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Chapitre 3. Les concours comme lieux d’apprentissage et de socialisation

3.1 Du travail sur les œuvres à une discipline sur soi

3.1.2 La pièce imposée

Como visto anteriormente, Godbout (1999) assinala que um dos lugares onde a dádiva se manifesta na sociedade moderna é nas relações de amizade e de família, ressaltando que os

vínculos de amizades tendem a ser mais livres do que os familiares. O próprio autor ao discutir os vínculos familiares aponta para a abordagem de uma família tradicional, onde a incondicionalidade é patente. Um dos seus questionamentos é se a redução da incondicionalidade entre o casal afeta a incondicionalidade entre irmãos. Dentro da sociedade moderna, onde a família do século XXI tem apresentado uma nova estruturação, a questão do vínculo é merecedora de um olhar. Vários são os fatores que promovem esta reconfiguração da família como pode observar-se na citação abaixo:

[...] a mudança de paradigma na sexualidade humana pela desvinculação entre o ato sexual e a função de procriar, o movimento feminista, o reconhecimento dos direitos da criança e do adolescente, a aceitação do homossexualismo como uma variante do comportamento sexual humano, insatisfação nas relações matrimoniais, o aumento da expectativa de vida, a mudança dos valores éticos da sociedade, a cultura consumista, os avanços tecnológicos e os meios de comunicação. (OSÓRIO E DO VALLE, 2002, p.19).

Estes autores, que atuam no campo da terapia familiar, apontam ainda o impacto destas mudanças sobre a família atual que tem como conseqüências o aumento do número de casamentos desfeitos com a construção de novas famílias, instabilidade profissional e financeira dos membros responsáveis pela manutenção do lar, sobrecarga com o suporte aos pais que envelhecem e precisam de cuidados, baixo rendimento escolar dos filhos, mercado de trabalho fechado para os jovens, exposição ao uso de drogas e violência urbana. Estes redesenhos, principalmente promovidos pelos recasamentos, não unem apenas mais dois estranhos com objetivos comuns, mas em alguns casos vários estranhos que podem não construir vínculos entre si. O recasamento pode implicar na convivência dos filhos de casamentos anteriores, ou seja, o sistema familiar construído anteriormente não termina com o fim do casamento, o papel de pai e mãe continuam em vigor. Enquanto o novo casal se une dentro da perspectiva da dádiva, onde dois estranhos se unem com objetivo de promover um lugar menos estranho (GODBOUT, 1999), os filhos advindos dos casamentos anteriores podem não estar imbuídos do mesmo movimento. Tal fato deve implicar no comprometimento da circulação da dádiva entre eles, uma vez que tenderão a defender o sistema anterior. Aqui resgata-se a importância do trabalho de Hellinger que pontua a necessidade dos pais nos novos casamentos poderem honrar e respeitar o antigo parceiro e também o antigo cônjuge do novo parceiro, como sendo uma forma de manter-se a integridade dos sistemas antigos e abrir-se um espaço saudável para o novo sistema familiar, assim os filhos podem ter paz ( HELLINGER, WEBER, BEAUMONT, 2001).

Baumann (2004), denunciando a fragilidade das relações e o aumento crescente da insegurança, devido a incapacidade da construção de relacionamentos de longo prazo, uma vez que a sociedade tem priorizado os relacionamentos em rede que podem ser facilmente desmanchados. Nas palavras do autor:

Diferentemente de “relações”, “parentescos”, “parcerias” e noções similares – que ressaltam o engajamento mútuo ao mesmo tempo em que silenciosamente excluem ou omitem o seu oposto, a falta de compromisso -, uma “rede”serve de matriz tanto para conectar quanto para desconectar; não é possível imaginá-la sem as duas possibilidades. Na rede, elas são escolhas igualmente legítimas, gozam do mesmo status e tem importância idêntica. [...] A palavra “rede”sugere momentos nos quais “se está em contato” intercalados por períodos de movimentação a esmo. Nela as conexões são estabelecidas e cortadas por escolha. (BAUMAN, 2004, p.12).

