíblia em latim, a

partir dos originais, depois da de Jerónimo. Esta tradução teve uma ampla aceitação por toda a Europa, até à imposição da Vulgata como texto «oficial» da Igreja católica. O português Jerónimo de Azambuja tomou-a como base dos seus comentários ao Pentateuco; e Arias Montano publicou-a na entrelinha do texto hebraico da Biblia Regia (ou Poliglota de Antuérpia).

de toda a Bíblia144. A sua preferência pela exegese literal valeu-lhe a oposição dos seus confrades Ambrósio Catarino e Melchor Cano, e influenciou certamente os debates do Concílio de Trento em torno da Vulgata e da hermenêutica bíblica.

Nos meios ligados à reforma, houve também importantes traduções da Bíblia em La- tim, nomeadamente as realizadas por Konrad Pelikan (1532-1540), Sebastian Münster (Bí- blia Hebraica, com uma tradução latina, 2 vols.; 1534-1535), Michel Servet (1542), Leo Jud (completada por Theodor Bibliander e Pierre Cholin, e revista por Konrad Pelikan; 1543) e Sebastian Castellion (1551). Mas são mais numerosas as levadas a cabo em línguas vernáculas, a começar pela do próprio Martin Lutero (1534), e que não vamos aqui nomear.

2.2.3 Em torno a uma «edição crítica» da Vulgata

O grande interesse por manuscritos antigos favoreceu também o aparecimento de «edições críticas» da Vulgata de Jerónimo no século XVI, que culminou com a edição do

texto «oficial» da Bíblia em latim: a Vulgata sixto-clementina de 1592.

As primeiras «edições críticas» de Adrien Gémeau ou Gumelli (1504), de Albert de Castello (1511) e da Poliglota Complutense (1514-1517) combinam um corretório de ma- nuscritos antigos com correções feitas a partir dos originais grego e hebraico, em que a preocupação fundamental parece ser a de fornecer simplesmente «um texto latino melho- rado»145. A novidade destas edições estava nas numerosas indicações de variantes, coloca- das em margem, que permitiam verificar as opções editoriais. Robert Estienne segue ainda este mesmo procedimento nas suas edições da Bíblia latina de 1528, 1532 e 1534.

A partir da década de 30 de Quinhentos, a situação muda. O cartuxo Gobelinus Lari- dius edita em Colónia uma Bíblia latina que segue alguns dos melhores manuscritos anti- gos. Procura manter-se fiel à Vulgata de Jerónimo e apenas aceita as variantes de outros manuscritos que concordem com os originais gregos e hebraico. Aconselhado pelos teólo-                                                                                                                

144 É possível que o papa Clemente VII tenha tido o projeto de uma nova tradução da Bíblia, confian-

do o Antigo Testamento a uma equipa constituída de «hebreus» e cristãos. Cf. A. F. von GUTEN, «La contri- bution des ‘Hébreux’ à l’œuvre exégètique de Cajétan», in O. FATIO-P. FRAENKEL (eds.), Histoire de

l’exégése au XVe siècle, Genebra, Droz, 1978, pp. 46-83. Verdade ou não, o certo é que o projeto do cardeal

Caetano, nos seus últimos anos de vida, se assemelha a essa iniciativa, pois ele, que não conhecia o hebraico, reuniu uma equipa para a tradução dos livros da Bíblia hebraica.

145 Bíblias unicamente à base de correções são as do reformado Osiander e do beneditino Isidoro Cla-

rius, que teve problemas com a Inquisição. Sendo um conceituado hebraísta, Clarius (1495-1555) realizou a revisão completa do texto do Antigo Testamento da Vulgata, a partir dos originais hebraicos, mas essa revi- são provocaria muita polémica, e seria mesmo a primeira edição bíblica a ser colocada no Index de 1559!

gos parisienses («os nossos teólogos»), na edição de 1540, R. Estienne opta também por seguir as antigas edições da Biblia Parisiensis, indicando à margem as variantes de outros manuscritos por ele consultados. O objetivo não é já um texto melhorado, mas encontrar, na medida do possível, «o original latino» da Vulgata. Nos anos subsequentes, este tipó- grafo parisiense continuará a tentar melhorar a sua edição (até 1557). Curiosamente, estas edições posteriores serão muito criticadas pelos teólogos – particularmente depois da edi- ção da chamada «Bíblia de Vatablo» (cf. infra) –, e são mesmo colocadas no rol dos livros proibidos da Faculdade de Teologia de Lovaina.

Entretanto, a 8 de abril de 1546, o Concílio de Trento declarava a Vulgata como o texto bíblico autêntico e oficial para a Igreja católica de rito latino – para a leitura pública (liturgia), a argumentação teológica, a pregação e a exposição (exegese) –, mas suspendia a sua publicação até que fosse alcançada uma edição o mais correta possível, uma tarefa que era confiada à Sé Apostólica146.

