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La construction du réseau : entre concurrence et coopération

Chapitre 3. Les concours comme lieux d’apprentissage et de socialisation

3.4 La construction du réseau : entre concurrence et coopération

Na tentativa de resgatar a memória do comércio da Bahia, Borges e Lemos (2002) desenvolvem um projeto baseado em relatos de pessoas que trabalharam no bairro do Comércio e que haviam nascido logo após a Primeira Guerra Mundial. Os diversos depoimentos contribuem para a construção de um entendimento da dinâmica empresarial baiana no século XIX. Em relação às atividades comerciais, Borges e Lemos (2002) destacam algumas famílias e o insucesso dos seus sucessores. Segundo os autores, até metade do século XIX, o comércio baiano era dominado pelos portugueses e seus descendentes, que operavam os processos de compra e venda tanto no mercado interno quanto no exterior. Dentre os depoimentos é possível citar o do ex-professor de Direito José Martins Catharino sobre a história empresarial da sua família. Conta Catharino que seu avô, Bernardo Martins Catharino, chegou ao Brasil com 14 anos, começando a trabalhar em um fábrica de tecidos em Feira de Santana. Teve 11 filhos e o pai de Catharino era o filho mais velho, nascido nesta cidade. Segundo Catharino, seu avô se tornou empresário da indústria têxtil e maior credor do Estado da Bahia. O neto ainda teria alcançado em funcionamento as fábricas Paraguassu no Largo do Papagaio, a Conceição, onde foi o antigo Engenho da Conceição e a antiga Penitenciária da Bahia, próxima da Estação da Calçada e a maior que era a de Plataforma. Estas fábricas chegaram a possuir 2000 funcionários e foram fechadas com a morte de Bernardo Catharino, pois nenhum dos filhos teve condições de sucedê-lo. Conta Catharino, o neto, que após a morte do seu avô e o fechamento das fábricas chegou a ter 1500 processos na justiça, encontrando-se hoje a família no que ele classifica como burguesia decadente. Um dos entrevistados de Borges e Lemos (2002) foi Manoel Pedroso, funcionário do Comendador Catharino, que considera a falta de sucessores competentes como o aspecto responsável pela deterioração do patrimônio da família. Tal fato corrobora com elementos teóricos referentes aos dilemas da questão sucessória apontados em partes anteriores deste trabalho.

Outro entrevistado no trabalho de Borges e Lemos (2002) é Rogério Joaquim de Carvalho que foi o sucessor de uma firma de importação, Manoel Joaquim de Carvalho e Cia, nome do seu avô e que foi fundada em 1877. A empresa importava bacalhau, que era o carro-chefe e

outros gêneros alimentícios, além de produtos tais como arame farpado e breu. Em 1919, o avô e o pai de Carvalho teriam otimizado o processo de importação trazendo o bacalhau por navio movido a máquina em substituição às caravelas, o que permitiu um atendimento mais rápido às regiões do interior no Estado, onde a carne seca do peixe tinha ampla preferência por não existir geladeira. Entregava também em Belém, Cabedeiro, Recife, Salvador e São Paulo. Com a morte do fundador, o pai de Carvalho assume a empresa e decide diversificar sua atuação. Com a dificuldade de importações impostas pela II Guerra Mundial, o pai de Carvalho decide entrar no mercado de exportação, operando com produtos como cacau e café, tornando-se também proprietário de fazendas. Em uma destas fazendas foi instalada uma fábrica de luvas cirúrgicas que se tornou uma das maiores produtoras da América do Sul. Segundo Carvalho (2002, apud Borges e Lemos, 2002), em função da globalização, de se tratar de um negócio familiar e ter acontecido uma proposta irrecusável, a fábrica foi vendida. Depois montaram uma fábrica de sucos, de laranja, de maracujá e de abacaxi, instalada em São Gonçalo dos Campos. Mais uma vez é possível constatar-se um dos destinos prováveis da empresa familiar.

