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Première partie : étude du champ visuel entre 0° et 30°

137 Voltando às questões da pesquisa analisaremos a seguir até que ponto as mesmas foram respondidas por este estudo.

1. Quais os comportamentos observáveis na inter-relação entre os jovens e o seu ambiente natural ou construído?

Como pudemos ver, essa questão foi respondida por meio da observação do comportamento. Os dados sugerem que os jovens investigados participam de behavior settings que os permitem transitar em espaços naturais e construídos. Esses behaviors settings possuem características e organização que favorecem a autonomia dos participantes, mas, principalmente, o trabalho grupal.

Os adolescentes participam de atividades como jogos, brincadeiras, tarefas de organização e lanche que ocupam o tempo e oferecem oportunidades para a tomada de decisão, inclusive em relação a affordances (Gibson, 1986), uma vez que os jovens utilizavam os espaços e os objetos tanto de acordo com a sua utilidade inicial, quanto de maneira diferenciada, conforme suas necessidades e seus objetivos imediatos.

Os dados sugerem que de acordo com a ocasião, os participantes são capazes de apresentar comportamentos anti-ambientais. O fato de utilizarem álcool para acender uma fogueira se destaca nesse sentido, pois precisavam do fogo para cozinhar e o álcool facilitou o processo.

Além disto, podemos citar o comportamento dos jovens do Segundo Tempo, que muitas vezes, mesmo orientados e com a existência de sacos de lixo nos núcleos, jogam as embalagens do lanche no chão e que, ao mesmo tempo, reclamam da sujeira dos espaços que habitam. Ao que parece, a falta de consciência ambiental pode explicar esses comportamentos. Devemos lembrar que esses jovens afirmam não participar de nenhum tipo de atividade que favoreça a educação e as práticas ambientais.

138 Finalmente, as affordances e os comportamentos ambientais apresentados também podem ser explicados a partir da análise dos conceitos ambientais, que indicam que o interesse pessoal, a justificativa homocêntrica é o guia para as manifestações comportamentais dos jovens.

2. Quais os conceitos que os jovens verbalizam de sua inter-relação com o ambiente?

Os conceitos verbalizados pelos participantes sobre a sua inter-relação com o ambiente foram investigados a partir do Instrumento de Conceitos Ambientais e das entrevistas.

Em termos gerais, os dados confirmaram os dados de observação, pois os jovens afirmaram que seu comportamento em relação ao ambiente se daria de acordo com a sua necessidade e interesse pessoal; fosse ela de sobrevivência, necessidade de banho ou a vontade de brincar. A perspectiva homocêntrica se destacou dentre as justificativas ambientais cultivadas (Simmel, 1908/1939) nos grupos, tal como nos jovens do Rio Negro (Howe & cols., 1996).

Jovens do Movimento Escoteiro apresentaram mais justificativas biocêntricas do que os do Segundo Tempo, fator que pode ser explicado por sua maior participação em atividades ambientais dentro dos grupos e pela cultivação de regras no behavior setting de cuidado e de proteção ao meio ambiente. Contudo, os números indicaram que a diferença entre os grupos investigados é pequena.

Os participantes apresentam em seu discurso dados que demonstram sua visão de que a responsabilidade com o cuidado ambiental é de todos nós e que as pessoas que cuidam do ambiente são pessoas “comuns”. Os dados obtidos nas três fases da pesquisa indicam, porém, que essa responsabilidade que parece ser difundida para todos, retira a responsabilidade da pessoa diante de seus atos. Os participantes justificam as atitudes ambientais das pessoas por uma falha na educação e pela falta de consciência ambiental, ou seja, nem todos estão preparados para

139 assumir o seu quinhão de responsabilidade e isso permite que o lixo continue sendo jogado nas ruas e a água desperdiçada.

Os dados permitem inferir que a natureza é responsável pela nossa sobrevivência e que nós, em conjunto, somos responsáveis por cuidar dela. Contudo, como não somos educados para isso, como estou sujo, ou não tem lixeira na rua, eu me permito isoladamente realizar comportamentos anti-ambientais e deixo a responsabilidade sobre outras pessoas, como cientistas, governo, dentre outros. Os dados obtidos nos fazem questionar a lógica ambiental cultivada em nossas mentes em um nível macrossocial, pois a preocupação ambiental se apresenta como uma das grandes metas do milênio, o discurso presente é o da responsabilidade geral pelo ambiente, mas a realidade é que a grande maioria não procura fazer a sua parte. Os dados parecem sugerir que é essa cultivação social que faz que, mesmo em um behavior setting cuja regra prescrita é o cuidado com a natureza, sejam realizados comportamentos anti- ambientais, que atendem ao interesse pessoal dos membros do grupo e que demonstram a difusão da responsabilidade presente no discurso e nas ações.

3. A inter-relação do jovem com o ambiente está centrada no momento atual de suas vidas ou engloba noções relacionadas ao seu passado ou ao seu futuro?

Os resultados do Instrumento de Conceitos Ambientais e das entrevistas demonstram que o passado recente do jovem era bonito, cheio de ambientes naturais e de brincadeiras; que o presente é sujo, poluído e está em risco, precisando de cuidados; e que a perspectiva quanto ao futuro é de degradação. No seu discurso há esperança, mas essa esperança está na dependência das nossas ações no mundo atual.

140 Os jovens reforçam o discurso social da preocupação com o futuro mas, ao mesmo tempo, continuam dando prioridade às suas necessidades atuais de interesse pessoal. O discurso cultivado é o mesmo presente na mídia e nas manifestações públicas, mas as atitudes indicam que a expectativa é que os outros façam o que deve ser feito por todos, congruente com a sua etapa do desenvolvimento.

Dentro do behavior setting escoteiro os jovens têm algumas oportunidades de vivenciarem atividades de cuidado com o ambiente, mas, de acordo com seus relatos, essa não é uma prática das escolas e de outras instituições por eles freqüentadas. No caso dos participantes do Segundo Tempo foi possível verificar que nas escolas públicas, essa não é uma prática desenvolvida.

Diversas preocupações devem ser destacadas, mas a grande diferença entre os dois grupos estudados é que um convive mais com o lixo e as situações de violência do que o outro e esses dados indicam a necessidade de que os núcleos tenham mais orientação quanto ao cuidado com o ambiente e às práticas sociais, visando a promoção da saúde desses jovens em busca de uma adolescência sadia (Lerner & cols., 2005).