Antes da nomeação da primeira comissão pontifícia, que apenas aconteceria em 1561, devem assinalar-se duas iniciativas privadas. Em Roma, o cardeal Marcello Cervini (futuro papa Marcelo II) obtém uma série de bons manuscritos gregos e latinos e concebe a ideia de publicar não apenas uma edição crítica da Vulgata, mas também a Septuaginta e a Bíblia Hebraica. Nesse sentido, ele confia o Novo Testamento ao seu protegido Guglielmo Sirleto, e a revisão da Septuaginta de acordo com o Codex Vaticanus B a Niccolò Maggio- rani. Mas nem um nem outro levaram a cabo qualquer publicação. Em Lovaina, a Faculda- de de Teologia encarregava o dominicano Jean Henten da preparação de uma edição crítica da Vulgata segundo os critérios do Concílio de Trento. Logo em 1547, ele publica um pri- meiro texto latino da Vulgata, com base na edição de R. Estienne de 1540, que ele compa- rou com 28 manuscritos e 2 incunábulos. Depois da morte de Henten, esse trabalho crítico continuou com Frans Lucas van Brugge, ou Brugensis, cuja publicação seria feita também pelo tipógrafo de Antuérpia Christophe Plantin, o editor da Biblia Regia.

                                                                                                               

146 O Decreto Insuper, que é de natureza disciplinar (e não dogmática), tornou-se um documento fun-

damental para a hermenêutica bíblica, por duas razões: 1) embora afirme que a Vulgata é o texto «autêntico» da Palavra de Deus para a Igreja (católica), o Concílio não rejeita os textos originais, pois estes não necessita- riam de uma declaração de autenticidade, porque o são ipso facto; 2) considerando que é o texto adequado para a liturgia, o ensino e a pregação, o Concílio não exclui que contenha pequenas imprecisões e que neces- site de ser revisto, pelo que confia essa tarefa à Santa Sé (cf. John E. STEINMUELLER, Op. cit.). Acusado junto

do Inquisidor-mor, cardeal D. Henrique, por ter usado no seu comentário do Pentateuco a tradução de Sanc- tes Pagnino, em vez do texto da Vulgata, o exegeta dominicano português Jerónimo de Azambuja, que havia participado no Concílio de Trento, evoca precisamente esses debates conciliares e o facto do texto de a Vul- gata aguardar uma revisão profunda (cf. José Nunes CARREIRA, «Frei Jerónimo da Azambuja: De Prior

da Batalha a exegeta consumado», in Leiria-Fátima. Órgão Oficial da Diocese, III/8 [maio-agosto de 1995], pp. 415-453).

A edição da Bíblia de Lovaina de 1583 haveria de ser tomada como base de trabalho pela terceira comissão pontifícia (1586) para a edição do texto oficial da Vulgata147. A co- missão, chefiada pelo cardeal Carafa, pode já dispor do texto grego do Antigo Testamento, a Septuaginta, publicada em 1587. Esta comissão tinha também à sua disposição os melho- res códices e um exemplar da Bíblia de Lovaina de 1547, anotada em margem pelo cardeal Sirleto. No final do seu trabalho, ela entregou ao Papa um exemplar da Bíblia de Lovaina de 1583 com as emendas textuais propostas pela comissão assinaladas em margem.

Como o texto emendado diferisse muito do tradicional (a Biblia Parisiensis), o papa Sisto V não aprovou ditas emendas e decidiu fazer ele próprio a revisão da Vulgata, com a ajuda do jesuíta Francisco de Toledo e do agostinho Angelo Rocca. Foi um regresso ao primeiro texto de Lovaina. O texto publicado em 1590 não foi bem recebido, e o próprio Papa não ficou satisfeito, tendo publicado uma cópia separada de corrigenda. Entretanto Sisto V falecia. O seu sucessor, Gregório XIV, nomeou uma nova comissão, a quarta (1591), que tomaria como base a Bíblia sistina e estabelecia alguns critérios de revisão. O texto oficial da Vulgata seria então publicado em 1592, com um prefácio de Roberto Be- larmino, que também trabalhou nela enquanto consultor. O novo texto é um texto de com- promisso entre uma edição extremamente crítica (como era a do texto proposto pela tercei- ra comissão) e o texto mais «popular» ou tradicional (que ainda permanece na primeira Bí- blia de Lovaina).

2.2.4 A exegese bíblica contemporânea e posterior a Trento

O que caracteriza o hebraísmo cristão é o uso corrente da língua hebraica148. Por esse facto, haveria que distingui-lo do chamado «hebraísmo cultural», característico daqueles                                                                                                                

147 A primeira (1561) e a segunda comissão (1569) não conseguiram definir critérios firmes para a re-

visão crítica da Bíblia. No entanto, os beneditinos de Florença e Monte Cassino recolheram um bom número de manuscritos que colocaram à disposição da segunda comissão.

148 Stephen G. Burnett fala de três períodos perfeitamente distintos: 1) um período «universalista», en-

tre 1501 (data da edição do Alphabetum Hebraicum pelo tipógrafo italiano Aldo Manúcio) e 1559/1564, em que os cristãos hebraístas eram pouco «dogmáticos» e as obras circulavam livremente (tanto a tradução de Sanctes Pagnino entre os reformadores, como a tradução de Leo Jud, entre os católicos); 2) um período con-