Segundo Bauman (2004), os relacionamentos em rede trazem em seu bojo a escolha. A escolha de manter ou não o contato. Escolha que não é possível dentro da estrutura familiar, como observado por Godbout (1999). Estes tipo específico de relacionamento traz também a idéia de vínculos temporários, que somente se sustentam enquanto forem úteis, no curto prazo. Relacionar-se em rede implica em conhecer as regras, implica o não dar muito, um constante calcular para se verificar se não existe um déficit emocional. É o dar somente com o interesse, com a idéia de que depois deste ato, existe um devedor; definindo assim a extinção da espontaneidade. Esta situação se assemelha ao comportamento de prestimosidade, já citado anteriormente, apontado por Hellinger, Weber e Beaumont (2001), em que o indivíduo ao não receber está se colocando em uma posição de superioridade. Existe implícito um medo da entrega, sensação profunda de desconfiança que impede um vínculo de longo prazo. Para o Bauman (2004), os relacionamentos se revestem do utilitário e a possibilidade de troca não dista muito das regras de comercialização de mercadorias, como observa:

Consideradas defeituosas ou não “plenamente satisfatórias”, as mercadorias podem ser trocadas por outras, as quais se espera que agradem mais, mesmo que não haja um serviço de atendimento ao cliente e que a transação não inclua a garantia de devolução do dinheiro. Mas, ainda que cumpram o que delas se espera, não se imagina que permaneçam em uso por muito tempo. Afinal automóveis, computadores ou telefones celulares perfeitamente usáveis, em bom estado e em condições de funcionamento satisfatórias são considerados, sem remorso, como um monte de lixo no instante em que “novas e aperfeiçoadas versões” aparecem nas lojas e se tornam o assunto do momento. Alguma razão para que as parcerias sejam consideradas uma exceção à regra? (BAUMAN, 2004, p. 28)

Ainda com Bauman (2004), o autor prossegue assinalando que no longo prazo o compromisso dentro de um relacionamento é inverossímil, pois o risco imputado não assegura um resultado favorável. Nesta visão fica evidenciada a sensação de insegurança que permeia as relações de amizade e complementando com Godbout (1999), implica sempre na possibilidade do

abandono. . Para o autor, os compromissos duradouros contrariam a lógica da “líquida racionalidade moderna” (BAUMAN, 2004) que pede leveza. O tempo estendido de relacionamento sugere opressão aliada a um estado de dependência.

Outro aspecto abordado por Bauman (2004) é seu paralelo entre as relações de parentesco e as relações de amizade. O autor trazendo o significado do termo afinidade na língua alemã (wahlverwandschaft), traduz este como parentesco qualificado. O que qualifica este parentesco é a escolha, que difere do parentesco original pela sua incondicionalidade, irrevogabilidade e indissolubilidade. Pontos estes que corroboram com as idéias de Godbout (1999). A afinidade é uma conseqüência da escolha e tende a diluir-se com o decurso do tempo, sendo assim o caminho para sua perpetuação somente se estabelece quando existe uma reafirmação contínua desta escolha. O autor cita: “Mas nem mesmo os casamentos, ao contrário da insistência sacerdotal, são feitos no céu e o que foi unido por seres humanos estes podem – e tem permissão para – desunir e o farão, se tiverem uma oportunidade” (BAUMAN, 2004, p.45). O que se observa é que entre o casal, a incondicionalidade inicialmente existente (GODBOUT, 1999) somente se sustenta se houver uma renovação das escolhas que garante a afinidade. E o que confirma esta escolha se não a própria dádiva que opera entre os parceiros? Como foi pontuado por Hellinger, Weber e Beaumont (2001), o constante fluxo do dar e receber entre o casal assegura a incondicionalidade. Com este fluxo obstruído, os laços familiares decorrentes (pais e filhos, irmãos) ficam também comprometidos. A saúde dos filhos e das relações entre eles é uma conseqüência da qualidade da relação que se estabelece entre os pais, mesmos quando estes se separam. Esta é a base para assegurar uma qualidade de harmonia dentro do sistema familiar.

A dinâmica de estruturação das relações no ambiente do mercado obedece a uma lógica distinta que a lógica da dádiva. O contrato rege o formato dos relacionamentos e a equivalência monetária torna-se imprescindível para sua perpetuação. O espaço de circulação da dádiva fica então restrito, basicamente sem nenhuma possibilidade de expressão. Mesmo assim talvez seja interessante ponderar se nos relacionamentos mais duradouros, na medida em que elementos como confiança são forjados, a existência de uma troca social, onde circulam aspectos a serviço da continuidade da relação, não se dê em paralelo às trocas econômicas.

2.5 A DÁDIVA NAS EMPRESAS – A SUPREMACIA DO CONTRATO X