Chapitre 2. Démarches de recherche
2. Les entretiens
2.1 La parole donnée au motard
2.1.1 Pour obtenir la collaboration de participants Hells Angels
Camara Jr. (1978) é um dos autores que, na linha de Bally (1951), procurou associar estilística e funções da linguagem:
O sujeito falante rege-se por um sistema lingüístico de representações intelectivas que estabelece a comunicação pela linguagem, e simultaneamente o utiliza para satisfazer os seus impulsos de expressão.
Nestas condições, a estilística defronta-se com três tarefas: 1) caracterizar, de maneira ampla, uma personalidade, partindo do estudo da linguagem; 2) isolar os traços do sistema lingüístico, que não são propriamente coletivos e concorrem para uma como que língua individual; 3) concatenar e interpretar os dados expressivos, determinados pela Kundgabe e pelo Appell, que se integram nos traços da língua e
fazem da linguagem esse conjunto complexo e amplo de enérgeia psíquica.
A primeira tarefa é que se objetivou há muito na crítica literária, e cria uma disciplina em que hoje coopera a lingüística com figuras como Vossler e Leo Spitzer. Na segunda, concentra-se especialmente Marouzeau no seu conceito e na sua aplicação de estilística. Com a terceira, enfim, encontramos a concepção de Charles Bally, e com ele amplicamos o âmbito da lingüística num néosaussurianismo cheio de sugestões fecundas. (1978: 15)
De algum modo, indulge com as três perspectivas, uma vez que a personalidade lingüística caracteriza-se pelos traços não-coletivos do seu sistema e pela manifestação psíquica que permeia sua linguagem. Estes traços não-coletivos do sistema, segundo o autor, acabam por desembocar no plano da emoção e da vontade expressiva. A liberdade condicionada da língua permite-nos a originalidade e, de certa maneira, a inteligibilidade. Todas essas premissas culminam numa estilística da língua nos moldes ballyanos. Como põe Camara Jr.:
Tanto vale dizer, por conseguinte, que a conceituação nos moldes de Bally é que vai ao cerne do assunto. A depreensão da personalidade lingüística e o estudo das possibilidades de escolha nela repousam e dela se nutrem.
Compreende-se, por outro lado, que, assim como a língua, no conceito saussuriano, se define primordialmente um sistema de ‘representação’ sobre ser um bem coletivo, também o estilo caracteriza-se como um conjunto de ‘expressões’, independentemente da circunstância de ser um predicado do indivíduo. (op. cit.: 16)
Em suma, para Camara Jr. as funções expressiva e conativa amparam a proposta estilística do discípulo genebrino de Saussure49, o que não é aceito pacificamente por Elia, conforme explicita o texto abaixo:
A sistematização individual é feita necessariamente sob a pressão da Kundgabe e do Appell? Não poderá ser polarizada simplesmente pela conjuntura da
intercomunicação em plano intelectivo? De onde a inconveniência de identificar
língua individual e estilo, entendido este como o aspecto afetivo da sistematização dos
fatos da linguagem. (1978: 74)
O confinamento da estilística às funções emotiva e conativa não é consensual. Monteiro, por exemplo, parece inclinar-se à hegemonia da função poética:
Resta, porém, uma dúvida: a de saber qual das funções limita de fato os domínios da estilística, se a emotiva ou a poética. Na realidade, o poético é sempre emotivo, mas a recíproca não é verdadeira. Por isso, desde que o modelo de Karl Bühler seja ampliado, convém centralizar o estudo estilístico na linguagem que se desvia da norma, nos procedimentos que geram conotações, como resultado de um trabalho de recriação exercido na própria linguagem. Assim, a função poética não se acha confinada aos textos poéticos, mas a todo discurso que se afasta da linguagem denotativa para obter efeitos expressivos. (1991: 26-7)
Ressalte-se que nem todos os estudiosos aceitariam de bom grado um desvio em relação à norma. Riffaterre (1973), por exemplo, prefere falar de estilística em termos de desvio no contexto50.
49 Mas Camara Jr. não está imune a contradições, como a verificada neste trecho, que não se concilia com a proposta estilística de Bally, de extração sociológica: “A estilística é a ciência da linguagem expressiva, independentemente do âmbito particular em que a expressividade lingüística funciona. Também aqui, - como Sapir assinala para o sistema representativo - se pode dizer que - ‘Platão vai de par com um porqueiro da Macedônia, Confúcio com um caçador de cabeças do Assam’ (XLVIII-234). Apenas cabe ressaltar que num poeta, da mesma sorte que em Platão ou Confúcio no âmbito da linguagem representativa, os traços são mais típicos e mais nítidos, pois os processos estilísticos se acham a serviço de uma psique mais rica e especialmente educada para o objetivo de exteriorizar-se’. (1978: 25). Em outro trabalho, ‘Contribuições sobre o estilo’ (1975: 133-41), analisando o famoso exemplo de Machado de Assis, no Quincas Borba, ‘ele pegou nada, ergueu nada e cingiu nada’, já fala em estilística do desvio, no nível da norma. Veja-se, também, a sugestão de uma estilística do desvio no contexto, a propósito da inversão V^OD/OD^V e Adj^N/N^Adj, no poema ‘A Cavalgada’ de Raimundo Correia (1975: 143-9).
Para Elia (1978: 73), ‘o motivo desses conflitos de doutrina talvez se encontre no anseio indefinido que paira nas páginas da tese do prof. Mattoso Camara, mas que não chegou a se objetivar.’ De um lado, Camara Jr. declara que ‘a língua é sistema organizado, enquanto o discurso é um conglomerado de fatos assistemáticos’ (1978: 9).
50 Riffaterre (1973: 52-4) julga não-pertinente a noção de norma lingüística como parâmetro para a definição do estilístico, primeiro porque ‘os leitores baseiam seus julgamentos (e os autores seus
A noção de estilo fundada nas funções da linguagem não é, pois, questão bem assente. A questão transcende a das funções: ele pode ser entendido conforme a inclinação de um autor, em termos positivos de norma, em termos de desvio, em termos de escolha ou mesmo do conjunto de probabilidades contextuais dos itens lingüísticos de um texto (cf. Enkvist et alii, 1974, cap. I)51. Tratar destes fatores aqui escapa aos objetivos deste trabalho.