Continuando com os autores, estes destacam a substituição da atividade produtiva dos engenhos de açúcar pela indústria têxtil. Diversas fábricas foram instaladas de fiação e tecelagem foram instaladas em Salvador, Valença e Nazaré. Outras atividades industriais se desenvolveram, tais como fumo, óleos vegetais, sapatos, refrigerantes, cristais, cimento e seus subprodutos, merecendo destaque a construção civil. Neste último segmento, Borges e Lemos (2002) assinalam a presença marcante de Norberto Odebrecht, que segundo entrevista de José Carlos Souza, ex-publicitário, herdou do pai uma pequena construtora e transformou em um poderoso grupo multinacional. Segundo Souza, Norberto trabalhou 80 anos, passando o comando da empresa para seu filho Emílio. Talvez um dos melhores exemplos na história da Bahia de processo sucessório planejado e de valores familiares sustentados ao longo das gerações.

Borges e Lemos (2002) trazem um elemento da tradição de Salvador que foi a indústria de refrigerantes Fratelli Vita, fundada por Giuseppe Vita em 1902. Um dos entrevistados no projeto, o advogado Amâncio José de Souza Neto, que trabalhou muito tempo na fábrica, destaca que o comando já se encontrava na segunda geração nas mãos do filho do velho Vita, Miguel José Vita. Segundo Souza (apud BORGES E LEMOS, 2002), Vita além de conduzir a fábrica de refrigerantes foi responsável pela criação de uma indústria de cristais que ganhou prestígio, mesmo se comparado ao tradicional fabricante francês Bacará. Vita se desfaz do

negócio de cristais por não achar lucrativo e posteriormente vende a fábrica de refrigerantes para a Brahma.

Prosseguindo com o trabalho de Borges e Lemos (2002), outra indústria de reputação destacada na Bahia é a fumageira. Aqui são apontadas três fábricas de charuto: a Dannemann, a Costa Pena e a Suerdieck. Segundo Geraldo Dannemam (apud BORGES e LEMOS, 2002), economista, o declínio da fábrica de sua família foi ampliado durante a Segunda Guerrra, uma vez que foi confundida erroneamente como de origem alemã. Tal fato fez com que a indústria acumulasse dívidas substanciais, o que não permitiu seu restabelecimento após o julgamento de recurso a seu favor contestando sua origem. A Costa Pena tinha sua sede localizada em São Félix, mas com fábricas também em Muritiba e Cachoeira, pertencendo a duas famílias, Costa Ferreira e Costa Pena, originárias de Portugal. Segundo os autores, a indústria Costa Pena haveria pertencido à família materna da cantora baiana Gal Costa. As fábricas Costa Pena e a Dannemann encerraram suas atividades, decretando falência em 1955. Por fim resta a gigante Suerdieck que alcançou fama internacional. Segundo um antigo funcionário, Ubaldo Marques Porto Filho (apud BORGES e LEMOS, 2002), foi fundada em 1892 pelo alemão Augusto Suerdieck, sendo inicialmente uma empresa compradora e exportadora de fumo. Em 1905 dá início à produção de charutos com uma fábrica em Maragojipe. Em 1935 e 1936 são construídas as fábricas de Cruz das Almas e Cachoeira respectivamente, transformando-se na maior produtora brasileira após a Segunda Guerra. Em seu melhor período chegou a possuir 4000 empregados fixos e mais a mão-de-obra temporária para colheita e seleção de fumo, quando eram contratadas mais 3 000 pessoas. O império Suerdieck foi impulsionado após o processo de sucessão quando Geraldo Meyer Suerdieck assumiu o comando das empresas no lugar do seu pai. Depois de haver ficado na direção por 27 anos, em 1975, Suerdieck passou o controle das suas fábricas para o grupo Melitta com sede na Alemanha, onde a multinacional brasileira já possuía fábrica. Em 1999 encerrou suas atividades.

Este breve quadro descritivo de algumas empresas pertencentes a famílias tradicionais baianas, demonstra como as suas histórias se confundem com a história econômica da Bahia. Compreender as empresas familiares é mais do que simplesmente reduzir o seu estudo a componentes gerenciais, mas é construir uma compreensão do seu entorno, contextualizando sua transição histórica, o ambiente cultural onde estão inseridas e a dinâmica da família ao lidar com estes elementos. As empresas familiares estão presentes em diversos setores da economia, executando diversas atividades. O setor de transportes urbanos no município de Salvador é uma destes diversos locus e onde há um predomínio de famílias proprietárias no

negócio. Para se formar uma percepção sobre o objeto de estudo deste trabalho, é fundamental traçar-se a evolução histórica do transporte urbano na cidade de Salvador até o momento atual.